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7.11.15

Era uma vez o futebol brasileiro - Reflexões sobre o futebol na era da sua mercantilização - parte 2


Há pouco mais de 13 anos, quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 2002, escrevemos um rápido texto explicando essa vitória, em termos sociais, econômicos e políticos, com o título justamente de “Por que o Brasil ganhou a Copa do Mundo?” (ver http://politicapqp.blogspot.com.br/2007/04/porque-o-brasil-ganhou-copa-copa-de_17.html) Agora, transcorrido 1 ano da derrota histórica da seleção brasileira na Copa de 2014 (e tendo a seleção brasileira já se tornado também adicionalmente “freguesa” do Paraguai, com uma segunda eliminação consecutiva na Copa América perdendo para o selecionado guarani), cabe resgatar aquele texto de anos atrás e partir do que ele expõe, para em seguida explicar porque os motivos que levaram o Brasil a ganhar sua última Copa já não se aplicam mais. O texto de 2002 é muito curto e vale à pena transcrevê-lo na íntegra:
“A copa de 2002 foi um produto típico da globalização. A globalização significou de certo modo uma brasilianização do mundo. Não é apenas o Brasil que se globaliza, mas o mundo que se brasilianiza. Todo processo histórico-social é uma via de mão dupla, ou contradição dialética, como diziam os antigos.
O Brasil é o país da desigualdade, da corrupção e do jeitinho. A desigualdade, a corrupção e a malandragem (ou desfaçatez) se tornaram as marcas do mundo globalizado. O planeta como um todo tornou-se uma versão ampliada do Brasil: ilhas de riqueza cercadas por bolsões de miséria. Os dirigentes e as instituições internacionais agora são vistos como corruptos irrecuperáveis e especuladores insaciáveis, atuando com o beneplácito da mídia global deslumbrada.
Dentre estas instituições, a que mais se brasilianizou foi a FIFA, resultado de uma gestão de 24 anos nas mãos do brasileiro João Havelange. Como qualquer político brasileiro, coronelista e corrupto, Havelange distribuiu benesses e favores aos aliados para ser reeleito continuamente, comprando os votos das federações, prática disseminada alhures...
O resultado disso foi uma Copa do Mundo inflada, com 32 participantes, e dividida em dois países. Uma Copa do Mundo realizada na Ásia inevitavelmente se defrontaria com o problema das monções, a estação das chuvas, que coincide com os meses tradicionalmente reservados para a disputa do Mundial. Como é impossível adiar as monções, a alternativa é mudar a data da Copa. Pois é preciso globalizar o futebol a qualquer custo, levando a disputa para a Ásia e agradando os caciques locais.
A Copa do Mundo foi antecipada em quinze dias. Com isso, ficou muito próxima do fim da temporada européia. O intervalo entre o fim das principais ligas nacionais européias e da Copa dos Campeões e o início da Copa do Mundo ficou muito pequeno, insuficiente para que os jogadores pudessem se recuperar fisicamente do desgaste. Jogadores como Figo e Zidane chegaram à Copa “bichados”. Em cada seleção do Mundial havia pelo menos um jogador “estourado”, que foi para a disputa cercado de dúvidas sobre suas reais condições físicas. Inclusive no Brasil, como era o caso de Ronaldo e Rivaldo.
Nestas condições, entretanto, o Brasil jogou em casa. Nossos jogadores tem o know-how da improvisação, aprendido na pátria-mãe. Aqui os times são montados às pressas, os jogadores se entrosam no decorrer do campeonato, os esquemas são improvisados, a preparação é “meia-boca”, os técnicos são chamados no meio da competição como salvadores da pátria (caso de Felipão na Seleção). O “empurrar com a barriga” faz parte do caráter do povo brasileiro, não só no futebol. É a receita da sobrevivência num país de soluções provisórias e carências perpétuas. Nosso futebol espelha a precariedade de nossa civilização. O que é o drible senão a habilidade de quem muito apanha de escapar da pancada?
Ora, uma Copa tão desorganizada quanto os campeonatos brasileiros (vide o problema da venda de ingressos) só poderia ser ganha pela seleção brasileira. O estilo brasileiro passou a predominar também fora de campo, o que é extremamente negativo. Ao invés de nos melhorarmos, pioramos os outros! Mas como os jogadores e técnicos brasileiros estão acostumados com esse estilo de seus dirigentes, saíram com vantagem na disputa! Times que fizeram tudo certo em sua preparação, como Argentina e França, fracassaram miseravelmente; o Brasil, que fez tudo errado, ganhou!”
Se em 2002 o “know-how da improvisação” e o método de “empurrar com a barriga” foram suficientes para vencer times que “fizeram tudo certo em sua preparação”, em 2014 isso não mais aconteceu. O procedimento de “empurrar com a barriga” e de convocar um “salvador da pátria” de última hora (caracteristicamente, apelou-se para o mesmo Felipão de 2002) resultou em um desastre completo. Uma das hipóteses para esse fracasso poderia ser uma mudança nas determinações sociais, econômicas e políticas mencionadas no texto de 2002. Façamos então uma rápida passagem pelo que aconteceu no cenário da dita “globalização” desde aquele momento.
No ano daquela Copa, o mundo acabava de começar a sair da crise econômica que teve como estopim a queda das ações das empresas de tecnologia da NASDAQ, as famosas empresas “ponto com”, sintoma de uma crise estrutural mais profunda do capitalismo, que momentaneamente se contornava mais uma vez. Estava começando um novo ciclo de crescimento alavancado por um conjunto de países do segundo escalão da divisão mundial do trabalho, como Brasil, Rússia, Índia e especialmente China, que está lutando para passar ao primeiro escalão. Esse ciclo foi impulsionado pela intensificação do comércio internacional, com América Latina, Oriente Médio (e Rússia) fornecendo matérias primas, minérios, grãos e petróleo, a China fazendo a montagem e exportando mercadorias, e Estados Unidos, Europa e Japão consumindo tais mercadorias e exportando capital e tecnologia de volta para a China.
No auge desse ciclo, o Brasil viveu a ilusão de prosperidade da era Lula, quando milhões de pessoas aparentemente saíram da miséria através de bolsas e outros milhões adquiriram a “cidadania do crédito”, o consumo através de endividamento, sem aumento real da renda. Esse ciclo de crescimento, no entanto, se esgotou na crise mundial de 2008. Num primeiro momento, aquela nova crise pareceu atingir apenas os países centrais e deixar quase ilesos os gigantes periféricos. Entretanto, nos anos seguintes os países centrais viveram uma quase recuperação, e no momento atual, em 2015, os gigantes periféricos é que ameaçam precipitar o próximo episódio cíclico da crise. A queda das ações na China pode ser um primeiro sintoma disso.
Voltando aos países centrais, a pseudo recuperação aconteceu em especial nos Estados Unidos, às custas da destruição das condições de vida da sua classe trabalhadora (os recentes casos de violência policial contra os negros, o setor mais pobre da classe, são um exemplo extremo desse processo) e na Alemanha, às custas do arrocho sobre a periferia europeia, como estamos presenciando na Grécia. Conforme a crise estrutural se aprofunda e as crises cíclicas se repetem, vai se produzindo um realinhamento das relações entre os países, com o reforço do poder dos países mais fortes e um enfraquecimento ainda maior dos mais fracos. Para contornar suas crises, o sistema capitalista privilegia a sobrevivência dos setores mais poderosos e concentrados do capital, e sacrifica os mais fracos. Estados Unidos e Alemanha estão no bloco dos mais fortes. O Brasil, no dos mais fracos.

Voltemos então ao campo do futebol para identificar como esta esfera foi afetada pelos fenômenos acima. De acordo com o que analisamos mais detidamente na parte 1 dessas reflexões, na comparação com o cenário do futebol de 2002, prossegue o mesmo fenômeno de agigantamento das competições de clubes europeus em detrimento das seleções nacionais, que só fez se aprofundar. Também apontamos a ocorrência de um desenraizamento do futebol, a perda de sua relação direta com a classe operária, a elitização do público dos estádios, o êxodo dos melhores jogadores, a colonização dos torcedores por clubes europeus, etc. Todas essas tendências já tinham sido embrionariamente detectadas em 2002, mas só pudemos tratar delas agora, na parte 1 destas reflexões, de forma mais desdobrada.
Essas tendências de transformação no futebol afetam de maneira diferenciada os vários países, de acordo com a sua posição relativa na divisão internacional do trabalho capitalista. Os Estados Unidos não são uma potência no futebol. A Alemanha é. A Alemanha foi também o país vencido pelo Brasil na final da Copa de 2002. Os alemães tiraram lições daquela derrota e buscaram agir a respeito. Desde a derrota para o Brasil (uma derrota perfeitamente normal, diga-se de passagem, sem nenhum grau de humilhação e tragédia), houve um esforço para repensar o futebol alemão. Com a tradicional eficiência germânica, a federação alemã lançou um programa de multiplicação de escolinhas de futebol, com uma nova orientação em relação ao modo de jogar. O resultado foi colhido agora, com uma geração de jovens jogadores talentosos, como Mario Götze, Marco Reus, Thomas Muller, e outros. Todos jogadores com talento, habilidade, capacidade de driblar e improvisar, jogo de cintura. Características novas e diferentes do antigo estilo alemão, baseado na força física e disciplina tática, de estilo mecânico, burocrático, “quadrado”.
Enquanto isso, no Brasil, o que aconteceu com o futebol local? Praticamente nada de novo em relação à organização. A fórmula de disputa do campeonato brasileiro mudou em 2003 para o modelo de pontos corridos, mas o calendário permaneceu desconectado do calendário europeu, os campeonatos estaduais continuaram inflados e deficitários, etc. Enquanto outras federações davam atenção à renovação do seu futebol, a CBF permaneceu “deitada eternamente em berço esplêndido”, fazendo comércio com os jogos da seleção, enquanto o futebol nacional seguiu definhando nas mãos de emissoras de TV, de dirigentes medíocres e sem visão nos clubes, e de empresários de jogadores. Algumas vitórias da seleção em Copa América e Copa das Confederações maquiavam o desempenho medíocre nas Copas do Mundo de 2006 e 2010. A ilusão de prosperidade dos governos do PT permitiu inclusive que alguns clubes brasileiros tivessem acesso ao mercado secundário de contratações, concorrendo com clubes e ligas europeias de 2º escalão e repatriando jogadores, como fez o Corinthians com Ronaldo em fins de 2008.
Mas o essencial da discussão é que o “modelo” histórico do futebol brasileiro, em que o talento e o “know how” da improvisação buscavam compensar as falhas de organização, estava ficando defasado em relação ao futebol altamente organizado e profissionalizado da Europa. A Copa de 2002 foi uma espécie de canto do cisne, o último alento desse “modelo” de futebol que vai aos trancos e barrancos, no improviso, empurrando com a barriga. Seria necessário uma revolução no futebol brasileiro para que tivesse condições de se manter competitivo internacionalmente. Essa revolução não ocorreu nos anos que se seguiram à vitória de 2002. Como era de se esperar, aquela vitória reforçou ainda mais a negligência em relação às tarefas necessárias para uma reorganização de grande porte e a complacência com os defeitos, tornando praticamente impossível a reformulação necessária.
Nem mesmo o vexame da Copa de 2014 provocou ainda uma tal revolução. Depois de 2014, seguimos com o mesmo modelo de gestão, que é o do amadorismo, do improviso, das mudanças que não mudam nada, que resultaram na campanha medíocre na Copa América de 2015. Prova de que os problemas vão muito além do fato de Felipão estar ultrapassado e Neymar não ter jogado contra a Alemanha na tarde trágica do Mineirão. Os problemas são mais profundos e requerem uma análise social.
Antes de empreender essa análise, cabe mencionar o único fato positivo em relação à Copa de 2014, que é o de ter acontecido num momento de politização e questionamento na sociedade brasileira, como em décadas não se via. As jornadas de junho de 2013 (pano de fundo da Copa das Confederações) trouxeram à tona um amplo descontentamento, em praticamente todas as classes sociais, com a falsa prosperidade da era do PT (e evidentemente, nos interessa organizar o descontentamento da classe trabalhadora). No antigo país do futebol, houve protestos contra a Copa do Mundo, abafados por meio de pesada repressão policial e de uma grosseira armação judicial e midiática para por a culpa da morte de um cinegrafista nos manifestantes.
Mesmo que os protestos não tenham sido suficientes para impedir a Copa, e mesmo que no período da Copa tenha havido um interesse razoável pelos jogos, uma parcela imensa da população simplesmente não estava preocupada com o futebol, nem com a seleção. O desinteresse pelo futebol (e até mesmo a hostilidade e ele) alcançou proporções inéditas no país pentacampeão do mundo. Tanto assim que o impacto da monumental derrota futebolística (a maior derrota da história da seleção, maior derrota da história de uma seleção campeã do mundo numa Copa*, maior goleada em uma semifinal de Copa**, maior derrota de um país anfitrião, etc.) não teve nem de longe o impacto que tiveram as derrotas de 1950, nem mesmo a de 1982, por exemplo.

Mencionamos a Copa de 1982 porque se trata de uma referência inescapável ao se falar de uma derrota futebolística muito sentida. A seleção brasileira de 1982 derrotada pela Itália é uma das melhores seleções da história que não ganharam a Copa, juntamente com a Hungria de 1954 e a Holanda de 1974 (ambas vencidas na final pela Alemanha). Tratava-se de uma das maiores gerações da história do futebol brasileiro, com jogadores que eram ídolos nos seus clubes (Zico, Leandro e Júnior do Flamengo, Sócrates do Corinthians, Falcão do Internacional, Cerezo e Eder do Atlético) e com um técnico que era um dos últimos defensores do bom futebol, o excepcional Telê Santana.
A derrota daquela seleção foi muito mais sofrida pelo torcedor brasileiro (e naquela época, quando se viviam os anos finais da ditadura e de renovação das esperanças no futuro do país, isso incluía praticamente todo o povo brasileiro) do que a tragédia do Mineirão em 2014. Essa afirmação está sendo sustentada por uma testemunha ocular dos fatos, em que pese ser um autor que tinha 6 anos de idade na época daquela Copa, a primeira que pôde acompanhar pela TV e em condições de entender o que estava acontecendo, e de se encantar com o futebol “de outra galáxia” (na definição de Enzo Bearzot, técnico da Itália campeã) daquela seleção. Deve se dar o devido desconto por se tratar de alguém para quem as lembranças daquela Copa estão indissociavelmente ligadas às lembranças das primeiras férias escolares, da vizinhança pela primeira vez pintada inteira de verde e amarelo, da primeira vez em que se ouvia um colossal foguetório a cada gol do Brasil, da primeira festa junina na cidade grande, quando ainda se fazia a festa na rua de casa e se soltavam balões em abundância (terríveis, mas naquele contexto sublimes aos olhos de uma criança).
Mesmo com esse desconto devido à memória afetiva do autor, mantemos a afirmação, mas a qualificamos. A derrota de 1982 foi mais sentida que a de 2014 não só porque a seleção de 1982 era muito melhor, mas porque em 1982 o futebol importava muito mais. Era muito mais presente e significativo na vida das pessoas, muito mais uma expressão do estado de espírito coletivo, das esperanças e sonhos daquela dada época. E o que precisamos explicar aqui é porque o futebol brasileiro, antes tão belo e vitorioso, se tornou medíocre. Pois o que levou o futebol a perder a importância que tinha antes foi justamente o fato de ter perdido a qualidade mágica de antes e ter se tornado medíocre.
A mudança fundamental por trás de todos esses processos é a que aconteceu no modo de vida das crianças e adolescentes no Brasil nas últimas três décadas. Em 1982 as crianças (em maior número os meninos) não faziam outra coisa além de “jogar bola”, no intervalo das aulas, no pátio da escola, no corredor da escola, na sala de aula, entre as cadeiras, chutando e driblando com qualquer coisa que aparecesse pela frente, desde tampinha de garrafa e bolinha de papel até bolas de verdade, e depois na rua, na calçada, no quintal das casas, nos terrenos baldios, nas praças, nas quadras, campinhos de várzea, etc., jogando um contra um, ou em duplas, em trios, em qualquer formação imaginável, uma partida após a outra, um time depois do outro, em jogos intermináveis, até 3 gols, até 10, etc. (e aqui não se trata de mais uma memória afetiva de um inveterado craque das peladas infantis, mas de alguém que não jogava bola, porque era gordo e vivia enfurnado nos livros).
Em 2015 as crianças e adolescentes estão trancados nas suas casas e apartamentos, não saem na rua, não socializam, não criam relações, não brincam nem brigam, apenas jogam videogame, navegam no “facebook”, conversam no “whatsapp”. Não há mais terrenos baldios, não há mais campinhos de várzea, não há mais a interminável “febre de bola”, as intermináveis peladas de rua (assim como não há mais carrinhos de rolimã, bolinhas de gude, esconde-esconde, etc.). Os jogadores de futebol de hoje são formados em escolinhas, onde aprendem tudo, esquema tático, posicionamento, etc., menos “jogar bola” de verdade, como sempre foi o estilo brasileiro.
Sempre tratamos a formação de jogadores de futebol como algo aleatório, como se fosse um fenômeno da natureza. O surgimento de novos craques, novos Rivaldos, Romários, fenômenos, gaúchos e Neymares era tratado como algo que iria acontecer naturalmente. “O Brasil sempre revela novos jogadores”. A falsa imagem que se tinha é do mesmo tipo da que se tem da Amazônia, uma imensidão sem fim de florestas e rios, que não vai acabar jamais, por mais que se derrubem as árvores. Da mesma forma, sempre se imaginou que iriam continuar surgindo gerações e gerações de novos jogadores, como no passado tivemos a geração de 1958, depois a de 1970, depois a de 1982. E com elas o Brasil sempre poderia continuar formando novas seleções, que estariam recheadas de novos craques, que manteriam o país como mais vitorioso.
Mas assim como a Amazônia, o fenômeno do surgimento de novos grandes jogadores está acabando. Não são recursos infinitos, indefinidamente renováveis. 2014 é a prova de que o futebol brasileiro perdeu essa capacidade inesgotável de formar jogadores em condições de competir com os melhores do mundo. Se até 2002 ainda era possível contar com o improviso e mesmo assim vencer, agora já não mais. Agora seria preciso um trabalho organizado, sistemático, planejado, científico, para aproveitar os talentos que ainda surgem. Não houve e não há tal trabalho, nem da parte dos clubes, nem da parte da CBF. O Brasil se rebaixou ao mesmo nível de qualquer outro país em que se gosta de futebol, com o agravante da desorganização, corrupção, autoritarismo e incompetência dos dirigentes brasileiros, que são características da burguesia brasileira em geral. Isso explica os 7 x 1.

A derrota de 2014 não será apagada facilmente e o prestígio construído em mais de um século pelo talento de muitas gerações de craques não será reconquistado com bravatas de Galvão Bueno. Diante da mudança no modo de vida da infância e da adolescência, o número de jovens que jogam futebol diminuiu enormemente. Aquela “febre de bola” da qual quem cresceu nos anos 1980 ainda se lembra tão vivamente arrefeceu. Não é que o número de crianças e adolescentes jogando bola baixou a zero, mas baixou brutalmente. Da quantidade nasce a qualidade, nos ensina a dialética. Sem a mesma abundância de crianças e adolescentes jogando bola, não surge mais a antiga abundância de craques.
A atitude necessária diante desse fenômeno, repetimos, deveria ser um trabalho organizado para aproveitar os bons jogadores que ainda surgem. Em havendo esse trabalho, o Brasil conseguiria ainda se manter no mesmo nível das demais potências, Alemanha, Argentina, Itália, etc., mas já sem o mesmo brilhantismo e a superioridade de antigamente. Mesmo assim, não daria vexame. Agora, estamos condenados a um rebaixamento, uma queda que não se sabe até onde pode ir. Enquanto uma atividade econômica, os dirigentes do futebol brasileiro finalmente conseguiram matar a galinha dos ovos de ouro. Aquilo que ninguém imaginava possível, transformar aquele manancial inesgotável de grandes jogadores em uma terra devastada, foi conseguido pelos nossos presidentes de clubes e da CBF. É uma proeza histórica.
Tudo começa nos clubes. Os grandes clubes brasileiros se tornaram reféns dos esquemas de empresários de jogadores. São os empresários que conseguem vagas para que os jovens, ainda adolescentes, entrem nas categorias de base, desde que os pais paguem as taxas e firmem contratos garantindo comissões a esses empresários quando da venda do jogador para o exterior. Os clubes não têm mais autonomia nas suas categorias de base para formar seus jogadores. Cada clube deveria instalar dezenas de escolinhas nas periferias, com o caráter de projeto social, vinculado à frequência escolar, etc., para garimpar novos talentos. O investimento num projeto como esse seria facilmente coberto com a venda dos novos Neymares que surgissem. Os jogadores teriam vínculo com o clube e não com empresários que intermedeiam e viciam as relações.
Mas mesmo os grandes clubes no Brasil são mal administrados, aprisionados em dívidas, incapazes de um planejamento estratégico, submetidos ao monopólio de uma grande emissora de TV que define os calendários e horários de jogos. Não têm a capacidade de desenvolver projetos como esses. Os clubes pequenos e de cidades menores estão definhando com um calendário em que os estaduais duram apenas 3 meses no início do ano, e as divisões nacionais inferiores são deficitárias. Para reverter esse cenário seria preciso uma reforma geral na estrutura e calendário do futebol brasileiro, que exigiria:
- adequação do campeonato brasileiro ao calendário europeu, com um turno de setembro a dezembro e outro de janeiro a maio. A vantagem dessa adequação é que os grandes clubes poderiam planejar a sua temporada, sabendo com qual elenco de jogadores podem contar, formando times de verdade, no sentido coletivo, entrosando jogadores (hoje temos amontoados de jogadores que se desfazem e refazem ao longo da temporada). Hoje os clubes começam o ano com um elenco, que se desfaz na metade do campeonato brasileiro devido à janela de transferências da intertemporada europeia, e terminam o ano com outro elenco. Quem é bem sucedido no início do ano, nos estaduais e na Libertadores, acaba sendo “punido” com o desmanche do time e a venda dos melhores jogadores para a Europa. Com a adequação do calendário, repetimos, teríamos times mais estáveis ao longo da temporada, melhorando a qualidade dos jogos.
- com o campeonato brasileiro sendo disputado entre setembro e maio, os jogos poderiam ser de domingo a domingo. E com isso, no meio de semana seriam jogadas outras competições, como os estaduais, Libertadores, Copa do Brasil. Como acontece também na Europa, em que as copas nacionais e europeias são jogadas em meio de semana. A vantagem desse formato é que os estaduais poderiam ser jogados ao longo do ano inteiro, mantendo em atividade os clubes pequenos ao longo de toda a temporada. Hoje os clubes pequenos nos estados menores deixam seus jogadores desempregados por seis meses, já que não há competições quando acabam os estaduais.
- os estaduais seriam classificatórios para a Copa do Brasil da temporada seguinte. Com os clubes grandes priorizando o campeonato brasileiro, a Libertadores ou a própria Copa do Brasil, eles acabariam jogando os estaduais com times mistos, aumentando as chances dos clubes pequenos vencerem os grandes (como acontece nas copas nacionais na Europa), aumentando o interesse e rentabilidade dos estaduais, mantendo a viabilidade financeira dos clubes pequenos.
- num país com a dimensão continental do Brasil, não é viável para os clubes pequenos jogar uma 3ª ou 4ª divisão nacional com viagens do Rio Grande do Sul ao Amapá ou da Paraíba ao Acre, por exemplo. Por isso, para os clubes que não estão na 1ª ou 2ª divisão do campeonato brasileiro, os estaduais e as primeiras rodadas da Copa do Brasil serviriam também como uma espécie de seletiva ou repescagem para a 2ª divisão, como uma forma suplementar de aumentar o interesse dos estaduais. E aumentaria a competitividade da 2ª divisão, já que o risco seria de rebaixamento para a repescagem/estaduais.
- a repartição das cotas de transmissão do campeonato brasileiro deveria ser mais igualitária, com um valor fixo para todos os clubes participantes da 1ª divisão e um porcentual variável a ser distribuído conforme a classificação final na tabela (e o mesmo critério para a 2ª divisão, a repescagem intermediária, Copa do Brasil, estaduais, etc.).
- para participar das competições nacionais os clubes deveriam ser obrigados a cumprir critérios de transparência financeira e gestão, com limites para endividamento (sob pena de rebaixamento) e outros, inclusive, por exemplo, a obrigatoriedade de investimento em categorias de base, etc.
- também deveria ser critério para participação nas competições nacionais mudanças estatutárias nos clubes que abrissem para os sócios torcedores (com critérios de adimplência) o direito de voto nas instâncias administrativas dos clubes, podendo escolher uma parte dos representantes que elegem o presidente, formar o conselho fiscal, etc.
Mudanças como essas dependeriam de uma intensa mobilização dos setores críticos da imprensa esportiva, das associações de torcedores, do Bom Senso FC. Somos céticos em relação à capacidade das torcidas organizadas servirem como agentes progressivos nesse processo necessário de reorganização. Afinal, a maior delas estabelece relações promíscuas com dirigentes, servindo como massa de manobra nas disputas políticas internas, favorecendo ora um dirigente ora outro, em troca de vantagens na compra de ingressos, etc. Por isso apostamos numa pressão consciente de torcedores “desorganizados”.
Essa “revolução” de base nos clubes e competições nacionais é uma pré-condição para que se possa reformular também a própria CBF e a seleção brasileira. Para acabar com os vexames e retomar a tradição daquele futebol, que como disse o grande Hobsbawm, não poderia ser comparado a nada menos que uma forma de arte.

*A mesma Alemanha já foi goleada pela Inglaterra por 12 x 0, mas num amistoso em 19XX, portanto ainda muito antes da era das Copas do Mundo. Em 1954, essa mesma Alemanha foi goleada por 8 x 3 pela Hungria, mas no momento desse jogo ainda não era uma seleção campeã, o que só conseguiria nessa mesma Copa, ao jogar de novo com a mesma Hungria na final, e vencer por 3 x 2.

**Em 1950, a Copa do Mundo disputada no Brasil teve um formato único, que não se repetiu em nenhuma outra Copa, sem semifinal nem final. Houve um quadrangular final, com as 4 seleções finalistas jogando todas entre si para definir o campeão. Nesse quadrangular, o Brasil venceu a Suécia por 7 a 1 e a Espanha 6 x 1, mas perdeu para o Uruguai por 2 x 1 no último jogo, que não era exatamente a final da Copa. Os 7 x 1 da Alemanha são portanto a maior goleada numa semifinal desde que a competição tem o atual formato.

Daniel M. Delfino
Junho 2015


Crise e corrupção na FIFA - Reflexões sobre o futebol na era da sua mercantilização - parte 1



O mundo do futebol entrou em polvorosa no mês de junho com as prisões de vários integrantes do Comitê Executivo da FIFA (entre eles o ex-presidente da CBF, José Maria Marin), às vésperas do Congresso mundial da entidade. O Congresso, reunido com toda a pompa na sede da FIFA, em Zurique, na Suíça, reelegeria o então presidente, Sepp Blatter, para mais um mandato. No entanto, uma semana depois de eleito, Blatter renunciou, e nova eleição foi apontada para escolher o presidente da entidade que comanda o futebol mundial.
As prisões foram efetuadas pela Interpol em obediência a um mandado do FBI. A polícia federal estadunidense investiga a corrupção na FIFA há algum tempo, e entre outros casos, reuniu provas de que os membros do Comitê Executivo receberam propina de determinadas empresas para lhes vender os direitos de transmissões de competições como a Copa América e competições nacionais, como a Copa do Brasil. Também há a suspeita de que receberam propinas para votar nas candidaturas da Rússia e do Qatar, escolhidas para sede das Copas do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente (este caso está sendo investigado diretamente pela polícia suíça). Ambas as escolhas foram bastante criticadas na época em que foram anunciadas, em 2010, seja por haver outros concorrentes em muito melhores condições técnicas de sediar uma Copa, como a Inglaterra, ou seja pela quase total ausência de tradição no mundo do futebol, condição especialmente gritante no caso do Qatar.
As investigações do FBI ainda não atingiram o próprio Blatter, mas o ex-homem forte da FIFA preferiu sair de cena antes que o escândalo o alcançasse mais diretamente. Um dos nomes cotados para suceder Blatter é seu ferrenho opositor e presidente da UEFA (Confederação Europeia de Futebol), o ex-craque francês Michel Platini. No Brasil, José Maria Marin acabava de ser substituído por Marco Polo Del Nero na presidência da CBF. Por via das dúvidas, Del Nero se retirou do Congresso da FIFA ainda antes do encerramento. Em relação a Marin, os fatos que motivaram sua prisão aconteceram quando ainda era vice presidente, atrás do todo poderoso Ricardo Teixeira, que comandou a CBF por mais de 20 anos, e renunciou ao cargo às vésperas da Copa do Mundo de 2014 (mais ou menos como faria Blatter).

O “coronelismo” no futebol
A FIFA é uma entidade privada, já que não é subordinada a nenhum governo ou organismo internacional. Ao contrário, a FIFA costuma se gabar de ter mais países filiados do que a ONU (209 contra 193, na última contagem). E em muitos casos, tem poder superior ao de alguns governos, impondo as suas condições para a realização da Copa do Mundo, como fez com o Brasil. De qualquer maneira, em termos jurídicos, é uma entidade privada, sem fins lucrativos. A FIFA não possui proprietários privados, pois seus dirigentes são eleitos pelas federações nacionais e continentais. Entretanto, o futebol é um negócio muito lucrativo, e a FIFA também se beneficia dele. Como uma empresa, a FIFA vende um produto, a Copa do Mundo de seleções nacionais de futebol, que é patrocinada por grandes empresas, que pagam fortunas para aparecerem nas transmissões dos jogos, que também custam uma fortuna às emissoras. A Copa de 2014 custou US$ 4 bilhões ao Brasil, e rendeu US$ 2 bilhões para a FIFA.
Uma vez que a própria FIFA não é uma empresa, portanto seu lucro não é destinado a proprietários privados, o que acaba acontecendo é que uma parte desse lucro acaba sendo ilicitamente embolsado pelos gestores eleitos, como Blatter e Marin. A investigação do FBI diz respeito a US$ 150 milhões que teriam sido pagos em suborno a dirigentes para que escolhessem determinados parceiros de patrocínio e transmissões, em detrimento de outros. Trata-se de crimes contra a concorrência econômica. Esses gestores da FIFA, como dissemos, são eleitos por representantes das federações nacionais. Em cada federação nacional, por sua vez, encontramos figuras como Marin e Ricardo Teixeira, que ascenderam ao comando da entidade sem nenhuma história relevante como dirigentes de futebol.
Ricardo Teixeira era simplesmente genro de João Havelange, antecessor e padrinho de Blatter na presidência da FIFA. José Maria Marin era integrante do partido da ditadura militar, a ARENA, tendo sido vereador em São Paulo e governador em exercício entre 1982 e 1983, como vice de Paulo Maluf. Em 1975, ainda vereador, fez um discurso contra a TV Cultura, por conta da linha crítica ao regime que lá aparecia, e 15 dias depois o jornalista Vladimir Herzog apareceria morto no DOPS.
Para chegar ao comando das federações nacionais como a CBF, essas figuras são eleitas pelos presidentes de federações estaduais, que por sua vez são eleitos por presidentes dos clubes, que por sua vez são eleitos por grupos restritos de conselheiros ou sócios especiais. Em outras palavras, uma estrutura nebulosa e antidemocrática na sua essência. O futebol, o esporte mais popular e democrático do mundo, está sob comando das figuras mais retrógradas, corruptas, autoritárias, incompetentes, medíocres que se possa encontrar.
Os chamados “cartolas” que dirigem o futebol são uma espécie de remanescentes dos “coronéis” que mandavam na política de regiões atrasadas. Ambos vivem de uma rede de troca de favores, de compadrio, de toma lá dá cá. Elegem-se uns aos outros, trocando favores por votos, numa rede de relacionamentos obscura, que nada têm a ver com os objetivos das entidades e o próprio futebol em si. Nesse sentido, a pseudo “faxina” em andamento na FIFA corresponde a uma espécie de pseudo “revolução burguesa”, com a remoção de alguns cartolas ligados a essas redes de favores mais retrógradas e a possível instalação de um corpo de gestores mais profissional.

Limites da pseudo “revolução burguesa” na FIFA
Não acreditamos que a prisão de algumas figuras possa “moralizar” o futebol, seja em nível internacional ou nacional. Enquanto o futebol for um negócio capitalista, estará sujeito a corrupção, troca de favores, suborno, comissões “por debaixo do pano”, compra de resultados, apostas, etc. Todas essas práticas caracterizam a competição capitalista, dentro e fora do mundo do esporte. O capital não tem lei, não obedece às regras do jogo.
Tudo que puder ser feito para aumentar o lucro será feito: matar, contaminar, depredar, roubar, mentir, subornar, chantagear, extorquir, ameaçar, trapacear. Não há legislação financeira, fiscal, trabalhista, ambiental, sanitária ou de qualquer natureza que possa impedir uma empresa capitalista de chegar ao seu lucro. Policiais, fiscais, juízes, políticos, jornalistas, são comprados para acobertar os crimes. A transgressão das leis não é uma escolha acidental de um determinado empresário ou gestor capitalista, é um fato generalizado e amplamente disseminado que faz parte da natureza do sistema. Se um determinado dirigente capitalista opta por ser “ético” (a rigor a ética como tal é impossível numa sociedade dividida em classes), ele será derrotado na concorrência capitalista por aqueles que não o são.
Na verdade, os empresários privados, gestores e diversas personificações do capital não são os verdadeiros sujeitos do processo, mas meros objetos das leis férreas da competição e da acumulação capitalista. Cada fração do capital, enquanto valor econômico abstrato, luta contra as demais para se valorizar, e pune implacavelmente com a falência aquelas personificações que fracassarem em viabilizar este imperativo.
Considerando essa realidade subjacente, a pseudo “revolução burguesa” em andamento na FIFA vai tão somente tocar na superfície dos fenômenos, removendo as figuras ou grupos atualmente encastelados na gestão do futebol, substituindo-os por uma nova categoria de gestores mais “moderna”, “profissional”, transparente”, “ética”, gerando a ilusão de que algo de positivo foi feito. Na realidade, a lógica profunda da competição capitalista que está por trás dos fenômenos seguirá intocada, e com isso novos escândalos serão gerados. Uma determinada turma de empresários capitalistas conseguirá colocar os seus novos gestores de confiança na FIFA, em disputa contra outra turma. Emissoras de televisão, seus patrocinadores, dirigentes de grandes clubes e empresários de jogadores seguirão mandando no futebol, com os mesmos métodos mafiosos.

Clubes X Seleções
Como pano de fundo dessa pseudo “revolução burguesa” na FIFA, temos uma dissociação entre as duas dimensões em que é jogado o futebol, a dos clubes e a das seleções nacionais. Os clubes de futebol, especialmente na Europa, estão se transformando em corporações superpoderosas, com marcas mundialmente conhecidas, torcedores em todos os continentes, audiência e valor de mercado em ascensão. É o caso de gigantes como Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Chelsea, Bayern de Munique, e alguns poucos outros em cada país. Os times montados por esses clubes são verdadeiras seleções mundiais, com os melhores jogadores de cada continente. Esses clubes protagonizam uma disputa, a Liga dos Campeões da Europa, onde se joga o melhor futebol do mundo, com jogos disputadíssimos, de alta intensidade, onde os melhores jogadores entregam seu melhor desempenho.
Como resultado, o futebol jogado na Ligas dos Campeões e nos campeonatos nacionais mais importantes da Europa cresce em interesse, audiência, valor de mercado, e o futebol das seleções nacionais decresce na mesma medida. Antes, as Copas do Mundo eram um evento extraordinário no futebol, no sentido de que nessa competição se jogava o melhor futebol do mundo. Os jogadores esperavam 4 anos para estar entre os melhores dos melhores do seu país, para ter a chance de jogar uma Copa, uma oportunidade que aparecia 2 ou no máximo 3 vezes na curta carreira dos futebolistas. Era nas Copas do Mundo que se faziam os heróis, que se consagravam os mitos. Agora, a Copa é um evento extraordinário em outro sentido, como uma interrupção do calendário “normal” do futebol, que é o das competições dos clubes, em especial os grandes clubes da Europa.
O calendário do futebol europeu começa entre fins de agosto e início de setembro de cada ano, para terminar em maio do ano seguinte. As competições de seleções acontecem entre junho e julho, no intervalo entre as temporadas europeias, período que acaba sendo de descanso e refazimento para os profissionais de alto nível. Os jogadores são preparados fisiologicamente por preparadores físicos, que trabalham cientificamente para isso, de maneira a que eles atinjam o máximo de desempenho físico entre os meses de março e maio, na reta final das competições europeias, quando se definem os campeões. Uma vez atingido esse auge, a tendência natural é o relaxamento e a queda de desempenho. Nem que o indivíduo queira, é fisicamente e psicologicamente impossível manter o mesmo nível de rendimento e motivação.
Depois de se dedicar com a máxima intensidade à disputa da Liga dos Campeões ou dos campeonatos nacionais mais importantes da Europa, depois de atingir o auge do desempenho físico e técnico e também de concentração mental para essas competições, não há como manter o mesmo nível para as competições de seleções no meio do ano. Depois de entregarem seu melhor desempenho jogando pelos clubes, que disputam as competições mais importantes e mais rentáveis, os melhores jogadores do mundo chegam esgotados para os jogos das seleções nacionais no meio do ano.
Devido a essa inversão, a Copa do Mundo não é mais o parâmetro para consagrar os melhores jogadores. O jogador que fez o gol que deu a Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha, o jovem Mario Götze, não ascendeu imediatamente à condição de semideus, de imortal do futebol. Ainda não é considerado como tal, longe disso, porque ainda não se consagrou na disputa que agora realmente interessa, a da Liga dos Campeões da Europa, e ainda é reserva no seu clube, o Bayern de Munique. Não é mais o futebol das seleções que consagra os gênios, mas o dos clubes. Temos uma exceção que ilustra o funcionamento dessa tendência, o caso de Lionel Messi, da Argentina. O atual melhor do mundo já foi protagonista da Liga dos Campeões mais de uma vez jogando pelo Barcelona, mas ainda não é considerado pela torcida de seu país igual ou melhor que Maradona, porque este ganhou a Copa do Mundo pela seleção argentina. Mas para boa parte da crítica internacional, inclusive este autor, Messi já se iguala ou supera Maradona.

A colonização do mundo da bola pelos gigantes europeus
Não sabemos até onde vai essa queda de importância técnica da Copa do Mundo, afinal os povos de quase todos os países ainda torcem apaixonadamente por suas seleções nacionais. Os estados nacionais e com eles o nacionalismo futebolístico ainda devem ser uma parte do cenário por muitas décadas. Mas que existe uma tendência de agigantamento do futebol dos clubes, isso é inegável. Já se estabeleceu um cenário em que os clubes europeus drenam todo o talento futebolístico que surge em países de continentes pobres, como América do Sul, África e Ásia. As competições nacionais e continentais da América do Sul são uma espécie de 2ª divisão mundial, já que as principais competições são as da Europa. Os melhores jogadores ficam pouquíssimos anos nos seus clubes de origem no Brasil (e no restante da América do Sul) e assim que se destacam são vendidos para a Europa. Esse já é o seu “plano de carreira” desde que saem das categorias de base.
Os jogadores que ficam no Brasil são os que não são bons o suficiente para irem para a Europa, ou já não mais são bons o bastante para ficarem por lá, entraram em decadência física, estão lesionados, etc., e por isso voltam. Ao mesmo tempo, já se encontram nas ruas do Brasil torcedores com camisas de times europeus quase em igualdade com o número de torcedores de times nacionais. O futebol dos grandes clubes da Europa está “colonizando” o mundo. E nessa colonização temos uma mudança no caráter do futebol. Este se transforma cada vez mais em um espetáculo televisivo do que num espaço de convivência, como era a sua origem. Esses “torcedores” de clubes europeus que assistem jogos de outros continentes pela televisão dificilmente terão a experiência de torcer para seus clubes de adoção no estádio, que é como o futebol se construiu.
Está acontecendo uma espécie de homogeneização do futebol jogado em todos os países. As diferenças entre as escolas nacionais, com seus diferentes estilos específicos, estão se diluindo. Em cada clube grande da Europa existem mais estrangeiros do que nacionais: um ou dois brasileiros, um argentino, um uruguaio ou colombiano, um ou dois africanos, um sul-coreano, às vezes até um australiano, etc. Esses jogadores jogam um futebol padronizado, técnico, mas burocrático, com bom domínio de bola, mas sem imaginação, com velocidade, mas sem criatividade, e assim por diante.
A homogeneização do futebol, bem como os demais fenômenos descritos acima, a formação de clubes super gigantes, que monopolizam os campeonatos nacionais e criam torcedores/espectadores/consumidores em um mercado global, é um processo que tem seu marco na sentença Bosman, em 1995. Neste ano, uma corte da União Europeia – UE, decidiu que o jogador belga Jean Marc Bosman poderia jogar em qualquer país da UE sem ser considerado estrangeiro. A partir desse precedente, os grandes clubes europeus passaram a poder comprar jogadores europeus como se fossem nacionais, caindo por terra a tradicional e histórica limitação de três estrangeiros por clube que vigorava até aquele momento. O passo seguinte foi a obtenção de passaportes portugueses, italianos, espanhois, por jogadores brasileiros, argentinos, uruguaios, etc.
Com isso, eles também passariam a ser cidadãos europeus, e também poderiam jogar em clubes de qualquer país europeu sem serem contados como estrangeiros. Já é comum ver times ingleses sem nenhum jogador inglês em campo, clubes italianos sem nenhum italiano, e assim por diante. Na prática, acabou o limite para jogadores estrangeiros em cada elenco, e os times com mais dinheiro passaram a poder comprar os melhores jogadores do mundo, e formar as seleções mundiais que temos hoje no Real Madrid, Barcelona, Manchester United, etc. Isso desequilibrou os campeonatos nacionais em favor dos gigantes, e aumentou o interesse na Copa dos Campeões da Europa, transformada em Liga dos Campeões em 1994, uma verdadeira “Copa do Mundo” jogada anualmente.

A elitização e desenraizamento do futebol
Uma das conseqüências desse agigantamento dos grandes clubes é a elitização do futebol. Está se tornando impossível freqüentar os estádios, devido ao preço dos ingressos. Muitos desses clube gigantes reservam partes das suas arquibancadas para agências de turismo. O resultado é que, ao invés de torcedores, eles têm espectadores no estádio. O restante dos ingressos é vendido a torcedores de alta renda. Os trabalhadores não podem mais ir ao estádio, e têm que se contentar em ver os jogos pela televisão.
Esse processo já está tão acentuado em alguns países que até gerou uma reação contrária. O “slogan” comercial da federação inglesa para divulgar os jogos da 2ª divisão é “real football for real fans”. Ou seja, futebol de verdade para torcedores de verdade. A segunda divisão é jogada por times pequenos, de cidades pequenas, em estádios pequenos, mas sempre lotados, com uma torcida apaixonada, que canta durante o jogo inteiro, e literalmente empurra o time. Uma torcida de trabalhadores. O futebol “de verdade” da segunda divisão inglesa é o “kick and rush”, ou seja, chutão para frente e correria. Muita dedicação e pouco talento. Por mais que a qualidade dos jogos não seja nem de longe a mesma da primeira divisão, a badalada “Premier League”, que é o melhor campeonato nacional do mundo, a segunda divisão inglesa motiva seus torcedores, porque é muito mais autêntica. Diante dos jogos altamente competitivos, mas também muitas vezes burocráticos, repetitivos, o torcedor prefere o bom e velho “kick and rush” da segunda divisão.
Quando os trabalhadores perdem a possibilidade de freqüentar os estádios, o futebol se descaracteriza e se transforma num espetáculo televisivo. A classe operária é a alma do futebol. O hábito de torcer ombro a ombro, sofrer junto nas derrotas e comemorar as vitórias, a “religião” de torcer para um time, é parte da identidade de classe que unifica os trabalhadores. Posteriormente, já num momento de degeneração, surgem as gangues de “hooligans” e torcedores organizados, não mais para torcer, mas para brigar com outras gangues rivais. A elitização do público, por meio de ingressos proibitivos, é uma forma de tentar retirar as gangues do cenário, mas que retira também os trabalhadores.

Ideologia da competição x competição esportiva
A transformação do futebol em um negócio bilionário é parte do processo multissecular de mercantilização de todas as esferas da vida, descrito por Marx e Engels no Manifesto Comunista, no longínquo 1848. “A burguesia despojou de sua auréola toda a ocupação até então considerada honrada e encarada com respeito. Converteu o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados”. O capitalismo transformou em um negócio de compra e venda todas as atividades, todas as profissões, incluindo hoje os jogadores de futebol. Marx e Engels foram gênios visionários por terem identificado esse processo em seu nascedouro, no século XIX (e também por prescrever a única forma de enfrentar tal processo e alcançar a emancipação humana: a revolução socialista). Agora, vivemos no momento de consumação da ascensão histórica do capital, quando tudo já está transformado em mercadoria.
Uma vez que a realidade é dialética, as suas diversas esferas se influenciam reciprocamente, e absorvem características umas das outras. Se o esporte se torna mercadoria, a mercadoria também se converte em competição. A ideologia da competição se espalha da prática esportiva para as demais atividades humanas. Desempenho, performance, metas, recordes, resultados, liderança, vitória e derrota, são categorias que passam a vigorar em esferas as mais díspares. Se fala em “performance sexual”, se mede a qualidade dos filmes pelo resultado na bilheteria (ou pela quantidade de prêmios), se corre no trânsito para chegar na frente (de quem?), se vive com pressa, tentando “render mais”, sempre mais. A psicologia dos indivíduos é contaminada por essa obsessão competitiva, produtivista, quantitativa, tomada emprestada da competição esportiva, pela pressão da competição econômica.
A ideologia da competição, transportada para a vida privada dos indivíduos, também não se pauta pelas características da própria competição esportiva em si. Quando o esporte se torna uma atividade econômica, a sua própria natureza é descaracterizada. Afinal, a competição esportiva tem uma lógica diferente da competição econômica. No esporte existem regras para o jogo, o resultado tem que ser obtido dentro das quatro linhas, é requerido um conjunto de habilidades especiais que somente se obtém com treinamento e trabalho duro. O resultado final, enfim, é “justo”, dentro daquilo que é estabelecido quando o jogo começa. A competição econômica, por outro lado, não tem quaisquer limites, como vimos acima.

A educação física para o capital
Na sua origem moderna, o esporte também teve uma função de disciplinamento e “educação” dos indivíduos para um modo de vida adequado à lógica do capital. Os esportes tais como os conhecemos hoje, tanto as modalidades olímpicas quanto o futebol, surgiram entre a metade e o fim do século XIX. Nessa época estava se impondo a industrialização e a urbanização capitalistas. Era preciso adaptar os trabalhadores e a população em geral para uma vida pautada pelos ritmos da produção capitalista.
A semana inglesa de 7 dias, a jornada de trabalho (objeto de dura disputa do nascente movimento operário contra a patronal, até ser reduzida para 8 horas no século XX), o ritmo regular e repetitivo das máquinas, a monotonia das tarefas segmentadas da produção taylorista-fordista, os sinais de trânsito, a contagem do tempo em minutos e segundos, etc., tudo isso teve que ser imposto sobre uma população acostumada a regular o ritmo de vida pelos ciclos da natureza. Durante milênios a humanidade regulou suas atividades pelas estações do ano, épocas de frio e calor, de chuva e de seca, de neve, de colheita, pela claridade do dia, etc. Os ciclos de atividade e descanso seguiam esses ritmos, sazonais, intermitentes, mais ou menos regulares, conforme as regiões e os tipos de atividade. Os ciclos artificiais da vida urbana, do trabalho industrial, do controle burocrático, etc., foram implantados à força, por meio de multas, punições, regulamentos, castigos dos capatazes, bedéis, fiscais, guardas de trânsito, etc.
Paralelamente a esse aparato repressivo, o ritmo de vida artificial adequado à produção capitalista foi imposto também com a ajuda persuasiva mais suave e lúdica das práticas esportivas. Os esportes se popularizam e educam a população, acostumando-a à contagem do tempo, apito inicial e apito final, aquecimento, intervalo, quatro linhas, pontuação, regras, arbitragem, etc., toda uma coreografia ordenada dos gestos que se espalha dos esportes para outras esferas da vida cotidiana. Até as artes marciais, patrimônio das classes aristocráticas do Extremo Oriente, também se popularizam (o judô foi criado por Jigoro Kano em 1920, a partir das técnicas da finada classe dos samurais para as lutas sem armas, especialmente para educar a população do moderno Japão imperialista).
Os próprios efeitos benéficos das práticas esportivas e da atividade física para a saúde ficam hoje em segundo plano, já que o esporte, o hábito de freqüentar academias, etc., também está submetido à ideologia geral da competição que ajudou a difundir, e que o submete de outras maneiras. Dentro das próprias academias, os freqüentadores competem para mostrar mais resultado. O objetivo não é a saúde, mas a exibição de um “corpo perfeito”, conforme um padrão de beleza artificialmente imposto. Até mesmo as artes marciais, as mais nobres e requintadas formas de cultivo do corpo e da mente, se transformaram em UFC.

Um chute que saiu pela culatra
Em resumo, a imposição de um modo de vida adequado à reprodução do capital contou com a colaboração imprevista da popularização das práticas esportivas. Mas essa popularização teve um outro efeito, que não foi previsto. Na época, em fins do século XIX, esse efeito educativo das práticas esportivas sobre o conjunto da população não era a intenção original dos criadores do esporte moderno. As Olimpíadas modernas e o próprio futebol foram criados com uma concepção aristocrática, um ideal cavalheiresco burguês, inspirado em uma idealização da antiga prática greco-romana de cultivo do corpo.
O futebol moderno surgiu nas escolas públicas inglesas na metade do século XIX, como parte desse projeto burguês e elitista. Em fins do século, entretanto, o jogo já tinha sido adotado pela classe operária, que começou a fundar clubes de futebol por toda parte. Marinheiros ingleses difundiram o jogo pelos quatro cantos do mundo. O futebol se popularizou mais do que qualquer outro esporte, devido a uma série de características: a “jogabilidade”, a plasticidade do jogo, a liberdade de criação que oferece, a possibilidade de ser jogado em qualquer terreno, em qualquer espaço, sem requerer equipamentos especiais, nem, principalmente, qualidades físicas excepcionais, podendo ao contrário ser praticado por qualquer biotipo, bem como a simplicidade das regras, e a imprevisibilidade dos resultados.
Ao contrário dos demais esportes coletivos, no futebol o melhor time pode perder. Um gol vale mais do que uma dúzia de chances perdidas. Um time pode jogar um jogo inteiro por uma bola apenas, e vencer. Uma quantidade enorme de fatores interfere nos resultados, em combinações variáveis: individualidade, qualidade do campo, pressão da torcida, erro de arbitragem, preparo físico, entrosamento, esquema tático, ou puro e simples azar. Essas características mantém viva a disputa durante os 90 minutos. Até o apito final, qualquer coisa pode acontecer. Com isso, a motivação de quem joga permanece viva até o final, e também a de quem assiste.
Com essa imprevisibilidade e variedade, o futebol seduziu torcidas pelo mundo inteiro, criou verdadeiras religiões. Mas sempre com uma base social operária. Hoje, em tempos de mercantilização e mundialização, e também de corrupção e tramóias, cada vez mais torcer por bom futebol se tornará um ato de nostalgia e resistência.

Daniel M. Delfino
Junho 2015


5.11.15

Nem bananas, nem macacos!


No dia 27 de abril deste ano, na cidade de Villareal na Espanha, jogavam os times de Villareal e Barcelona pelo campeonato espanhol. Um elemento da torcida local jogou uma banana ao campo em direção ao jogador Daniel Alves, do Barcelona e da seleção brasileira, com a intenção de chamá-lo de macaco por ser negro. Esse tipo de ofensa racista tem se tornado cada vez mais comum no futebol europeu nos últimos anos e representa uma das expressões da xenofobia que se espalha pelo velho continente. Também tivemos expressões de racismo por parte de um empresário da NBA, nos Estados Unidos, o que mostra que este mal é mundial.
A Europa recebe anualmente cerca de 1 milhão de imigrantes, entre africanos, sulamericanos, caribenhos, árabes, etc. Esse afluxo de imigrantes é necessário para compensar a taxa de natalidade decrescente da população europeia nativa e evitar a diminuição da população economicamente ativa. O crescimento do fluxo imigratório nas últimas décadas coincide com a implantação de políticas neoliberais que precarizam o trabalho, reduzindo salários, direitos, benefícios, condições de trabalho, etc. Com isso, tornaram-se comuns nas cidades europeias trabalhadores imigrantes ocupando funções rebaixadas e morando em bairros degradados.
Essas populações, com cor de pele diferente, língua diferente, religião diferente, costumes diferentes, não são facilmente integradas às sociedades europeias. Nos momentos de crise econômica e recuperação problemática como a atual, as populações de imigrantes são tratadas como culpadas pelos problemas, usadas como bode expiatório e hostilizadas por forças demagógicas de ultra direita e neonazistas. É o caso do partido Aurora Dourada na Grécia, que tem como principal ponto de programa justamente a expulsão dos imigrantes. Esse é o pano de fundo social e político das agressões racistas no futebol, que não são incidentes isolados.
O que fez da agressão a Daniel Alves um caso especial foi a reação do jogador. Ao invés de se recolher acabrunhado e abaixar a cabeça, ele descascou a banana, comeu um pedaço e seguiu jogando como se nada tivesse acontecido. Ao invés de se incomodar com a agressão, Daniel Alves debochou dos racistas. Seu time venceu o jogo, com participação decisiva sua em dois gols. Mas o placar do jogo acabou sendo o menos importante. O gesto desconcertante de comer a banana chamou atenção do mundo inteiro. A cena extrapolou o noticiário esportivo e foi discutida em todas as mídias e redes sociais.
De imediato, as autoridades futebolísticas emitiram as condenações de praxe. O autor da agressão foi identificado e banido do estádio para o resto da vida. Enfrentará também inquérito da justiça espanhola. Infelizmente, essas medidas punitivas são muito insuficientes para enfrentar o problema do racismo, pois não atacam as suas causas sociais profundas.
Mas o que mais chamou a atenção foram as manifestações de solidariedade a Daniel Alves, emitidas por celebridades de todos os tipos, brasileiras e estrangeiras, de dentro e fora do futebol. Dentre essas manifestações, surgiu a campanha “somos todos macacos” de autoria de Neymar, colega de Daniel Alves no Barcelona e na seleção.
Acontece que o gesto inicial de comer a banana, naquele momento, teve o efeito de esvaziar a agressão, negando ao racista o prazer de humilhar a sua vítima. Ele agressor é que foi feito de idiota pelo gesto de desdém. Mas o gesto de comer a banana, apesar de ter esvaziado a agressão, não serviu para negá-la, pois também significou dizer “não estou ligando, mas sou macaco sim”. Nas entrelinhas, houve a aceitação da condição de macaco. Se a resposta ao agressor racista tivesse parado por aí, a aceitação da condição de “macaco” não teria tido maiores consequências. Mas o passo seguinte dado por Neymar foi um gol contra. Usar a expressão “macaco” restituiu ao agressor o conteúdo de sua agressão, devolvendo-lhe o poder de chamar os negros de macacos.
Pior do que Neymar foi o oportunista Luciano Huck que lançou camisetas à venda dizendo “somos todos macacos”. Essa campanha infame reproduz o raciocínio tipicamente pós moderno de que uma frase na internet e alguns cliques no facebook podem “conscientizar” as pessoas e mudar a realidade. É a versão do mito da “democracia racial” no século XXI: se na internet somos todos iguais (no mundo da linguagem e das palavras “politicamente corretas”), somos iguais também na realidade e não precisamos fazer nada para mudá-la. Não vimos essas mesmas celebridades cretinas da Rede Globo em nenhum momento dizer: “somos todos Amarildo!” ou “somos todos Cláudia!”, vítimas recente do racismo assassino da polícia brasileira.
O racismo não será enfrentado por uma campanha desse tipo! Não somos macacos! Somos todos humanos, e para termos uma efetiva igualdade precisamos de reparação às vítimas do racismo. Somos trabalhadores e vítimas de um sistema capitalista que nos divide para melhor explorar.
Diante dos problemas sociais que se agravam no continente europeu, a hostilidade aos imigrantes infelizmente deve continuar, e com ela o racismo, dentro e fora dos campos. Somente uma luta que unifique os trabalhadores europeus, imigrantes e nativos, contra o capitalismo em crise, poderá criar uma nova sociedade, que supere a barbárie racista.

Daniel M. Delfino
Junho 2014



22.6.10

Copa 2010: torcer ou não torcer, eis a questão



“Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia”
Cazuza
“Burguesia”

O futebol moderno surgiu nas escolas públicas britânicas em meados do século XIX e se popularizou no fim do século entre os operários. Enquanto a burguesia cultivava passatempos caríssimos como caça à raposa, golfe, iatismo ou alpinismo, o povo jogava e torcia pelo futebol. Marinheiros e operários britânicos levaram o futebol ao mundo inteiro no início do século XX e o tornaram o esporte mais popular em quase todo o planeta, com raras exceções, como os Estados Unidos. O futebol é o esporte mais democrático do mundo por ser um jogo simples, dinâmico, plástico, e também por não requerer equipamentos nem qualidades físicas excepcionais e poder ser praticado em qualquer terreno.

Como toda produção humana na época capitalista, o futebol se converteu em mercadoria, quando os clubes se tornaram empresas que vendem o espetáculo aos seus torcedores nas arquibancadas e nas poltronas diante da TV. Empresários de jogadores, publicitários, emissoras de TV, fabricantes de materiais esportivos, cartolas de todos os calibres faturam uma fortuna que chega a 1% do PIB mundial (Estadão, 30/04/2010). A FIFA, que administra esse negócio extremamente lucrativo, se gaba de ter mais países filiados do que a ONU (208). O evento máximo do futebol é a Copa do Mundo da FIFA, disputada por seleções nacionais e não por clubes, o que aumenta as implicações políticas da paixão pelo jogo.

Os governantes romanos inventaram a técnica de aliciar o povo com pão e circo. Dando seqüência a esse método, os políticos burgueses exploram a popularidade do futebol para fazer propaganda dos seus governos. Com a “squadra azzurra” bicampeã em 1934-38, Mussolini conseguiu o que Hitler tentou com a Olimpíada de Berlim em 1936, ou seja, usar o esporte para demonstrar o triunfo de seu governo. O mesmo fez a ditadura militar brasileira com a excepcional seleção campeã em 1970, provavelmente o melhor time de futebol que já existiu. E também a ditadura argentina, que organizou a Copa de 1978 para ser vencida em casa por sua seleção (o tiro quase saiu pela culatra, pois as Mães da Praça de Maio se aproveitaram da presença da imprensa internacional no país para denunciar a desaparição dos seus filhos nas mãos da repressão). Em 1990, a Alemanha reunificada fez da vitória na Copa o “cartão de boas vindas” do capitalismo para a população da recém-anexada Alemanha Oriental.

“...e quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”
Eric Hobsbawm
“A era dos extremos”, p.197

Quem tenta remar contra a maré do entusiasmo futebolístico corre o risco de sair seriamente chamuscado, como o líder da extrema-direita francesa Jean Marie Le Pen, que repudiou a seleção tricolor de 1998 porque não era francesa e sim composta por “estrangeiros” (como o argelino Zidane), e teve que engolir esse time com toda sua diversidade vencer a Copa. O exemplo de Le Pen não foi o único, pois houve setores da esquerda brasileira que torceram contra a seleção de 1970 porque o time estava identificado com a ditadura, na sua interpretação. Esse comportamento se prolonga ainda hoje em setores da esquerda, que consideram que a vitória da seleção numa Copa favorece o governante de plantão, e portanto torcem contra.

O argumento de que a vitória da seleção na Copa representa um atraso político não se sustenta, uma vez que as derrotas da seleção não fazem com que o povo avance em sua consciência, seu grau de organização e seu desejo de derrubar o governo. Ganhar uma Copa torna o povo mais feliz, mas perder uma Copa não torna o povo mais revolucionário. Além disso, quando a seleção brasileira perde, perde para algum país cujo governante burguês de plantão também fará propaganda da sua vitória, da mesma forma espúria e oportunista como qualquer político brasileiro faz. Ao invés de torcer contra a seleção brasileira, a esquerda anti-futebol deveria não torcer para ninguém e fazer melhor o seu trabalho.

A dificuldade da esquerda para ganhar os trabalhadores para um programa revolucionário deve ser buscada em sua própria incompetência e não nas virtudes dos jogadores verde-amarelos. Neste ano de 2010, com um calendário preenchido por Copa e eleições, a esquerda revolucionária deixou de dar apoio à principal luta da classe, que foi a greve dos professores de São Paulo, passou o 1º semestre inteiro preocupada com disputas de aparato e se omitiu da tarefa crucial de antecipar as campanhas salariais. Agora, com a proximidade da Copa e das eleições, cogita-se na possibilidade de torcer contra a seleção, o que acabaria de colocar a esquerda de vez contra o sentimento geral da classe.

É evidente que todo governante burguês se aproveita dos triunfos esportivos, assim como se aproveita da descoberta do pré-sal, ou dos resultados da economia, ou de qualquer outro acontecimento que na verdade provém da exploração do trabalho, mas isso não quer dizer que esses feitos lhe pertençam. Pertencem aos trabalhadores, que são os criadores de toda a riqueza em suas múltiplas formas. Assim como qualquer realização social, o futebol não pertence à burguesia e sim aos trabalhadores que o adotaram e o tornaram um esporte capaz de produzir momentos de verdadeira beleza. O futebol é uma autêntica paixão popular, e a esquerda não pode ignorar esse sentimento, ou pior, se colocar contra.

“É mais um gol brasileiro, meu povo! Encha o peito, solte o grito na garganta e confira comigo no replay!”
Sílvio Luís
narração dos gols da seleção

O futebol é o ópio do povo? Sim, mas assim como a religião na célebre frase de Marx, muito citada e também muito deslocada do seu contexto, o ópio não tem apenas um sentido negativo, já que também funciona como “o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração”. O futebol, assim como a arte ou o sexo, podem ser momentos de refúgio e prazer num mundo alienado. A ruptura da alienação requer uma mudança social global, mas enquanto se luta por essa mudança, a alegria não tem que ser banida do mundo. Lutar por uma saída revolucionária não significa cultivar permanentemente o mau humor dos militontos. Militar pela revolução também significa militar pelo prazer, o que inclui a arte e também o futebol-arte.

Decidir sobre torcer ou não para a seleção em função do uso que os políticos e a burguesia fazem do esporte é menos legítimo do que discutir se o time do técnico Dunga e da CBF representa ou não o verdadeiro futebol brasileiro. Esse futebol pôde ser encontrado no jogo Santos X Santo André pela final do campeonato paulista (e isso quem diz é um corintiano), mas não será praticado pelo batalhão de trogloditas com o qual Dunga congestionou o meio de campo da seleção. Como todas as riquezas nacionais, o futebol também está sendo roubado do Brasil, uma vez que a administração corrupta e reacionária dos clubes e da CBF tornam o futebol brasileiro incapaz de manter seus melhores jogadores no país. A conseqüência é uma seleção “alienígena”, sem identidade com o país, sem vínculo com os torcedores/trabalhadores, e adaptada a um tipo de jogo que privilegia o resultado em lugar do espetáculo.

A seleção convocada para a Copa de 2010 é a consagração da mediocridade em detrimento do talento, da habilidade, da imaginação, do improviso e da fantasia que fizeram do estilo brasileiro de jogar futebol uma manifestação tão genuína da cultura nacional quanto o samba ou a capoeira. Os negros, mulatos e pobres brasileiros em geral aprenderam a jogar futebol em campos de terra e com bolas improvisadas; essa é a origem da técnica e domínio de bola. Quando jogavam com os brancos nos clubes de elite, as faltas contra negros, mulatos e pobres não eram marcadas pelos árbitros, o que os obrigava a se esquivar para não apanhar; essa é a origem do drible.

Foi com um futebol de drible e habilidade que o Brasil encantou o mundo e ganhou mais Copas do que qualquer outro país. E entre as seleções que apresentaram um futebol brilhante, mas não venceram Copas, como a Hungria de 1954 (os jogadores magiares abandonaram a seleção e o país depois que o stalinismo reprimiu a revolta popular anti-burocrática de 1956) e a Holanda de 1974 (a lendária “laranja mecânica”, cujo comportamento libertário atraiu a simpatia mundial, jogando sem guardar posição, levando as mulheres para a concentração e bebendo cerveja), está o Brasil de 1982. Foi assistindo aquela seleção, aos 7 anos de idade, que este escriba se apaixonou pelo futebol e se tornou um torcedor canarinho para o resto da vida. Aquele futebol não existe mais, mas a paixão permanece. Torcer pela seleção não significa deixar de ser crítico da estrutura do futebol. A esquerda muitas vezes concede apoio crítico a determinada política quando isso favorece o diálogo com a classe, e aqui declaro a minha torcida crítica pela seleção brasileira. Em 2010, estarei também torcendo pela seleção, contra Dunga, contra a CBF e contra a burguesia, e ao lado dos trabalhadores.

Daniel M. Delfino
22/06/2010

8.2.08

O Corinthians para os corintianos



No dia 13 de outubro de 2007 comemoraram-se os 30 anos da histórica conquista do Campeonato Paulista de 1977 pelo Corinthians, numa final contra a Ponte Preta. Era o primeiro título oficial depois de uma longa fila de 23 anos, desde o lendário Campeonato do IV Centenário de São Paulo, de 1954.

Nesses 30 anos entre 77 e 2007, o Corinthians conquistou 10 Campeonatos Paulistas (que somaram-se aos 15 anteriores para fazer do clube o maior vencedor da competição), 2 Copas do Brasil, 4 Brasileiros e 1 Mundial. Ou seja, os últimos 30 anos, ou mais especificamente os últimos 15, foram o período mais vitorioso da história do clube, quando se acumularam mais e mais importantes títulos do que em toda a vida precedente da agremiação. Se já era um dos clubes mais tradicionais e dono da 2ª maior torcida do país, o Corinthians tornou-se também um dos mais vitoriosos.

Entretanto, os torcedores que estiveram no Pacaembu na tarde de 13 de outubro de 2007 para a comemoração dos 30 anos e para o jogo contra o Internacional/RS pelo Brasileiro do ano passado não estavam vislumbrando a possibilidade de novas conquistas e sim, ao contrário, angustiados com a ameaça de rebaixamento do time para a 2ª divisão nacional. O rebaixamento acabou se concretizando, ao fim do certame, em dezembro, não sem antes expor a nação corintiana ao vexame de ver o presidente do clube afastado em meio a um escândalo policial. As investigações da justiça sobre a origem do dinheiro que a então parceira MSI investia esbarraram em lavagem de divisas do crime organizado internacional, especificamente da máfia russa, de quem a MSI seria fachada.

Na esteira dos escândalos e do afastamento da direção, organizaram-se às pressas eleições para uma nova diretoria, ao final das quais os remanescentes do mesmo grupo dirigente permaneceram no comando, tornando-se depositários duvidosos da complicada tarefa de recolocar o clube no caminho das conquistas. Há algo de muito errado acontecendo com o Corinthians hoje, que não poderá ser resolvido por uma simples mudança de nomes na diretoria. Para ter uma dimensão da gravidade dos problemas, é preciso recuperar uma parte da história do alvinegro.

A lembrança do título de 1977 é fundamental porque nos leva a um passado não tão distante, em que era possível um time ficar 23 anos sem ganhar um campeonato importante, e mesmo assim ver sua torcida crescer ao invés de diminuir. Esse fenômeno paradoxal merece uma explicação sociológica.

A torcida do Corinthians é a 2ª maior do país, mas está fortemente concentrada no Estado de São Paulo e em especial na região metropolitana da capital. O crescimento da torcida esteve indissoluvelmente ligado ao próprio crescimento da metrópole paulistana nas décadas de 1950, 60 e 70, período de forte urbanização e industrialização, e que coincide com boa parte da fila corintiana.

Naquelas décadas, trabalhadores de todas as partes do país e em especial do Nordeste emigravam em massa para São Paulo. Ao estabelecer-se, incorporavam juntamente com outros caracteres da sociabilização proletária o hábito de torcer para o Corinthians, time aliás fundado por operários em 1910. Nada mais natural para essa população sem terra, sem teto, favelada, lutadora, do que torcer para um time “sem teto”, já que o Corinthians não tem estádio (precisamente o contrário de uma torcida rival, que se vangloria de que seu time tem um estádio enorme, mas esquece de mencionar que esse estádio foi construído com dinheiro desviado do Estado, em terreno “doado” pelo Estado, o que é bastante coerente, já que se trata de um time fundado pela burguesia).

Torcer para um time que não é campeão é uma expressão peculiar de uma certa atitude geral perante a vida, um espírito de luta, de irmandade na dificuldade, de alegria na tristeza. O corintiano se define como “maloqueiro e sofredor graças a Deus”. Os adversários, naturalmente, não compreendem esse elogio da condição de sofredor, e zombam dele como se se tratasse de uma apologia da derrota. Falta-lhes o nexo que nos corintianos liga a atitude perante o futebol à atitude perante os companheiros de torcida, de bairro, de vivência, e porque não, de classe.

Diz-se que o Corinthians não é um time que tem uma torcida, mas uma torcida que tem um time. Diz-se que essa torcida vai a campo mais para festejar a si mesma do que ao jogo. Diz-se que a torcida corintiana é o 12º jogador e que praticamente entra em campo para empurrar o time. Não é à toa que ficou conhecida como fiel torcida (fidelidade atestada por feitos surreais como a inacreditável invasão do Maracanã em 1976). Todos esses ditos são verdadeiros, embora sua origem esteja ligada a um passado mais romântico do futebol. Hoje praticamente todas as torcidas são iguais, todas tem suas facções organizadas, seus gritos de guerra para empurrar o time, suas escolas de samba, etc., embora inquestionavelmente ainda caiba à fiel o mérito exclusivo da originalidade e da autenticidade.

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A essência do modo de ser corintiano, a atitude de acreditar, lutar e participar, está em contradição com a própria lógica fundamental da sociedade atual, que exige indivíduos apáticos, passivos, submissos e conformados. As crianças de hoje querem ter todas as suas vontades atendidas apertando um botão do controle remoto ou um comando do videogame, ao invés de brincar na rua, batendo, apanhando e aprendendo com as outras crianças. Do mesmo modo, o torcedor de hoje é educado para ver o futebol pela TV, como um espetáculo qualquer, ao invés de ir para o estádio e participar. O hábito de ir ao estádio é cada vez mais restrito aos torcedores das organizadas, que se transformaram em gangues. O torcedor na sociedade do espetáculo é cada vez mais um espectador distante e cada vez menos um participante direto.

Quem quer que tenha ido ao estádio uma vez, seja para torcer contra ou a favor do Corinthians, sentiu na pele que a participação da fiel não é uma pretensão vazia, ela de fato acontece e tem seu peso. Justamente por isso, é crucial resgatar a peculiaridade do modo corintiano de torcer. A diretoria recém-empossada fez uma tentativa de resgate, lançando meio que às pressas uma campanha de marketing de camisetas com o dizer “eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo, eu sou Corinthians!”, frase bem ao gosto popular, e que faz da campanha um sucesso de vendas. Como já aconteceu com outros clubes grandes rebaixados, pode ser que a 2ª divisão sirva como oportunidade para reaproximar a torcida do time, conectando-a com sua história e sua essência de “sofredor”.

A originalidade corintiana e sua identidade proletária manifestaram-se não só no fenômeno extraordinário e paradoxal do crescimento num período de jejum de títulos, mas também no excepcional movimento da “democracia corintiana”, no início dos anos 1980. Naquela quadra histórica, em que se vivia o fim da ditadura, o proletariado brasileiro protagonizou um dos maiores ascensos de sua história, desencadeando um forte ciclo de lutas sociais e construindo fortes organismos de massas, como o PT e a CUT.

Não há é claro uma relação direta e automática entre identidade de classe, mobilização política e opção futebolística (ou seja, nem sempre proletário e corintiano é sinônimo de grevista). Entretanto, alguma relação existe, pois somente isso pode explicar a coincidência temporal entre as lutas operárias e a democracia corintiana. Naquela experiência sui generis promovida por uma geração de jogadores talentosos, vitoriosos e engajados, implantaram-se práticas coletivas auto-gestionárias e libertárias jamais vistas no futebol, como a decisão sobre contratações, regime de treinamentos, abolição das concentrações, valorização da responsabilidade e da autonomia dos jogadores; práticas que apontavam um modelo para o conjunto da sociedade, que então clamava por democracia. Trata-se do mais importante movimento político da história do futebol brasileiro e um dos mais importantes do mundo.

Também não é coincidência o fato de que os dirigentes do ciclo de lutas operárias da década de 80 (ou seja, o PT) estejam hoje servindo como prepostos do capital financeiro internacional e conduzindo a espoliação do país na nova divisão do trabalho internacional da fase globalizada do imperialismo; assim como os dirigentes do Corinthians fizeram do clube um balcão de negócios do futebol globalizado e suas máfias de “empresários” e “investidores”.

É evidente que o rebaixamento não é o fim do mundo para um clube da grandeza do Corinthians, que certamente voltará a vencer. Mas o episódio serve como um exemplo eloqüente da falência de um certo “modelo” de gestão do futebol. O personalismo, a perpetuação de dirigentes, a falta de transparência, a “caixa preta” das finanças, os contratos nebulosos envolvendo empresários de jogadores, intermediários, publicitários e todos os tipos de parasitas; tudo isso precisa ser varrido para que o Corinthians tenha não apenas uma mera troca de nomes dos dirigentes, mas uma mudança estrutural na sua administração. Por isso propomos:

- Afastamento imediato de todos os dirigentes comprometidos com os atos criminosos da gestão anterior;

- Auditoria externa independente em todas as contas, contratos e departamentos do clube e responsabilização criminal e patrimonial dos culpados pelas irregularidades encontradas;

- Eleições diretas para a direitoria, com o direito de votar e ser votado estendido a todos os
sócios;

O caso do Corinthians não é uma exceção; na verdade o “modelo” falido de administração do alvinegro é a regra entre os grandes clubes do Brasil. Por isso, esses pontos de programa são aplicáveis a todos os clubes, federações e confederações do futebol e do esporte brasileiro em geral. Em função de seu enorme potencial de atrair a atenção das massas, o esporte e especialmente o futebol brasileiro tem sido mantidos sob controle de indivíduos e grupos oligárquicos, autoritários, corruptos, mafiosos, que enriquecem às custas da paixão popular.

A administração predatória e irresponsável desses dirigentes colabora para o enfraquecimento do futebol brasileiro, o êxodo dos atletas, o esvaziamento dos campeonatos, a descaracterização da seleção nacional, a queda do nível técnico, a diminuição do público, o sucateamento dos estádios (da qual o maior exemplo foi a morte de 7 torcedores no estádio da Fonte Nova, em Salvador, em 25/11/07, no que deveria ter sido a festa pelo acesso do Bahia à 2ª divisão), etc.

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Ao invés de enfrentar-se com esse “modelo”, o governo Lula optou por dar-lhe sobrevida (como de resto fez com todos os demais aspectos do atraso brasileiro). Acaba de ser aprovada a “Timemania”, loteria que vai injetar uma fortuna prevista em R$ 114 milhões (segundo “O Globo online”, matéria de 19/02/08) nos clubes brasileiros. Esse rio de dinheiro vai ser entregue aos clubes como forma de facilitar a quitação de dívidas fiscais e previdenciárias, sem que se exija deles nenhuma contrapartida real em termos de afastamento e responsabilização criminal e patrimonial dos culpados pelo descalabro em que se encontram, de transparência administrativa e financeira, reorganização e democratização interna, renovação completa dos atuais quadros dirigentes, etc. Trata-se de mais uma conciliação do governo Lula com um dos setores mais incompetentes, predatórios, corruptos, autoritários e reacionários do país, em troca do apoio venal da “bancada da bola”.

Com uma administração desse quilate é inconcebível que o Brasil tenha sido escolhido para sediar o evento máximo do futebol, a Copa do Mundo de 2014. Está armado o cenário para mais manipulação da paixão popular, mais ufanismo oportunista dos políticos e parasitas, mais chauvinismo e também mais tramóias, corrupção, repressão (como a que os moradores de favelas do Rio experimentaram na época do Pan) e tragédias.

Sem as necessárias mudanças estruturais no futebol e na sociedade, a Copa de 2014 tem tudo para ser a apoteose do pão e circo para as massas. A menos que as torcidas deixem de ser espectadoras passivas do espetáculo político e entrem de vez no campo da luta social.

Fora do futebol os falsos dirigentes, os aproveitadores, os sanguessugas, os empresários, os corruptos, os ladrões, os mafiosos, os criminosos! Salve(m) o Corinthians!


Daniel M. Delfino (trabalhador, estudante, militante e corintiano roxo)

28/01/2008