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31.5.07

O Código Da Vinci e os segredos do espetáculo




Toda vez que é perguntado sobre “O Código da Vinci”, este escriba oferece uma única resposta: “O pêndulo de Foucault”. O livro do italiano Umberto Eco é o verdadeiro compêndio das teorias de conspiração envolvendo cabala, alquimia, magia, Igreja, sociedades secretas, druidas, templários, rosa-cruzes, maçons, Santo Graal, linhagem merovíngia, etc., urdido com inesgotável erudição, não apenas sustentado em rigorosa pesquisa, mas inspirado em décadas de dedicado convívio com livros, manuscritos, pergaminhos, papiros e toda sorte de documentos autênticos que os séculos depositaram nas venerandas bibliotecas medievais ainda hoje preservadas na Europa.

O livro de Dan Brown é uma simples brincadeira superficial, que se aproveita de maneira oportunista de alguns daqueles temas. Evidentemente, “O Código da Vinci” está destinado a se tornar “best seller” mundial e assunto da moda, enquanto “O pêndulo de Foucault” permanece uma curiosidade restrita ao mundo dos aficcionados. As qualidades literárias que distinguem um livro do outro dão esmagadora vantagem ao autor italiano, mas isso não importa. A fortuna crítica da produção literária e artística em geral está sujeita ao jugo da indústria cultural. Não importa a qualidade intrínseca da obra, importa o quanto ela rende aos intermediários que mercadejam a cultura.

Os livros, filmes, músicas, etc., se tornam notórios não por serem bons, mas pelo número de cópias que vendem. Pode acontecer de algumas obras de qualidade serem também sucessos comerciais, mas tais casos excepcionais constituem felizes exceções. A tendência prevalecente é de que aconteça o oposto. Numa época em que o valor cultural está submetido ao valor de troca, a indústria cultural direciona a produção e o consumo de produtos culturais tendo em vista um gosto e uma sensibilidade médios capazes de lhe proporcionar um mercado o mais amplo possível.

São editadas/produzidas apenas as obras que terão retorno comercial garantido, ou pelo menos preferencialmente tais obras. Tudo o que destoa desse padrão constitui um restrito e minoritário ato de resistência. Inversamente, o gosto e a sensibilidade do leitor/espectador/ouvinte/consumidor tendem a permanecer limitados ao nível padrão da indústria. Nem autores, nem comerciantes, nem público querem correr riscos e fazer experiências.

A produção rebaixa o consumo e o consumo rebaixa a produção. Nesse círculo vicioso, a cultura deixa de cumprir a função de elevar os espíritos, alargar os horizontes, despertar as consciências e enriquecer a Humanidade. A cultura passa a ser simples diversão. Nada contra a diversão. Umberto Eco também escreveu um thriller medieval em que a causa dos crimes era o “perigo” representado pelo riso. Acontece que divertir é apenas uma das funções das obras de arte. Sua função completa é definir, retratar e moldar o ser humano. Ser “a memória e a auto-consciência da humanidade”, na definição de Lukács.

A crítica de um produto cultural dessa natureza não se esgota no procedimento de denunciar a sua vulgaridade e superficialidade. É preciso qualificar historicamente essa vulgarização. A segmentação entre a cultura erudita e a cultura da massa não é uma novidade da sociedade capitalista. A indústria cultural é apenas a forma atualizada dessa segmentação. Sempre existiu uma cultura popular, local, espontânea, tradicional, folclórica e artesanal (que hoje cede lugar ao filme-música-programa de TV industrializados); que embora formalmente contraposta, desenvolvia uma relação de mão dupla muitas vezes fecunda com a aristocrática arte erudita (que por sua vez se tornou um nicho de mercado segmentado e minoritário), sendo que ambas retinham de formas diferentes o potencial de retratar o universal humano.

O paradoxo da forma especificamente capitalista de segmentação é que ela deixa de cumprir o papel emancipador embutido na capacidade multiplicadora dos meios técnicos de difusão de massa. Ao invés de multiplicar os conteúdos e torná-los acessíveis a todos os públicos a tecnologia aplicada à indústria cultural os reduz em sua variedade e rebaixa em sua qualidade. A tecnologia não é politicamente neutra. A produção em massa de livros, a imprensa industrial, o cinema, o rádio, a televisão, a internet, etc.; serviram apenas para enquadrar a produção cultural nas exigências da forma-mercadoria.

Esse discurso parece bastante deslocado para falar do “Código da Vinci”. Trata-se de um livro, mas não de uma obra de literatura (rigorosamente, nem mesmo “O pêndulo de Foucault” é literatura, é uma boa obra de mistério). Livros desse tipo são concebidos expressamente para serem “best sellers”. O destino final de todo “best seller” realmente bem-sucedido, por sua vez, é servir como roteiro de cinema. A sub-literaura atualmente produzida é a ante-sala do cinema. Na produção cultural contemporânea, inverteu-se a relação de dependência e determinação. Não é a literatura que precede o cinema, o cinema é prioridade em relação à literatura. Não é a literatura que está alimentando o cinema de idéias consistentes e relevantes, é o cinema que está demandando idéias filmáveis dos escritores.

O leitor do “Código da Vinci” está lendo um roteiro de cinema, ao invés de um livro. Não apenas o imaginário do autor está determinado por uma visão cinematográfica e imagética da realidade (coisa que toda arte que verdadeiramente retrata o mundo atual também está), mas o livro é escrito de saída como uma seqüência de imagens filmáveis. O leitor imaginativo é capaz de visualizar imediatamente as cenas, os cortes de edição e até ouvir a trilha sonora padrão com seus coros e violinos. O livro não se serve plenamente dos recursos da comunicação escrita, não explora o potencial das palavras para criar conceitos, mundos e sentimentos, capazes de desafiar o leitor, de fazê-lo mergulhar nos seus abismos interiores e sair transformado da experiência. Apesar de se servir de palavras escritas, a linguagem do livro é visual e não literária.

Curiosamente, trata-se de um livro que fala da alta cultura, do mundo dos museus e das grandes obras de artes, da história e dos segredos profundos da religião. Tais temas sugerem uma alta densidade de pensamento, uma ampla riqueza de significados, uma grande profundidade de reflexão. Deparamo-nos porém com o mundo de heróis e vilões bidimensionais, conflitos e atitudes tradicionais, forças do bem e do mal rigidamente demarcadas. Os personagens do “Código da Vinci” vivem uma aventura física e exterior, não uma jornada de transformação interior. Tampouco as crenças e valores do leitor são confrontados.

É curioso o conceito que o autor faz da alta cultura, da arte e da religião. São objetos de curiosidade, de conversa de salão, de almanaque de luxo, de “cultura inútil”. Não têm nada de especial a dizer aos personagens e ao leitor, nenhuma mensagem de significado complexo e profundo. São tão somente nomes, constituindo um repertório quantitativo de informações indiferentes. A estrutura da trama é a de um jogo de enigmas que devem ser decifrados para conduzir ao enigma seguinte, e os enigmas são jogos de palavras encadeados de maneira exterior, não mensagens que exigem reflexão e amadurecimento. O conceito de atividade intelectual desenvolvido no livro é de uma mera acumulação quantitativa de dados. Um jogo competitivo a ser resolvido pela força bruta da capacidade de memorização. O intelectual não é um sábio, é um sabichão. O intelectual é um colecionador de figurinhas de luxo, um nerd das antiguidades e das letras.

Ninguém precisa ser um estudioso acadêmico da simbologia religiosa para distinguir pares de conceitos básicos e evidentes como o masculino e o feminino, a luz e as sombras, o dia e a noite, a esquerda e a direita, etc. Tais pares de contraposições estão imediatamente dados e são discerníveis à observação mais superficial. Não é preciso ser um professor universitário para descobrí-las por toda parte. Mas e quanto aos códigos escondidos? As pistas para decifrar os enigmas? Os códigos são o verdadeiro protagonista da trama e justamente por isso a relação com os objetos de arte é utilitária e superficial. A função da arte é servir de suporte para os códigos. Isso está longe de expressar “a mensagem de significado complexo e profundo” que constitui o escopo da arte. “O Código da Vinci” destaca a inteligência de seus personagens, mas não faz justiça ao significado e ao conteúdo da arte que pretende talvez homenagear.

O que temos em mãos é um cenário de luxo e um rico contexto histórico como pano de fundo para uma aventura comum. Mas se trata-se de uma aventura comum, o que explica o extraordinário sucesso comercial? O fascínio do livro decorre da ignorância geral com relação à história da religião em especial e também da arte. O livro é considerado polêmico, escandaloso ou até mesmo ofensivo. Na tese que estrutura a trama, artistas como Leonardo da Vinci e cientistas como Isaac Newton faziam parte de uma organização secreta, que detinha conhecimentos capazes de destruir as certezas da religião estabelecida, e tentaram transmitir parte desses conhecimentos em suas obras de arte e de arquitetura em locais que se tornaram históricos.

Está em curso uma guerra dos supérstites contemporâneos dessa organização secreta contra um grupo também secreto da Igreja Católica que sabe da existência desses conhecimentos e quer destruí-los. Os protagonistas do livro são apanhados no fogo cruzado dessa guerra, sendo obrigados a decifrar pistas que se espalham por obras de arte e locais históricos. Terão como prêmio, além de salvar a pele e a reputação, o acesso ao tesouro secreto dos antagonistas do Vaticano.

Com essa trama, havia a possibilidade de tratar de algumas questões fundamentais da história e da cultura ocidental. Pelo menos três núcleos de questões se destacam.

O primeiro deles está relacionado à humanidade de Jesus. Quando se considera a Bíblia como objeto histórico, é forçoso destacar o fato de que o livro dos livros foi editado através de um processo milenar de seleção desenvolvido com base em escolhas políticas contingentes. As escolhas que determinaram quais escritos seriam considerados canônicos e quais seriam apócrifos foram feitas de acordo com os interesses sociais e políticos prevalecentes. A doutrina e as fórmulas da religião cristã foram definidas autoritariamente pela cúpula do clero católico, tendo em vista conveniências políticas do império romano. Com isso, a imagem de Jesus desapareceu sob os véus obscurantistas do dogma. O homem foi suprimido e transformado em objeto sobrenatural de culto. A filosofia do amor, da paz e da tolerância se transformou no fanatismo homicida das seitas, cruzadas e inquisições. Quem quer que se disponha a seguir Jesus e viver como ele viveu se coloca automaticamente na fila para ser queimado como herege. O próprio Jesus, se voltasse hoje para expulsar os vendilhões do templo, seria prontamente crucificado por aqueles que em seu nome construíram aparatos de poder material, repressão social e retrocesso ideológico. Tal é o destino de mártires que se dedicam a desenvolver as melhores qualidades humanas, como Jesus, como Sócrates, como Gandhi, etc.

Um segundo aspecto importante a ser destacado é a opressão imposta sobre as mulheres. Ao contrário do ensinamento de Jesus, o cristianismo que historicamente se desenvolveu nas seitas organizadas relegou as mulheres a um papel secundário, inferior, subordinado, servil, desvalorizado, esvaziado e até mesmo maligno. A mulher é a pecadora, a impura, a bruxa, a prostituta, a escrava, a ignorante. O patriarcado oriental contaminou o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Houve momentos da história em que alguns povos adeptos das três religiões bíblicas observaram um certo respeito pelas mulheres, mas na maior parte do tempo prevaleceu e ainda prevalecem o obscurantismo bárbaro e o autoritarismo machista, materializado na mais selvagem e odiosa opressão. Em algumas religiões não-bíblicas, como a grega e a romana, e nas religiões dos povos originários da América e da Oceania, o papel feminino não é tão desvalorizado e em alguns casos é tão destacado quanto o masculino. Não há hierarquia entre eles, há diferença. Ou no mínimo, não há o mesmo grau de inferiorização da figura da mulher.

Cada religião reflete as características da sociedade em que floresce. A sociedade de classe, baseada na desigualdade e na força, necessariamente exclui e oprime partes inteiras de sua população. A primeira dessas partes a ser subjugada corresponde ao inteiro gênero feminino. Isso se reflete na demonização da mulher pela religião cristã institucionalizada.

A demonização da mulher tem como contrapeso, evidentemente, a valorização da mulher submissa, obediente e assexuada. O melhor exemplo desse modelo é a figura da virgem Maria, o exato oposto do sagrado feminino das religiões pagãs. Isso leva ao terceiro complexo de problemas fundamentais da cultura ocidental minimamente arranhados pelo livro, que diz respeito à interdição do sexo. A imposição autoritária de uma moral abstrata pelo cristianismo organizado exige a negação do mundo terreno, da vida material, das relações autenticamente humanas, do corpo humano e do sexo. O cristianismo histórico organizado definiu o homem pelo pecado, não pelo amor, estimulando a segregação e não o perdão, a auto-repressão e não a auto-realização. O pecado a ser combatido é tudo aquilo que causa prazer. O prazer a ser reprimido é basicamente o prazer sexual.

Dan Brown estaria se colocando contra essas três tendências obscurantistas por meio de uma única idéia, a do casamento de Jesus com Maria de Magdala, que teria originado toda uma linhagem de descendentes. Com isso estaria restituída a humanidade de Jesus, a importância das mulheres e a naturalidade do sexo. Um autor com disposição e munição para levar adiante essas três causas teria o apoio entusiástico deste escriba. “O Código da Vinci” tem pelo menos o mérito de tocar nessas questões. Mas seu esforço iluminista é prontamente inutilizado e esterilizado por todo o aparato que cerca os produtos culturais: juntamente com a campanha promocional, vem a campanha difamatória, dizendo que é tudo mentira, em seguida vem os desmentidos, e logo depois a turma do “deixa disso” entra em campo, dizendo que o problema não tem importância, “é tudo ficção mesmo”, ninguém precisa levar nada a sério e tudo pode continuar como antes. Não vai mudar a vida de ninguém.

O CÓDIGO DA VINCI - O FILME



Nome original: The Da Vinci code
Produção: Estados Unidos
Ano: 2006
Idiomas: Inglês, Francês, Latim
Diretor: Ron Howard
Roteiro: Akiva Goldsman, Dan Brown (romance)
Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno, Paul Bettany, Alfred Molina
Gênero: drama, mistério, thriller
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/

A tendência normal dos filmes feitos a partir da adaptação de obras literárias é diluir o conteúdo da obra e rebaixar a complexidade de sua mensagem. O cinema é o videoclip da literatura. O videoclip acabou com a possibilidade do ouvinte imaginar e fantasiar a música; o cinema fez algo parecido em relação à literatura. O cinema se tornou a forma mais imediata de representar a realidade, fornecendo a linguagem e as metáforas da cultura popular globalizada. Isso se deve ao fato de que os artefatos da sétima arte são muito mais acessíveis à percepção, embora o seu modo de produção seja caríssimo e o torne uma forma de expressão cuja prática está limitada a uma restritíssima minoria. A palavra escrita, cujo poder de expressão é substancialmente maior e cuja forma prática a torna infinitamente mais acessível, foi paradoxalmente relegada a um papel secundário na cultura.

Um livro é capaz de dizer mais que um filme. Mas há livros e livros. No caso do “Código da Vinci”, expressamente concebido para virar filme, o resultado parece invertido. O filme parece realizar mais plenamente a “intenção artística” contida no livro. O filme completa o livro, dá-lhe acabamento e forma final. O livro é o rascunho e o filme é a versão definitiva. Nesse caso, a imagem vale mais que mil palavras. Em um pouco mais de duas horas, os cenários, a música, o elenco, dão vida e conteúdo a uma história que vegetava nas páginas de leitura ligeira e compleição raquítica do livro. Em outras palavras, o filme é melhor que o livro. Ron Howard e equipe são melhores fazendo fimes do que Dan Brown como escritor.

Isso não significa porém que o filme seja mais profundo que o livro. Significa apenas que, no cinema, o charlatanismo, o escapismo, as emoções descartáveis, são muito mais disseminados e “aceitáveis” do que na literatura. Na verdade, o filme consegue tornar ainda mais superficial e diluído o conteúdo do livro. Também não significa que o filme seja bom e se sustente com as próprias pernas. O elenco é muito bem escalado, especialmente os coadjuvantes, mas falta química entre os protagonistas. O papel de Sophie Neveu foi drasticamene reduzido na película; todos os passos decisivos da trama cabem a Robert Langdon. Aqui evidentemente falou mais alto o poder do dinheiro hollywodiano em prol do astro estadunidense.

Se no livro havia uma disposição mínima para apontar alguns problemas político-ideológicos implicados nos dados históricos levantados a pretexto da trama, o filme passou uma plaina por cima de tudo. Não há disputa entre a concepção divina e a humana de Jesus, entre a divinização e a satanização da mulher, entre o banimento e o louvor ao sexo, entre a busca pela verdade e o obscurantismo da Opus Dei. No final das contas, todas as crenças são válidas, o que importa é ter fé, somos todos bonzinhos e até mesmo a Opus Dei e os setores mais reacionários do Vaticano não passam de peões no jogo de um velho ensandecido.

Se no livro estava colocada em discussão a causa iluminista e libertária da restauração da humanidade de Jesus, da reabilitação do sagrado feminino, da absolvição da sexualidade, através do combate ao autoritarismo clerical e à usurpação da filosofia de Jesus pelas seitas organizadas; no filme essa discussão está em último plano. Não há causa em jogo, o Santo Graal é só uma curiosidade arqueológica a satisfazer a vaidade de intelectuais-nerds-aristocratas.

Num filme feito para o mercado mundial, nada de tomar partido, de definir posições, de ferir suscetibilidades político-ideológicas e crenças religiosas. Ficar em cima do muro é a melhor política que os produtores de cinema conseguem conceber. Transformar toda a disputa de significados em torno dos símbolos mencionados no “Código da Vinci” em um simples jogo de gato e rato. Um jogo a princípio envolvente, esteticamente elaborado, realizado com elegância, mas afinal esquecível e descartável. É o que melhor sabem fazer os alquimistas da cultura industrial contemporânea.

Daniel M. Delfino
02/08/2006

29.5.07

"Império do terror": a economia em tempos de guerra





“O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas dos produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de liberar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que doutra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e portanto, com o passar do tempo inteligentes. Mesmo quando as armas de guerra não são destruídas, sua manufatura ainda é um modo conveniente de gastar mão-de-obra sem produzir nada que se possa consumir.”
George Orwell – 1984

O economista José Martins é membro do “Núcleo de Educação Popular 13 de Maio” e responsável pela redação do “Boletim Crítica Semanal da Economia” (www.criticasemanal.com), editado ininterruptamente há 20 anos. Em 2005, José Martins publicou o livro “Império do Terror – Estados Unidos, ciclos econômicos e guerras no início do século XXI”, dedicado a analisar as relações entre a dinâmica da economia capitalista e a recente escalada militar do governo estadunidense, com seu trágico corolário de conseqüências para toda a humanidade.

Neste pequeno e denso volume exercita-se uma leitura rigorosamente científica dos fatos e números da economia, em sua precisa articulação dialética, com ecos no conjunto da realidade social e política. É de uma tal leitura, pautada nas categorias da Economia de Marx, que esperamos poder resumir a seguir a argumentação.

No início dos anos 1970 os Estados Unidos anunciaram a desvinculação do valor de sua moeda do lastro das reservas de ouro. O dólar se desvalorizou violentamente. A principal moeda mundial passava a funcionar como pura medida abstrata de valor (tempo de trabalho), deixando de ter relação com uma medida concreta (metal precioso). Paradoxalmente, isso reforçou a hegemonia do dólar. O mercado financeiro internacional adquiriu uma virtual independência com relação às tentativas de regulamentação dos governos. Isso era reflexo da globalização produtiva em andamento desencadeada pela expansão das transnacionais e de sua necessidade de liberalizar os fluxos financeiros. A revolução financeira dos anos 1970 era a conseqüência dos processos que se desenvolviam no plano das relações materiais de expansão produtiva, quando refletidas no plano da circulação e da acumulação financeira.

A despeito de que o novo sistema fosse considerado inerentemente instável e inviável pelos economistas acostumados com a relativa estabilidade dos anos 1950 e 60, as autoridades econômicas estadunidenses reagiram ao processo com mais globalização. A década de 1980 representa a definitiva consolidação de um mercado mundial de bens industriais, que subordina a economia internacional aos ciclos internos de produção e consumo dos Estados Unidos.

A maioria dos analistas passou a ver nos processos em curso nas últimas três décadas do século XX os indícios de uma crise do sistema capitalista marcada pelo seu declínio, contra o pano de fundo de uma mítica expansão do pós-guerra. Entretanto, a simples financeirização da economia e liberalização dos fluxos monetários não implica necessariamente em crise e declínio. No caso dos Estados Unidos, a globalização funcionou como um veículo para a consolidação de sua hegemonia imperial, em substituição às antigas potências, num marco espacial determinado pela formação de um mercado mundial de bens industriais e principalmente, de força de trabalho. São esses desenvolvimentos concretos no plano produtivo material que estão na base dos movimentos erráticos e aparentemente caóticos das finanças e da globalização em geral.

A teoria dos longos ciclos estabelece que ao fim de cada onda secular de expansão econômica o centro do desenvolvimento capitalista passa a cumprir um papel de mero centro financeiro, preparando a transição para a afirmação imperial de um novo centro. Isso teria acontecido historicamente com os genoveses, os holandeses, os ingleses e agora com os estadunidenses, sucessivamente. O que essa teoria não explica é o fato de que, ao invés de decadência, os Estados Unidos experimentam o processo contrário, de centralização de seu poder imperial.

Em seu funcionamento concreto, a economia capitalista está determinada por ciclos periódicos de ascensão e declínio da acumulação. “Não existe crise permanente do capital, o que existe são crises periódicas em permanência” (Marx). Os ciclos são determinados por condições endógenas (dinâmica propriamente econômica da reprodução ampliada do capital) e exógenas (luta de classes em torno dos rumos da política econômica). No século XX, os ciclos econômicos do capitalismo mundial passaram a estar atrelados aos ciclos da economia estadunidense. Nesse processo de atrelamento, as demais economias mundiais, desde as mais poderosas até as mais periféricas, são sacrificadas para que se possa manter a lucratividade do capital no centro do sistema.

Esse movimento de atrelamento se realiza, na época recente, por meio de instrumentos de hegemonia político-ideológica como o FMI e os demais propagadores da “globalização”, do neoliberalismo, do “consenso de Washington”, etc.; bem como por meio do uso direto da força militar. O atrelamento torna o conjunto da economia mundial dependente do que ocorre no interior da economia mais poderosa do sistema, de um tal modo que tudo passa a girar em torno dos ciclos daquela economia.

A história econômica estadunidense revela uma seqüência de 31 ciclos econômicos entre 1854 e 1991, com uma média de 35 meses de expansão e dezoito meses de declínio. Esse padrão atravessou tanto os “trinta anos gloriosos do pós-guerra” como a fase de “longo declínio” a partir dos anos 1970 (o que invalida a tese das “grandes ondas” e da “estagnação permanente”). O que é relevante na análise desses ciclos da economia estadunidense é o seu entrelaçamento com a geopolítica imperialista. Os períodos de exceção à regra, onde a duração da fase expansiva do ciclo econômico excede em muito a média histórica são justamente os períodos em que os Estados Unidos estiveram envolvidos em guerras.

A Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã foram períodos de extraordinário crescimento econômico da economia estadunidense, impulsionado pelos gastos militares do Estado imperialista. Mais do que uma coincidência, isso revela um padrão. Os gastos militares funcionam, do ponto de vista estrito da esfera econômica, como uma forma de consumo improdutivo de capital, sem o qual o sistema não poderia escapar de suas contradições internas. Se toda a mais-valia social fosse consumida produtivamente em salários e meios de produção, o aumento brutal do produto social total assim obtido resultaria numa queda também brutal dos lucros dos capitalistas. Para evitar que isso aconteça, é necessário inventar alguma variedade de consumo improdutivo, como o do mercado de bens militares ou o de bens de luxo, cuja demanda artificial impede precariamente que a taxa de acumulação esbarre no limite mortal constituído pela inevitável queda dos lucros.

Em última instância, não há como impedir que essa contradição se materialize no interior das relações capitalistas de produção. A contradição pode ser temporariamente deslocada por meio de certos expedientes, como por exemplo, a guerra, mas não pode ser abolida sem a dissolução do próprio sistema do capital. A falta de demanda não é um problema que possa ser resolvido por meio de alguma sorte de regulação adequada do mercado por parte do Estado, como chegaram a acreditar setores da esquerda reformista, na esteira do aparente êxito das políticas anti-cíclicas keynesianas em meados do século. O paraíso perdido das esperanças regulacionistas ainda é o ópio que embala o sono do que restou da esquerda reformista, que se recusa a despertar para a dura realidade da luta de classes.

No plano da realidade, os Estados Unidos reforçaram seu poder imperial sobre o sistema capitalista mundial através de um duplo movimento no mercado de meios de destruição. De 1986, ainda em plena Guerra Fria, a 1994, a década do “fim da história” e da globalização, os Estados Unidos reduziram em 21% suas despesas militares, ao passo que a redução global foi de 35,2% (essa foi a base para a famosa desaparição do astronômico déficit público estadunidense na era Clinton). Ao mesmo tempo, aumentaram sua participação nos exportações mundiais de armas de 26% para 55% entre 1986 e 1996. Ou seja, ao mesmo tempo em que o consumo mundial total de armas decaía em números absolutos, a participação estadunidense no mercado armamentista crescia em termos relativos (uma alteração proporcional equivalente a 157%).

Os Estados Unidos exportaram para o mundo sua despesa com armas e as mega-corporações estadunidenses (Lockheed, General Electric, Boeing, etc.) ficaram com o lucro. Essa foi a base para o extraordinário ciclo de crescimento que se estendeu de 1991 a 2000, em que a taxa de acumulação do capital bateu recordes. O capital estava livre para ser investido em mais produção. O investimento em máquinas (crescimento de 12% ao ano no período) aumenta violentamente a produtividade do trabalho social, ou seja, a taxa de exploração. Cada vez menos trabalho humano é requerido para produzir cada vez mais mercadorias. No entanto, na medida em que se dispensa o trabalho humano, desaparece o consumidor que poderia comprar tais mercadorias. Na medida em que diminui o valor contido em cada mercadoria, aumenta a dificuldade do capital social total de realizar sua taxa de lucro.

Esse processo estava chegando ao limite no início dos anos 2000. A dificuldade para realizar a taxa de lucros atingiu em cheio dois grandes pilares da economia estadunidense, as montadoras GM e Ford, cujas dívidas somadas montaram a US$ 350 bilhões (quase o mesmo total da dívida externa da América do Sul). Estavam produzindo mais carros do que se pode comprar. Naturalmente, os economistas, na função de conjurar o fantasma da luta de classes que ameaça o sono dos capitalistas, lançam mão de suas superstições e crendices, as receitas de política econômica. Foi para permitir que esses gigantes com pés de barro rolassem suas dívidas que o FED (Banco Central estadunidense) reduziu as taxas de juros quase a zero.

O capital precisava continuar sua reprodução expandida, a despeito de que apenas na cidade de Nova York, 1 milhão de pessoas estivesse dependendo de doações para se alimentar. A clamorosa contradição que opõe de um lado o aumento da capacidade produtiva do trabalho social ao correspondente aumento da miséria de outro, contradição precipitada pelo simples funcionamento da economia capitalista, ainda é o principal argumento para a necessidade de construir uma outra ordem de reprodução sociometabólica.

Os economistas e demais porta-vozes do sistema não podem admitir a possibilidade da sua transformação radical, e assim são obrigados a se transformar em ansiosos e esquizofrênicos ouvintes de um oráculo imperscrutável, o mercado. Um dia exaltam as virtudes da “Nova Economia”, que teria livrado o capitalismo das suas crises periódicas e iniciado uma era de expansão infinita. No dia seguinte, quando as empresas pontocom viram poeira na bolsa NASDAQ, são obrigados a falar em “exuberância irracional”. Quando a luta de classes se impõe na prática, caso da bem-sucedida greve de 86 mil trabalhadores da gigante de telecomunicações Verizon, o realismo volta ao discurso e percebe-se que não existe Nova Economia nem Velha Economia, apenas economia capitalista e seus ciclos periódicos.

Os ciclos periódicos da economia capitalista se repetem com certa regularidade, mas cada ciclo deve ser relacionado às características históricas peculiares do período no qual se desenvolve. Como todo ciclo, aquele que se encerrou nos Estados Unidos em 2000/2001 esteve lastreado no setor de bens duráveis. Esse setor apresentou números impressionantes de crescimento do produto bruto e da produtividade e de redução do custo do trabalho. Entretanto, nesse mesmo ano 2000, auge do ciclo, o setor experimentou uma violenta inversão dos números, com queda da produtividade e aumento da remuneração e do custo do trabalho. Essa importante inversão, ocorrida no setor fundamental da economia capitalista, aquele no qual a mais-valia é gerada, não tardaria a causar impacto na reversão da tendência cíclica geral.

Ao contrário das teorizações sobre “nova economia” ou sociedade pós-industrial, ou ainda “sociedade da informação”, etc., o setor que impulsionou o extraordinário ciclo de crescimento dos Estados Unidos foi a produção de bens duráveis, baseado num violento incremento da produtividade do trabalho, ou seja, da taxa de exploração. A taxa de acumulação de capital (parte da mais-valia reinvestida em novos meios de produção) cresceu mais do que lhe permitia a taxa de lucro, que mede a realização do capital. Isso forçou uma brusca retração, que desvalorizou enormes porções do capital investido. A retração disseminou-se dos Estados Unidos para o mundo. A queda dos índices estava acontecendo de maneira sincronizada em todas as economias capitalistas centrais.

Incapaz de perceber a relação entre produtividade, taxa de mais-valia, taxa de acumulação e taxa de lucros, a mídia e os economistas passam a buscar a solução para o problema na sua superfície: redução ou elevação da taxa de juros pelo FED, como se uma administração virtuosa por parte do Estado pudesse sanar as contradições interiores da lógica do capital.

O capital é travado periodicamente por sua própria lógica. O crescimento da produtividade (exploração), permanentemente buscado pelos capitalistas, resulta em crescimento da mais-valia relativa; mas a redistribuição dessa mais-valia como produto social total, resultado da elevação da potência produtiva do trabalho humano (produtividade), resulta no momento seguinte em queda da taxa de lucro, que na superfície se transforma em crise do sistema ou “retração do ciclo” econômico.

As coisas se complicam quando as receitas dos Bancos Centrais deixam de funcionar, como no Japão, que por mais de dez anos abaixava as taxas de juros sem reaquecer a economia, contrariando os manuais de economia e sua lógica unilateral atada à mera superfície dos fenômenos. O mesmo processo estava acontecendo nos EUA de Greenspan em 2001. Para evitar a derrapagem geral, os EUA ingressaram numa nova era de unilateralismo, nacionalismo e isolacionismo, tipicamente exemplificada no plano político pela ascensão do círculo ligado a Bush.

O encerramento do ciclo periódico de crescimento que se fechou em 2000 depositou a pá de cal no que restava da ordem econômica e geopolítica inaugurada pelo pós-guerra, desarticulando as relações entre os Estados Unidos e os demais centros da economia capitalista. Isso significou o retorno a um tipo de ciclo econômico cujo exemplo mais dramático foi materializado por aquele que se fechou em 1929.

A queda da produção industrial estadunidense desceu a patamares antes verificados apenas no fim da Segunda Guerra Mundial ou mesmo na própria crise de 1929. Esse tipo de abalo estrutural não deixa de produzir conseqüências importantes no plano da superfície. Os setores comerciais e de serviços, que são dependentes da riqueza gerada no setor industrial, seriam duramente afetados. Da mesma forma, o setor financeiro o mais improdutivo de todos, estava caminhando um desastre iminente em meados de 2001.

A reação da parte dos gestores do sistema não tardou. Quando falham os remédios puramente econômicos, de curandeiros como Greenspan, entram em cena os tambores da guerra. As trombetas do Armagedon soaram em 11 de Setembro. A nova década seria marcada pelo signo da “guerra do terror”. O fantasma de um adversário global invisível, onipresente e virtualmente capaz de qualquer coisa, tornou-se um fator anti-cíclico indispensável para a combalida economia estadunidense. O consumo de Estado com gastos militares tornou-se a muleta que sustenta a economia mais poderosa do mundo. Uma muleta que atira para todos os lados: Afeganistão e Iraque foram as primeiras vítimas. O Irã pode ser a próxima.

A escolha do alvo não tem qualquer relação com uma ameaça concreta. Tem relação apenas com a necessidade de que exista um alvo. Sem esse alvo providencial, a grande roda não pode mais continuar girando. A conquista de territórios e de petróleo são objetivos materiais secundários; por trás deles, está a própria sobrevivência do sistema. O autoritarismo, o cerceamento dos direitos, a repressão, a censura, o terror de Estado da parte da administração Bush contra seus próprios cidadãos; são os efeitos colaterais.

Para “legitimar” os disparos da máquina de guerra estadunidense, basta afixar o cartaz de “wanted” e a foto de Bin Laden em todas as esquinas do “far west” global. A doutrina da “guerra preventiva” se viabiliza com a criminosa conivência da mídia diante dos absurdos ventilados por bonecos com Collin Powel ou Condoleza Rice. Mas nada mais poderia ser surpreendente em matéria de conivência do que a complacência para com o pior de todos os bonecos, o próprio George Bush.

Os fatos da política, como o 11 de Setembro, não se desenrolam num espaço vazio livre de determinações materiais, ou seja, econômicas. Eles estão profundamente articulados com os movimentos da economia em seus ciclos periódicos, expressando as medidas tomadas pelos capitalistas para administrar os momentos de ascensão e de crise de cada ciclo. Da mesma forma, a economia não funciona livre das influências políticas, girando mais ou menos devagar de forma totalmente desconectada das demais relações sociais. Pelo contrário, a precisa articulação entre as várias esferas da economia, da política e da ideologia constitui a via para alcançar o entendimento mais global da totalidade social-histórica. Justamente essa foi a contribuição de Marx.

A capacidade da economia estadunidense de sobreviver à crise dependeria da capacidade do Estado de suportar a degeneração das boas condições fiscais e de crédito público herdadas da era Clinton. Em meados de 2001, o crédito público e privado (tanto das empresas como dos consumidores) estava seriamente deteriorado. As falências e as demissões se multiplicaram. Megacorporações como a Enron viraram fumaça.

Mas o dólar suportou o baque. Ainda que houvesse perdas para dezenas de Enron e milhões de trabalhadores, o crédito público estadunidense tinha ainda gordura para queimar na época de vacas magras que se seguiu. Europa e Japão, ao contrário, seguiram prostrados. Quando a munição da FED perdeu seu poder de fogo, entrou em cena a munição propriamente dita do Pentágono. A diplomacia do “está conosco ou contra nós”, respaldada pela ofensiva militar no Oriente Médio, resultou em abertura comerciais, tratados bilaterais acintosamente assimétricos, liberalização comercial, beneficiando os Estados Unidos nas relações com as economias periféricas como a América Latina ou mesmo gigantescas, como a China. Não só em termos diplomáticos e comerciais, mas também em relação ao mercado de meios de destruição, os Estados Unidos reforçaram a superioridade de que gozavam na última década do século XX.

A globalização neoliberal daquela década, que ainda podia ser embalada pela canção de ninar da “nova economia”, “sociedade da informação”, “aldeia global”, telecomunicações, internet, indústria cultural, on-line, etc., transformou-se em neomacartismo global. A economia foi militarizada.

A militarização da economia produziu alguns efeitos anti-cíclicos, mas de forma débil. Ela impôs a regiões inteiras do globo, como a América do Sul, uma violenta deterioração das condições de vida, que por sua vez resultou em reação das massas. As políticas neoliberais destroçaram as economias nacionais do continente e ajudaram a consolidar a retomada do ciclo expansivo no centro do sistema (a partir de 2002), mas passaram a enfrentar lutas de resistência de massas.

A destruição militar e a econômica de capital, materiais e seres humanos sempre foi o meio natural encontrado pelo capitalismo para se reciclar e se relançar à expansão. O processo é sempre desigual e combinado, impondo perdas maciças, como as que ocorreram na Argentina em 2001, para que o sistema se revitalize. Contingentes gigantescos da população mundial são violentamente arremessados no abismo da pobreza e da indigência a cada crise cíclica.

O capital financeiro organiza a distribuição da mais-valia social de forma hierárquica, subordinando as economias nacionais por meio das políticas neoliberais de desregulamentação, liberalização, privatização, corte de gastos públicos, desindustrialização, revogação de direitos trabalhistas, gestão econômica recessiva, etc. A condição para que as classes dominantes locais continuem no poder consiste em destruir seus próprios países, aniquilar o que restar da soberania de Estados formalmente autônomos e açoitar cada vez mais a população explorada para extrair dela a contribuição que seus patrões requerem para viabilizar a continuidade da lucratividade do sistema em seu centro imperial. A América Latina está a um passo da recolonização formal direta.

O resultado prático das políticas neoliberais impostas pelo imperialismo globalizado às regiões periféricas do sistema como a América Latina não pode receber outro nome que não genocídio. É preciso destruir fisicamente populações inteiras, massas famélicas de miseráveis, raquíticos, enfermos, ignorantes, pois a sua existência não cumpre mais nenhum papel no ciclo econômico capitalista que se quer preservar. Para destruir fisicamente essa população, é preciso dobrar qualquer tipo de resistência que tenha se esboçado no seio dessas sociedades nacionais em frangalhos, qualquer traço de autonomia ou soberania mesmo que formal ligado às velhas ideologias do Estado nacional.

Assim como a crise econômica, o golpe contra Chavez exemplifica o novo modelo de recolonização globalizada a ser posto em prática: o golpe empossa não um militar, mas um empresário. O aparato repressivo do Estado apenas faz o serviço sujo, mas não se propõe a dirigir o Estado, pois não há mais Estado. Chavez foi derrubado não por suas medidas econômicas, pois continuava vendendo petróleo e pagando a dívida, mas por suas medidas políticas, os círculos bolivarianos, que adicionavam a faísca organizativa ao material inflamável das massas pauperizadas e insatisfeitas.

A ditadura diretamente econômica representa uma nova forma de subordinação das economias periféricas no interesse da administração capitalista das crises. Mas as antigas formas de superação capitalista não estão descartadas. Os ciclos econômicos do século XXI trazem de volta à tona os mecanismos “clássicos” que mergulharam o capitalismo nas crises e guerras da primeira metade do século XX: protecionismo, monopólio e guerra. Não é apenas a periferia do sistema que deve pagar pela crise, mas também os países centrais. Europa e Japão deverão também ser sacrificados para que a economia estadunidense continue crescendo.

Essas economias centrais em decadência passam a disputar então com os Estados Unidos a repartição do lucro dos empreendimentos ultramarinos de suas respectivas transnacionais, única forma de se relançarem a ciclos expansivos. Nas últimas décadas do século XX essa disputa era mediada por organizações como ONU e OMC, que conferiam uma aparência de “legitimidade” ao sistema internacional. Agora que os Estados Unidos invadem unilateralmente o Iraque ao arrepio da ONU e fracassam sucessivamente as negociações na OMC, torna-se patente a realidade do “cada um por si” da economia globalizada.

As antigas superestruturas burocráticas de gestão inter-imperialista tornam-se materialmente obsoletas. Sua utilidade residual consiste em continuar subordinando a periferia, enquanto não entrar em cena a recolonização direta. As lamúrias dos negociadores comerciais da periferia, como os diplomatas do agronegócio brasileiro, expressam, além de patética impotência diante do protecionismo imperial, um total desconhecimento de que os subsídios agrícolas dos países capitalistas estão fora de qualquer discussão de mercado, pois correspondem a imperativos internos de organização das classes e do território das antigas potências.

As recentes negociações da ALCA exemplificam essa obsolescência das “antigas” estruturas de regulação desenhadas na década de 1990. Ao invés de um acordo envolvendo todos os países do continente, a ALCA se transformou numa rede de acordos bilaterais, onde os Estados Unidos, individualmente, subordinam cada uma das economias do continente por meio de TLCs (Tratados de Livre Comércio). Expressa-se de forma brutal a contradição entre a articulação necessariamente global do sistema do capital e a realidade historicamente fragmentada de uma multiplicidade de Estados nacionais.

A relação entre os Estados Unidos e cada um dos países da ALCA depende das necessidades internas da economia estadunidense e determina por sua vez a política interna desses Estados periféricos sucateados. Os Estados Unidos não precisaram esperar o anúncio formal do fim da ALCA para anunciar o estabelecimento de acordos bilaterais violentamente assimétricos com países do continente. No horizonte político dos estrategistas imperiais, figura o aplastamento das FARC e do processo bolivariano impulsionado pela Venezuela.

Todos esses movimentos geopolíticos tem como objetivo a reativação do ciclo econômico no centro do império. Entretanto, a despeito de todos os estimulantes políticos, gastos com a “guerra ao terror”, ganhos com acordos comerciais assimétricos, etc., as estatísticas econômicas estadunidenses ainda não apontavam para um incremento da taxa de acumulação, capaz de indicar a reversão do ciclo. A recuperação mediada pela guerra mostrou-se frágil. E aponta para algumas contradições cruciais: setores inteiros da economia estadunidense continuam de fora da recuperação experimentada pelo complexo industrial-militar.

Além disso, países inteiros, como Europa e Japão, que constituem junto com os Estados Unidos o centro da economia mundial, também não experimentam os benefícios desse keynesianismo de guerra, uma vez que não estão autorizados pela hierarquia imperial a exercer qualquer papel de polícia global. A guerra é um “privilégio” dos Estados Unidos, mas pode deixar de sê-lo, na medida em que a agudização dos desequilíbrios econômicos obrigarem as demais potências a reler Maquiavel: “os príncipes erguem fortalezas não contra o inimigo exterior, mas contra o inimigo interior”. Para contornar suas crises internas, os demais Estados nacionais podem ser precipitados a reinaugurar uma era de corridas armamentistas e instabilidade política global.

Enquanto isso, no centro do sistema, a deterioração econômica prossegue. Já vimos que a recuperação mediada pelos gastos militares é débil e desigual. Ela afeta também os próprios fundamentos da economia, pois o déficit público ressurge como uma ameaça bastante palpável. Historicamente, os gastos militares megalomaníacos e irresponsáveis costumam soar o toque fúnebre para os impérios, e não a pretendida alvorada dos “Reich de mil anos”. Manter a ocupação do Afeganistão e do Iraque e multiplicar as frentes de intervenção (Irã, Síria, Líbano, Palestina, Ásia central, Coréia do Norte, Cuba, Colômbia, Venezuela, etc.), pode custar muito mais caro do que sonha a vã beligerância dos obtusos falcões do Pentágono.

A continuidade da recuperação capitalista dependeria não da “guerra ao terror” externo, mas da luta de classes contra o inimigo interno. Em fins de 2002 eclodiu uma greve de duas semanas dos trabalhadores dos portos da Costa Oeste estadunidense. A greve teve de ser debelada pela intervenção direta do governo federal, o que não acontecia desde 1947. O mercado estava exigindo a deterioração das condições de vida da classe trabalhadora para continuar lucrando. Esse processo multiplica os conflitos, o que obriga o sistema a buscar saídas diversionistas. É o que acontece em 2006, com a lei de expulsão dos imigrantes. A classe trabalhadora é artificialmente dividida em raças e religiões para que não unifique sua luta. A resposta dos imigrantes foram as massivas manifestações de 1º. de Maio.

Para evitar a agudização da luta de classes, o imperialismo lança mão da luta militar pela conquista direta de territórios. A invasão do Iraque em 2003 foi um exemplo desse procedimento. Entretanto, ao invés de fazer a economia decolar, essa aventura fez explodir o endividamento público. O imperialismo armou para si mesmo uma perigosa armadilha no Oriente Médio. Trata-se de uma guerra que os capitalistas devem vencer ou vencer, do contrário a economia não decola, as ações se desvalorizam, o preço do petróleo sobe, o endividamento fica fora de controle, o dólar perde o valor, etc. Precisamente isso é o que está acontecendo neste momento, na medida em que a guerra se prolonga. A história está congelada em câmera lenta com suas contradições aparecendo na tela da CNN como um “replay” interminável das mesmas cenas e notícias.

Se na superfície a história pode parecer congelada, nos seus fundamentos a deterioração econômica prossegue. O ciclo expansivo iniciado em 2002 foi muito mais tímido do que necessitavam os EUA e seus sócios europeus e japoneses. Globalmente, a economia continuou patinando em gelo fino, experimentando uma recuperação muito frágil e permanentemente ameaçada. Sem o aprofundamento da globalização, ou seja, da formatação da força de trabalho global, o capitalismo não pode continuar progredindo. Isso explica a continuidade da vigência da pauta neoliberal em cenários como a América Latina, de quem se espera que continue pagando a conta da recuperação às custas da miséria da sua população trabalhadora.

A reformatação da força de trabalho global significa uma redefinição da divisão internacional do trabalho, ou seja, uma reestruturação das hierarquias entre os países capitalistas, em favor das potências dominantes. Os Estados Unidos celebram acordos de cooperação militar com o antigo cinturão de países satélites da URSS, isolando simultaneamente Europa e Rússia. De outro lado, estabelecem protetorados militares na Ásia Central, de modo a dispor de uma cabeça-de-ponte permanente para intervir no Oriente Médio e arbitrar os interesses estratégicos da Rússia e da China na região.

Todas essas ações de política externa, gastos de guerra, acordos comerciais, combinada com a política interna de corte de juros, frouxidão fiscal, endividamento das famílias, desvalorização do dólar, e principalmente, aumento da exploração da força de trabalho; ajudaram a produzir a recuperação econômica a partir de 2003, que perdura até hoje. O fator preponderante continua sendo o complexo industrial-militar. A intervenção do Estado prevalece sobre a iniciativa privada. A intensidade da recuperação é tímida em relação aos ciclos anteriores (estado semi-estacionário). E o que é mais importante, a recuperação do centro depende de políticas protecionistas que desarticulam as relações entre as potências imperialistas.

O protecionismo é a face econômica da política unilateral agressiva dos Estados Unidos. De 2004 em diante, com a reeleição de Bush, essa política passou a estar cada vez mais respaldada em ideologia religiosa cristã conservadora fundamentalista. Com Bush a religião passou a estar no centro do debate público, sob a forma de uma disputa entre o Bem e o Mal. A teologia se torna instrumento de justificação da guerra por mercados, cobrando o sacrifício de vidas humanas no Iraque, no Líbano, etc.

A próxima crise econômica no centro do sistema deverá eclodir em algum momento no futuro próximo. Nesse momento, as forças do imperialismo estarão travando a guerra pela própria sobrevivência da lógica do capital. De outro lado, as forças da classe trabalhadora mundial precisam se organizar para enfrentar e resistir às agressões que virão. A luta dos trabalhadores constitui o único e necessário antídoto para a destrutividade do capital que ameaça a humanidade.

A economia é capitalista, o terror é imperialista. A economia mundial nunca dependeu tanto de guerras como as que marcaram o início do século XXI. Não eram apenas imagens de guerra. Era a própria economia capitalista mais uma vez sofrendo antecipadamente as dores de uma depressão global. Economia e conflitos militares se reencontrando em uma indissolúvel unidade. Em processo. Era o verdadeiro rosto do Armagedon: o futuro da maior economia do planeta dependendo tragicamente do desempenho dos mísseis de Bush, que cruzavam aos milhares os céus de Bagdá procurando o esconderijo de Saddam e dos seus trêmulos soldados com seus tanques se arrastando penosamente pela areia, em meio à infernal poeira e o calor escaldante dos desertos da velha e sagrada Mesopotâmia.”
José Martins – Império do Terror

Daniel M. Delfino
19/05/2005

28.5.07

Para além do capital: 2ª leitura




Há cerca de um ano este escriba comentou as impressões de sua primeira leitura do livro “Para além do capital”, de István Mészáros, apresentando a obra nos termos mais favoráveis possíveis. Finalizada agora uma segunda leitura chega o momento de retificar e enriquecer aquele comentário.

A retificação diz respeito especialmente à escolha do título utilizado para o comentário de então: “Um outro mundo é possível: ‘Para além do capital’”. Esse título acabou por associar o conteúdo do livro ao movimento do Fórum Social Mundial (F.S.M.), que adota como slogan a frase “um outro mundo é possível”. A retificação que aqui se faz se propõe a assinalar que o livro de Mészáros vai muito além da afirmação básica contida nesse slogan, pois procura delinear de forma muito concreta e palpável de que maneira “um outro mundo é possível” para além das estreitas determinações do mundo do capital.

A escolha do título para um texto é por vezes um dos momentos mais difíceis de sua elaboração. No caso específico a escolha se deu por uma consideração de ordem menos conceitual do que prática: de que maneira tornar o texto mais atraente para um maior número de pessoas? O slogan “um outro mundo é possível” usado como título do comentário foi considerado como suficientemente amplo para atrair todo um vasto espectro de leitores unidos pelo mínimo denominador comum de rejeitar o mundo atual tal como ele está. O subtítulo do comentário, “Para além do capital”, que é o próprio título do livro a ser comentado, sinaliza de que maneira este escriba considera possível um outro mundo, ou seja, pela superação das limitadas margens do mundo do capital.

Entretanto, essa sinalização não parece agora suficientemente clara. Se o subtítulo determina e precisa o sentido do título, por sua vez o título, dialeticamente, subordina e obscurece o sentido do subtítulo. O subtítulo indica que “um outro mundo é possível” somente em se partindo “Para além do capital”, o que corresponde muito fielmente à posição contida no livro (e às intenções do escriba). Mas o título “um outro mundo é possível”, pode dar margem à problemática interpretação de que o livro “Para além do capital” endossa sem maiores problemas o movimento que usa essa frase como slogan, ou seja, o movimento do F.S.M.. A retificação aqui proposta diz respeito à necessidade de reparar a ambigüidade em que se origina essa possível interpretação limitadora.

Evidentemente, o livro “Para além do capital” concorda em termos gerais com o slogan “um outro mundo é possível”, pois esse é seu ponto de partida necessário. Em seu próprio conteúdo, o livro parte concretamente do pressuposto de que, sob os marcos da sociabilidade do capital, nenhum mundo é possível. Considerando-se a necessidade imperiosa de construir uma nova forma social, em face da inviabilidade crônica do sistema do capital, a rejeição do mundo tal como está (em nome do “outro mundo possível”) é o pressuposto lógico anterior a qualquer frase como o título do livro “Para além do capital”. É assim que o título escolhido para o comentário anterior se justifica ao menos parcialmente.

O livro é nesse sentido parte do esforço do autor para colaborar na construção do “outro mundo possível”. O próprio Mészáros esteve presente como palestrante em todas as edições do F.S.M., explicitando suas posições com base em um acordo político básico com os demais participantes do evento. Essa concordância lógica e política de princípios não pode ser confundida com um endosso completo. Se a frase “um outro mundo é possível” pode ser considerada positivamente um mínimo denominador comum de todos os movimentos que lutam pela transformação social, em seu sentido negativo ela não passa disso, ou seja, de um ponto de partida muito mínimo e limitado.

Sob esse ponto de partida mínimo abre-se um amplo guarda-chuva de posições políticas e teorias sociais, debaixo do qual está abrigado Mészáros e seu livro, mas estão também teses e programas que guardam muitos elementos de atraso e imprecisão que inviabilizam as margens objetivas de ação transformadora conseqüente. Evidentemente, o F.S.M. não é um movimento monoliticamente organizado, mas, como seu próprio nome diz, um espaço de discussão, para o qual convergem inúmeras tendências unificadas por aquele mínimo denominador comum de defender o “outro mundo possível”. Se esse mínimo denominador comum é suficientemente amplo e democrático para abrigar a todas essas correntes e tendências, o que constitui seu aspecto positivo mais louvado; é também suficientemente vago e impreciso para não ter resultados teóricos e organizativos praticamente aplicáveis numa intervenção material imediata.

Essa análise dos pontos positivos e negativos é a mesma de todos os que se debruçam sobre o fenômeno do F.S.M., porém nesse momento é oportuno aprofundá-la de um ponto de vista “meszariano”. Para dizer de modo bastante direto, qualquer que seja o “outro mundo possível” proposto pelos participantes, se não se rompe com a lógica do capital, ainda se trata do “mesmo mundo” dentro do qual é impossível continuar vivendo. Dentre os participantes abrigados sob o vasto guarda-chuva do F.S.M. estão inúmeros movimentos, tendências, correntes mais ou menos organizadas, partidos e até governos que NÃO colocam a necessidade da ruptura com a lógica do capital como ponto de partida para a realização do “outro mundo possível”.

Esse “outro mundo possível” que não rompe com a lógica do capital seria um mundo onde as meias-medidas de controle “social” tentariam atenuar o caráter essencialmente desumano do sistema, sem ousar conseqüentemente desmontá-lo como um todo, ou sequer desafiá-lo. Medidas como o perdão das dívidas dos países miseráveis, a taxação dos capitais especulativos, os esforços pela paz nas zonas de conflito, o reforço de instituições de ajuda humanitária como as da ONU, a implantação de regulamentações como as do Protocolo de Kyoto, etc., são todas muito desejáveis, mas muitíssimo limitadas.

Ainda que tais concessões limitadas pudessem ser arrancadas ao capital (nada indica que possam sê-lo) pelas vias institucionais da política burguesa, ou seja, partidos social-democratas ou verdes, isso somente seria factível num contexto em que as margens de acumulação do capital comportassem uma acomodação parcial de interesses materiais entre as frações particulares dos diversos capitais nacionais. Ora, o contexto vigente expressa precisamente o contrário, ou seja, um conflito aberto entre os diversos capitais nacionais em busca de ciclos de lucratividade cada vez mais estreitos, precisamente porque precariamente lastreados em surtos de especulação financeira desregulamentada e desvinculada das trocas econômicas materiais, nas quais esbarra-se numa mal-disfarçada guerra protecionista por mercados.

Sem um movimento social de massa como base material de tais demandas “anticapitalistas”, as conquistas “humanizadoras” assim obtidas seriam retomadas no minuto seguinte, assim que as necessidades da acumulação impusessem uma nova escalada da disputa entre as frações do capital. Ainda que a iniciativa do F.S.M. fosse bem sucedida e encaminhasse para que o conjunto das forças sociais organizadas conseguisse emergir unificado como interlocutor global do sistema do capital, não haveria com quem dialogar, pois o sistema do capital global pode ser qualquer coisa menos um interlocutor racional, dada a sua articulação necessariamente hierárquica e conflitiva.

Se em seu centro o sistema é representado pela máfia do petróleo e dos mísseis de Bush, na periferia ele encontra sua personificação na turma do mensalão de Lulla. Ambos representam interesses parciais e limitados, como os da indústria armamentista e do petróleo, e os dos bancos, respectivamente. Esses interesses continuam a se impor substantivamente na esfera material da reprodução social, ainda que possam ser contestados formalmente na esfera da luta política. Isso acontece porque a esfera da política, na qual atuam preferencialmente os participantes do F.S.M. que não apontam a necessidade da ruptura com o capital, na verdade, a maioria deles; é precisamente a esfera em que se legitima cotidianamente a continuidade da forma de controle sociometabólico determinada pelo capital. O Estado é um componente inseparável do sistema do capital, e não há como superar um desses componentes sem superar simultaneamente o outro. É por isso que o mundo que não rompe com o capital continua sendo o “mesmo mundo impossível”.

A tese da unidade fundamental entre capital e Estado, que juntamente com o trabalho assalariado constituem o tripé do sistema, é uma das teses centrais de “Para além do capital”, o que expressa a radicalidade da obra. Radicalidade que o diferencia substancialmente do eclético guarda-chuva onde foi arbitrariamente colocado por aquele título um tanto infeliz aplicado no comentário do escriba.

Explicando-se assim o lugar especial que ocupa Mészáros no debate proposto pelo F.S.M., é necessário ainda de algum modo tentar indicar aqui de maneira um pouco mais precisa porque as posições contidas em “Para além do capital” o tornam tão peculiar. Reafirma-se o que foi dito no comentário anteriormente publicado: tentar “condensar” ou “resumir” o conteúdo de uma obra dessa envergadura no espaço como o de uma resenha neste blog é uma ousadia que resvala na irresponsabilidade criminosa, se se quer ser minimamente fiel a esse conteúdo. Entretanto, formular uma linha geral de interpretação que possa servir de indicação e guia para quem se propõe a ler o livro é o dever de quem se arrisca a resenhá-lo, especialmente por uma segunda vez.

Sem ser um livro de História propriamente dito (ainda que se apóie copiosamente em fatos e exemplos concretos), “Para além do capital” empreende uma releitura radical do século XX, de modo a colocar em seus devidos lugares as questões que a ideologia apologética do capital apresenta de ponta-cabeça. O século XX é visto como aquele em que se deu uma tentativa fracassada de substituir o capitalismo pelo socialismo. Dado esse fracasso, o capitalismo se reafirma historicamente como o único tipo de “mundo possível”.

Contrariando frontalmente essa versão, Mészáros afirma que o século XX foi aquele em que o movimento socialista fracassou em se articular como resposta conseqüente à sua tarefa de superar o capital, porque se limitou a tentar superar o capitalismo, concentrando esforços particularmente infrutíferos em sua superestrutura política. Não foi o socialismo que tentou substituir o capitalismo, mas o capitalismo que foi bem-sucedido em impedir a aparição do socialismo. Desgraçadamente, para o nosso azar, o sistema do capital conseguiu até aqui impedir a afirmação de uma efetiva solução para os problemas humanos, sob a forma do socialismo. Na ausência dessa solução, os problemas crônicos reaparecem repostos sob novas bases ampliadas, recolocando dramaticamente na ordem do dia a disjuntiva férrea de Rosa Luxemburgo: “socialismo ou barbárie”.

A tarefa continua de pé em face da crise do sistema do capital, que se manifestou já no início do século XX, desencadeando aquelas problemáticas tentativas de superação. Se as duas Guerras Mundiais e a competição artificial da Guerra Fria, com seus monstruosos corolários de destruição, puderam adiar o enfrentamento do sistema do capital com sua crise estrutural, manifesta no último terço do século, somente uma caricatura grosseira e politicamente interessada da realidade pode apresentar a bárbara sobrevida do capitalismo em sua forma política neoliberal como evidência de seu triunfo numa era de gloriosa “globalização”. A hegemonia da economia política neoliberal, que tenta violentamente destruir as conquistas sociais dos trabalhadores tanto nos países centrais como na periferia, é uma demonstração da forma necessariamente autoritária e anti-social que o sistema deve assumir no contexto de crise para administrar seus antagonismos internos insuperáveis.

Dissemos que o movimento socialista fracassou porque tentou superar o capitalismo, em vez de superar o capital. Tratamos aqui do tema essencial de “Para além do capital”, a separação entre capitalismo e capital, e a análise dos componentes estruturais do sistema, como o Estado, que deve ser posto sob uma crítica cerrada, se não se quer repetir os erros do passado. O desafio continua de pé e os obstáculos se apresentam quase intactos sob as novas circunstâncias históricas do século XXI. A viagem prossegue, com uma próxima parada programada para o final da terceira leitura.

Daniel M. Delfino
08/05/2005

"Lobo solitário": honra e glória da cultura samurai


(Comentário sobre o mangá "Lobo Solitário")



Nome original: Kozure Okami (no Japão, edição de 1995), Lone Wolf and Cub (Estados Unidos, editado em 2001)
Versão brasileira em 28 exemplares, publicados entre 12/2004 e 04/2007
Editora Panini Comics

Da próxima vez que passar batido por uma banca de jornal, você pode estar deixando para trás, no meio de toneladas de lixo impresso, como as Vejas e revistas de fofocas, um verdadeiro tesouro da literatura universal. Esse tesouro se esconde, surpreendentemente, na seção de gibis, mais especificamente, na subseção de mangás, os gibis japoneses, e atende pelo nome de “Lobo Solitário”. Este clássico mangá, mais do que um simples gibi, alça-se à altura de uma obra literária no sentido mais pleno da palavra.

Para entender como uma obra de autêntica literatura pode ter ido parar na seção de gibis, é preciso ter em mente as diferenças entre o mercado editorial brasileiro e o japonês. O mercado de gibis no Japão é infinitamente mais diversificado do que no Brasil e mesmo nos Estados Unidos e na Europa. Lá se encontram mangás sobre todos os temas e para todos os públicos, de executivos a donas de casa, de infantis a eróticos, de samurais a monstros espaciais. Na terra do sol nascente, os pequenos volumes em branco e preto produzidos em massa são encontrados nas mãos de qualquer pessoa e em qualquer ambiente, devorados avidamente nas filas, nas praças e nos vagões de metrô.

No meio da avalanche editorial dos mangás, verdadeiras obras-primas são eventualmente produzidas, como é o caso de “Lobo Solitário”, publicado originalmente na década de 1970. Com mais de 8.000 páginas, o clássico do roteirista Kazuo Koike e do desenhista Goseki Kojima alcançou imediato sucesso de público e consagração da crítica. Em poucos anos o mangá que conta a história do samurai Ito Ogami chegou aos Estados Unidos e se tornou uma das influências fundamentais do grande Frank Miller, mestre absoluto das HQs estadunidenses.

No Brasil, “Lobo Solitário” já foi lançado duas vezes sem sucesso, no início dos anos 90, quando os mangás e animes (desenhos japoneses) não estavam na moda e eram cultuados por uma reduzida tribo de fanáticos. Esses fanáticos quedaram irremediavelmente deslumbrados pela violência avassaladora e pelo refinamento visual e narrativo deste inigualável mangá. Infelizmente, apenas uma pequena parte da epopéia veio a ser conhecida dos leitores, pois essas duas fragmentárias tentativas de publicação naufragaram na estreiteza do mercado brasileiro. Estes fanáticos agora esperam ardentemente que o novo lançamento cumpra a promessa de completar a publicação da história.

“Lobo Solitário” é pois um mangá de samurai. O samurai do título, Ito Ogami, não é na verdade solitário, pois perambula pelo Japão levando consigo seu filho de três anos Daigoro, num carrinho de bebê. Ele é conhecido em alguns lugares pelo bizarro apelido de “assassino do carrinho de bebê”. Ito Ogami também não é na verdade um samurai. Ele é um “ronin”, um samurai sem mestre. No sistema feudal japonês, o soldado sem suserano está automaticamente excluído da sociedade, condenado a cometer suicídio em nome de sua honra ou vagar pelo país como ladrão ou mendigo.

Entretanto, Ito Ogami não é um ronin comum, porque seu mestre não era um suserano qualquer. Ogami era vassalo do próprio Shogun, o ditador militar que governava o Japão, eclipsando a dinastia imperial. O cargo de Ogami era um dos mais prestigiosos dentro da hierarquia do poder shogunal. Ele era o “kogi-kaishakunin”, o decapitador, o carrasco, o executor oficial do Shogun. Os nobres rebeldes, derrotados, caídos em desgraça e condenados pelo governo eram obrigados a cometer “seppukku”, o suicídio ritual, cortando as próprias vísceras com um punhal, ajoelhado na presença de oficiais da corte, num suplício extremamente doloroso. Um dos oficiais presentes era o executor, encarregado de decepar a cabeça do condenado com um único golpe de espada, pondo fim ao sofrimento.

Esse era o trabalho de Ogami e para isso ele foi selecionado entre as mais nobres famílias e os mais habilidosos espadachins. A ascensão de Ogami ao posto de kaishakunin nunca foi aceita pelo clã rival dos Yagiu, que sempre cobiçaram o poder. Assassinos e espiões do Shogun, os Yagiu tramaram para que o clã Ogami caísse em desgraça perante o governo. A família inteira foi massacrada, restando apenas Ito Ogami e seu pequeno filho Daigoro. Ogami podia optar por cometer suicídio como os nobres a quem executara, ou tornar-se um proscrito e vagar pelo país como uma sombra amaldiçoada e sem honra.

Convencido de que o governo do Shogun se tornara corrupto e indigno, Ogami escolhe degradar-se como ronin e viver como assassino de aluguel. Assim ele espera chamar a atenção dos oficiais do governo para a injustiça de que foi vítima, jogando a traição dos Yagiu na própria face do shogunato. Os Yagiu, por sua vez, farão de tudo para se livrar de Ogami e acobertar os detalhes de sua indigna ascensão. Ito Ogami, o ex-executor oficial do Shogun, se torna um assassino de aluguel e passa a oferecer suas inigualáveis habilidades com a espada a quem quer que possa pagar o preço de 500 “ryos” (peças de ouro).

Fiel a seu sentido particular de honra, o Lobo Solitário se entrega a uma vingança que se prolonga em intermináveis e cegas matanças. Entretanto, a justiça também é cega, e a espada de Ogami, embora comprada a peso de ouro, sempre acaba encontrando um modo moralmente correto de agir. Como um perfeito herói budista, ele encontra o caminho do meio entre as tentações e intrigas do mundo.

A escolha de Ogami de tornar-se ronin serve de pretexto para que o roteirista Kazuo Koike coloque seu personagem em todas as situações imagináveis e em todos os tipos de intrigas. A história é estruturada em centenas de pequenos episódios, que podem ser lidos de forma tematicamente independente, sem uma seqüência narrativa obrigatória. Como um quebra-cabeça que se forma aos poucos, a trama de que Ogami foi vítima e os detalhes de sua rivalidade com os Yagiu se descortinam lentamente diante do leitor. A pressa ocidental, que quer a qualquer custo saber se Ito Ogami teve sucesso em sua vingança, deve ser posta de lado, em nome da paciência oriental que sabe que, mais importante do que o destino, o que importa é a própria viagem.

A nova publicação brasileira da viagem do “Lobo Solitário” tem o mérito de seguir a forma tradicional de leitura dos mangás, em que os quadrinhos devem ser lidos de “trás para frente” e da direita para a esquerda. Por outro lado, a nova publicação optou por um formato de página reduzido, que não beneficia a refinada arte de Goseki Kojima. Os quadrinhos por vezes são pequenos demais e a leitura dos balões um tanto incômoda.

Mas isso são detalhes que um fanático despreza pelo simples prazer de ter em mãos essas páginas impecáveis. Se o seu conteúdo, por força da complexidade narrativa e da intensidade dramática, merece ser chamado de literatura, o seu visual se equipara ao do cinema. Há momentos em que apenas as imagens carregam a história. Há páginas e páginas sem uma palavra escrita sequer. Toda a tensão da narrativa está nos olhares e nos gestos dos personagens, ou se dissolve no significativo silêncio de paisagens pitorescas e idílios zen.

É claro que além de densidade narrativa e refinamento visual, “Lobo Solitário” oferece também ação em doses fartas. Cada um dos episódios de que se compõe a história se resolve invariavelmente num duelo de espadas, onde o mestre Ogami demonstra sua indiscutível superioridade diante de adversários mortalmente surpresos. O desprezível ronin mostra-se afinal um guerreiro imbatível, um mestre consumado em todas as artimanhas e estratégias da luta de espadas e da arte da guerra em geral, para surpresa dos que o menosprezaram. Nesse aspecto, não se trata de um gibi para crianças, mas de uma obra madura, extremamente violenta e sanguinária.

Claro que além do interesse estético que desperta e da ação vertiginosa que exibe, o mangá serve também como um alentado documento histórico. Por meio da viagem sem fim de Ogami, podemos observar um amplo painel da sociedade japonesa do Período Tokugawa. Nobres, samurais, ronins, clérigos, artesãos, comerciantes, camponeses, bandidos (yakuza), artistas, crianças, ninjas, gueixas, todos desfilam diante do leitor, atravessando o caminho de Ogami e Daigoro como máscaras num teatro. Ficamos assim conhecendo os costumes, tradições, lendas, narrativas, mitos, elementos culturais característicos de uma época crucial para a definição do caráter do povo japonês.

O Período Tokugawa, no qual se desenrola a história do ronin Ito Ogami, é atravessado por uma contradição fundamental que diz respeito ao papel social dos samurais. Esse período se inicia com a batalha de Sekigahara, em 1600, na qual Tokugawa Yeyasu derrotou a coligação de seus rivais e pôs fim a um século de guerras civis entre os nobres que se digladiavam pelo posto de Shogun. A dinastia Tokugawa passou a governar de maneira incontestável até 1868, quando foi deposta pela Revolução Meiji. Nesses mais de 200 anos, o Japão se fechou totalmente à influência exterior, desenvolvendo uma forma peculiar de estrutura social.

A sociedade Tokugawa era rigidamente estratificada. Camponeses não podiam usar armas. Samurais não podiam trabalhar na terra. Uma classe deveria viver à custa de tributos cobrados da outra. O valor de uma província se media pela quantidade de sacas de arroz que ela podia produzir anualmente, que dava a medida da quantidade de samurais que podia sustentar. Os samurais nasciam samurais, assim como os camponeses nasciam camponeses, e a mesma coisa com relação a artesãos, comerciantes, etc. Era impossível passar de uma classe social para outra. O sistema de classes se transforma num sistema de castas hereditárias. Apesar da sua rigidez, a Era Tokugawa foi um período de relativa paz social e de razoável prosperidade econômica, com grande explosão populacional. Não havia mais guerras entre os nobres, de modo que todos podiam trabalhar em paz.

Mas se não havia mais guerras, qual era a utilidade dos samurais? Justamente no momento em que os samurais se tornam guerreiros no sentido pleno da palavra, eles se tornam também socialmente inúteis. Foi apenas na Era Tokugawa que o modo de vida dos samurais foi institucionalizado com o nome de “bushido”, o “caminho do guerreiro”. Antes disso, na época das guerras civis, havia uma confusão natural entre as classes e uma maior “frouxidão” de costumes. Camponeses usavam espadas, soldados fugiam da derrota, plebeus se tornavam governantes, etc. Quando essa Era de guerras civis terminou, os samurais tiveram que idealizar o passado. Racionalizaram sua própria condição social e se dedicaram a tornar-se samurais propriamente ditos.

Foi então que os ideais de honra e de sacrifício ganharam proeminência na cultura japonesa. O mito do samurai que se sacrifica por seu mestre é uma espécie de tipo romântico tardio, que não correspondia à realidade social do período em que os samurais de fato duelavam, mas se tornou um mito extremamente popular. Sendo mito ou não, e sendo o samurai socialmente inútil ou não, o bushido inspirou o aparecimento das artes marciais e de uma estética japonesa peculiar, como a da curiosa e sofisticadíssima cerimônia do chá, cultivada pela classe samurai. A ética do bushido era levada extremamente a sério por autênticos samurais, entre os quais o personagem de Ito Ogami aparece como um exemplo consumado.

O fato de que o maior dos samurais tenha que se tornar um ronin mostra que havia algo de podre no reino dos espadachins. O poder da dinastia Tokugawa em Edo (Tóquio) era incontestável e todos os pequenos nobres das pouco mais de duas centenas de províncias sabia disso. Ninguém ousaria desafiá-lo para a guerra aberta pelo poder. Restava aos clãs nobres lutar entre si pelos favores do governo central ou para roubar as terras dos rivais. Para isso, precisavam desacreditar esses rivais perante o governo, o que era conseguido com o emprego de espiões (ninjas) e assassinos, o que constitui terreno fértil para as tramas de intrigas.

O Lobo Solitário trafegava por essas intrigas e saía ileso. Seu destino trágico era a máxima expressão da contradição do bushido. Indiferente a seu próprio futuro, ele tomava a estrada tranqüilamente, como uma folha ao vento, à espera da próxima missão, ou de uma tocaia iminente de seus inimigos, à espreita atrás da próxima curva...

Daniel M. Delfino

07/02/2005

8.5.07

"Rei Artur": cadê o Cálice Sagrado?


(Comentário sobre os filmes “Rei Arthur” e “Tróia”)



Nome original: King Arthur
Produção: Estados Unidos, Irlanda, Inglaterra (UK)
Ano: 2004
Idiomas: Inglês, Latim, Gaélico
Diretor: Antoine Fuqua
Roteiro: David Franzoni
Elenco: Clive Owen, Ioan Gruffudd, Mads Mikkelsen, Joel Edgerton, Hugh Dancy, Ray Winstone, Ray Stevenson, Keira Knightley, Stephen Dillane
Gênero: ação, aventura, drama, guerra

Nome original: Troy
Produção: Estados Unidos, Malta, Inglaterra (UK)
Ano: 2004
Idiomas: Inglês
Diretor: Wolfgang Peterson
Roteiro: Homero (poesia), David Benioff
Elenco: Eric Bana, Orlando Bloom, Julian Glover, Brian Cox, Nathan Jones, Adoni Maropis, Jacob Smith, Brad Pitt, John Shrapnel, Brendan Gleeson, Diane Kruger, Siri Svegler
Gênero: ação, drama, história, romance

Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/

Está em cartaz um novo filme contando a história do Rei Artur. Assim como a recente produção de “Tróia”, este novo “Rei Artur” fica bastante aquém na tarefa a que se propõe de apresentar uma versão do que teria sido a história real que deu origem às lendas. Lendas que por sua vez deram origem à literatura. No caso de “Tróia”, o fracasso é ainda mais estrepitoso, visto que a “Ilíada” é o marco fundador da literatura ocidental.

Adaptar uma obra literária para o cinema não é uma tarefa fácil. Não é sempre que se tem disponível a paixão e a capacidade de um Peter Jackson, responsável pela monumental trilogia “O Senhor dos Anéis”, para fazer o serviço. E por falar nisso, é evidente que o sucesso artístico e comercial da saga do Um Anel foi o exemplo que inspirou aos executivos de Hollywood a idéia de revisitar alguns mitos literários clássicos e transformá-los em filmes épicos. O resultado são as produções caça-níqueis com que fomos brindados, “Tróia” e “Rei Artur”, que nem sequer arranham a densidade literária das obras em que se basearam.

A trilogia do anel levada às telas por Peter Jackson conseguiu indubitavelmente capturar algo do espírito da obra literária de Tolkien. Se não foi possível agradar a todos os fãs do livro, foi com certeza um exemplo digno e corajoso de recriação cinematográfica de um mundo literário. O mundo fantástico tolkeniano ganhou plausibilidade e consistência nos filmes. Desde o início da série, da visita de Gandalf ao Condado dos hobbits, o espectador passa a acreditar que aquelas criaturas existem. O espectador respira a atmosfera da Terá Média, ele assimila sua lógica, ele admite um mundo onde existem magos, anões, elfos, orcs, etc. O espectador pode se identificar facilmente com aqueles personagens, humanos ou não, e se sentir mais um membro da comitiva do anel.

Isso se deve é claro à opção de Peter Jackson de produzir a adaptação mais literal possível, transpondo para as telas mesmo as criaturas mais fantásticas. O diretor neozelandês teve o suporte financeiro de grandes estúdios para produzir os efeitos especiais e criaturas fantásticas necessárias para dar realismo à adaptação. Mas esse tipo de apoio é algo do qual nenhum diretor hoje pode se queixar, pois qualquer filme como “Tróia” e “Rei Artur” tem à disposição um orçamento da ordem de 100 milhões de dólares. Não é de falta de recursos materiais que esses filmes se ressentem, mas de imaginação mesmo.

Começando por Tróia. A produção de Wolfgang Petersen optou por filmar uma versão “realista” do que teria sido a guerra dos gregos à Tróia. Uma versão em que não há deuses, nem titãs, nem criaturas fantásticas de qualquer espécie. Apenas seres humanos. Isso alivia o filme da necessidade de criar uma atmosfera mágica e fantástica, na qual os deuses olímpicos aparecessem como figuras plausíveis, intervindo no meio dos homens. Essa opção também economiza elenco, já que seria preciso contratar mais uma dúzia de grandes estrelas para dar vida aos deuses.

Seja como for, essa opção enfraquece enormemente o potencial criativo da obra, limitando a presença dos deuses a uma mera crença dos personagens humanos. E por falar em crença, o filme peca exatamente por não apresentar as crenças e idéias dos gregos e troianos tais como teriam sido na época em que a guerra aconteceu (séc. XII a. C.). “Tróia” opta por uma história apenas com humanos, mas esses humanos não são a recriação do que teriam sido os homens da Grécia arcaica. O seu pensamento está mais próximo dos homens de hoje. Os seus valores são os da contemporaneidade, não os da idade homérica.

Agamenon aparece como um conquistador obsessivo, uma espécie de George W. Bush “avant la lettre”, que quer arrebatar Tróia de qualquer jeito. Aquiles aparece como um “pop star” egomaníaco, um astro do esporte que quer a imortalidade a qualquer custo, um “Edmundo” que quer aparecer às custas do time. A relação de Aquiles com Briseida é transformada num romance de tipo moderno, o que não é absolutamente o caso da “Ilíada”. Se há algo na “Ilíada” de Homero semelhante àquilo que os modernos conhecem como amor, é a relação entre Aquiles e Pátroclo, mas isso deve ter sido considerado embaraçoso e difícil demais de ser mostrado.

O que resta então é uma aventura rasteira, uma produção grandiosa, com um elenco até respeitável, mas desperdiçado, despejando frases grandiloqüentes, protagonizando cenas espetaculares, batalhas e duelos que serão esquecidos no fim de semana seguinte. É o mesmo caso do novo filme do “Rei Artur”. Com o adicional de que esta produção comete o mesmo erro, mas com o dobro de incompetência. Se a “Ilíada” é o marco fundador da literatura ocidental, um texto estabelecido há mais de 2000 anos, os contos do ciclo arturiano, datados da baixa Idade Média, proporcionam uma flexibilidade muito maior, que poderia ser criativamente explorada.

A “Ilíada” era originalmente uma coleção de cânticos recitados por poetas ambulantes, os aedos e rapsodos, tendo sido posteriormente reunida e transcrita para o papel por um personagem semilendário, um certo Homero, que teria sido também o autor da “Odisséia”. Tanto a existência de Homero, que teria vivido no século VIII a. C., como a autoria das duas obras que lhe são atribuídas são contestadas e discutidas pelos estudiosos. Mas o que importa é que, no mundo da Grécia clássica, nos séculos VI a. C. em diante, a obra de Homero tinha se tornado o substrato comum da cultura geral popular. A “Ilíada” e a “Odisséia” eram uma espécie de Bíblia para os gregos.

Ou seja, quando se opta por fazer uma adaptação da história da guerra de Tróia que despreza as duas fontes literárias clássicas, está sendo jogada fora uma tradição de 2000 anos. No caso do ciclo arturiano, a tradição a ser manipulada é bem mais recente e menos restritiva, proporcionando talvez uma maior liberdade criativa, mas nem por isso o resultado cinematográfico a que assistimos foi melhor.

Se existe a versão definitiva da guerra de Tróia, narrada na “Ilíada” e na “Odisséia” (a Ilíada é na verdade a narração da “cólera de Aquiles”, que tem lugar durante a guerra de Tróia; alguns dizem que o poema deveria chamar-se “Aquileida”; o episódio do cavalo é descrito apenas na Odisséia), não há por outro lado uma versão definitiva da narrativa do rei Artur. A história do rei Artur aparece pela primeira vez como personagem literário na “História regum Britanniae” (História dos reis da Bretanha), de Geofroy de Monmouth, escrita em 1136 em Oxford. A história do cálice sagrado (Santo Graal) aparece em “Le conte du Graal”, parte de um ciclo de cinco romances escritos por Chretien de Troyes em 1185, em Champagne. Essas duas grandes narrativas foram posteriormente desenvolvidas por outros autores cortesãos, tornando-se o eixo da literatura cavalheiresca, superando em fama a narrativa de outros heróis medievais, como a francesa “Canção de Rolando” e o espanhol “El Cid”.

Essa história literária do rei Artur baseia-se em vagos testemunhos legados por manuscritos anteriores, que desde o século VI mencionam um herói bretão do século V que teria combatido os invasores anglo-saxões. A partir de um certo momento, as histórias incorporam o tema principal da cultura cavalheiresca medieval, o da demanda do Graal, a busca do cálice sagrado, que teria sido usado por Cristo na última ceia.

O rei Artur, mesmo tendo vivido supostamente no século V, é apresentado nessas obras literárias com as características de um rei do século XII, ou seja, da Baixa Idade Média. Na época em que o chefe bretão Artur teria vivido, não existiam castelos, como Camelot, nem cavaleiros de armadura, como os da Távola Redonda. Mas para a literatura medieval, isso não importa. Um rei bárbaro é transformado num rei cortesão. Uma tribo bretã obscura é transformada na corte de Camelot. Um líder pagão seguidor do druida celta Merlin é transformado num defensor da cristandade.

A operação ideológica que transforma um personagem histórico obscuro em mito literário faz parte do processo de consolidação das monarquias medievais, depois da longa desagregação feudal. Encontrar ancestrais mitológicos era algo bastante proveitoso na tentativa de fundar a legitimidade histórica das dinastias britânicas. Mas o ciclo arturiano era um fenômeno “pan-europeu” e não apenas britânico. A lenda do rei Artur também fez bastante sucesso na França e na Alemanha (na época essas regiões não eram países homogêneos como os que conhecemos hoje, mas mosaicos de reinos, feudos, bispados e burgos livres).

Nessas regiões, tornou-se parte essencial do ciclo arturiano a busca do Santo Graal. Dentre os cavaleiros da Távola Redonda estariam os heróis que recuperaram o cálice para a cristandade. Em algumas versões o autor do feito teria sido Galahad, que teria sido filho de Lancelot. Em outras, o responsável pela conquista do Graal teria sido Parsifal. E ainda, de acordo com outras versões, o nome Santo Graal seria uma corruptela de “sangue real” (esse trocadilho só funciona em francês), uma alusão ao sangue de Cristo, que teria sido herdado pelo filho que o Salvador teria tido com Maria Madalena, que seria o ancestral longínquo do rei franco Meroveu, fundador histórico da primeira dinastia francesa.

As versões diferentes para uma mesma história atestam a popularidade da lenda. A popularidade experimentada pela história do Graal reflete a tentativa de afirmação ideológica dos valores da cavalaria feudal, depois do fracasso das Cruzadas. Os chefes feudais tentaram em sucessivas expedições reconquistar a Terra Santa aos muçulmanos, voltando sempre derrotados. Mas para aplacar seu sentimento de frustração, cultivaram um troféu mitológico, um cálice sagrado, que teria sido encontrado na Terra Santa e trazido para a Europa pelos bravos cavaleiros.

Os senhores feudais não foram bem-sucedidos na reconquista da Terra Santa, mas o foram na criação de uma lenda. Com essa lenda, justificaram seu papel social e legitimaram seu poder. Tornaram-se defensores da cristandade. Tornaram-se também protagonistas do chamado amor cortesão. As mulheres da nobreza, abandonadas pelos cavaleiros que foram para as Cruzadas, tornaram-se destinatárias de uma literatura amorosa protagonizada por cavaleiros e damas. O drama de Tristão e Isolda tornou-se a mais célebre dessas histórias.

Em resumo, esses dois motivos literários, o de Artur e do Graal, se entrelaçam quase que indissociavelmente. Conforme as sucessivas adaptações produzidas pelos autores cortesãos dos séculos XIII, XIV e XV, o ciclo do rei Artur passa a incorporar outras narrativas, como a lenda de Parsifal e o romance de Tristão e Isolda. Parsifal (ou Percival, numa grafia mais aportuguesada, juntamente com Tristão, aparecem como membros da Távola Redonda)

Com o Renascimento e o Iluminismo, a Idade Média foi denegrida como uma idade das trevas. Os temas do ciclo arturiano saíram de moda. “Dom Quixote” de Cervantes assestou o golpe de morte na literatura cavalheiresca e deu à luz o primeiro herói literário propriamente moderno. Será preciso esperar pelo “Parsifal” de Wagner, no século XIX, para assistir ao renascimento literário do Graal. A ópera do compositor alemão narra a versão em que Parsifal é o cavaleiro que encontra o Graal e representa o auge do medievalismo redivivo no romantismo europeu.

O que se pretende mostrar aqui com essa breve digressão histórico-literária é que o universo arturiano possui um rico e flexível repertório de temas e narrativas a ser explorado pelo cinema. Mas em vez disso, os produtores do “Rei Artur” preferiram tentar uma abordagem “histórica” e não literária. Do cenário da Idade Média mitológica, somos transportados para o da queda do Império Romano na Bretanha. Ao invés de um rei bárbaro, temos um soldado romano. Ao invés de uma corte de cavaleiros, temos bárbaros sármatas incorporados ao exército romano.

O resultado dessa opção é que não temos o episódio de Excalibur na bigorna, não temos o romance de Lancelot e Guinevere, não temos a feiticeira Morgana, não temos a traição de Mordred, não temos a Dama do Lago, não temos a ilha de Avalon. O problema em relação ao presente filme “Rei Artur” é que o sabor anacrônico das recriações literárias é o que constitui a própria essência da história do rei Artur. Ele existe mais como personagem literário do que histórico. O filme “Rei Artur” opta pela versão histórica, não pela literária, e aí está sua fraqueza.

Até certo ponto isso é aceitável. Não se pode “obrigar” uma produção cinematográfica a ser fiel a uma tradição literária, como o foi Peter Jackson em relação a Tolkien. A opção pela abordagem “histórica” pode até ser considerada legítima. Mas ainda aqui, não se trata de uma abordagem rigorosamente histórica e sim anacrônica. E nesse caso, o anacronismo não é criativo e sim destrutivo. O Artur do presente filme é uma mixórdia de ideologias contraditórias amarradas de maneira confusa e superficial para se tornarem palatáveis para o espectador contemporâneo.

Artur, no filme, é quase tudo ao mesmo tempo. É soldado romano, defensor da civilização romana, mas é também um Cristão, defensor da Igreja, apesar de ser seguidor da heresia de Pelágio (que negava o Pecado Original), cujos discípulos negavam também a necessidade do batismo. Artur era também um comandante dedicado a seus homens, fiel à ética da lealdade militar, praticamente um membro da tribo sármata de “Rus”. Tribo cujos soldados, agregados ao exército romano, desejam apenas voltar para suas planícies e deixar a Bretanha, o que é bastante diferente dos ideais da cavalaria medieval, que ainda assim não deixam de ser mencionados. Artur é ainda filho de um soldado romano com uma mulher bretã, portanto é parte do povo celta dos bretões, o mesmo povo que combatia como legionário. Ele torna-se assim fundador da nacionalidade britânica.

Temos então o cristianismo herético do século V, os idéias da cavalaria do século XII, o nacionalismo britânico do século XIX, como se fossem todos conceitos intercambiáveis. Todos esses ingredientes são misturados com uma fácil palavra mágica: “liberdade!” Com essa senha, o nacionalismo britânico precoce, a nostalgia dos cavaleiros sármatas, a civilização romana, os ideais da cavalaria, a heresia de Pelágio são todos unificados. Quem pode ser contra a “liberdade”? Até George Bush faz guerra em nome da “liberdade”. Não há conceito mais vago do que esse ideal abstrato de “liberdade”, facilmente impingido a qualquer personagem de qualquer narrativa, quando não se pode mergulhar nas suas reais motivações.

Quem pode não entender o que é liberdade? Com certeza, os bretões que combateram no século V e o Artur histórico não a entendiam do mesmo modo que nós o entendemos. Não combatiam em nome da “liberdade”, muito menos da civilização, da Bretanha, do cristianismo, etc. O Artur histórico devia ser mais parecido com Átila, o huno, do que com o “Arthorius” do filme.

Ao que parece, será preciso esperar por “Alexander”, versão de Oliver Stone para a história de Alexandre Magno, para vermos um épico de verdade no cinema.

Daniel M. Delfino

27/09/2004

Um outro mundo é possível: "Para além do capital"

(Resenha do livro “Para além do capital”, de István Meszáros, Boitempo, 2002)



Em 1971, já consumido pelo câncer que iria matá-lo neste mesmo ano, o filósofo húngaro Gyorgy Lukács expressou uma necessidade vital para a esquerda mundial: alguém deveria escrever um novo “Capital”. Depois uma vida de luta contra o terror stalinista, de quase 70 anos de intensa militância intelectual, de haver resgatado a dimensão filosófica da obra de Marx, de ter fixado os termos nos quais essa obra poderia readquirir inteligibilidade e sentido emancipador, de produzir um vasto trabalho de crítica filosófica e literária; o idoso filósofo lamentava-se, aos 86 anos, por não poder se dedicar a uma necessária reativação do projeto marxiano original d’“O Capital”.

Coube ao seu discípulo, István Meszáros, tomar a si o desafio. Depois de participar do levante anti-stalinista húngaro de 1956, brutalmente reprimido, Meszáros exilou-se na Inglaterra, ao contrário de seu mestre. Lukács optou por permanecer na Hungria e continuar enfrentando a censura cerrada do Partido, que o perseguiria quase até o fim da vida. Na Inglaterra, Meszáros tornou-se próximo de intelectuais como o historiador Isaac Deutscher, biógrafo de Trotsky, e Eric Hobsbawm, legenda da esquerda britânica e mundial, ainda hoje atuante.

Ao longo de 25 anos, o discípulo de Lukács desenvolveu uma importante obra filosófica, com obras de peso, como “Marx, Teoria da Alienação” e “O Poder da Ideologia”. Mas dedicava-se também paralelamente ao projeto cuja urgência fora assinalada por seu mestre de maneira tão pungente. “O Capital” de Marx precisava ser reescrito. Essa necessidade mostra-se ainda mais urgente quando se atenta para o fato de que o próprio “Capital”, o livro original, é um projeto inacabado.

Marx nunca pôde finalizar para publicação a grande maioria de suas obras. Talvez apenas o “Manifesto Comunista”, escrito com Engels, e o primeiro volume d’“O Capital” tenham se tornado conhecidos do grande público durante o tempo de duração da vida do autor. A maior parte de sua obra filosófica permaneceu, como ele mesmo costumava dizer, “entregue à crítica roedora dos ratos”. Manuscritos que continham textos fundamentais amarelaram no fundo dos baús, para somente serem estudados a partir de 1930. Alguns dos quais, graças a Gyorgy Lukács.

Seja como for, do projeto original d’“O Capital”, apenas os três primeiros livros foram terminados, sendo que o segundo e o terceiro o foram por Engels. Muitas questões, especialmente relativas às classes sociais e ao Estado, não puderam ser tratadas por Marx. Questões que apareceriam posteriormente sob a forma de dificuldades práticas quase intransponíveis para seus seguidores no século XX, não surgiram no horizonte da empreitada marxiana. Sua obra, datada do século XIX, necessitava portanto de uma urgente atualização, a fim de que o seu sistema teórico pudesse ser enriquecido com os novos nexos categoriais tornados explícitos pelo desenvolvimento do complexo totalizador do capital no século XX.

Meszáros dedicou-se a essa tarefa de atualização, ao longo desses 25 anos, oferecendo como resultado o monumental “Beyond Capital”, publicado na Inglaterra em 1995. Seria preciso esperar 7 anos para que o livro fosse publicado no Brasil, pela Boitempo Editorial, com o título de “Para além do Capital”.

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Este escriba guarda pouca lembrança da palestra proferida por Meszáros no anfiteatro da PUC- SP, quando de sua vinda ao Brasil para a divulgação do livro. Tão pouca que não se lembra exatamente do ano, se 1996 ou 1997. Lembra-se apenas de que nunca havia estado na PUC, de que não sabia qual condução tomar para chegar lá, muito menos para voltar. Lembra-se de que foi salvo por uma carona até o metrô Paraíso, para onde fui levado por um grupo de colegas do curso de Ciências Sociais da Fundação Santo André.

Ao tomar o ônibus de volta para a Zona Leste, naquela gélida noite, a única coisa que guardei da palestra foi a necessidade de um dia adquirir o livro, tão logo “Beyond Capital” tivesse uma edição brasileira. Queria conferir por mim mesmo se o discípulo de Lukács estivera à altura do desafio a que se propusera, de reescrever “O Capital”. Desempregado e sem perspectivas, a aquisição de um livro desse porte era para mim na época uma utopia inalcançável. Mesmo hoje, precariamente empregado, a aquisição do tal livro não se fez sem sacrifícios. Depois de anos de luta contra dificuldades materiais de todos os tipos, finalmente o precioso exemplar de “Para Além do Capital” me chega às mãos, no início de 2003.

Mas eis que então uma espécie de temor supersticioso me domina. Como se eu estivesse diante da própria Bíblia. O livro, um alentado volume de 1.100 páginas, me pareceu, naquele momento, importante demais para ser lido “de qualquer jeito”. As primeiras olhadas de relance sobre o conteúdo fazem com que eu desista de lê-lo por algum tempo. Me parecia então que um tal livro deveria ser lido e estudado com cuidado. Me parecia que a tarefa de estudar uma obra dessa importância deveria exigir uma espécie de “ano sabático”, um período longo de dedicação exclusiva.

O advento deste ano de 2004 me faz mudar de idéia. Não porque eu tenha ficado mais desocupado, mas porque ao contrário, assumi uma tal variedade de tarefas que a leitura do livro ficaria adiada para sempre. Percebi que nunca conseguiria me livrar de tais tarefas e responsabilidades. Ocupado ou não eu teria que ler o livro de qualquer jeito. Mas não “de qualquer jeito”. Seria preciso achar tempo, e ter paciência. Assim, depois de decorridos seis meses do início do projeto, em sessões semanais de 1 hora de leitura, a tarefa está terminada. E começa o trabalho de falar sobre o livro.

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Constituiria uma violência inadmissível da parte deste escriba a pretensão de “resumir” um livro tão importante, tão denso, tão maciço, no espaço de uma resenha a ser publicada num blog. Mesmo a tentativa de “sintetizar” os “conceitos principais” de um livro assim complexo, abrangente, múltiplo, parece-me ainda uma idéia criminosa. Apesar disso, é preciso de alguma maneira indicar o fio condutor por meio do qual o labirinto teórico de Meszáros pode ser decifrado. Esse fio condutor já está dado a meu ver no próprio título do livro.

O título “Para Além do Capital” remete, obviamente, à obra de Marx, intitulada “O Capital”. E o faz num duplo sentido. É preciso ir além da própria obra de Marx, o livro “O Capital”, e ir além do complexo de relações sociais, do capital que como sistema totalizador de intercâmbio submete a si o metabolismo sócio-reprodutivo da humanidade. Ir além do capital significa dizer que a obra de Marx não se destina a descrever e combater o capitalismo, mas descrever e combater o capital.

Existe uma diferença muito grande entre combater o capitalismo e combater o capital. O capitalismo é o sistema sob o qual o capital se desenvolve plenamente. Mas não é o primeiro nem o único em que o capital se manifesta na história. Antes e depois do capitalismo, houve formas de capital. O sistema soviético era um sistema pós-capitalista de capital. E no que consiste então esse capital cuja estrutura subjaz a formações histórico-sociais pré e pós-capitalistas?

A relação-capital se constitui de três componentes: o capital propriamente dito, o trabalho assalariado e o Estado. Pode-se derrubar qualquer um desses pilares do sistema, ou até mesmo dois, mas se apenas um deles restar, o sistema se reconstituirá por força de sua própria dinâmica inercial interna. A Revolução de Outubro na Rússia derrubou o capitalismo, mas não aboliu o capital, nem o Estado. O dado fundamental que explica o fracasso do sistema soviético é o fato de que este não superou a subordinação estrutural do trabalho, pois submeteu os trabalhadores a um processo de extração de mais-valia politicamente mediado, através de um Estado hipostasiado.

A tentativa de implantar o socialismo sem devolver aos trabalhadores o poder de tomada de decisões substantivas sobre o processo econômico e político só poderia resultar em fracasso. É nesse sentido que o projeto de ir além do capital significa transformar a sociedade por inteiro, de cima abaixo. O projeto de Meszáros portanto é radical no sentido forte da palavra, pois não admite em hipótese alguma a conciliação com a ordem existente. Tanto a esquerda stalinista como a social-democrata conduzem a becos sem-saída, pois não assumem a tarefa essencial de tornar os trabalhadores os sujeitos de fato de sua vida social.

Abolir o capital, o Estado e o trabalho assalariado significa que a humanidade deve tomar a si, de maneira racional, a direção de seu sócio-metabolismo. O termo sócio-metabolismo, da lavra de Meszáros, empresta uma nova profundidade ao conceito marxista de modo de produção. Ele implica reconhecer o fato fundamental de que o homem depende de uma relação metabólica com a natureza para sobreviver. Essa relação é sempre socialmente mediada, por instituições como a família, o Estado, o mercado, etc., e outras historicamente mutáveis formas de articulação.

O capital, como forma de articulação do metabolismo social, mostra-se extremamente ineficiente, perdulário e destrutivo. O sistema do capital imobiliza fortunas incomensuráveis em produtos absolutamente inúteis, na verdade destrutivos, como os do complexo industrial-militar. Do ponto de vista do capital, produção e destruição se equivalem. Não importa que os produtos do trabalho não sejam de fato consumidos. Aliás, o ideal é que eles não sejam. O capital depende de uma taxa de utilização decrescente dos produtos, para continuar produzindo mais, desperdiçando recursos, fazendo girar seu circuito de acumulação.

A produção capitalista de mercadorias não é apenas destrutiva, como é ambientalmente insustentável. A dimensão da luta ecológica é incorporada por Meszáros à agenda socialista, mas de modo a torná-la realmente significativa. O discurso ecológico não faz sentido se não contemplar a necessidade de reestruturar o sistema de produção sob a direção de um imperativo racional de gestão dos recursos finitos do planeta, tarefa que o capital, com sua espiral expansiva de desperdício, não é capaz de desempenhar.

Da mesma forma a luta pela emancipação das mulheres não pode adquirir significado sob a base de um sistema social baseado na atomização e na competição entre os indivíduos, seja de qual sexo forem. Isso significa que não pode haver uma igualdade substantiva entre os sexos a não ser num sistema sócio-reprodutivo que esteja baseado na organização racional e planejada das atividades humanas.

Problemas como o da ecologia, o da emancipação feminina, o desemprego, o poder do complexo industrial-militar, são debatidos com vigor e propriedade em “Para Além do Capital”. É preciso portanto acrescentar que o livro não é um novo “Capital”, no sentido de que não aborda novamente os mecanismos do modo de produção capitalista tratados por Marx. Não há uma descrição da mecânica da acumulação do capital, da mais-valia, etc.. Esse conhecimento já é dado como pressuposto.

O livro portanto não cumpre a promessa de reescrever “O Capital”. Mas não é esse o objetivo. O projeto é ainda maior. Trata-se de superar “O Capital”, no sentido dialético de superação. Superar significa, triplamente, destruir, conservar e ultrapassar o objeto superado. A obra original de Marx é substituída, conservada e ultrapassada por uma nova realização teórica que corresponde ao espírito de seu projeto. Não há portanto aqui uma nova e desnecessária exposição do mecanismo do capital. Há sim uma descrição das deficiências fatais do sistema capitalista e da urgência de substituí-lo, sob pena de condenar a humanidade à perpetuação da barbárie. Descrição enriquecida pelo enfrentamento do autor com as desnorteantes experiências do século XX.

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O livro de Meszáros traz evidentemente a marca do lugar e da época em que foi escrito. A Inglaterra da era Tatcher foi o cenário de sua confecção. Friedrich Hayek, o papa do neoliberalismo e “Companion of honour” de Miss Tatcher, é o adversário teórico preferencial, pulverizado de maneira avassaladora. Tatcher foi apelidada de TINA, sigla formada com as iniciais da frase “there is no alternative”, ou seja, “não há alternativa”, por repetir exaustivamente esse bordão. No discurso neoliberal, não há alternativa ao capital. Eis uma idéia que Meszáros se recusa a aceitar.

A negação radical do discurso fatalista do capital faz de Meszáros o precursor da idéia expressa no “slogan” do movimento do Fórum Social Mundial. A idéia de que “um outro mundo é possível” constitui o exato oposto do “não há alternativa”. O que justifica a nossa escolha desta frase para o título deste comentário. Meszáros é um precursor da idéia expressa pelo FSM. Podemos mesmo considerá-lo um profeta do movimento. Negar radicalmente o capital como ele o faz significa evidentemente dizer que um outro mundo é possível. Se o movimento do FSM quer dar conta da tarefa contida em seu slogan implica em adotar o mesmo grau de radicalidade. Há alternativas para a humanidade e um outro mundo é possível, mas para além do capital.

O esforço despendido por Meszáros para rejeitar o bordão fatalista se completa também com uma forte dimensão positiva e propositiva. Seu projeto não seria completo sem a desmistificação radical das aporias paralisantes do discurso do capital. O projeto inclui a afirmação de que o mercado não é a única forma possível de troca econômica entre os homens, que o planejamento não é sinônimo de burocracia stalinista, que a complexidade do sistema estabelecido de produção não é obstáculo intransponível para sua superação, que o egoísmo burguês constitui a anulação do homem, ao contrário da perspectiva do indivíduo social, etc..

Todas essas questões e muitas outras são enfrentadas com grande coragem e ânimo apaixonado. Não há neste livro nenhum subterfúgio teórico. Não há cartas na manga, sujeira jogada para debaixo do tapete, lacunas, elipses, omissões. Os problemas mais espinhosos e embaraçosos trazidos à tona pelo projeto socialista são abordados frontalmente e com franqueza. O livro não promete o paraíso da utopia, nem o purgatório do stalinismo, mas o sóbrio realismo de quem não ignora a magnitude assustadora das tarefas a serem enfrentadas.

A clareza, a objetividade e a transparência são qualidades salientes do texto de Meszáros, através das quais se revela também algo da pessoa do autor. Meszáros nasceu em 1930 e trabalhou como operário antes de se tornar aluno de filosofia de Lukács. Do operário que foi ele reteve as qualidades citadas da objetividade e da clareza. Embora sua obra seja complexa, seu vocabulário seja rico, sua lógica seja rigorosa, sua ambição teórica colossal, sua argumentação polêmica devastadora; o livro não resvala em nenhum momento de intelectualismo, pedantismo ou a arrogância. Ao contrário, inspira simpatia e entusiasmo e nos torna próximos de alguém que é na verdade apenas mais um de nós.

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“Para Além do Capital” não é somente o livro mais importante a ser lido neste mundo que transita para o século XXI, por força de seu conteúdo, mas é também o texto mais bem escrito sobre o qual este escriba pôs os olhos, e não foram poucos nesses 28 anos de vida. Algo precisa ser dito sobre o aspecto formal, estilístico, do livro de Meszáros. Seu estilo é de uma precisão absoluta no uso das palavras.

Sua linguagem é exata, quase mecânica. O texto evidencia os traços de algo que foi revisto e reescrito inúmeras vezes ao longo de vários anos. Um texto elaborado, reelaborado, repensado, rearticulado, enriquecido, refinado, aperfeiçoado, ajustado à exaustão. Um texto que funciona como uma engrenagem, em que não há peça fora do lugar. O uso que faz dos adjetivos para determinar, qualificar, precisar, capturar cada objeto, é qualquer coisa de extraordinário.

Diz-se que a qualidade que identifica o gênio, em qualquer campo de atividade humana, é a capacidade de fazer parecer aos outros que é fácil fazer aquilo que ele faz. A facilidade, a fluência, a simplicidade com que Meszáros expõe seus argumentos enquadram-no como um gênio deste tipo. Por mais complexo que seja o tema e mais tortuoso o objeto, o autor nunca o perde de vista, e o leitor pode acompanhá-lo sem problemas. Por mais que seu vocabulário seja vasto e abrangente, a clareza e a acessibilidade do texto nunca são descuidados.

O resultado é que parece-nos fácil enxergar o que o autor enxerga e desembaraçar-se dos obstáculos com a mesma segurança com que ele o faz. Sua lógica é irretorquível, sua argumentação é avassaladora. Os adversários teóricos, de Weber a Hayek, passando por dezenas de apologetas do Capital, são demolidos um a um, com uso abundante de citações, de exemplos, de estatísticas, de excertos da imprensa, nos quais as contradições do sistema aparecem de maneira clamorosa pela voz de seus próprios defensores. Meszáros não deixa pedra sobre pedra de seus adversários. Mesmo porque, seus sistemas teóricos são expostos como frágeis castelos de cartas, que não se sustentam sobre a base contraditória do próprio funcionamento do capitalismo e sua história de crises e tragédias.

Apesar da dureza do tema, o texto não se torna em nenhum momento pesado maçante, repetitivo, lento. A divisão dos capítulos, seções e subtítulos torna-o leve, didático, esquemático, acessível. Não faltam ainda a esse texto as qualidades do humor, da ironia, do sarcasmo, temperados por uma sóbria elegância, por uma sábia serenidade, e impulsionados por uma irresistível paixão combativa e militante.

A esse respeito, cabe por último destacar a excelência da tradução da edição brasileira, executada por Paulo César Castanheira e Sérgio Lessa, praticamente sem falhas, capaz de reter o espírito e o sabor da prosa de Meszáros.

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Para finalizar este comentário, e reiterar o que talvez não tenha sido dito com ênfase suficiente, digo que, se em lugar de todos os modestos esforços desenvolvidos sob a forma de textos publicados neste espaço virtual, me fosse dado expressar uma única idéia, esta seria a de insistir para que este livro fosse lido e debatido, e com isso este escriba consideraria cumprido seu propósito.

Daniel M. Delfino

24/07/2004