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30.4.16

"Panamá papers": o crime e a essência do capitalismo


O capitalismo é um sistema baseado no roubo, já que o trabalho assalariado é sempre trabalho roubado. Por mais que em alguns casos os salários sejam elevados (o que só acontece em uma minoria dos casos), o valor que o trabalhador produz para o patrão é maior do que o que recebe como salário. Essa diferença entre o que o trabalhador produz e o que ele recebe se chama mais valia, e é a fonte de todo o lucro. Tudo o que existe na sociedade, toda a riqueza, é produzida pelo trabalhador, mas ele só fica com uma fração.
Uma segunda forma de roubo acontece quando os impostos que pagamos ao Estado (com nosso precário salário, que já é apenas a sobra do que nos é roubado) são desviados pelos governantes para ajudar a classe dos capitalistas, os grandes empresários, de diversas formas (isenções fiscais, juros subsidiados), sendo que a principal é a dívida pública. No caso do Brasil, essa dívida fraudulenta consome quase metade do orçamento federal (aproximadamente R$ 1 trilhão por ano), e para garantir o pagamento da dívida, o governo corta o dinheiro que deveria ir para os hospitais, escolas, transporte, etc., no que é pomposamente chamado de “medidas de austeridade” ou “ajuste fiscal”.
Uma terceira forma de roubo é o que veio à tona no início de abril com a divulgação dos chamados “Panamá Papers”, uma série de documentos que mostram como esses mesmos capitalistas nos roubam mais uma vez, evitando pagar impostos que todo trabalhador paga.

O vazamento
Os “Panamá Papers” são o maior vazamento de documentos já feito, uma verdadeira inundação, com 11 milhões de arquivos de uma firma de advocacia sediada no Panamá, chamada Mossack Fonseca, divulgados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês). A firma panamenha se especializou em abrir empresas de fachada (chamadas de “off-shore”) em nome de seus clientes, e sediadas em paraísos fiscais, que são países minúsculos, como as Ilhas Caimã, no Caribe, ou Lichtenstein, no coração da Europa. Formalmente independentes, esses micro-países recebem depósitos do mundo inteiro sem questionar a sua origem e sem cobrar impostos, e essa é a sua única função. Os fundos assim “legalizados” são mandados de volta pelas firmas off-shore para suas matrizes.
A lista de clientes do Mossack Fonseca inclui políticos, empresários e celebridades de todos os ramos, desde o Presidente da Rússia Vladimir Putin até Lionel Messi e Pedro Almodóvar. Pode ser acessada diretamente no site do ICIJ: https://www.icij.org/. A divulgação dos vazamentos causou enorme revolta em alguns países. Na Islândia, o primeiro-ministro (que estava tentando voltar a pagar a dívida externa do país, depois que a população a tinha cancelado em plebiscito) implicado no escândalo, foi forçado a renunciar, tão massiva e imediata foi a reação da população. O ministro da indústria espanhol também renunciou, e essas devem ser apenas as primeiras baixas. David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, também está sob forte pressão, devido ao dinheiro de uma herança, não declarado, que surgiu nos Panamá Papers. Maurício Macri, campeão do neoliberalismo, que quer fazer a Argentina retroceder para a década de 1990, também está envolvido no escândalo.
Putin reagiu à divulgação, como sempre, negando as acusações, e apontando um detalhe importante: os Estados Unidos não aparecem no vazamento. Para Putin, trata-se de uma manobra estadunidense para desestabilizar países rivais, como a própria Rússia, China (o neto de Mao Tse Tung está no Panamá Papers, etc). Mas logo começaram a aparecer nomes ligados ao casal Clinton, como assessores e doadores de campanha. A lavagem de dinheiro é prática universal. Pois como disse um dos donos da Mossack Fonseca, “ninguém mais faz negócios no próprio nome”. Ou seja, o uso de fachadas para lavagem de dinheiro em paraísos fiscais é uma prática de todos os super-ricos.

As lições
Independentemente da seletividade do ICIJ, algumas lições ficam: as leis e os impostos só valem para os debaixo, para nós trabalhadores. Os ricos e super ricos dão seu jeito de driblar os impostos, a fiscalização, a justiça, e escapar com suas fortunas intocadas, adquiridas em cima do nosso suor e protegidas pelo Estado. Segundo a ONG Global Finance Integrity, cerca de U$ 7,8 trilhões deixaram ilegalmente os países pobres entre 2004 e 2013, enquanto bilhões de pessoas nesses países sofrem com a fome, doenças, falta de moradia, etc.
Mas outra lição que fica é de que estamos entrando numa espécie de era da transparência, com vazamentos como o Wikileaks, Swissleaks, e agora o Panamá Papers, com a internet e ativistas da mídia independente cumprindo o papel que a mídia comercial, vinculada aos interesses capitalistas, não pode cumprir: mostrar a verdade para o grande público. O que a massa dos trabalhadores, explorados e oprimidos do mundo inteiro, vitimados pelas crises do capitalismo, massacrados pelos seus governantes com políticas de “austeridade” e “ajuste fiscal”, e agora também esnobados pelos super ricos com suas fortunas a salvo de impostos; vão fazer com essa informação, é algo que também depende das organizações anticapitalistas revolucionárias.
É hora de transformar a indignação em ação!



7.11.15

Crise e corrupção na FIFA - Reflexões sobre o futebol na era da sua mercantilização - parte 1



O mundo do futebol entrou em polvorosa no mês de junho com as prisões de vários integrantes do Comitê Executivo da FIFA (entre eles o ex-presidente da CBF, José Maria Marin), às vésperas do Congresso mundial da entidade. O Congresso, reunido com toda a pompa na sede da FIFA, em Zurique, na Suíça, reelegeria o então presidente, Sepp Blatter, para mais um mandato. No entanto, uma semana depois de eleito, Blatter renunciou, e nova eleição foi apontada para escolher o presidente da entidade que comanda o futebol mundial.
As prisões foram efetuadas pela Interpol em obediência a um mandado do FBI. A polícia federal estadunidense investiga a corrupção na FIFA há algum tempo, e entre outros casos, reuniu provas de que os membros do Comitê Executivo receberam propina de determinadas empresas para lhes vender os direitos de transmissões de competições como a Copa América e competições nacionais, como a Copa do Brasil. Também há a suspeita de que receberam propinas para votar nas candidaturas da Rússia e do Qatar, escolhidas para sede das Copas do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente (este caso está sendo investigado diretamente pela polícia suíça). Ambas as escolhas foram bastante criticadas na época em que foram anunciadas, em 2010, seja por haver outros concorrentes em muito melhores condições técnicas de sediar uma Copa, como a Inglaterra, ou seja pela quase total ausência de tradição no mundo do futebol, condição especialmente gritante no caso do Qatar.
As investigações do FBI ainda não atingiram o próprio Blatter, mas o ex-homem forte da FIFA preferiu sair de cena antes que o escândalo o alcançasse mais diretamente. Um dos nomes cotados para suceder Blatter é seu ferrenho opositor e presidente da UEFA (Confederação Europeia de Futebol), o ex-craque francês Michel Platini. No Brasil, José Maria Marin acabava de ser substituído por Marco Polo Del Nero na presidência da CBF. Por via das dúvidas, Del Nero se retirou do Congresso da FIFA ainda antes do encerramento. Em relação a Marin, os fatos que motivaram sua prisão aconteceram quando ainda era vice presidente, atrás do todo poderoso Ricardo Teixeira, que comandou a CBF por mais de 20 anos, e renunciou ao cargo às vésperas da Copa do Mundo de 2014 (mais ou menos como faria Blatter).

O “coronelismo” no futebol
A FIFA é uma entidade privada, já que não é subordinada a nenhum governo ou organismo internacional. Ao contrário, a FIFA costuma se gabar de ter mais países filiados do que a ONU (209 contra 193, na última contagem). E em muitos casos, tem poder superior ao de alguns governos, impondo as suas condições para a realização da Copa do Mundo, como fez com o Brasil. De qualquer maneira, em termos jurídicos, é uma entidade privada, sem fins lucrativos. A FIFA não possui proprietários privados, pois seus dirigentes são eleitos pelas federações nacionais e continentais. Entretanto, o futebol é um negócio muito lucrativo, e a FIFA também se beneficia dele. Como uma empresa, a FIFA vende um produto, a Copa do Mundo de seleções nacionais de futebol, que é patrocinada por grandes empresas, que pagam fortunas para aparecerem nas transmissões dos jogos, que também custam uma fortuna às emissoras. A Copa de 2014 custou US$ 4 bilhões ao Brasil, e rendeu US$ 2 bilhões para a FIFA.
Uma vez que a própria FIFA não é uma empresa, portanto seu lucro não é destinado a proprietários privados, o que acaba acontecendo é que uma parte desse lucro acaba sendo ilicitamente embolsado pelos gestores eleitos, como Blatter e Marin. A investigação do FBI diz respeito a US$ 150 milhões que teriam sido pagos em suborno a dirigentes para que escolhessem determinados parceiros de patrocínio e transmissões, em detrimento de outros. Trata-se de crimes contra a concorrência econômica. Esses gestores da FIFA, como dissemos, são eleitos por representantes das federações nacionais. Em cada federação nacional, por sua vez, encontramos figuras como Marin e Ricardo Teixeira, que ascenderam ao comando da entidade sem nenhuma história relevante como dirigentes de futebol.
Ricardo Teixeira era simplesmente genro de João Havelange, antecessor e padrinho de Blatter na presidência da FIFA. José Maria Marin era integrante do partido da ditadura militar, a ARENA, tendo sido vereador em São Paulo e governador em exercício entre 1982 e 1983, como vice de Paulo Maluf. Em 1975, ainda vereador, fez um discurso contra a TV Cultura, por conta da linha crítica ao regime que lá aparecia, e 15 dias depois o jornalista Vladimir Herzog apareceria morto no DOPS.
Para chegar ao comando das federações nacionais como a CBF, essas figuras são eleitas pelos presidentes de federações estaduais, que por sua vez são eleitos por presidentes dos clubes, que por sua vez são eleitos por grupos restritos de conselheiros ou sócios especiais. Em outras palavras, uma estrutura nebulosa e antidemocrática na sua essência. O futebol, o esporte mais popular e democrático do mundo, está sob comando das figuras mais retrógradas, corruptas, autoritárias, incompetentes, medíocres que se possa encontrar.
Os chamados “cartolas” que dirigem o futebol são uma espécie de remanescentes dos “coronéis” que mandavam na política de regiões atrasadas. Ambos vivem de uma rede de troca de favores, de compadrio, de toma lá dá cá. Elegem-se uns aos outros, trocando favores por votos, numa rede de relacionamentos obscura, que nada têm a ver com os objetivos das entidades e o próprio futebol em si. Nesse sentido, a pseudo “faxina” em andamento na FIFA corresponde a uma espécie de pseudo “revolução burguesa”, com a remoção de alguns cartolas ligados a essas redes de favores mais retrógradas e a possível instalação de um corpo de gestores mais profissional.

Limites da pseudo “revolução burguesa” na FIFA
Não acreditamos que a prisão de algumas figuras possa “moralizar” o futebol, seja em nível internacional ou nacional. Enquanto o futebol for um negócio capitalista, estará sujeito a corrupção, troca de favores, suborno, comissões “por debaixo do pano”, compra de resultados, apostas, etc. Todas essas práticas caracterizam a competição capitalista, dentro e fora do mundo do esporte. O capital não tem lei, não obedece às regras do jogo.
Tudo que puder ser feito para aumentar o lucro será feito: matar, contaminar, depredar, roubar, mentir, subornar, chantagear, extorquir, ameaçar, trapacear. Não há legislação financeira, fiscal, trabalhista, ambiental, sanitária ou de qualquer natureza que possa impedir uma empresa capitalista de chegar ao seu lucro. Policiais, fiscais, juízes, políticos, jornalistas, são comprados para acobertar os crimes. A transgressão das leis não é uma escolha acidental de um determinado empresário ou gestor capitalista, é um fato generalizado e amplamente disseminado que faz parte da natureza do sistema. Se um determinado dirigente capitalista opta por ser “ético” (a rigor a ética como tal é impossível numa sociedade dividida em classes), ele será derrotado na concorrência capitalista por aqueles que não o são.
Na verdade, os empresários privados, gestores e diversas personificações do capital não são os verdadeiros sujeitos do processo, mas meros objetos das leis férreas da competição e da acumulação capitalista. Cada fração do capital, enquanto valor econômico abstrato, luta contra as demais para se valorizar, e pune implacavelmente com a falência aquelas personificações que fracassarem em viabilizar este imperativo.
Considerando essa realidade subjacente, a pseudo “revolução burguesa” em andamento na FIFA vai tão somente tocar na superfície dos fenômenos, removendo as figuras ou grupos atualmente encastelados na gestão do futebol, substituindo-os por uma nova categoria de gestores mais “moderna”, “profissional”, transparente”, “ética”, gerando a ilusão de que algo de positivo foi feito. Na realidade, a lógica profunda da competição capitalista que está por trás dos fenômenos seguirá intocada, e com isso novos escândalos serão gerados. Uma determinada turma de empresários capitalistas conseguirá colocar os seus novos gestores de confiança na FIFA, em disputa contra outra turma. Emissoras de televisão, seus patrocinadores, dirigentes de grandes clubes e empresários de jogadores seguirão mandando no futebol, com os mesmos métodos mafiosos.

Clubes X Seleções
Como pano de fundo dessa pseudo “revolução burguesa” na FIFA, temos uma dissociação entre as duas dimensões em que é jogado o futebol, a dos clubes e a das seleções nacionais. Os clubes de futebol, especialmente na Europa, estão se transformando em corporações superpoderosas, com marcas mundialmente conhecidas, torcedores em todos os continentes, audiência e valor de mercado em ascensão. É o caso de gigantes como Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Chelsea, Bayern de Munique, e alguns poucos outros em cada país. Os times montados por esses clubes são verdadeiras seleções mundiais, com os melhores jogadores de cada continente. Esses clubes protagonizam uma disputa, a Liga dos Campeões da Europa, onde se joga o melhor futebol do mundo, com jogos disputadíssimos, de alta intensidade, onde os melhores jogadores entregam seu melhor desempenho.
Como resultado, o futebol jogado na Ligas dos Campeões e nos campeonatos nacionais mais importantes da Europa cresce em interesse, audiência, valor de mercado, e o futebol das seleções nacionais decresce na mesma medida. Antes, as Copas do Mundo eram um evento extraordinário no futebol, no sentido de que nessa competição se jogava o melhor futebol do mundo. Os jogadores esperavam 4 anos para estar entre os melhores dos melhores do seu país, para ter a chance de jogar uma Copa, uma oportunidade que aparecia 2 ou no máximo 3 vezes na curta carreira dos futebolistas. Era nas Copas do Mundo que se faziam os heróis, que se consagravam os mitos. Agora, a Copa é um evento extraordinário em outro sentido, como uma interrupção do calendário “normal” do futebol, que é o das competições dos clubes, em especial os grandes clubes da Europa.
O calendário do futebol europeu começa entre fins de agosto e início de setembro de cada ano, para terminar em maio do ano seguinte. As competições de seleções acontecem entre junho e julho, no intervalo entre as temporadas europeias, período que acaba sendo de descanso e refazimento para os profissionais de alto nível. Os jogadores são preparados fisiologicamente por preparadores físicos, que trabalham cientificamente para isso, de maneira a que eles atinjam o máximo de desempenho físico entre os meses de março e maio, na reta final das competições europeias, quando se definem os campeões. Uma vez atingido esse auge, a tendência natural é o relaxamento e a queda de desempenho. Nem que o indivíduo queira, é fisicamente e psicologicamente impossível manter o mesmo nível de rendimento e motivação.
Depois de se dedicar com a máxima intensidade à disputa da Liga dos Campeões ou dos campeonatos nacionais mais importantes da Europa, depois de atingir o auge do desempenho físico e técnico e também de concentração mental para essas competições, não há como manter o mesmo nível para as competições de seleções no meio do ano. Depois de entregarem seu melhor desempenho jogando pelos clubes, que disputam as competições mais importantes e mais rentáveis, os melhores jogadores do mundo chegam esgotados para os jogos das seleções nacionais no meio do ano.
Devido a essa inversão, a Copa do Mundo não é mais o parâmetro para consagrar os melhores jogadores. O jogador que fez o gol que deu a Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha, o jovem Mario Götze, não ascendeu imediatamente à condição de semideus, de imortal do futebol. Ainda não é considerado como tal, longe disso, porque ainda não se consagrou na disputa que agora realmente interessa, a da Liga dos Campeões da Europa, e ainda é reserva no seu clube, o Bayern de Munique. Não é mais o futebol das seleções que consagra os gênios, mas o dos clubes. Temos uma exceção que ilustra o funcionamento dessa tendência, o caso de Lionel Messi, da Argentina. O atual melhor do mundo já foi protagonista da Liga dos Campeões mais de uma vez jogando pelo Barcelona, mas ainda não é considerado pela torcida de seu país igual ou melhor que Maradona, porque este ganhou a Copa do Mundo pela seleção argentina. Mas para boa parte da crítica internacional, inclusive este autor, Messi já se iguala ou supera Maradona.

A colonização do mundo da bola pelos gigantes europeus
Não sabemos até onde vai essa queda de importância técnica da Copa do Mundo, afinal os povos de quase todos os países ainda torcem apaixonadamente por suas seleções nacionais. Os estados nacionais e com eles o nacionalismo futebolístico ainda devem ser uma parte do cenário por muitas décadas. Mas que existe uma tendência de agigantamento do futebol dos clubes, isso é inegável. Já se estabeleceu um cenário em que os clubes europeus drenam todo o talento futebolístico que surge em países de continentes pobres, como América do Sul, África e Ásia. As competições nacionais e continentais da América do Sul são uma espécie de 2ª divisão mundial, já que as principais competições são as da Europa. Os melhores jogadores ficam pouquíssimos anos nos seus clubes de origem no Brasil (e no restante da América do Sul) e assim que se destacam são vendidos para a Europa. Esse já é o seu “plano de carreira” desde que saem das categorias de base.
Os jogadores que ficam no Brasil são os que não são bons o suficiente para irem para a Europa, ou já não mais são bons o bastante para ficarem por lá, entraram em decadência física, estão lesionados, etc., e por isso voltam. Ao mesmo tempo, já se encontram nas ruas do Brasil torcedores com camisas de times europeus quase em igualdade com o número de torcedores de times nacionais. O futebol dos grandes clubes da Europa está “colonizando” o mundo. E nessa colonização temos uma mudança no caráter do futebol. Este se transforma cada vez mais em um espetáculo televisivo do que num espaço de convivência, como era a sua origem. Esses “torcedores” de clubes europeus que assistem jogos de outros continentes pela televisão dificilmente terão a experiência de torcer para seus clubes de adoção no estádio, que é como o futebol se construiu.
Está acontecendo uma espécie de homogeneização do futebol jogado em todos os países. As diferenças entre as escolas nacionais, com seus diferentes estilos específicos, estão se diluindo. Em cada clube grande da Europa existem mais estrangeiros do que nacionais: um ou dois brasileiros, um argentino, um uruguaio ou colombiano, um ou dois africanos, um sul-coreano, às vezes até um australiano, etc. Esses jogadores jogam um futebol padronizado, técnico, mas burocrático, com bom domínio de bola, mas sem imaginação, com velocidade, mas sem criatividade, e assim por diante.
A homogeneização do futebol, bem como os demais fenômenos descritos acima, a formação de clubes super gigantes, que monopolizam os campeonatos nacionais e criam torcedores/espectadores/consumidores em um mercado global, é um processo que tem seu marco na sentença Bosman, em 1995. Neste ano, uma corte da União Europeia – UE, decidiu que o jogador belga Jean Marc Bosman poderia jogar em qualquer país da UE sem ser considerado estrangeiro. A partir desse precedente, os grandes clubes europeus passaram a poder comprar jogadores europeus como se fossem nacionais, caindo por terra a tradicional e histórica limitação de três estrangeiros por clube que vigorava até aquele momento. O passo seguinte foi a obtenção de passaportes portugueses, italianos, espanhois, por jogadores brasileiros, argentinos, uruguaios, etc.
Com isso, eles também passariam a ser cidadãos europeus, e também poderiam jogar em clubes de qualquer país europeu sem serem contados como estrangeiros. Já é comum ver times ingleses sem nenhum jogador inglês em campo, clubes italianos sem nenhum italiano, e assim por diante. Na prática, acabou o limite para jogadores estrangeiros em cada elenco, e os times com mais dinheiro passaram a poder comprar os melhores jogadores do mundo, e formar as seleções mundiais que temos hoje no Real Madrid, Barcelona, Manchester United, etc. Isso desequilibrou os campeonatos nacionais em favor dos gigantes, e aumentou o interesse na Copa dos Campeões da Europa, transformada em Liga dos Campeões em 1994, uma verdadeira “Copa do Mundo” jogada anualmente.

A elitização e desenraizamento do futebol
Uma das conseqüências desse agigantamento dos grandes clubes é a elitização do futebol. Está se tornando impossível freqüentar os estádios, devido ao preço dos ingressos. Muitos desses clube gigantes reservam partes das suas arquibancadas para agências de turismo. O resultado é que, ao invés de torcedores, eles têm espectadores no estádio. O restante dos ingressos é vendido a torcedores de alta renda. Os trabalhadores não podem mais ir ao estádio, e têm que se contentar em ver os jogos pela televisão.
Esse processo já está tão acentuado em alguns países que até gerou uma reação contrária. O “slogan” comercial da federação inglesa para divulgar os jogos da 2ª divisão é “real football for real fans”. Ou seja, futebol de verdade para torcedores de verdade. A segunda divisão é jogada por times pequenos, de cidades pequenas, em estádios pequenos, mas sempre lotados, com uma torcida apaixonada, que canta durante o jogo inteiro, e literalmente empurra o time. Uma torcida de trabalhadores. O futebol “de verdade” da segunda divisão inglesa é o “kick and rush”, ou seja, chutão para frente e correria. Muita dedicação e pouco talento. Por mais que a qualidade dos jogos não seja nem de longe a mesma da primeira divisão, a badalada “Premier League”, que é o melhor campeonato nacional do mundo, a segunda divisão inglesa motiva seus torcedores, porque é muito mais autêntica. Diante dos jogos altamente competitivos, mas também muitas vezes burocráticos, repetitivos, o torcedor prefere o bom e velho “kick and rush” da segunda divisão.
Quando os trabalhadores perdem a possibilidade de freqüentar os estádios, o futebol se descaracteriza e se transforma num espetáculo televisivo. A classe operária é a alma do futebol. O hábito de torcer ombro a ombro, sofrer junto nas derrotas e comemorar as vitórias, a “religião” de torcer para um time, é parte da identidade de classe que unifica os trabalhadores. Posteriormente, já num momento de degeneração, surgem as gangues de “hooligans” e torcedores organizados, não mais para torcer, mas para brigar com outras gangues rivais. A elitização do público, por meio de ingressos proibitivos, é uma forma de tentar retirar as gangues do cenário, mas que retira também os trabalhadores.

Ideologia da competição x competição esportiva
A transformação do futebol em um negócio bilionário é parte do processo multissecular de mercantilização de todas as esferas da vida, descrito por Marx e Engels no Manifesto Comunista, no longínquo 1848. “A burguesia despojou de sua auréola toda a ocupação até então considerada honrada e encarada com respeito. Converteu o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados”. O capitalismo transformou em um negócio de compra e venda todas as atividades, todas as profissões, incluindo hoje os jogadores de futebol. Marx e Engels foram gênios visionários por terem identificado esse processo em seu nascedouro, no século XIX (e também por prescrever a única forma de enfrentar tal processo e alcançar a emancipação humana: a revolução socialista). Agora, vivemos no momento de consumação da ascensão histórica do capital, quando tudo já está transformado em mercadoria.
Uma vez que a realidade é dialética, as suas diversas esferas se influenciam reciprocamente, e absorvem características umas das outras. Se o esporte se torna mercadoria, a mercadoria também se converte em competição. A ideologia da competição se espalha da prática esportiva para as demais atividades humanas. Desempenho, performance, metas, recordes, resultados, liderança, vitória e derrota, são categorias que passam a vigorar em esferas as mais díspares. Se fala em “performance sexual”, se mede a qualidade dos filmes pelo resultado na bilheteria (ou pela quantidade de prêmios), se corre no trânsito para chegar na frente (de quem?), se vive com pressa, tentando “render mais”, sempre mais. A psicologia dos indivíduos é contaminada por essa obsessão competitiva, produtivista, quantitativa, tomada emprestada da competição esportiva, pela pressão da competição econômica.
A ideologia da competição, transportada para a vida privada dos indivíduos, também não se pauta pelas características da própria competição esportiva em si. Quando o esporte se torna uma atividade econômica, a sua própria natureza é descaracterizada. Afinal, a competição esportiva tem uma lógica diferente da competição econômica. No esporte existem regras para o jogo, o resultado tem que ser obtido dentro das quatro linhas, é requerido um conjunto de habilidades especiais que somente se obtém com treinamento e trabalho duro. O resultado final, enfim, é “justo”, dentro daquilo que é estabelecido quando o jogo começa. A competição econômica, por outro lado, não tem quaisquer limites, como vimos acima.

A educação física para o capital
Na sua origem moderna, o esporte também teve uma função de disciplinamento e “educação” dos indivíduos para um modo de vida adequado à lógica do capital. Os esportes tais como os conhecemos hoje, tanto as modalidades olímpicas quanto o futebol, surgiram entre a metade e o fim do século XIX. Nessa época estava se impondo a industrialização e a urbanização capitalistas. Era preciso adaptar os trabalhadores e a população em geral para uma vida pautada pelos ritmos da produção capitalista.
A semana inglesa de 7 dias, a jornada de trabalho (objeto de dura disputa do nascente movimento operário contra a patronal, até ser reduzida para 8 horas no século XX), o ritmo regular e repetitivo das máquinas, a monotonia das tarefas segmentadas da produção taylorista-fordista, os sinais de trânsito, a contagem do tempo em minutos e segundos, etc., tudo isso teve que ser imposto sobre uma população acostumada a regular o ritmo de vida pelos ciclos da natureza. Durante milênios a humanidade regulou suas atividades pelas estações do ano, épocas de frio e calor, de chuva e de seca, de neve, de colheita, pela claridade do dia, etc. Os ciclos de atividade e descanso seguiam esses ritmos, sazonais, intermitentes, mais ou menos regulares, conforme as regiões e os tipos de atividade. Os ciclos artificiais da vida urbana, do trabalho industrial, do controle burocrático, etc., foram implantados à força, por meio de multas, punições, regulamentos, castigos dos capatazes, bedéis, fiscais, guardas de trânsito, etc.
Paralelamente a esse aparato repressivo, o ritmo de vida artificial adequado à produção capitalista foi imposto também com a ajuda persuasiva mais suave e lúdica das práticas esportivas. Os esportes se popularizam e educam a população, acostumando-a à contagem do tempo, apito inicial e apito final, aquecimento, intervalo, quatro linhas, pontuação, regras, arbitragem, etc., toda uma coreografia ordenada dos gestos que se espalha dos esportes para outras esferas da vida cotidiana. Até as artes marciais, patrimônio das classes aristocráticas do Extremo Oriente, também se popularizam (o judô foi criado por Jigoro Kano em 1920, a partir das técnicas da finada classe dos samurais para as lutas sem armas, especialmente para educar a população do moderno Japão imperialista).
Os próprios efeitos benéficos das práticas esportivas e da atividade física para a saúde ficam hoje em segundo plano, já que o esporte, o hábito de freqüentar academias, etc., também está submetido à ideologia geral da competição que ajudou a difundir, e que o submete de outras maneiras. Dentro das próprias academias, os freqüentadores competem para mostrar mais resultado. O objetivo não é a saúde, mas a exibição de um “corpo perfeito”, conforme um padrão de beleza artificialmente imposto. Até mesmo as artes marciais, as mais nobres e requintadas formas de cultivo do corpo e da mente, se transformaram em UFC.

Um chute que saiu pela culatra
Em resumo, a imposição de um modo de vida adequado à reprodução do capital contou com a colaboração imprevista da popularização das práticas esportivas. Mas essa popularização teve um outro efeito, que não foi previsto. Na época, em fins do século XIX, esse efeito educativo das práticas esportivas sobre o conjunto da população não era a intenção original dos criadores do esporte moderno. As Olimpíadas modernas e o próprio futebol foram criados com uma concepção aristocrática, um ideal cavalheiresco burguês, inspirado em uma idealização da antiga prática greco-romana de cultivo do corpo.
O futebol moderno surgiu nas escolas públicas inglesas na metade do século XIX, como parte desse projeto burguês e elitista. Em fins do século, entretanto, o jogo já tinha sido adotado pela classe operária, que começou a fundar clubes de futebol por toda parte. Marinheiros ingleses difundiram o jogo pelos quatro cantos do mundo. O futebol se popularizou mais do que qualquer outro esporte, devido a uma série de características: a “jogabilidade”, a plasticidade do jogo, a liberdade de criação que oferece, a possibilidade de ser jogado em qualquer terreno, em qualquer espaço, sem requerer equipamentos especiais, nem, principalmente, qualidades físicas excepcionais, podendo ao contrário ser praticado por qualquer biotipo, bem como a simplicidade das regras, e a imprevisibilidade dos resultados.
Ao contrário dos demais esportes coletivos, no futebol o melhor time pode perder. Um gol vale mais do que uma dúzia de chances perdidas. Um time pode jogar um jogo inteiro por uma bola apenas, e vencer. Uma quantidade enorme de fatores interfere nos resultados, em combinações variáveis: individualidade, qualidade do campo, pressão da torcida, erro de arbitragem, preparo físico, entrosamento, esquema tático, ou puro e simples azar. Essas características mantém viva a disputa durante os 90 minutos. Até o apito final, qualquer coisa pode acontecer. Com isso, a motivação de quem joga permanece viva até o final, e também a de quem assiste.
Com essa imprevisibilidade e variedade, o futebol seduziu torcidas pelo mundo inteiro, criou verdadeiras religiões. Mas sempre com uma base social operária. Hoje, em tempos de mercantilização e mundialização, e também de corrupção e tramóias, cada vez mais torcer por bom futebol se tornará um ato de nostalgia e resistência.

Daniel M. Delfino
Junho 2015


6.11.15

O caso Swissleaks: cai mais uma máscara da burguesia



Em fevereiro de 2015 foi divulgada uma lista com os nomes de 100 mil pessoas e 20 mil empresas que movimentaram cerca de 180 bilhões de euros em contas secretas na filial suíça do banco HSBC, no período de 1988 a 2007. A lista foi entregue a autoridades francesas em 2009 por um ex-funcionário da área de informática do banco, o italiano Hervé Falciani. O vazamento da lista foi feito por uma organização chamada Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ na lista em inglês), que compilou os resultados do trabalho de 130 jornalistas em 45 países. O escândalo foi chamado de “Swissleaks”. Foi o maior vazamento de informações sobre contas secretas na Suíça até hoje.
O sistema de contas secretas permite que qualquer indivíduo deposite qualquer quantia num banco, sem precisar declarar a origem do dinheiro, recebendo apenas um número de identificação da conta. Esse sistema é característico da Suíça, onde se instalam bancos especializados nesse tipo de operação. O HSBC, o segundo maior banco do mundo, é apenas um dos bancos que fazem esse tipo de serviço. Portanto, podemos suspeitar que o escândalo Swissleaks é apenas a ponta do iceberg.

A Suíça lava mais branco
Há 25 anos o ativista suíço Jean Ziegler denunciou no livro “A Suíça lava mais branco” o funcionamento dos bancos suíços e seu papel na lavagem de dinheiro sujo proveniente de crimes praticados no mundo inteiro. Em resposta, Ziegler, que era membro do Parlamento, teve sua imunidade cassada, foi alvo de processos por difamação, ameaças de morte, multas milionárias que tem que pagar até hoje, perdeu sua casa e está foragido do país, vivendo como funcionário da ONU.
Os bancos suíços, entre eles a subsidiária do HSBC, orientam seus clientes milionários a transferir seu dinheiro para paraísos fiscais, e de lá levá-los para as contas secretas. Paraísos fiscais são países minúsculos, como Ilhas Caimã ou Ilhas Virgens Britânicas, que não cobram impostos de estrangeiros que abrem empresas para trazer seu dinheiro. Milionários do mundo inteiro e grandes empresas abrem filiais de fachada em paraísos fiscais, transferem o dinheiro de seus países de origem para essas filiais e de lá para a Suíça. Segundo Ziegler, o esquema começou na 2ª Guerra Mundial, quando a Suíça foi neutra, mas ajudou os nazistas a esconder dinheiro roubado de toda a Europa. Ainda segundo o ativista, 27% da riqueza mundial está depositado em bancos suíços.
O sistema de contas secretas permite acobertar vários tipos de crimes. O principal deles, e que talvez seja o responsável pelo maior volume depositado na Suíça, é o de sonegação fiscal. Ou seja, dinheiro que deveria ter pago impostos nos países de origem, mas que é transferido por empresas e pessoas físicas para o exterior, a fim de evitar a tributação. Enquanto os pobres e os trabalhadores não deixam de pagar seus impostos diretos e indiretos, os ricos e super ricos, que tem acesso a esse tipo de esquema, podem transferir seu dinheiro para o exterior. Com isso, quem sofre são os serviços públicos, que deixam de receber o dinheiro que poderia financiar a saúde, a educação, moradia, transportes, etc.

Quem tem contas na Suíça
A sonegação fiscal é o crime de esconder dinheiro de origem legal, de maneira ilegal, para não pagar impostos. Mas além dela, os bancos suíços recebem também dinheiro de origem diretamente ilegal. Por exemplo, o dinheiro da corrupção. Ditadores como o sanguinário “Baby Doc” Duvalier do Haiti, ou Aziza Kuslum, responsável pela guerra civil em Burundi nos anos 90, escondiam seu dinheiro na Suíça. Políticos corruptos do mundo inteiro, como o brasileiro Paulo Maluf, também têm contas na Suíça. Além disso, criminosos notórios, como traficantes de drogas, ou de armas, de órgãos humanos, de escravos, etc., podem chegar na Suíça com uma mala de dinheiro e abrir uma conta secreta, sem ter que responder perguntas. Isso facilita também a transferência de recursos usados em ações terroristas.
Em 2008, durante a crise mundial, no auge da indignação pública contra os bancos que foram o estopim da crise, os Estados Unidos pressionaram a Suíça acabar com o sistema de contas secretas, sob pena de não poder operar mais em Wall Street. Mas a medida, se vier de fato a acontecer, só terá efeito a partir de 2018. O HSBC alega que mudou suas práticas a partir de 2007, por isso a lista do Swissleaks revela apenas as operações feitas até aquela data. Mesmo assim, é razoável supor que operações semelhantes continuem sendo feitas por outros bancos, por pessoas dessa mesma lista ou outras ainda não reveladas. O governo francês está de posse da lista há vários anos e somente agora ela foi divulgada.
O Brasil na lista
O Brasil é o 4º país com o maior número de nomes da lista, sendo de cerca de 7.000 pessoas, que movimentaram aproximadamente R$ 20 bilhões. Esse valor é praticamente o mesmo que o governo quer obter com as medidas provisórias 664 e 665, que reduzem os pagamentos do Seguro Desemprego, abonos do PIS e pensões por mortes. Ou seja, essas medidas são desnecessárias, o governo não precisaria cortar dinheiro dos trabalhadores. Bastaria recuperar o que foi enviado ao exterior por esse seleto grupo de correntistas.
A lista do Swissleaks está provocando escândalo no mundo inteiro, por envolver, além de políticos e criminosos, celebridades como o piloto Fernando Alonso, o ator Christian Slater, o jogador Diego Forlán, etc. Mas no Brasil, curiosamente, reina um estrondoso silêncio. Não fosse pela ação de blogueiros e jornalistas independentes, não saberíamos que figuras como a família Steinbruch, controladores da CSN, a família Queiroz Galvão, da empreiteira homônima, a família Safra, do banco também homônimo, estão na lista. Também fazem parte dela Pedro Barusco, delator da Petrobrás, e também os engenheiros envolvidos no cartel da CPTM e Metrô de São Paulo. Muitos dos que aparecem na lista são doadores de campanhas eleitorais, a maioria do PSDB, mas também do PT.
O que explica o silêncio sobre a lista no Brasil é o fato de que boa parte dos donos da mídia também está na lista. As famílias Marinho, da Globo, Saad, da Bandeirantes, Bloch, da extinta Manchete, Frias da Folha de São Paulo, Masci de Abreu, da rede CBS de Rádio, Queiroz, donos de TVs no nordeste, além de jornalistas, o apresentador Ratinho, etc., todos têm ou tiveram contas na lista do HSBC. O jornalista Fernando Rodrigues, do UOL, que recebeu a lista completa do ICIJ, ainda não a divulgou.
A moral dessa história é que o sistema capitalista não tem nenhuma moral. A lei só vale para os que não podem pagar por ela, os trabalhadores. Quem pode pagar compra advogados, juízes, auditores, autoridades, gerentes, e esconde seu dinheiro na Suíça e paraísos fiscais. Podemos também concluir que toda “guerra às drogas” e “guerra ao terror”, é uma fachada, pois sem fechar os canais de financiamento dessas atividades é impossível combatê-las. E esses canais jamais serão fechados, pois toda a classe dominante os utiliza. Praticamente toda a burguesia, os grandes empresários, donos de indústrias, latifundiários, redes de serviços e comércio, etc., todos sonegam impostos e desviam o dinheiro. Sem esse tipo de esquema, a burguesia não poderia desfrutar de sua riqueza. Como diria Orwell, todos são iguais perante a lei, “mas alguns são mais iguais que os outros”.

Daniel M. Delfino
Maio 2015




Argentina: crise política revela podridão do Estado burguês



Assim como o Brasil, a Argentina passa por um momento de questionamento de sua presidente. No Brasil, o questionamento tem sido levantado por conta das denúncias de corrupção na Petrobrás, que originaram uma campanha pelo impeachment de Dilma. Ainda que não tenha tomado as proporções de uma ofensiva real com o propósito de derrubar imediatamente o governo burguês de plantão, essa campanha segue vicejando nos meios virtuais, na mídia e nos bastidores como uma espécie de carta na manga ou plano B da burguesia.
Na Argentina o questionamento é bem mais profundo. A presidente Cristina Kirchner foi acusada pelo procurador Alberto Nisman de encobrir os culpados dos atentados de 1994 em Buenos Aires contra uma instituição judaica. Quatro dias depois da denúncia, em 18 de janeiro, o procurador é encontrado morto em sua casa. Não há provas conclusivas sobre as hipóteses de suicídio ou assassinato. A oposição burguesa, a mídia e setores do judiciário não perderam tempo e imediatamente colocaram a culpa da morte do procurador na presidente. O governo, por sua vez, denunciou o procurador por suas ligações com os Estados Unidos e Israel.
A guerra de acusações entre o governo e a oposição prossegue e já está enojando a população, ao expor as entranhas do aparato do Estado e a putrefação que reina nessas altas esferas. O certo é que não há nenhum inocente na disputa. A motivação politica da acusação do procurador Nisman tem a ver com a situação atual da Argentina, a deterioração da economia e a disputa pela sucessão de Cristina Kirchner, nas eleições de outubro. Mas para entender a trama dos acontecimentos é preciso retomar o fio da meada até os próprios atentados.

Os atentados de 1992/1994 e o pântano judicial
Na linha do tempo dos acontecimentos relevantes para o caso, o primeiro ponto se situa em 1991, ano em que governava Carlos Menem, equivalente portenho ao que foram os governos Collor e FHC no Brasil, aplicadores ferozes do neoliberalismo e entusiastas da globalização. Neste ano, Menem envia navios para a 1ª. Guerra do Golfo, como parte da coalizão que os Estados Unidos montaram contra o Iraque. Essa aliança militar simbolizava aquilo que o próprio Menem denominou de "relações carnais" com os Estados Unidos, ou seja, submissão completa ao imperialismo.
A resposta a essa adulação servil do imperialismo não veio do nacionalismo latino americano, mas de um atentado em frente à embaixada de Israel em Buenos Aires, em 17/03/1992, que deixou quase 30 mortos. A investigação do atentado foi conduzida pela própria Suprema Corte argentina, por se tratar de um alvo ligado a um Estado estrangeiro, e se concluiu em 1994, sem conseguir apontar os culpados. No mesmo mês da conclusão judicial, no dia 18/07, acontece outro atentado, dessa vez contra a Associação Mutual Israelita Argentina - AMIA, que deixou 85 mortos e mais de 300 feridos.
A investigação desse segundo atentado deu origem a um novo e gigantesco inquérito, cujo julgamento aconteceu entre 2001 e 2004. Esse julgamento se debruçou sobre três possíveis pistas, que incriminavam setores da comunidade islâmica radicados na Argentina e supostamente relacionados ao Líbano, Síria ou Irã. Mas o único condenado no julgamento foi o próprio juiz do caso, flagrado em vídeo recebendo uma propina milionária de um policial implicado em uma das linhas de investigação. O fracasso do julgamento levou o processo de volta à estaca zero. Houve então a substituição da equipe encarregada da investigação por um novo grupo, chefiado pelo procurador Alberto Nisman, recém falecido.

A reconstrução da governabilidade burguesa na era K
Acontece que esse novo ciclo de investigação dos atentados a AMIA se dá no marco de uma nova conjuntura nacional, a estabilização do país sob os governos de Nestor Kirchner e sua viúva e sucessora Cristina, a partir de 2003. O casal K, como são chamados os Kirchner na Argentina, assumiu a tarefa de reconstruir as instituições do país e salvaguardar a continuidade do capitalismo, depois do contundente clamor das ruas para "que se vayan todos", que marcou a revolta popular do "Argentinazo" de 2001. A reconstrução das instituições do regime se deu com uma ampla reciclagem do pessoal que ocupava o aparato do Estado, substituído por figuras do escalão inferior, menos conhecidas e menos rejeitadas pelo povo. Mas ainda assim, foi uma continuidade, que se deu em todos os níveis, desde o executivo ao judiciário. O procurador Nisman fazia parte da equipe do juiz anterior do caso AMIA.
A era K, como os governos do PT no Brasil, garantiu a governabilidade capitalista de um país que havia sido pesadamente atingido pela crise mundial anterior (2000/2001), que resultou numa rejeição massiva ao modelo neoliberal. Essa tarefa foi facilitada pela conjuntura favorável de retomada do crescimento econômico mundial em meados da década, que resultou numa alta dos preços das “commodities” em que se especializaram os países latino-americanos (carne e trigo, no caso da Argentina). Esse momento favorável da economia na década passada permitiu a esses governos garantir os lucros da burguesia e do imperialismo e ao mesmo tempo fazer limitadas concessões às massas.
O esgotamento do modelo, a partir da crise de 2008, leva a dificuldades crescentes para o governo K na Argentina, culminando em derrota nas eleições parlamentares de outubro de 2013 para os partidos da oposição burguesa (ressalve-se que os partidos da esquerda classista, agrupados numa coligação eleitoral chamada FIT, também obtiveram uma boa votação). É nesse contexto de possível derrota eleitoral da presidente e fim da era K que se deu a acusação do procurador Nisman. A burguesia argentina e o imperialismo parecem dispostos a substituir o kirchnerismo por um governo burguês "normal", sem qualquer tipo de fachada “progressista” ou concessões aos trabalhadores.

A conspiração do imperialismo e da oposição
A oposição interna e externa conseguiu cooptar o procurador Nisman (que havia sido apontado para a função de investigar o caso AMIA pelo próprio Nestor Kirchner) e orientá-lo para que acusasse a presidente Cristina. Foi adotada a pista iraniana, com base em depoimentos pouco críveis de dissidentes iranianos hostis ao governo daquele país. Ou seja, a incriminação de supostos agentes iranianos foi feito por pessoas declaradamente hostis ao governo daquele país, que teriam todos os motivos para faltar com a verdade e inventar insinuações.
Essas insinuações foram transformadas em prova judicial com a mediação do imperialismo estadunidense. Quando foram publicados no site Wikileaks em janeiro de 2011 os documentos das embaixadas estadunidenses e as ações de espionagem que elas encobrem pelo mundo inteiro, havia um capítulo argentino, que tratava exatamente do caso AMIA. Nesses documentos expunha-se o fato escandaloso de que o procurador Nisman submetia as peças jurídicas que redigia na investigação aos funcionários da embaixada, e somente depois das devidas correções da inteligência estadunidense elas eram publicadas como oficiais. Esse procedimento criminoso e servil foi denunciado amplamente nos livros “Argenleaks” de 2011 e “Politileaks” de 2014, do jornalista Santiago O'Donell. Apesar disso, Nisman foi mantido no cargo de procurador e na investigação do caso AMIA, como se nada tivesse acontecido!
Da mesma forma seguiram intocados os agentes do SIDE (Serviço de Inteligencia do Estado, herdado da ditadura militar argentina – 1977-1983), formalmente subordinados ao poder executivo e empregados por Nisman na investigação, muitos dos quais remanescentes da ditadura, uma das mais assassinas do continente. Ressalve-se que uma das frentes do marketing “progressista” dos governos K foi a punição de alguns dos agentes da ditadura, em especial nas Forças Armadas. As punições, entretanto, deixaram intocados os agentes da inteligência.
Esses serviços secretos, como em todos os países, acabam desenvolvendo interesses próprios, sem nenhuma lealdade aos governantes de plantão a quem estão formalmente subordinados, nem a alguma ideologia ou projeto politico. Formam um cisto no interior do Estado, protegido pelo caráter secreto de suas atividades, sem que se saiba sequer o nome real dos seus integrantes, o que fazem na prática, seu orçamento, etc. Na realidade, os serviços secretos servem apenas para realizar o trabalho sujo da burguesia, aquele que as instituições "normais" de policia e Forças Armadas não podem desempenhar (pelo menos não em tempos de democracia burguesa formal): espionagem, intimidação, tortura, desaparição, assassinato de opositores, especialmente de organizações dos trabalhadores.
Nenhum governo burguês pode prescindir de agentes para esse tipo de serviço sujo, mas ao mesmo tempo nenhum governo tem controle total sobre o que fazem, sendo forçado a tolerar os abusos que cometem em interesse próprio. De tempos em tempos os abusos vêm à tona e os serviços são formalmente reformados, mas sua essência permanece a mesma.

A geopolítica de uma acusação forjada
O resultado dessa conspiração foi a denúncia contra Cristina Kirchner, redigida em co autoria com a inteligencia estadunidense e assinada por Nisman. Em tal denúncia constava a acusação sobre a presidente e seu chanceler (ministro das relações exteriores) de negociar com o governo iraniano a retirada de pedidos de busca, formalizados na Interpol, contra agentes iranianos que teriam participado dos atentados, segundo a pista preferencial adotada pelo procurador. Em troca, seriam reabertas as negociações comerciais com o Irã (país isolado por sanções comerciais do imperialismo), visando sobretudo o fornecimento de petróleo iraniano à Argentina (que como o Brasil, vive uma crise energética).
Recentemente, o próprio governo Obama iniciou uma reaproximação com o regime dos aiatolás, notório integrante do "eixo do mal" desde a revolução de 1979, que foi materializada no “plano de ação conjunta” de novembro de 2013 sobre o programa nuclear daquele país. Aparentemente, o governo argentino, através do chanceler de Cristina, havia interpretado essa reaproximação como uma espécie de "autorização" informal do imperialismo para também normalizar suas próprias relações com o Irã. O imperialismo então usou o procurador Nisman para colocar a Argentina de volta no seu devido lugar, ou seja, o de uma semicolônia, que não pode dar nenhum passo em suas relações internacionais sem a aprovação de seus amos imperiais.
Que na denúncia apresentada pelo procurador não haja provas concretas não importa (as negociações entre Argentina e Irã de fato aconteceram, mas não foram suficientes para que a Interpol retirasse os pedidos de busca). O que importava era causar problemas para a presidente Cristina, em ano eleitoral, e desgastar seu projeto. A morte de Nisman, em circunstâncias ainda não esclarecidas (e que provavelmente nunca serão, assim como os próprios atentados) elevou a temperatura da situação.

As lições da crise
A população argentina está sendo bombardeada diariamente pela mídia com as idas e vindas do caso Nisman, com a acusação de assassinato sobre a presidente e de outro lado a denúncia da relação de Nisman e agentes de inteligência a seu serviço com os Estados Unidos. O governo contra atacou dissolvendo o SIDE, substituindo-o por outro órgão com as mesmas funções. No dia 18/02 aconteceu uma marcha convocada pela oposição pedindo justiça para o procurador Nisman. Segundo a imprensa burguesa internacional, sintonizada com o imperialismo, a marcha contou com 400 mil pessoas. Fontes da esquerda argentina, entretanto, independentes em relação ao governo e também à oposição burguesa, calculam o efetivo da marcha em 100 mil pessoas (ver por exemplo http://www.socialismo-o-barbarie.org/?p=4313). O certo é que a maioria da classe trabalhadora ignorou a convocação da marcha e não compareceu nem lhe deu muita atenção. Os participantes limitaram-se à hierarquia do judiciário, políticos burgueses e a classe média. Na vida real, que não passa na TV, a população trabalhadora está se cansando do escândalo e mais preocupada com os problemas da economia, inflação, desemprego, etc.
Desse processo em andamento no país vizinho nos ficam algumas lições:
- o papel subordinado e semicolonial dos países periféricos, como a Argentina e o Brasil, a sua completa falta de soberania real e a ação permanente de monitoração e controle da politica desses países pela rede de embaixadas/espionagem estadunidenses;
- o papel nefasto dos serviços de inteligência, o seu caráter de instituições intrinsecamente antidemocráticas e antipopulares;
- a necessidade da dissolução de todos os resquícios das ditaduras militares, seus serviços de inteligência e demais órgãos de repressão, todos ainda repletos de torturadores e assassinos, que por sua vez devem ser todos julgados e condenados, estejam na ativa ou já retirados;
- a necessidade da publicação de todos os documentos e negociações internacionais, que são tratados às escondidas pelos burocratas do Estado, como se fossem assuntos que não dizem respeito ao conjunto da população;
- a necessidade de investigações independentes, sem a presença de agentes suspeitos do Estado, sejam do judiciário ou do executivo, para esclarecer acontecimentos como os atentados à AMIA e o próprio assassinato do procurador. Essa investigação teria que ser assumida pelas organizações dos trabalhadores;
Pela sua profundidade, a crise na argentina afeta não apenas o governo burguês K, mas seus opositores burgueses, e boa parte das instituições, o judiciário, serviços de inteligencia, etc. Trata-se portanto de uma crise do regime. A saída dessa crise pode ser dada pela burguesia por meio da eleição de opositores do kirchnerismo. Isso, entretanto, não resolveria os problemas concretos do país, a crise energética que foi pivô do caso, a inflação, o desemprego, etc. Esses problemas só podem ser resolvidos com uma mobilização popular.
Em relação ao caso AMIA e Nisman, é preciso denunciar o caráter das instituições do Estado burguês, o seu papel de órgão a serviço da classe dominante e da exploração e opressão dos trabalhadores, colocando como palavra de ordem a mais radical das demandas democráticas, a de uma Assembleia Constituinte. Uma Constituinte arrancada pela mobilização popular traria a oportunidade de, entre outras questões, discutir as instituições de alto a baixo (o que traria a oportunidade de, dependendo do grau de mobilização, por abaixo o próprio Estado capitalista e substituí-lo por um poder dos trabalhadores, que encaminhe uma transformação revolucionária) e colocar em prática os ensinamentos listados acima.

Daniel M. Delfino
Março 2015





5.11.15

Syriza engana seus eleitores e cede à Troika


O Syriza (Coalizão da Esquerda Radical, em grego) foi recentemente eleito de maneira espetacular na Grécia, pela forma como derrotou os partidos tradicionais, com a promessa de acabar com as políticas de "austeridade" impostas pela Comissão Europeia (órgão formado por representantes de cada país da União Europeia), o Banco Central Europeu (BCE) e o FMI, a chamada “Troika”. Essas políticas foram ditadas pelo infame “Memorando” de 2010, que impunha cortes nos gastos públicos, privatizações, demissões nos serviços públicos, aumento de impostos, aumento do tempo de aposentadoria, retirada de direitos trabalhistas, etc., em troca de ajuda para pagar a dívida do país.
O resultado dessas medidas foi uma brutal recessão econômica, o aumento explosivo do desemprego (especialmente entre os jovens, com 60% sem trabalho na faixa de 18 a 25 anos) e o aumento do número de pobres no país de 2% para 14% entre 2009 e 2014 (http://pt.euronews.com/2014/02/13/grecia-desemprego-e-pobreza-batem-recordes/). Ao mesmo tempo, a dívida grega só fez aumentar, chegando a 174% do PIB em 2014 (http://pt.tradingeconomics.com/greece/government-debt-to-gdp).
Entretanto, em pouco menos de um mês o governo do Syriza passou de uma consagradora eleição, em 25 de janeiro, para uma vergonhosa capitulação nas negociações com a Troika, encerradas em 20 de fevereiro. O acordo entre as duas partes mantém o essencial da política que vinha sendo aplicada pelos governos anteriores do PASOK e Nova Democracia, massivamente repudiados nas urnas pelos gregos. O Syriza aceitou todos os pontos que eram fundamentais para o imperialismo alemão, maior potência da União Europeia e verdadeira força por trás da Troika:
- reconheceu a validade da dívida do país, ou seja, comprometeu-se a de alguma forma seguir pagando;
- aceitou a supervisão dos organismos internacionais, comprometendo-se a não adotar nenhuma medida unilateral e notificar aos organismos internacionais qualquer ação da política econômica;
- comprometeu-se a apresentar uma lista de medidas a serem tomadas para garantir o cumprimento do acordo, ou seja, medidas de "austeridade" contra a população grega.
Em troca, os bancos privados e o Banco Central Europeu concordaram em fazer empréstimos para que a Grécia consiga pagar suas dívidas que tiverem vencimento nos próximos 4 meses. Esses empréstimos não são dinheiro que vai entrar na Grécia para ajudar a economia do país, mas vão direto para os credores dos títulos gregos, e o país fica obrigado a pagar esses novos empréstimos aos bancos e novos credores, em condições cada vez mais severas, numa bola de neve sem fim.
O pacote de maldades do Syriza
Na terça-feira dia 24 o ministro das finanças Yannis Varoufakis apresentou a lista de medidas exigidas pela Troika. Trata-se de mais um pacote de maldades contra os trabalhadores, idêntico aos que vinham sendo aplicados pelos governos anteriores:
- melhorar a coleta do Imposto sobre Valor Agregado (pago pelos consumidores em cada mercadoria) para diminuir a evasão e acabar com isenções e descontos;
- controle rigoroso dos gastos em todas as áreas do governo (educação, defesa, transporte, governos locais, benefícios sociais);
- não reverter as privatizações anteriores (como a do porto do Pireu, um dos principais da Europa, como chegou a ser comemorado pelos entusiastas do Syriza mundo afora), e também a dar continuidade às privatizações que já tinham sido iniciadas;
- eliminar falhas e incentivos na política de pensões que dão origem a um número muito alto de aposentadorias precoces (O Syriza assume o princípio típico dos governos neoliberais de que os trabalhadores se aposentam antes da "idade devida" porque são preguiçosos ou fraudadores);
- submeter as futuras mudanças no salário mínimo às “instituições” da Troika de modo a salvaguardar a “competitividade dos negócios”;
- aumentar a transparência dos gastos públicos e combater a corrupção;
- reduzir o número de ministérios de 16 para 10, cortando cargos excedentes;
- reformar os planos de cargos do setor público de modo que não haja mais aumento nos pisos salariais;
- garantir que o combate à crise humanitária não tenha efeito fiscal negativo (ou seja, combater a miséria sem aumentar a dívida do governo!);
- aumentar a “eficiência” dos governos locais;
- dar maior independência à Secretaria da Receita;
O texto de Varoufakis está disponível na íntegra em inglês através do link: http://www.ansa.it/documents/1424780332479_Lettera_Grecia.pdf .
Causas estruturais da crise grega
O programa anunciado pelo Syriza equivale a jogar mais gasolina para acabar com o incêndio. Não há a mínima chance de retomar o crescimento econômico e melhorar o nível de vida da população com tais medidas. Esses meros paliativos administrativos não são capazes de atacar as causas estruturais da crise grega.
A Grécia faz parte da Zona do Euro, conjunto de 19 países que opera com a moeda comum europeia, o euro. Entretanto, o uso da moeda comum pelos diversos países não anulou as diferenças entre as suas economias nacionais, ao contrário, tornou-as abissais. Ao fazer negócios com os gigantes do bloco, em especial a Alemanha, a desproporção entre a produtividade das economias menores se torna evidente. A estrutura de custos da economia alemã funciona como norma reguladora para a economia do continente: quem não consegue produzir com a eficiência dos alemães (ninguém na Europa) vai ficando fora da competição. Na lógica do sistema capitalista, as economias mais fortes engolem as mais fracas, assim como na concorrência entre as empresas.
O tempo de trabalho socialmente necessário para produzir as mercadorias na Grécia e demais países da periferia europeia é muito maior do que na Alemanha. Isso faz com que as empresas gregas não consigam concorrer com as alemãs, sendo compradas por estrangeiros, fechadas ou indo à falência. A condição para seguir concorrendo nesse mercado é rebaixar cada vez mais os custos, fechando postos de trabalho, aumentando a exploração e reduzindo salários, direitos e benefícios. O fechamento de empresas, a redução da atividade econômica, o desemprego, caminham paralelo com o déficit comercial, já que esses países se tornam compradores de produtos alemães e estrangeiros, e com o déficit público, já que diminui a arrecadação de impostos do governo. Ao tentar sair da crise, o governo tenta reverter o déficit com políticas de "austeridade" contra os trabalhadores, ao mesmo tempo em que aumenta o próprio déficit com a generosidade desmedida para com os bancos e grandes empresas.
Essa política contraditória é a única possível no sistema capitalista, já que em tal sistema não se admite que diminua o lucro das empresas, mas se admite que a população suporte todo tipo de sofrimento. Desemprego, fome, doenças, violência, a miséria em todas as suas formas, podem avançar sem limite, contanto que a sacrossanta propriedade privada e os lucros do capital estejam garantidos. Para acabar com a miséria e o sofrimento do povo, não há outra saída a não ser romper com o capitalismo. Mas essa nunca foi a intenção do Syriza.
O partido acredita poder tirar a Grécia da crise por meio de um conjunto de medidas de melhoria na gestão, de maior eficiência administrativa do Estado, sem nenhuma ruptura real com o sistema. Como se o problema do país tivesse sido causado apenas pela negligência, corrupção ou incompetência dos governos anteriores. Longe disso, a origem da crise grega está na própria essência do capitalismo, a lei do valor, que se impõe sobre a economia capitalista como a lei da gravidade na física.

Jogos de palavras não escondem a falência do reformismo eleitoral
O Syriza aceitou as estreitas margens de manobra disponíveis para pilotar a máquina do cambaleante capitalismo grego, e o único resultado possível seria render-se à Troika. O novo governo grego já foi para a negociação derrotado. Nas semanas anteriores milhões de euros foram retirados dos bancos na Grecia, pelo temor dos investidores de que o governo não conseguisse um acordo. Ao não optar por medidas de ruptura e buscar uma linha de menor resistência, que não atacasse os pilares da submissão da Grécia, o novo governo se viu sem outra opção a não ser fechar um acordo de curto prazo (quatro meses) e comprometer-se com o pacote de medidas administrativas.
Para tornar aceitável mais um pacote de maldades para o eleitorado grego, até ontem tão esperançoso, o primeiro ministro Alexis Tsipras adotou a tática de criar confusão para que o povo não entenda o que está acontecendo. Tsipras, Varoufakis e sua equipe voltaram ao país cantando vitória e dando novos nomes às coisas. As entidades odiadas pelos gregos receberam novas denominações, como se isso pudesse mudar o que são. A Troika foi rebatizada de "Instituições", o Memorando foi chamado de "Acordo" e os credores foram chamados de "parceiros".
Essa tática confusionista terá efeitos muito limitados, pois não só os gregos, mas o mundo inteiro acompanha muito atentamente o que o Syriza faz. Para a Troika e o imperialismo é fundamental usar o Syriza para esmagar a esperança do povo grego de sair da "austeridade", pois isso servirá para evitar que as ilusões de mudança se alastrem para outros países, como Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, que passam por processos de recessão e empobrecimento (pois também seguem os Memorandos de "austeridade") como a Grécia. A burguesia quer dar uma dura lição para todos os que acreditam que é possível sair facilmente do ditado da "austeridade", por meio de aventuras eleitorais.
A síntese brutal dessa política foi formulada por Jeroen Dijsselbloem (presidente do Eurogrupo, conselho dos ministros de finanças dos países da União Europeia, que participou das negociações do novo acordo com os gregos), numa declaração em maio de 2013: "Os governos podem ir e vir, mas os programas continuam a ser necessários" (http://www.publico.pt/economia/noticia/presidente-do-eurogrupo-os-governos-podem-ir-e-vir-mas-os-programas-continuam-a-ser-necessarios-1595663). Na prática, isso significa dizer que os Estados nacionais não têm soberania alguma, os eleitores podem votar em quem quiserem, mas qualquer que seja o partido eleito, o programa de governo já está traçado nos Memorandos.
Ou seja, independentemente das eleições, quem governa de fato é a Troika. As instituições europeias criaram uma malha de imposições, consagradas como cláusula pétrea nas constituições dos países membros, que garantem a obediência aos ditames da burguesia financeira. As condições para permanência na Zona do Euro impõem tetos de dívida (total do volume de títulos emitidos pelo governo) e déficit (diferença negativa entre o que o governo arrecada e o que gasta num determinado ano). Para alcançar esses tetos, não há outro meio senão submeter-se a medidas cada vez mais ferozes de "austeridade". Esse é o significado último do pertencimento ao euro e da União Europeia para os países menores: submeter-se às exigências da burguesia europeia.

O caráter de classe do Syriza
A velocíssima capitulação do Syriza e sua rendição relâmpago à Troika tem explicação no seu caráter de partido reformista parlamentar e em sua opção pela negociação com a burguesia europeia. O reformismo histórico via a luta por melhorias pontuais como uma forma de chegar gradualmente ao socialismo, e já fracassou há décadas. O reformismo atual se limita a tentar conquistar uma vida melhor dentro do próprio capitalismo, já tendo abandonado a pretensão de transformá-lo. E esse reformismo atual também está condenado a fracassar, como acabam de experimentar amargamente o Syriza e os gregos. Não há mais possibilidade de reformas e melhorias duradouras dentro do capitalismo. A crise estrutural do sistema do capital exige ataques cada vez mais severos sobre os trabalhadores e a retirada das conquistas e melhorias anteriores. Exatamente o que o Syriza está fazendo ao optar por administrar o capitalismo.
A opção pela via parlamentar e pela negociação com organismos europeus tem a ver com o caráter de classe do Syriza. Trata-se de um partido pequeno burguês eleitoral. O Syriza não é um partido operário, baseado na organização e luta dos trabalhadores. Não tem como estratégia a mobilização dos trabalhadores para enfrentar a burguesia grega e europeia. Sua eleição não serviu para acelerar a luta de classes, mas para apaziguar a população com a esperança de que o governo eleito faria tudo por eles. A estratégia eleitoral serviu para desmobilizar os gregos.
O problema não é apenas o Syriza ter concorrido a eleições, mas o fato de não ter um projeto de enfrentamento e luta contra o capital estruturado entre os trabalhadores a partir da base. O partido não tem um trabalho organizado que aponte uma referência para a ruptura com as burocracias sindicais da GSEE (central sindical dos trabalhadores do setor privado, dirigida pelo PASOK) e ADEDY (central do setor público, dirigida pelo Partido Comunista – KKE, stalinista), que seguem uma linha de colaboração de classe e impedem lutas consequentes contra a "austeridade". Dezenas de greves gerais de 24h foram decretadas por essas centrais desde a imposição do Memorando, não como uma forma de derrotá-lo, mas para descomprimir a insatisfação das bases. Nenhuma direção batalhou para construir pela base greves por tempo indeterminado até a retirada das medidas do Memorando. Nem o Syriza apontou essa perspectiva, porque, afinal de contas, não se trata de um partido militante.

Começam as rupturas
A decepção com os rumos tomados pelo Syriza já se manifesta nas próprias fileiras do partido, e inclusive em setores próximos à sua direção. Manolis Glezos é uma lenda viva da esquerda grega, com 92 anos de idade e mais de 7 décadas de militância, visto na imagem no topo do artigo num protesto contra a "austeridade" em 2012. Glezos ganhou notoriedade quando, em 30 de maio de 1941, juntamente com seu amigo Apostolos Santas (falecido em 2011), escalou o topo da Acrópole de Atenas para remover uma bandeira com a suástica hasteada três dias antes pelos nazistas, quando os alemães ocuparam o país na II Guerra. Tornou-se símbolo da resistência contra o nazismo (expulso da Grécia em outubro de 1944), depois contra a ditadura dos coronéis (1967 – 1974), hoje contra a ditadura da Troika.
Este herói da resistência, hoje deputado do Parlamento Europeu pelo Syriza, acaba de lançar um manifesto pedindo desculpas por ter ajudado a criar a ilusão de que o partido romperia com a política de "austeridade" da Troika, e conclamando a todos os organismos do partido a se reunir para reverter o acordo assinado no fim de semana passado. O texto em inglês pode ser acessado em: http://roarmag.org/2015/02/glezos-greek-bailout-illusion/. Segue abaixo uma tradução do manifesto:
"O fato de que a Troika tenha sido rebatizada de 'as instituições', o Memorando tenha sido renomeado de o 'Acordo' e os credores renomeados de os 'parceiros', da mesma forma que renomear carne como peixe, não muda a situação anterior.
E você não pode mudar o voto do povo grego na eleição de 25 de janeiro.
O povo grego votou naquilo que Syriza prometeu: que abolíssemos o regime de "austeridade" que é a estratégia não só dos oligarcas da Alemanha e de outros países credores mas também da oligarquia grega; que nós revogássemos o memorando e a Troika e toda a legislação de "austeridade"; que no dia seguinte com uma lei nós abolíssemos a Troika e todas as suas consequências.
Um mês se passou e essa promessa ainda tem que se tornar ação. Isso é uma pena, de fato.
Da minha parte eu peço desculpas ao povo grego por ter contribuído para essa ilusão.
Antes que a direção errada continue.
Antes que seja tarde demais, vamos reagir.
Acima de tudo os integrantes, amigos e apoiadores do Syriza, em reuniões de urgência em todos os níveis da organização devem decidir se aceitam essa situação.
Algumas pessoas dizem que num acordo você deve também fazer concessões. Por princípio, entre o opressor e o oprimido não pode haver acordo por meio de concessões, assim como não pode haver entre o escravo e o conquistador; liberdade é a única solução.
Mas mesmo se aceita essa absurdidade, as concessões que de qualquer modo já foram feitas pelos governos pró-memorando anteriores com desemprego, pobreza e suicídio, estão além de qualquer limite de concessão.”
Não sabemos ainda o resultado dessa convocação de Glezos, figura de grande autoridade moral na esquerda grega. Temos que acompanhar os acontecimentos e verificar até que ponto a experiência com o Syriza pode avançar para a mobilização, a luta, a ação direta e a formação de uma nova consciência e novas organizações.

Não há saída indolor para a crise
De certa forma, o povo grego já está acostumado a ver os partidos prometerem uma coisa e entregarem outra. Foi assim que o PASOK e o Nova Democracia, representando respectivamente a “esquerda” e a “direita” se revezaram no poder nas últimas décadas. O Syriza seria somente mais um caso. A maioria dos eleitores votou mesmo com a esperança de que, com esse simples gesto do voto, poderia se livrar da "austeridade". Os eleitores acreditaram que, votando no Syriza, poderiam reverter a situação do país. A grande questão é o que virá depois da decepção com o atual governo. Depois do Syriza, a próxima alternativa da burguesia pode ser a ultra direita. A ascenção do Aurora Dourada, partido neonaizsta, tinha sido contida pela eleição do Syriza, estacionando nos 7% de votos. Um eventual fracasso do Syriza pode levar a um novo crescimento da ultra direita.
A única alternativa a isso é uma radicalização pela esquerda. Uma parte do eleitorado do Syriza (ou talvez a maior parte), como dissemos, votou com a ilusão de que as coisas poderiam se resolver sem rupturas. Outra parte é composta dos setores combativos que tem protagonizado mobilizações e tentado levar as greves e manifestações adiante, enfrentando a polícia, ocupando locais de trabalho, etc. Os trabalhadores gregos precisam construir organizações independentes dos partidos eleitorais e também opostas às burocracias sindicais, para lutar por um programa que contemple as suas necessidades. Como disse Glezos, não há acordo possível entre oprimido e opressor, é preciso lutar sem tréguas pelo fim da opressão. Um programa para os trabalhadores gregos terá necessariamente que romper com o Syriza e se chocar de fato com a Troika:
- não pagamento da dívida;
- retirada do euro;
- nacionalização dos bancos;
- proibição de remessa de dinheiro para o exterior;
- revogação das privatizações;
- estatização, sob controle dos trabalhadores, das empresas que demitirem e fecharem;
- redução da jornada sem redução dos salários, até que haja emprego para todos;
- salário mínimo vital calculado pelas organizações dos trabalhadores;
- reconstrução dos serviços públicos;
Essas medidas são as únicas capazes de reverter o sofrimento do povo grego. Entretanto, elas somente serão possíveis por meio de uma intensa e massiva mobilização, que é preciso construir desde já. Ao mesmo tempo, essas medidas encontrarão oposição cerrada da burguesia grega e europeia, que pode isolar o país com sanções ou mesmo intervenção militar.
Por outro lado, essas medidas devem ser apresentadas juntamente com um chamado à solidariedade dos trabalhadores do mundo inteiro. A luta da Grécia é uma luta contra o capitalismo, portanto é uma luta que interessa a todos os trabalhadores do mundo. A luta contra a "austeridade" exige os mesmos passos na Grécia, na periferia europeia e no Brasil. Ao dar esses passos, os trabalhadores gregos estarão estabelecendo o exemplo real de como lutar contra "austeridade", exemplo que servirá para os trabalhadores em outros países. Essa deve ser a perspectiva dos socialistas revolucionários.

Daniel M. Delfino
Fevereiro 2015




Eleições na Grécia: faz falta uma esquerda anticapitalista e socialista



O repúdio à Troika
No domingo dia 25 aconteceram eleições gerais na Grécia, antecipadas devido ao colapso do governo anterior (liderado pelo partido mais tradicional da direita, o Nova Democracia), conforme as regras do sistema parlamentarista. As eleições foram vencidas pelo partido SYRIZA (Coalizão da Esquerda Radical, na sigla em grego), que assim apontará seu líder Alexis Tsipras para o posto de primeiro ministro. A principal promessa de campanha do SYRIZA é o fim das medidas de “austeridade” que vêm sangrando o país desde a crise do euro em 2010, episódio da crise mundial iniciada em 2008, e que praticamente não se encerrou na Europa.
Para não ser forçada a abandonar a moeda comum européia, o euro, a Grécia se submeteu desde 2010 a um memorando da chamada “Troika” (União Européia, Banco Central Europeu e FMI) que impunha medidas severas de “austeridade”, ou seja, corte nos gastos públicos, para garantir que o governo do país continuasse pagando sua dívida aos credores internacionais e recuperar sua credibilidade perante o mercado internacional. Os cortes nos gastos públicos atingiram pesadamente a população trabalhadora, já que foram direcionados aos serviços públicos, à saúde, à educação, ao pagamento de aposentadorias e pensões. Além dos cortes, houve também aumentos de impostos. Essa política foi maciçamente rejeitada nas urnas.

A tragédia social da austeridade
As medidas de “austeridade” vinham sendo implantadas pelos governos da Nova Democracia e do PASOK (Partido Social Democrata, o partido da “esquerda” tradicional), que têm se alternado no poder nos últimos anos, sem conseguir reativar a economia. Segundo dados do FMI (http://www.imf.org/) de outubro de 2014, o PIB da Grécia está em US$ 246 bilhões, tendo se mantido praticamente estável em 2014 (crescimento de 0,6%), depois de uma seqüência de quedas brutais (-3,8% em 2013, -6,9% em 2012, -7,1% em 2011, -4,9% em 2010 e -3,1% em 2009). A taxa de desemprego está em 25,7% (ou seja, ¼ da população economicamente ativa), sendo 60% entre os jovens de 18 a 25 anos, e a dívida pública está em 168,6% do PIB.
As conseqüências da austeridade e do desemprego são o aumento explosivo da pobreza nos anos recentes: “Com 1,38 milhões de pessoas no desemprego [de uma população de 11 milhões de habitantes], a pobreza tem aumentado na Grécia. Um estudo da Universidade de Atenas revela que no ano passado 14% da população vivia na pobreza, contra 2% em 2009.”(http://pt.euronews.com/2014/02/13/grecia-desemprego-e-pobreza-batem-recordes/).

A busca por uma alternativa política
Nenhum dos partidos políticos, nem o vitorioso SYRIZA nem os menores KKE (Partido Comunista) e ANTARSYA (Cooperação da Esquerda Anticapitalista para a Ruptura), entretanto, tem conseguido organizar a imensa insatisfação popular com as medidas de “austeridade”. Dezenas de greves gerais de 24h e 48h têm sido realizadas desde 2008 (dirigidas pelas burocracias sindicais ligadas ao PASOK e KKE, que assim evitaram um transbordamento das lutas), além de massivas manifestações nas ruas, com pesados conflitos com as forças da repressão, a cada vez que o parlamento grego votava as imposições da Troika. Conflitos abertos tem oposto a esquerda aos neonazistas do Aurora Dourada, que teve sua sede incendiada por ativistas de esquerda depois do assassinato do rapper antifascista Pavlos Fyssas em 2013.
Nesse cenário de crescente polarização social, o conteúdo concreto do programa de Tsipras (apesar de todo o terrorismo da mídia com o fantasma do esquerdismo e a ameaça aos mercados) se limita a uma tímida renegociação da dívida pública, que alonga as parcelas e mantém a sujeição do país ao capital financeiro especulativo internacional. Não se trata portanto de nenhuma solução “radical” capaz de resolver os problemas do país.
A origem da crise econômica grega está na sua baixa produtividade em comparação com as demais economias da zona do euro, em especial gigantes como a Alemanha e a França. O tempo de trabalho socialmente necessário para produzir carros, eletrodomésticos, roupas, etc., é maior na Grécia do que em outros países, o que significa que esses produtos são mais caros, por isso as empresas gregas não conseguem competir e são absorvidas pelas suas concorrentes internacionais, o que resulta em desemprego de trabalhadores gregos. A permanência da Grécia no euro é uma ficção mantida às custas do endividamento do governo grego, já que a produtividade do país é muito inferior à da economia reguladora do bloco, a Alemanha, que assim está colonizando as demais participantes do euro. Esse endividamento, por sua vez, tem sido repassado pelo governo aos trabalhadores.
O governo do SYRIZA não será capaz de romper realmente com a austeridade e reverter o empobrecimento dos trabalhadores, porque para isso teria que tomar medidas realmente anticapitalistas: não pagamento da dívida pública, saída da zona do euro e fim das políticas de austeridade, redução da jornada sem redução dos salários, reativação dos serviços públicos, igualdade de direitos para os imigrantes, estatização das empresas que ameaçarem fechar. Ao invés de chamar voto no SYRYZA, organizar os trabalhadores em torno desse programa deveria ser a tarefa da esquerda grega.

Daniel M. Delfino
Janeiro 2015