30.10.08

Nem McCain nem Obama


As eleições para a presidência dos Estados Unidos, em 4 de novembro de 2008, opõem o democrata Barack Obama ao republicano John McCain. A atual campanha tem sido uma das mais movimentadas em todos os tempos, desde a acirrada disputa entre Obama e Hillary Clinton pela indicação do partido democrata (que seria inédita tanto para um negro como para uma mulher), até a eclosão da crise financeira no início de outubro. A candidatura democrata de Obama tem sido vista tanto interna quanto externamente como uma alternativa de mudança na política estadunidense. Há uma indisfarçada torcida pró-Obama em curso, contagiando a opinião pública pequeno-burguesa e até a esquerda reformista, não só nos Estados Unidos como no restante do mundo, que acompanha intensamente essas eleições. Essa torcida superestima tanto as chances de vitória do candidato democrata quanto, muito mais grave, a possibilidade de um eventual governo Obama realizar mudanças efetivas na política do imperialismo.

Começando pelo primeiro ponto: embora a administração Bush esteja afundando em impopularidade, devido ao desastre da invasão do Iraque, à alta do petróleo, à criminosa omissão na catástrofe do furacão Katrina e à crise econômica que recentemente se somou ao rosário de tragédias; não se pode subestimar o peso do atraso ideológico do eleitorado conservador estadunidense. Para o eleitorado branco religioso que constitui a maioria nos estados do interior, a possibilidade de um candidato negro e ainda por cima ligado às causas “liberais” chegar à presidência é inaceitável. O eleitorado conservador vê a política como um terreno de disputa entre alternativas morais e individuais, em que se defrontam posições pró e contra o aborto, o casamento homossexual, a descriminalização das drogas, o multiculturalismo.

Paradoxalmente, as concepções reformistas que defendem a candidatura Obama enxergam a política sob esse mesmo prisma, o das opções morais e individuais. Obama é visto favoravelmente pelo fato de ser negro. Sua ascensão à presidência representaria uma vitória simbólica da minoria negra da população estadunidense, exatamente 40 anos depois do assassinato de Martin Luther King, líder da luta pelos direitos civis. Tal ponto de vista coloca a identidade étnica acima do conteúdo político-ideológico de classe, o que constitui um erro crasso. Basta lembrar o caso de Condoleeza Rice, Secretária de Estado do governo Bush, que além de ser mulher é negra, e aplica ferozmente a política externa do imperialismo contra os trabalhadores e os povos oprimidos do planeta.

O que se deve verificar em cada eleição são os interesses de classe representados por cada candidatura. Tanto McCain quanto Obama representam os interesses do grande capital estadunidense. Os partidos republicano e democrata são na verdade as duas alas do partido único da burguesia. Em que pesem as diferenças superficiais entre os partidos, que de fato existem, os dois estão ideologicamente comprometidos com a política geral da classe dominante. O imperialismo estadunidense atua por meio de uma política de Estado, que transcende os partidos. Além do parlamento e do judiciário, há no próprio poder executivo uma burocracia composta de milhares de funcionários de carreira (que permanecem nos cargos por vários mandatos presidenciais) pagos para manter o sistema em funcionamento segundo diretrizes precisas, ditadas pelos interesses das corporações estadunidenses. Essa burocracia se espalha pelas forças armadas, serviços de inteligência, diplomacia, organismos internacionais, agências reguladoras, instituições financeiras, aparelhos ideológicos, etc.

A gigantesca máquina do Estado faz o seu serviço, independentemente de quem esteja na Casa Branca. O presidente dos Estados Unidos não chega a ser uma figura decorativa, como a rainha da Inglaterra, que reina mas não governa. Por outro lado, está longe de ser “o homem mais poderoso do mundo”, como se costuma designar o ocupante de tal cargo. Não se trata de negar que o presidente dos Estados Unidos tenha poder, pois basta lembrar o comando das forças armadas, que inclui um arsenal nuclear capaz de aniquilar a vida na Terra centenas de vezes. Trata-se de dizer que este poder não está à disposição de um indivíduo para que o utilize a seu bel prazer, conforme caprichos ou inclinações pessoais. O poder do presidente dos Estados Unidos existe apenas enquanto este cumprir o papel de executor das políticas de interesse do capital, por mais que se tente mitificar figuras como Lincoln, Roosevelt ou Kennedy.

Obama pode ser mais um nesta lista. Pode entrar para a história como aquele que tirou o país da crise econômica, caso de Roosevelt, ou pode ser assassinado, como Lincoln e Kennedy. Seja como for, os limites da sua atuação já estão traçados por uma política de Estado bastante precisa. Essa política é determinada por algumas linhas fundamentais inalteráveis:

1. Complexo industrial militar. As indústrias que fornecem armamentos ao governo consomem anualmente algo em torno de meio trilhão de dólares do orçamento público. Para continuar lucrando, essas empresas precisam das guerras que o imperialismo estadunidense desencadeia sobre o mundo. As guerras deverão continuar, pois os executivos dessas empresas controlam a maior parte daquele aparelho de Estado (Pentágono, CIA, ONU e demais organismos internacionais, etc.). Obama já sinalizou a continuidade da política belicista do imperialismo, apenas deslocando o principal foco das operações do Iraque para o Afeganistão.

2. Petróleo. As reservas próprias de petróleo dos Estados Unidos, estimadas em cerca de 7 bilhões de barris, são suficientes apenas para cerca de 4 anos de consumo. Os Estados Unidos dependem mortalmente do petróleo estrangeiro, importado em sua maioria do Oriente Médio, mas também da América Latina (Venezuela e Equador). O controle sobre esses países é uma necessidade vital do império, o que explica por exemplo a reativação da 4ª Frota tão logo foi anunciada a descoberta de petróleo na camada geológica de pré-sal do litoral brasileiro.

3. Israel. A população judaica nos Estados Unidos compõe uma importante minoria de cerca de 10 milhões de habitantes, maior mesmo do que a própria população judaica em Israel. A alta burguesia judia-estadunidense controla ramos fundamentais da economia, como as finanças, a mídia e a indústria cultural (Hollywood). Nenhum presidente estadunidense assumirá o poder sem se comprometer perante esse setor a manter o apoio incondicional ao Estado de Israel, o que significa o apoio à política de extermínio dos palestinos e de confronto com países não-alinhados ao imperialismo, como Irã e Síria. Sabedor disso, Obama já discursou perante a alta burguesia judia-estadunidense comprometendo-se a manter essa política.

4. Finanças. As corporações do mercado financeiro estão entre as maiores doadoras de fundos para as campanhas eleitorais dos dois partidos. A rapinagem financeira de Wall Street sobre as economias do mundo inteiro deve continuar intocada. Antes mesmo das eleições, Obama se reuniu com Bush e McCain na Casa Branca para discutir as linhas gerais da ação entre amigos para salvar os banqueiros, encobrir suas falcatruas e diluir o custo do resgate na conta dos contribuintes (trabalhadores) estadunidenses e do restante do mundo explorado.

5. Corporações. Assim como o mercado financeiro, o conjunto das grandes corporações, das empresas industriais, dos laboratórios, do agro-negócio, etc., controlam a sociedade estadunidense e devem continuar atuando livres de qualquer regulamentação pública, superexplorando seus trabalhadores, destruindo o meio ambiente, degradando a saúde pública, etc. A campanha de um candidato presidencial nos Estados Unidos custa centenas de milhões de dólares, de modo que as grandes corporações, únicas capazes de financiar tais campanhas, terão o controle do governo eleito e ditarão sua política como sempre têm feito.

6. Mídia. Os interesses de todos esses setores da burguesia estadunidense são preservados pela maciça propaganda ideológica da mídia, das grandes cadeias de televisão, dos jornais e da indústria cultural. Os meios de comunicação difundem o consumismo, o preconceito, o medo, o individualismo, o moralismo hipócrita, o misticismo, valores que sustentam o capitalismo estadunidense. O bloqueio ideológico cerrado impede a população de obter um conhecimento mínimo da realidade e do papel do capitalismo estadunidense na perpetuação da miséria mundial.

Por todos esses motivos, uma eventual vitória de Obama não traria alívio nenhum para os trabalhadores do mundo inteiro, nem mesmo para os dos Estados Unidos. Nas eleições do Estado burguês, os trabalhadores precisam se colocar por meio de uma alternativa de classe e independente, que se expresse por meio de um programa socialista e de uma organização política autônoma. Esse programa deveria conter medidas como: desmantelamento do arsenal nuclear, retirada das tropas estadunidenses do Oriente Médio (e fim do apoio a Israel), retirada das bases militares estadunidenses em todo o mundo, nenhuma indenização aos banqueiros pela crise, estatização do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores, legalização de todos os imigrantes, direitos e serviços sociais para todos, expropriação das grandes corporações, entre outras.

Apesar de todo o discurso sobre democracia, não existe nas eleições estadunidenses a possibilidade de se discutir tal programa, e também não existe a possibilidade de um outro partido, que não seja o republicano-democrata, atuar nessas eleições. Logo, os trabalhadores que se vêem forçados a optar entre McCain e Obama estão diante de uma falsa alternativa. A única saída para o proletariado estadunidense é a construção de uma alternativa política própria, classista e socialista, que pode se expressar pela via do movimento social, sindical ou como partido, que questione as bases do capitalismo naquele país.

Daniel M. Delfino
Outubro 2008


2.9.08

Pequim 2008: nem tudo que reluz é ouro!


O crescimento da China é o mais novo mito do capitalismo mundial. Um crescimento falsificado, como os produtos falsificados vendidos por camelôs, todos “Made in China”. Assim como foi falsificada a cantora que se apresentou na abertura dos Jogos de Pequim, dublando uma canção tocada em “playback”, porque talvez a dona da voz original não correspondesse à imagem que a China quer apresentar de si para o mundo.

Os Jogos Olímpicos, no fundo, são uma jogada de marketing cuidadosamente arquitetada para que os países sede apresentem ao mundo uma imagem promocional fabricada do seu “sucesso”. Esse potencial do esporte para servir de vitrine para uma determinada política já é explorado a bastante tempo pelos mais diversos regimes. O próprio ritual dos Jogos, com uma monumental cerimônia de abertura, tocha olímpica, vila olímpica, etc., foi inventado pelos nazistas para as Olimpíadas de Berlim em 1936.

Nas últimas décadas, esse potencial foi amplificado pela incorporação do esporte à indústria do espetáculo. Como uma atração que mobiliza a paixão das massas (basta pensar na paixão dos brasileiros pelo futebol), o esporte se converteu em mercadoria e passou a ser produzido e vendido como tal. Ao ingressar na produção de mercadorias, o esporte se submeteu à lógica da competição econômica, que é bastante diferente da competitividade esportiva.

O espírito esportivo e a lógica do capital

A origem das competições esportivas está nos festivais religiosos da Grécia antiga, dentre os quais as homenagens a Zeus em Olímpia, ou Jogos Olímpicos, que compreendiam além das lutas e exibições atléticas os recitais de música e poesia. Os gregos cultivavam um ideal de humanidade (restrito aos homens livres) baseado no cultivo harmônico da mente e do corpo. Também as sociedade orientais desenvolveram, através de suas artes marciais, um sofisticado ideal de auto-controle e disciplina física e mental. Em ambos os casos, os esportes eram modalidades de livre expressão e exploração das possibilidades do corpo humano. Os esportes modernos, por outro lado, são subproduto e expressão do mecanismo de dominação e disciplina da sociedade capitalista, a partir de fins do século XIX.

O capitalismo requer o homem-máquina, disciplinado, preciso, mecânico, ajustado ao controle férreo do relógio, dos limites bem demarcados, dos espaços restritos, das coreografias exatas, das regras de conduta, das hierarquias sociais. A massificação dos esportes ocorre paralelamente ao enquadramento dos trabalhadores pela disciplina rigorosa das fábricas, das escolas, do adestramento militar, das regras de trânsito, da rotina cotidiana, servindo-lhes de metáfora e ilustração estética. Ao mesmo tempo, a atividade física funciona como uma extrapolação da ideologia produtivista para além do tempo de trabalho, mantendo os indivíduos obsessivamente ativos, ligados, “produtivos”, mesmo depois de encerrada sua jornada regular a serviço da produção. A “produtividade” obsessiva se converteu em necessidade psicológica individual e paranóia coletiva. Por último, o esporte fornece também matéria-prima para a indústria do espetáculo, oferecendo atrações que mobilizam a atenção e impedem a reflexão (numa legítima continuidade com o “pão e circo” dos romanos).

A competição esportiva, no seu sentido estrito, derivado do conceito grego de “ágon” (auto sacrifício, auto-domínio, esforço, determinação na disputa), tem como objetivo desenvolver os limites do homem, portanto, trata-se de certo modo de uma conquista da humanidade. A competição econômica, por outro lado, não tem limites, já que o objetivo do capital é a reprodução ampliada, a expansão infinita do valor econômico abstrato. A competição esportiva admite a derrota, o que inclusive caracteriza a própria essência do assim chamado “espírito esportivo”, segundo o qual “o importante é competir”.

Já na competição econômica, quando o esportista se coloca a serviço da obtenção de riqueza para si próprio, para os patrocinadores ou para o Estado, ele não aceita a derrota e inclusive trapaceia, recorrendo ao dopping, que se transformou numa indústria paralela aos esportes de alto nível, um tabu sobre o qual não se fala, porque compromete a imagem do esporte. Ou então, o derrotado joga fora a medalha de bronze, porque só aceita o ouro, como um atleta sueco de luta greco-romana fez em Pequim.

A ideologia ufanista

Ao se incorporar à lógica da competição econômica, o esporte também fornece elementos para reforçar o discurso ideológico que separa as pessoas entre vencedores e vencidos, enaltece o esforço individual e negligencia as circunstâncias, destaca o indivíduo extraordinário e esquece o coletivo, etc. A obsessão produtivista também faz com que cada Olimpíada seja comemorada como “a maior de todos os tempos”, como se isso fosse algo extraordinário, sendo que na verdade é um fato mais do que natural, já que a cada edição dos Jogos há um número maior de modalidades em disputa e um número maior de países que participam, com delegações também maiores.

O Brasil é um desses países que a cada edição aumenta o número de participantes, ficando sempre dezenas de posições atrás dos primeiros lugares no quadro de medalhas, tornando ridículo o ufanismo imbecil dos mercadores vulgares do esporte no Brasil, como os Galvões Buenos da vida. O esporte é também uma medida da saúde de uma sociedade e os resultados do Brasil nas Olimpíadas mostram como a população brasileira é maltratada. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cada dólar investido em esporte economiza 3 em saúde pública (dados do jornalista Juca Kfouri). O Brasil não investe em saúde pública, nem em esporte de base, nas escolas e nas comunidades carentes. Apesar disso, alguns heróicos atletas brasileiros competem e vencem nas Olimpíadas, dando mostras do potencial da população brasileira.

É preciso porém fazer a distinção entre o esporte como política de saúde pública e o esporte de competição profissional, submetido à lógica produtivista do capitalismo e desprovido de limites éticos. Os esportistas de competição submetem seus corpos a pressões físicas destrutivas, comprometem sua saúde e muitos se transformam em aberrações. O preço a ser pago para que tenhamos o espetáculo dos Jogos é a mutilação física e psicológica de seres humanos, transformados numa sub-raça à parte dos simples mortais.

A competição geopolítica

Os semi-deuses do Olimpo moderno são peças recicláveis da indústria do espetáculo, tão descartáveis como os astros do rock e as estrelas de cinema. O “show deve continuar”, a despeito de que a população chinesa receba uma remuneração média de U$ 0,75 por hora de trabalho, contra U$ 2,56 no Brasil e U$ 21,00 nos Estados Unidos, em jornadas que se estendem por mais de 70 horas semanais. Como se não bastasse isso, as cidades chinesas estão entre as mais poluídas e insalubres do mundo. Uma Olimpíada com cara de século XXI tenta mascarar a condição de superexploração típica de uma revolução industrial do século XIX.

A superexploração do proletariado chinês é conduzida com mão de ferro pela burocracia do Partido Comunista, que se apropriou do legado político da revolução de 1949 e encastelou-se de modo ditatorial no controle do Estado e das instituições. Essa burocracia se associou às transnacionais imperialistas para desatar o atual ciclo de “crescimento econômico”, baseado em exportações para os Estados Unidos. Além disso, a parcela dos dólares recebidos pela burocracia é investida em títulos da dívida do Tesouro estadunidense, de modo que a China financia diretamente o imperialismo. As duas potências vivem assim uma curiosa relação de simbiose conflitiva: os Estados Unidos e suas transnacionais dependem da mão de obra barata chinesa, enquanto a China depende do mercado consumidor estadunidense. Ao mesmo tempo, as duas potências desenvolvem uma disputa geopolítica que retoma alguns aspectos da finada Guerra Fria do século XX entre Estados Unidos e URSS, como a corrida armamentista.

As estocadas se sucedem, como durante o percurso da tocha olímpica até a China, quando manifestações pró-Tibete orquestradas e devidamente amplificadas pelo imperialismo tentaram criar constrangimentos para a burocracia. A aspiração legítima de auto-determinação dos povos se converteu em instrumento político do imperialismo para pressionar seus rivais. O fato de que a China seja uma ditadura é constantemente relembrado pela mídia internacional e o foi durante os Jogos. O que não foi mencionado é o fato de que a China só foi capaz de conquistar alguma margem de autonomia e lançar as bases para seu atual crescimento graças à revolução de 1949.

Como sempre, prossegue o combate ideológico para soterrar de vez a memória da luta pelo socialismo. A burocracia do PC chinês milita na trincheira capitalista, promovendo Jogos que visam construir a imagem de um capitalismo vitorioso, no momento mesmo em que a crise econômica, a crise política resultante do fracasso da “guerra ao terror” e a crise ambiental global expõem dramaticamente as contradições e os limites insustentáveis desse sistema.

Daniel M. Delfino
Setembro 2008

28.4.08

O Brasil, a crise e as encruzilhadas da história






A implantação do projeto neoliberal no Brasil

O Brasil é parte do sistema capitalista mundial na condição subordinada de país periférico, tendo experimentado no último período a tendência de converter-se em fornecedor de matérias-primas, plataforma de exportação e reserva de mão de obra barata.

Esse padrão de acumulação capitalista em implantação no Brasil representa uma inversão em relação ao que predominou na maior parte do século XX. De 1930 a 1980 esteve em pauta o projeto nacional-desenvolvimentista, impulsionado por setores da burguesia nacional, da burocracia do Estado e do capital internacional, com diferentes graus de abertura política e concessões à classe trabalhadora conforme o momento. Esse projeto contemplava a criação de um parque industrial moderno, a substituição de importações, a formação de um mercado consumidor interno, a urbanização, a modernização da sociedade, das instituições e dos costumes, sempre sob a tutela do Estado.

O projeto nacional-desenvolvimentista, do ponto de vista da burguesia, foi parcialmente bem-sucedido, pois chegou a colocar o Brasil na condição de 8ª economia capitalista do mundo, atrás apenas dos países do G7. Entretanto, não chegou a completar-se a formação do setor fundamental da economia capitalista, o setor produtor de bens de produção, que exige alto desenvolvimento tecnológico, e que permanece um monopólio restrito aos países imperialistas, a partir do qual subordinam o conjunto da economia mundial. Além disso, as concessões à classe trabalhadora foram tão mínimas e insuficientes que não permitiram a constituição de um amplo mercado interno de consumo de bens de alto valor agregado, o que determinou um limite muito estreito para a expansão da produção industrial aqui localizada.

O projeto nacional-desenvolvimentista esgotou-se na década de 1980, e desde 1990 até hoje vem se aprofundando o padrão de acumulação neoliberal. O projeto neoliberal prevê a hegemonia aberta do capital internacional (em especial do capital financeiro), o desmonte do Estado desenvolvimentista, as privatizações do patrimônio público, o direcionamento da produção industrial para o mercado externo (segundo o modelo das plataformas de exportação), o deslocamento da burguesia nacional para atividades suplementares e periféricas (na situação de sócia-menor, até sua redução final a uma condição rentista e totalmente parasitária), o controle do capital internacional sobre o fornecimento de matérias-primas agrícolas e minerais; e em especial o ataque a todas as conquistas da classe trabalhadora, sob a forma de arrocho salarial, retirada de direitos, precarização das relações de trabalho, cooptação dos sindicatos, etc.

O projeto neoliberal tem sido aplicado no Brasil por todos os sucessivos governos desde Collor até Lula, tendo restado poucos itens da agenda do capital internacional a serem totalmente materializados, como a destruição final da Previdência pública, da legislação de proteção aos trabalhadores, das universidades públicas, a desregulamentação final de todos os setores econômicos e a entrega total do patrimônio estatal (BB, CEF, Petrobrás) ao controle estrangeiro.

A aplicação do projeto neoliberal sobre os países periféricos não é uma mera escolha conjuntural dos grupos dirigentes nacionais de plantão, pois é uma decorrência da crise estrutural do capital, que determina para a burguesia a necessidade de aprofundar da exploração sobre o proletariado mundial para garantir a continuidade da acumulação sob as cada vez mais restritivas condições da sua taxa de lucro em queda.

O enfrentamento do neoliberalismo não se dará através de um simples retorno ao nacional-desenvolvimentismo, pois qualquer medida mínima vinculada a esse projeto, como a simples retomada do controle soberano do Estado sobre os setores estratégicos (petróleo, eletricidade, comunicações, água, segurança alimentar, etc.), tornou-se absolutamente intolerável para o capital internacional, a tal ponto que só poderá ser implantada por meio de uma ruptura da ordem estabelecida.

A luta da classe trabalhadora deve ir além do enfrentamento contra os aspectos exteriores e conjunturais do sistema, como as medidas pontuais preconizadas pelo atual modelo do neoliberalismo, pois deve atacar as origens estruturais da miséria material e subjetiva reinante, ou seja, a própria lógica do capital, em nome do projeto de uma sociedade socialista.

Importância do Brasil para o imperialismo

A chegada de Lula ao governo federal em 2002 aconteceu justamente para evitar que se materializasse a alternativa de ruptura da ordem. O controle do PT sobre os organismos de luta da classe trabalhadora e o horizonte reformista em que estacionou a consciência do proletariado fariam com que não se desenvolvesse nenhuma luta capaz de questionar os pressupostos do sistema capitalista.

A adoção imperturbável do projeto neoliberal pelo governo Lula é uma conseqüência lógica do abandono de qualquer referencial de luta pelo socialismo que chegou a existir no programa do PT, ainda que sob a forma reformista. A opção pela administração do capitalismo periférico nas condições específicas da crise estrutural não permite nenhuma margem de manobra para concessões aos trabalhadores; ao contrário, impõe a necessidade de atacar as conquistas históricas da classe para manter os lucros do capital.

No plano internacional, o Brasil tem sido o instrumento preferencial do imperialismo para conter a tendência de esquerdização das massas do continente sulamericano, através da influência de Lula sobre os governos de retórica mais abertamente anti-imperialista (Chávez, Morales, Correa) e sobre aqueles ditos moderados (Kirchner, Vasquez, Bachelet). Além desse papel de fazer retroceder as lutas no continente, o Brasil atua diretamente como braço armado da repressão contra os trabalhadores e os miseráveis do Haiti, liderando a ocupação militar daquele país e fazendo o serviço sujo do imperialismo.

A implementação da IIRSA (Iniciativa para Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana) pelos governos do continente, visando facilitar a exploração predatória dos nossos recursos naturais e o escoamento das exportações, está sendo feita sob a liderança do Brasil e em benefício de empresas brasileiras, como a Petrobrás e as empreiteiras, e das transnacionais do agronegócio; ou seja, em parceria orgânica com o imperialismo. Esse projeto expõe o vazio da retórica e das pretensões “esquerdistas” de todos aqueles dirigentes, em sua incapacidade de romper com a lógica do capital e de oferecer soluções reais para as necessidades das massas.

Convergência ideológica entre PT e PSDB

Para se manter no controle do Estado, dando seguimento ao projeto neoliberal, o PT sacrificou a sua base de apoio histórica, as categorias organizadas do proletariado, passando a manter com elas uma relação utilitária e instrumental, de controle dos aparatos sindicais, etc.; e se transformou numa máquina eleitoral baseada no assistencialismo, comprando a consciência dos setores mais atrasados da classe trabalhadora através dos programas de bolsas.

Ao mesmo tempo em que se estrutura como força eleitoral através do clientelismo e da despolitização, o PT procura também se mostrar um gestor capacitado do programa neoliberal, mantendo os compromissos com o capital internacional, dando prosseguimento às “reformas” exigidas pelo imperialismo e oferecendo ainda como benefício adicional a contenção da luta de classes a partir do controle sobre os organismos de luta do proletariado.

Lula chegou ao poder como uma “saída de emergência” para os interesses da burguesia, a qual esperava descartá-lo tão logo fosse possível. O PT, por sua vez, trabalha para perpetuar-se no poder a qualquer custo, dando seguimento às mesmas práticas pelas quais os partidos burgueses administram o Estado, ou seja, a corrupção desenfreada, o loteamento de cargos, a obediência estrita ao imperialismo, etc.; sem falar na repressão contra os trabalhadores.

A incorporação do projeto neoliberal iguala programaticamente o PT ao PSDB. A disputa entre os dois partidos passa a ser pela condição privilegiada de administrar a repartição do dinheiro do Estado com a burguesia e o imperialismo. Quanto mais ferrenha é essa disputa, mais os dois partidos se igualam no programa e no método de ação.

A disputa entre PT e PSDB não questiona a essência do projeto neoliberal, ou seja, as “reformas”, as privatizações, o pagamento da dívida, o ataque e a repressão aos trabalhadores, etc., políticas com as quais ambos estão comprometidos. Tal disputa se situa no plano superficial da “ética na política”, de modo que cada um luta para demonstrar que o outro é o mais corrupto. Esse tipo de disputa faz com que o debate político se resuma a uma seqüência de escândalos de corrupção, afastando o foco que deveria estar na discussão e no enfrentamento ao projeto neoliberal do capital.

A armadilha da democracia burguesa

Nas últimas décadas, em especial a partir dos anos 80, a burguesia tem se utilizado intensamente dos mecanismos da democracia formal, respondendo a cada crise através de dispositivos legais, CPIs, medidas judiciais, eleições, etc. Essa tática traz uma diferença importante em relação às décadas passadas, nas quais a burguesia respondia às crises com golpes militares e restrições às liberdades democráticas. A opção pela via democrática se fez não porque os burgueses são democratas convictos, mas porque essa forma de dominação atualmente tem se mostrado muito mais eficiente para perpetuar a exploração.

Devido à reação “democrática”, a questão das alternativas eleitorais é fundamental, pois 2008 será também um ano eleitoral e como sempre a direita, os reformistas e oportunistas de todos os tipos vão pedir o voto dos trabalhadores e reciclar a ilusão da possibilidade de mudança nas condições de vida por dentro capitalismo, o que deve ser combatido pela esquerda.

Ao contrário do que diz a maioria das organizações de esquerda do país, o governo Lula é governo burguês típico, e não de “frente popular”. É preciso deixar de reforçar as ilusões da classe trabalhadora no projeto do PT/Lula e do reformismo, lutando pelo desenvolvimento da consciência da classe e pela superação da crise de alternativas socialistas.

Também nas eleições de 2008 não se vislumbra a construção de um programa socialista, que contemple as necessidades reais e as reivindicações mais sentidas da classe trabalhadora. Caso esse programa esteja de fato ausente da plataforma dos partidos de esquerda, é preciso recusar, através do voto nulo, os mecanismos “democráticos” de dominação que muitas vezes contam com “forças de esquerda”, e defender a luta direta como método para a conquista de vitórias para a classe trabalhadora.

Os ataques à classe trabalhadora

Na ausência das necessárias lutas anti-capitalistas, único recurso capaz de barrar os ataques às suas condições de vida, a classe trabalhadora permaneceu aprisionada na “esperança” de “mudança” e paralisada pelo discurso da mídia e do governo de que “não há alternativa” ao capital, e de que portanto é preciso em primeiro lugar retomar o “crescimento”.

Sob a máscara do discurso do “crescimento”, o governo Lula manteve a aplicação do projeto econômico do imperialismo, com algumas diferenças cosméticas. O fato de que os ataques à classe trabalhadora não estejam sendo feitos por meio de medidas de grande impacto imediato (“reforma” da Previdência, revogação da CLT, etc.) não significa que tais medidas não estão sendo implantadas paulatinamente com o mesmo conteúdo. Significa apenas que esses ataques estão sendo mais graduais, pontuais, cirúrgicos, vitimando alvos localizados e setores específicos da classe trabalhadora.

O maior desses ataques está na mini-reforma trabalhista realizada por meio do “Supersimples”. Esse novo mecanismo desarticulou a fiscalização e desobrigou as micro e pequenas empresas (responsáveis por 60% do emprego formal no país) de respeitar os direitos trabalhistas, o que na prática dá o aval para a completa abolição de fato da CLT, ainda que esta continue existindo formalmente.

O governo do PT contou com o voto parlamentar do PSOL em favor do “Supersimples”, o que demonstra o quanto este partido, que se apresenta como oposição de esquerda, faz parte orgânica do mecanismo da democracia burguesa para ludibriar os trabalhadores, cooptar sua vanguarda e perpetuar a dominação.

O governo Lula deu continuidade às privatizações, entregando à sanha predatória do capital nacional e internacional patrimônios públicos como as reservas de petróleo (entregues a concorrentes depois de prospectadas pela Petrobrás), as rodovias federais, os bancos estaduais e a própria Amazônia (através da Lei de Florestas).

Em relação à Amazônia, este governo está dando prosseguimento ao velho “entreguismo”, permitindo a ação das ONGs imperialistas (que sob o pretexto de causas “humanitárias”, religiosas ou ainda de interesse “científico”, preparam o desmembramento do território brasileiro e sua anexação pelas transnacionais), das madeireiras internacionais e dos grileiros que derrubam a floresta para transformá-la em pastagens e monoculturas de exportação (inclusive com o plantio de variedades transgênicas).

O crescimento predatório do “agronegócio” tem se dado à custa da destruição ambiental, da prioridade ao mercado externo e da ameaça à segurança alimentar. Plantações de gêneros de primeira necessidade, essenciais para a alimentação do brasileiro, estão sendo substituídas por cana de açúcar, milho, soja e pastagens para o gado de corte, produtos com maior demanda internacional. Concretamente, está faltando feijão na mesa do trabalhador. O modelo do agronegócio produz a curto prazo fome e carestia e em longo prazo a desertificação de um território antes rico em biodiversidade. E faz isso reproduzindo as mais bárbaras relações de exploração, como o trabalho escravo e o trabalho infantil, e praticando a mais brutal repressão. Os ativistas do campo estão sendo mortos e perseguidos por jagunços, mercenários e milícias a soldo do latifúndio e das transnacionais, os quais atuam impunemente. Ao mesmo tempo, a justiça burguesa persegue sistematicamente a vanguarda dos trabalhadores, condenando suas ações e métodos de luta.

A barbárie e a violência reinam desenfreadas no campo e também nas cidades, em cujas periferias as “tropas de elite” do Estado burguês atuam impunemente na função de esquadrões da morte, exterminando o “refugo” dos setores sociais mais marginalizados, e são ainda por cima festejadas pelo “heroísmo” e “coragem” de aplicar sistematicamente o método da tortura e das execuções sumárias.

O uso da força atinge tanto o lumpesinato do crime como os movimentos sociais, como se se tratasse de “inimigos internos” da mesma natureza. A repressão policial caminha lado a lado com o ataque político-institucional aos setores mais organizados do proletariado. Os servidores públicos terão seus salários arrochados como forma de garantir os recursos para o PAC, que por sua vez, realizará obras de interesse da burguesia. Já os serviços públicos que interessam à maioria da população, como saúde, educação, transporte público, etc., permanecem sendo sucateados.

Paralelamente ao arrocho dos servidores e ao sucateamento dos serviços públicos, ambos sob o pretexto de que “não há verbas”, prosseguem os pagamentos da dívida pública, que chegam perto de 200 bilhões de reais por ano, sem impedir que a dívida ultrapasse 1 trilhão de reais.

A importância da disputa ideológica

A disputa acirrada entre PT e PSDB, com certa preferência da imprensa burguesa pelos tucanos, oferece a determinados setores da intelectualidade “de esquerda” a oportunidade de permanecer sob a asa do petismo, lutando contra o “golpe das elites”, perpetuando uma falsa disjuntiva em torno de alternativas que são na verdade iguais, e impedindo assim o desenvolvimento de um debate programático substantivo que coloque em pauta os interesses reais dos trabalhadores.

Em seu trabalho de falsificação ideológica da realidade, a grande mídia procura sistematicamente apresentar todos os ataques contra a classe trabalhadora como “avanços” na direção do “crescimento”, ao mesmo tempo em que apresenta as formas de resistência (greves, ocupações, manifestações, etc.) como atos criminosos. A suposta oposição da mídia burguesa ao governo Lula jamais ataca o programa deste governo, que é na essência o mesmo programa da burguesia, e se dedica a expor a “falta de ética” do PT na gestão dos negócios públicos.

O governo do PT, por sua vez, não pode ter uma política de comunicação realmente democrática, pois isso significaria dar voz aos movimentos populares, legitimar suas reivindicações e expor as verdadeiras necessidades da população, o que se chocaria frontalmente com os interesses da burguesia a quem este governo serve. Ao invés disso, o governo se limita a negociar espaço com os monopólios da mídia burguesa para criar seus próprios instrumentos de comunicação chapa-branca (como a TV pública).

Nesse cenário de massacre ideológico pela mídia burguesa e de aparelhamento da comunicação pública pelos interesses da burocracia petista no governo, a democratização real da comunicação e a exposição das lutas populares assume uma importância absolutamente vital para a construção de uma consciência de resistência entre as massas.

O impacto da situação internacional sobre o Brasil

A estabilidade burguesa e a governabilidade do Estado, a despeito das acirradas disputas político-partidárias, devem ser creditadas em boa parte ao controle férreo do PT sobre o movimento de massa, que impede a classe trabalhadora de desencadear as necessárias lutas de resistência. Mas é preciso assinalar que essa “estabilidade” também tem se escorado na situação econômica internacional favorável ao capital que vinha se mantendo desde o início do 1º mandato de Lula, em conseqüência de um ciclo de expansão internacional, que no entanto acaba de se encerrar.

Uma vez que não existe “descolamento” das economias nacionais em relação aos ciclos do capital mundializado, a recessão em curso nos Estados Unidos, que se materializa numa diminuição do consumo naquele país, deve produzir uma redução das exportações dos países que abastecem o mercado estadunidense, em especial da China, que por sua vez deve reduzir a demanda das commodities sulamericanas e brasileiras.

O grau de abertura da economia brasileira (proporção da corrente de importações e exportações em relação ao PIB), na faixa de 26%, permanece baixo em relação ao de países como a própria China, que já está em 69% (dados do Boletim Crítica Semanal, nº 10, abril/2008). Entretanto, tem aumentado a participação das chamadas “commodities” na pauta de exportações brasileira, chegando a 31% em 2007, maior nível desde 1986. Desse modo, é inevitável que a redução da demanda internacional tenha um efeito de desaceleração sobre a economia brasileira.

O efeito da desaceleração poderia em tese ser compensado pelo mercado interno, no qual a produção de bens manufaturados teve como destaque a indústria automobilística, que bate seguidos recordes de unidades produzidas. Entretanto, esse crescimento da produção esteve diretamente atrelado ao crescimento do crédito (e ao colapso do trânsito, do qual os homéricos congestionamentos na cidade de São Paulo fornecem um exemplo por demais eloqüente). O segmento de crédito direto ao consumidor experimentou um salto violento, sendo responsável por uma fatia cada vez maior do lucro (colossal) dos bancos.

A concessão de crédito no Brasil apresenta características semelhantes àquelas que precipitaram a crise das hipotecas “sub-prime” nos Estados Unidos, em especial a oferta de empréstimos acima da capacidade de pagamento dos tomadores. Na medida em que não há um crescimento real da massa de salários e uma conseqüente melhoria do poder de compra da classe trabalhadora, o crescimento do consumo de bens duráveis só pode se dar por meio do endividamento crônico.

A recessão em curso nos países centrais pode nos atingir tanto pela via da redução da demanda por “commodities” no mercado internacional, como pelo esgotamento do atual ciclo de endividamento dos consumidores no mercado interno.

Em se concretizando a chegada da crise ao Brasil, a burguesia fará de tudo para preservar seus lucros, exigindo uma aceleração das “reformas”, intensificando o ataque à classe trabalhadora, demitindo, arrochando salários, precarizando condições de trabalho. Contra o flagelo social do capitalismo e suas crises, a classe trabalhadora precisa estar pronta para se defender, negando-se a aceitar demissões, fechamento de empresas, arrocho, etc., e lutando pela ocupação das empresas quebradas sob controle operário.

A necessidade de um programa próprio dos trabalhadores.

A atuação do PT como um governo burguês típico produziu perplexidade, frustração, desencanto e desmobilização dentro do setor mais organizado da classe trabalhadora, de parte da pequena burguesia e da intelectualidade, base histórica de apoio do partido. O refluxo e a paralisia desse setor abriu caminho para que a corrente majoritária e mais burocratizada do PT manobrasse livremente no controle dos organismos da classe para impedir a eclosão de lutas que questionassem a implantação do projeto do governo e da burguesia. Desse modo, as lutas permanecem fragmentadas e pontuais. Os setores que desenvolvem oposição ao governo são ainda uma minoria no interior das categorias organizadas (servidores públicos, funcionários de estatais, professores), que por sua vez são uma minoria em relação ao conjunto da classe.

O governo Lula não vai facilitar o trabalho da esquerda em seu processo de reorganização, ou seja, não vai oferecer um alvo para unificar a oposição. O mais provável é que não seja desencadeado um ataque direto e de grande escala contra as conquistas históricas da classe, e que o governo siga agindo por meio de medidas pontuais, de baixa intensidade, cujo efeito acumulado seja equivalente em longo prazo ao objetivo global das “reformas”. É por isso que a atuação da esquerda não pode ser reativa, esperando pelos ataques para reagir a eles, pois precisa permanentemente disputar a consciência dos trabalhadores e organizá-los para a luta.

Apesar da atuação do PT e do governo na contenção dos enfrentamentos, o agravamento da situação econômica para o qual nos encaminhamos, com o conseqüente aumento dos ataques do capital, não deixará aos trabalhadores nenhuma alternativa a não ser a luta, o que torna ainda mais urgente a reorganização e a unificação da esquerda em torno de bandeiras concretas.

A busca pela unidade da esquerda deve visar a construção de um movimento capaz de agregar, além dos setores das categorias organizadas que já se mobilizam, os demais setores da classe, movimentos sociais, entidades e mesmo indivíduos que estão dispersos e paralisados, trazendo-os para a luta por meio de campanhas unificadas. É preciso unificar a Conlutas, a Intersindical, a base das pastorais sociais, a base do MST e a todos os que queiram de fato lutar.

É preciso chamar esses setores, em especial as pastorais e o MST, a romper com o governo, de modo que suas bases sejam atingidas pela denúncia sistemática de que Lula, o PT e a CUT não vão enfrentar a burguesia. A única forma de barrar os ataques da burguesia será por meio da luta dos trabalhadores e é papel da esquerda fazer com que todos os setores da classe trabalhadora desenvolvam esse entendimento, mesmo aqueles que estão hoje sob hegemonia de direções vacilantes e confusas.

A esquerda precisa estar enraizada nas bases do movimento social. É preciso construir comitês locais unitários para conduzir as lutas pontuais. Os fóruns de base, plenárias abertas, comandos de greve, devem ser os espaços privilegiados para desenvolver a disputa de consciência, que não pode ficar limitada aos espaços de direção das entidades.

A esquerda deve voltar-se para setores mais amplos da classe trabalhadora, massificando a agitação em torno dos temas de interesse do conjunto do proletariado. É preciso trabalhar por meio de campanhas nacionais de esclarecimento sobre temas que afetam diretamente a vida das massas, como a necessidade de elevação dos salários para fazer frente à carestia, a precariedade dos serviços públicos, a degradação das condições de trabalho e a necessidade de garantir direitos para todos, etc.

A burguesia usa de seu controle sobre os meios de comunicação para disputar ideologicamente a consciência dos trabalhadores, colocando seus programas e interesses (como as “reformas”) como se fossem do interesse de toda a sociedade. A esquerda deve se contrapor a essa influência apresentando as alternativas reais com base nos interesses da classe trabalhadora. É preciso que fique claro para as massas que somente os próprios trabalhadores e sua auto-organização poderão desenvolver alternativas reais e soluções para seus problemas.

É preciso apresentar o socialismo como única alternativa real para superar a situação de barbárie social que se abate sobre a maioria da nossa classe. O desemprego, a violência, a carestia, a miséria em suas diversas formas; só terão fim com o fim do modelo capitalista de sociedade. É preciso explicar pacientemente aos trabalhadores a necessidade de romper com o sistema capitalista, por meio de um programa mínimo que parta das reivindicações imediatas para as transformações mais gerais.

A situação é tão grave, a miséria tão avassaladora, o descalabro tão escancarado, que um programa “mínimo” de bandeiras de luta capazes de solucionar os problemas imediatos, na atual conjuntura, necessariamente se desdobra em um programa “máximo”, devendo propor medidas como:

ECONOMIA
- Não pagamento da dívida pública interna e externa e aplicação desse dinheiro em um programa de serviços e obras públicas voltadas para as necessidades da classe trabalhadora em moradia, saneamento básico, transportes, educação e saúde;
- Redução da jornada para 30 horas semanais sem redução do salário;
- Salário mínimo do DIEESE como piso para todas as categorias;
- Carteira assinada e direitos trabalhistas para todos, fim da terceirização, da informalidade e da precarização do trabalho;
- Defesa do emprego, resistência às demissões, com greves, ocupações de fábricas e exigência de abertura da contabilidade;
- Estatização, sob controle dos trabalhadores, das empresas que pretenderem fechar ou se deslocar para outras regiões;
- Reestatização das empresas privatizadas, sob controle dos trabalhadores, com reintegração dos demitidos;
- Estatização do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores; controle sobre o câmbio e o fluxo de capitais estrangeiros e nacionais;
- Controle social sobre os lucros das empresas e proibição de sua remessa ao exterior;

POLÍTICA
- Defesa da mais ampla liberdade de expressão e de organização dos trabalhadores e de suas entidades; liberdade para os presos políticos da repressão e ativistas da classe trabalhadora;
- Garantia do direito de greve, da livre organização e manifestação dos trabalhadores e do livre exercício de seus métodos de luta, como piquetes, ocupações e passeatas;
- Liberdade partidária a todas as agremiações políticas de esquerda e representativas dos interesses dos trabalhadores, fim da cláusula de barreira;
- Parlamento unicameral, extinção do Senado, revogabilidade dos mandatos, salário igual ao de um trabalhador médio para os ocupantes de cargos públicos, financiamento público e limitado das campanhas eleitorais. Fim das sanções do executivo (lei aprovada, lei sancionada). Fim da distorção das bancadas de deputados federais, por uma representação eqüitativa das populações dos estados;
- Confisco dos bens de todos os envolvidos em caso de corrupção ativa ou passiva;
- Fim da corrupção e lentidão no Judiciário. Controle externo e transparência na administração dos Tribunais. Fim da cobrança de custas aos trabalhadores;
- Fim da anistia aos torturadores do regime militar. Punição a todos os criminosos fardados que matam, torturam, agridem e perseguem trabalhadores a soldo da burguesia;
- Desarmamento das milícias paramilitares e jagunços a serviço do latifúndio e das oligarquias no campo; prisão para mandantes e executores de crimes contra os trabalhadores em luta;

VIOLÊNCIA
- Combate à lavagem de dinheiro, com repatriação das divisas enviadas aos paraísos fiscais; fim da prisão especial para criminosos de “colarinho branco”, agentes corruptos do Estado, fiscais, policiais, juízes, políticos, banqueiros, empresários, etc.;
- Fim do tratamento desumano, das torturas e violências contra a população carcerária; por condições reais de ressocialização e recuperação dos apenados;
- Penas alternativas e regime aberto para autores de pequenos crimes contra o patrimônio e pequenos furtos; nenhuma punição ao roubo famélico;
- Contra a redução da maioridade penal e as ações discriminatórias da repressão sobre a população jovem, negra e pobre;
- Contra a ocupação dos morros e comunidades pobres pelo exército;
- Desarmamento das milícias e traficantes;
- Dissolução das polícias militares; por uma polícia democratizada, com o direito dos soldados se organizarem sindicalmente e elegerem seus superiores; controle da segurança pública pelos moradores de cada comunidade;
- Descriminalização do uso de drogas; tratamento médico para os dependentes químicos;

DIREITOS SOCIAIS
- Anulação da Reforma da Previdência. Por um sistema previdenciário estatal único, sob controle dos trabalhadores. Que os fundos de pensão sejam estatizados e incorporados ao sistema único de previdência pública, sob controle dos ativos e inativos, salvaguardando a poupança dos trabalhadores. Valor mínimo dos benefícios equivalente ao salário mínimo do DIEESE. Garantia de que o valor do benefício dos aposentados seja igual ao salário da ativa;
- Reforma Urbana sob controle dos trabalhadores, com a desapropriação de todas as áreas ociosas e grandes propriedades para construção de moradias para os trabalhadores, até que haja moradia para todos. Pela expropriação dos latifúndios urbanos, bairros nobres e mansões da burguesia. Contra a especulação imobiliária;
- Saúde para todos: estatização, sob controle dos trabalhadores, das empresas de saúde privadas; garantia do fornecimento de remédios a todos os pacientes. Estatização da indústria químico-farmacêutica e quebra da patente dos medicamentos. Defesa das pesquisas com células-tronco, contra os preconceitos de ordem religiosa e racial. Prioridade para as pesquisa sobre as doenças que afetam a população pobre e negra do país, como doença de chagas, anemia falciforme, etc;
- Fim da guerra fiscal entre os estados. Fim dos impostos sobre bens e serviços de primeira necessidade. Nenhum imposto sobre gêneros alimentícios. Anulação de todas as dívidas da classe trabalhadora contraídas com agiotas financeiros. Isenção do pagamento de água, luz, gás. Passe livre para os que procuram emprego;

EDUCAÇÃO
- Reverter o sucateamento das Universidades públicas (REUNI), com a contratação de professores e funcionários, melhoria dos laboratórios e instalações, melhoria das condições de ensino, pesquisa e extensão; defesa da autonomia administrativa e acadêmica das universidades frente aos governos e corporações; por uma universidade a serviço das necessidades dos trabalhadores;
- Defesa da qualidade de ensino nos seus três níveis, melhores salários e condições de trabalho para os professores, melhores instalações e recursos materiais (laboratórios, bibliotecas, material didático, etc.), fim da progressão automática, fim do ensino religioso nas escolas, inclusão obrigatória das disciplinas de educação sexual, psicologia, filosofia, sociologia, história e cultura da África e da América Latina;
- Fim do vestibular, garantia do acesso de todos os jovens ao ensino superior público, gratuito e de qualidade;
- Cassação das concessões dos veículos de comunicação que descumpram os critérios de relevância cultural; acesso à comunicação para os movimentos sociais;
- Por um modelo de TV digital com tecnologia nacional e democrático. As rádios e TV’s devem ser colocadas sob controle dos trabalhadores para auxiliar a sociedade a se emancipar da ignorância e promover uma elevação do nível cultural geral, estimulando a diversidade, colocando fim a toda forma de fetichismo, consumismo, racismo, preconceitos e estereótipos contra as mulheres, os negros e grupos marginalizados;
- Taxação da produção audiovisual estrangeira (filmes, seriados, etc.) como forma de financiar a produção nacional;

AGRICULTURA E ECOLOGIA
- Reforma agrária sob controle dos trabalhadores. Fim do latifúndio, das monoculturas predatórias e dos plantios transgênicos. Por uma agricultura coletiva, orgânica e ecológica voltada para as necessidades da classe trabalhadora;
- Fim da transposição do São Francisco e de todos os mega-projetos faraônicos e anti-ecológicos a serviço do latifúndio, do agronegócio e das transnacionais;
- Fim da indústria da seca no Nordeste, fim do coronelismo e do clientelismo, pelo aproveitamento dos recursos hídricos da região sob controle dos trabalhadores do campo;
- Fim do desmatamento na Amazônia, no cerrado e no Pantanal; não ao reconhecimento de “nações indígenas” como forma de desmembrar o território amazônico e retirá-lo da soberania nacional; imediata revogação da Lei de Florestas, controle do aqüífero Guarani; expulsão das ONGs imperialistas, das madeireiras e dos piratas da biodiversidade;
- Pela pesquisa de nossa biodiversidade por universidades públicas e pesquisadores brasileiros;
- Que os fabricantes de produtos não-biodegradáveis, como pilhas, baterias, garrafas plásticas (PET), etc., sejam responsáveis pelo respectivo recolhimento e reciclagem orbigatória, caso contrário suas empresas serão estatizadas em benefício do meio ambiente e da saúde humana;
- Pela estatização de todos os recursos hídricos, minerais e florestais, sob controle dos trabalhadores;

SOCIALISMO
Para finalizar, é preciso dizer em alto e bom som que essas medidas somente serão realizáveis no bojo de uma luta por outro modelo de sociedade.
Portanto:
- Pela socialização dos meios de produção e de distribuição da riqueza social pelos organismos de poder dos trabalhadores!
- Por um governo socialista dos trabalhadores baseado em suas organizações de luta!
- Por uma sociedade socialista!

Daniel M. Delfino
Abril 2008

8.2.08

O Corinthians para os corintianos



No dia 13 de outubro de 2007 comemoraram-se os 30 anos da histórica conquista do Campeonato Paulista de 1977 pelo Corinthians, numa final contra a Ponte Preta. Era o primeiro título oficial depois de uma longa fila de 23 anos, desde o lendário Campeonato do IV Centenário de São Paulo, de 1954.

Nesses 30 anos entre 77 e 2007, o Corinthians conquistou 10 Campeonatos Paulistas (que somaram-se aos 15 anteriores para fazer do clube o maior vencedor da competição), 2 Copas do Brasil, 4 Brasileiros e 1 Mundial. Ou seja, os últimos 30 anos, ou mais especificamente os últimos 15, foram o período mais vitorioso da história do clube, quando se acumularam mais e mais importantes títulos do que em toda a vida precedente da agremiação. Se já era um dos clubes mais tradicionais e dono da 2ª maior torcida do país, o Corinthians tornou-se também um dos mais vitoriosos.

Entretanto, os torcedores que estiveram no Pacaembu na tarde de 13 de outubro de 2007 para a comemoração dos 30 anos e para o jogo contra o Internacional/RS pelo Brasileiro do ano passado não estavam vislumbrando a possibilidade de novas conquistas e sim, ao contrário, angustiados com a ameaça de rebaixamento do time para a 2ª divisão nacional. O rebaixamento acabou se concretizando, ao fim do certame, em dezembro, não sem antes expor a nação corintiana ao vexame de ver o presidente do clube afastado em meio a um escândalo policial. As investigações da justiça sobre a origem do dinheiro que a então parceira MSI investia esbarraram em lavagem de divisas do crime organizado internacional, especificamente da máfia russa, de quem a MSI seria fachada.

Na esteira dos escândalos e do afastamento da direção, organizaram-se às pressas eleições para uma nova diretoria, ao final das quais os remanescentes do mesmo grupo dirigente permaneceram no comando, tornando-se depositários duvidosos da complicada tarefa de recolocar o clube no caminho das conquistas. Há algo de muito errado acontecendo com o Corinthians hoje, que não poderá ser resolvido por uma simples mudança de nomes na diretoria. Para ter uma dimensão da gravidade dos problemas, é preciso recuperar uma parte da história do alvinegro.

A lembrança do título de 1977 é fundamental porque nos leva a um passado não tão distante, em que era possível um time ficar 23 anos sem ganhar um campeonato importante, e mesmo assim ver sua torcida crescer ao invés de diminuir. Esse fenômeno paradoxal merece uma explicação sociológica.

A torcida do Corinthians é a 2ª maior do país, mas está fortemente concentrada no Estado de São Paulo e em especial na região metropolitana da capital. O crescimento da torcida esteve indissoluvelmente ligado ao próprio crescimento da metrópole paulistana nas décadas de 1950, 60 e 70, período de forte urbanização e industrialização, e que coincide com boa parte da fila corintiana.

Naquelas décadas, trabalhadores de todas as partes do país e em especial do Nordeste emigravam em massa para São Paulo. Ao estabelecer-se, incorporavam juntamente com outros caracteres da sociabilização proletária o hábito de torcer para o Corinthians, time aliás fundado por operários em 1910. Nada mais natural para essa população sem terra, sem teto, favelada, lutadora, do que torcer para um time “sem teto”, já que o Corinthians não tem estádio (precisamente o contrário de uma torcida rival, que se vangloria de que seu time tem um estádio enorme, mas esquece de mencionar que esse estádio foi construído com dinheiro desviado do Estado, em terreno “doado” pelo Estado, o que é bastante coerente, já que se trata de um time fundado pela burguesia).

Torcer para um time que não é campeão é uma expressão peculiar de uma certa atitude geral perante a vida, um espírito de luta, de irmandade na dificuldade, de alegria na tristeza. O corintiano se define como “maloqueiro e sofredor graças a Deus”. Os adversários, naturalmente, não compreendem esse elogio da condição de sofredor, e zombam dele como se se tratasse de uma apologia da derrota. Falta-lhes o nexo que nos corintianos liga a atitude perante o futebol à atitude perante os companheiros de torcida, de bairro, de vivência, e porque não, de classe.

Diz-se que o Corinthians não é um time que tem uma torcida, mas uma torcida que tem um time. Diz-se que essa torcida vai a campo mais para festejar a si mesma do que ao jogo. Diz-se que a torcida corintiana é o 12º jogador e que praticamente entra em campo para empurrar o time. Não é à toa que ficou conhecida como fiel torcida (fidelidade atestada por feitos surreais como a inacreditável invasão do Maracanã em 1976). Todos esses ditos são verdadeiros, embora sua origem esteja ligada a um passado mais romântico do futebol. Hoje praticamente todas as torcidas são iguais, todas tem suas facções organizadas, seus gritos de guerra para empurrar o time, suas escolas de samba, etc., embora inquestionavelmente ainda caiba à fiel o mérito exclusivo da originalidade e da autenticidade.

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A essência do modo de ser corintiano, a atitude de acreditar, lutar e participar, está em contradição com a própria lógica fundamental da sociedade atual, que exige indivíduos apáticos, passivos, submissos e conformados. As crianças de hoje querem ter todas as suas vontades atendidas apertando um botão do controle remoto ou um comando do videogame, ao invés de brincar na rua, batendo, apanhando e aprendendo com as outras crianças. Do mesmo modo, o torcedor de hoje é educado para ver o futebol pela TV, como um espetáculo qualquer, ao invés de ir para o estádio e participar. O hábito de ir ao estádio é cada vez mais restrito aos torcedores das organizadas, que se transformaram em gangues. O torcedor na sociedade do espetáculo é cada vez mais um espectador distante e cada vez menos um participante direto.

Quem quer que tenha ido ao estádio uma vez, seja para torcer contra ou a favor do Corinthians, sentiu na pele que a participação da fiel não é uma pretensão vazia, ela de fato acontece e tem seu peso. Justamente por isso, é crucial resgatar a peculiaridade do modo corintiano de torcer. A diretoria recém-empossada fez uma tentativa de resgate, lançando meio que às pressas uma campanha de marketing de camisetas com o dizer “eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo, eu sou Corinthians!”, frase bem ao gosto popular, e que faz da campanha um sucesso de vendas. Como já aconteceu com outros clubes grandes rebaixados, pode ser que a 2ª divisão sirva como oportunidade para reaproximar a torcida do time, conectando-a com sua história e sua essência de “sofredor”.

A originalidade corintiana e sua identidade proletária manifestaram-se não só no fenômeno extraordinário e paradoxal do crescimento num período de jejum de títulos, mas também no excepcional movimento da “democracia corintiana”, no início dos anos 1980. Naquela quadra histórica, em que se vivia o fim da ditadura, o proletariado brasileiro protagonizou um dos maiores ascensos de sua história, desencadeando um forte ciclo de lutas sociais e construindo fortes organismos de massas, como o PT e a CUT.

Não há é claro uma relação direta e automática entre identidade de classe, mobilização política e opção futebolística (ou seja, nem sempre proletário e corintiano é sinônimo de grevista). Entretanto, alguma relação existe, pois somente isso pode explicar a coincidência temporal entre as lutas operárias e a democracia corintiana. Naquela experiência sui generis promovida por uma geração de jogadores talentosos, vitoriosos e engajados, implantaram-se práticas coletivas auto-gestionárias e libertárias jamais vistas no futebol, como a decisão sobre contratações, regime de treinamentos, abolição das concentrações, valorização da responsabilidade e da autonomia dos jogadores; práticas que apontavam um modelo para o conjunto da sociedade, que então clamava por democracia. Trata-se do mais importante movimento político da história do futebol brasileiro e um dos mais importantes do mundo.

Também não é coincidência o fato de que os dirigentes do ciclo de lutas operárias da década de 80 (ou seja, o PT) estejam hoje servindo como prepostos do capital financeiro internacional e conduzindo a espoliação do país na nova divisão do trabalho internacional da fase globalizada do imperialismo; assim como os dirigentes do Corinthians fizeram do clube um balcão de negócios do futebol globalizado e suas máfias de “empresários” e “investidores”.

É evidente que o rebaixamento não é o fim do mundo para um clube da grandeza do Corinthians, que certamente voltará a vencer. Mas o episódio serve como um exemplo eloqüente da falência de um certo “modelo” de gestão do futebol. O personalismo, a perpetuação de dirigentes, a falta de transparência, a “caixa preta” das finanças, os contratos nebulosos envolvendo empresários de jogadores, intermediários, publicitários e todos os tipos de parasitas; tudo isso precisa ser varrido para que o Corinthians tenha não apenas uma mera troca de nomes dos dirigentes, mas uma mudança estrutural na sua administração. Por isso propomos:

- Afastamento imediato de todos os dirigentes comprometidos com os atos criminosos da gestão anterior;

- Auditoria externa independente em todas as contas, contratos e departamentos do clube e responsabilização criminal e patrimonial dos culpados pelas irregularidades encontradas;

- Eleições diretas para a direitoria, com o direito de votar e ser votado estendido a todos os
sócios;

O caso do Corinthians não é uma exceção; na verdade o “modelo” falido de administração do alvinegro é a regra entre os grandes clubes do Brasil. Por isso, esses pontos de programa são aplicáveis a todos os clubes, federações e confederações do futebol e do esporte brasileiro em geral. Em função de seu enorme potencial de atrair a atenção das massas, o esporte e especialmente o futebol brasileiro tem sido mantidos sob controle de indivíduos e grupos oligárquicos, autoritários, corruptos, mafiosos, que enriquecem às custas da paixão popular.

A administração predatória e irresponsável desses dirigentes colabora para o enfraquecimento do futebol brasileiro, o êxodo dos atletas, o esvaziamento dos campeonatos, a descaracterização da seleção nacional, a queda do nível técnico, a diminuição do público, o sucateamento dos estádios (da qual o maior exemplo foi a morte de 7 torcedores no estádio da Fonte Nova, em Salvador, em 25/11/07, no que deveria ter sido a festa pelo acesso do Bahia à 2ª divisão), etc.

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Ao invés de enfrentar-se com esse “modelo”, o governo Lula optou por dar-lhe sobrevida (como de resto fez com todos os demais aspectos do atraso brasileiro). Acaba de ser aprovada a “Timemania”, loteria que vai injetar uma fortuna prevista em R$ 114 milhões (segundo “O Globo online”, matéria de 19/02/08) nos clubes brasileiros. Esse rio de dinheiro vai ser entregue aos clubes como forma de facilitar a quitação de dívidas fiscais e previdenciárias, sem que se exija deles nenhuma contrapartida real em termos de afastamento e responsabilização criminal e patrimonial dos culpados pelo descalabro em que se encontram, de transparência administrativa e financeira, reorganização e democratização interna, renovação completa dos atuais quadros dirigentes, etc. Trata-se de mais uma conciliação do governo Lula com um dos setores mais incompetentes, predatórios, corruptos, autoritários e reacionários do país, em troca do apoio venal da “bancada da bola”.

Com uma administração desse quilate é inconcebível que o Brasil tenha sido escolhido para sediar o evento máximo do futebol, a Copa do Mundo de 2014. Está armado o cenário para mais manipulação da paixão popular, mais ufanismo oportunista dos políticos e parasitas, mais chauvinismo e também mais tramóias, corrupção, repressão (como a que os moradores de favelas do Rio experimentaram na época do Pan) e tragédias.

Sem as necessárias mudanças estruturais no futebol e na sociedade, a Copa de 2014 tem tudo para ser a apoteose do pão e circo para as massas. A menos que as torcidas deixem de ser espectadoras passivas do espetáculo político e entrem de vez no campo da luta social.

Fora do futebol os falsos dirigentes, os aproveitadores, os sanguessugas, os empresários, os corruptos, os ladrões, os mafiosos, os criminosos! Salve(m) o Corinthians!


Daniel M. Delfino (trabalhador, estudante, militante e corintiano roxo)

28/01/2008








5.1.08

“Transformers”: as máquinas da diversão a serviço da ideologia

“TRANSFORMERS”: AS MÁQUINAS DA DIVERSÃO A SERVIÇO DA IDEOLOGIA

(Comentário sobre o filme "Transformers")



Nome original: Transformers
Produção: Estados Unidos
Ano: 2007
Idiomas: Inglês
Diretor: Michael Bay
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman
Elenco: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, Rachael Taylor, Jon Voight, John Turturro, Peter Cullen (voz)
Gênero: ação, aventura, comédia, ficção científica, suspense
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/

Que o cinema de Hollywood é uma das indústrias mais poderosas do mundo, não tanto pelo faturamento que gera (seu lucro perde para o da indústria de videogames), mas pela importância estratégica do conteúdo ideológico que veicula, não é novidade.

Que os filmes estadunidenses, consumidos como diversão aparentemente “inocente” no mundo inteiro, são um instrumento avassalador de propaganda a serviço do imperialismo estadunidense, também não é novidade.

Que tais filmes têm como resultado familiarizar subliminarmente o público mundial com idéias tais como: a superioridade natural e incontestável do modo de vida estadunidense sobre o de qualquer outra cultura; o direito dos Estados Unidos de terem tropas e bases militares em qualquer parte do mundo para proteger seus interesses; o método de resolver qualquer problema pelo uso da força; a prerrogativa das “autoridades competentes” de manter certas coisas ocultas do público “para sua própria segurança”; a inocência acima de qualquer suspeita do povo estadunidense; o heroísmo a qualquer prova de seus soldados; tudo isso também já é sobejamente conhecido.

A questão é que “Transformers” não precisava exagerar tanto. A ideologia estragou a diversão. Quem pagou ingresso para ver os robôs em ação, viu tiroteios com os marines e jatos da força aérea! Num filme sobre duas raças de robôs gigantes alienígenas em guerra, os protagonistas são as forças armadas estadunidenses! Envolver os militares na história revela uma extrema falta de imaginação, pois nos priva do espetáculo de poder ver os robôs gigantes lutando entre si. O duelo dos robôs fica em segundo plano, o que é um brutal desperdício em face das potencialidades criativas tornadas disponíveis pela atual tecnologia de geração de imagens em computador.

Qual é o sentido de fazer um filme com os personagens da antiga série de animação dos robôs que se transformam em carros senão para mostrar os robôs lutando em cenas de ação espetaculares? Na visão dos realizadores, era preciso mostrar algo mais, e esse algo mais é a propaganda explícita das forças armadas estadunidenses. Não havia qualquer necessidade dramática de envolver os militares na narrativa, mas o produtor Spielberg e o diretor Michael Bay aparentemente fizeram questão de alistar os “Transformers” na “guerra contra o terror” de Bush.

O engajamento permeia todo o filme. A história começa com uma base estadunidense sendo atacada no Qatar (sempre o Oriente Médio). Em seguida, começam as desconfianças de que o ataque seja proveniente dos “vilões” de sempre, os países do “eixo do mal”, citados nominalmente como suspeitos em vários momentos: Rússia, China, Irã, Coréia do Norte. Um secretário de defesa paranóico conduz a investigação dos incidentes sob o pressuposto de que o país corre risco iminente de um ataque terrorista massivo (há citações quase literais de discursos bushianos).

Mesmo quando se constata que se trata de uma infiltração alienígena, outras mensagens secundárias cujo efeito vai na mesma direção ideológica são despejadas sub-repticiamente ao longo da narrativa. Para lidar com a invasão alienígena, as forças armadas estadunidenses serão capazes de adaptar prontamente a sua munição para destruir qualquer tipo de inimigo, num evidente recado dissuasório dirigido a quaisquer adversários potenciais. A próxima guerra será travada nas ruas das cidades e os civis, como o jovem protagonista, serão recrutados como soldados. O mantra de que “sem sacrifício não há vitória” é repetido a todo momento, o que significa que os militares estão dispostos a sacrificar suas vidas (e as nossas) para cumprir os objetivos de seu governo. Evidentemente, os soldados estadunidenses são apresentados de forma a que o espectador se identifique automaticamente com sua causa, são os “bonzinhos” da história, são pais de crianças lindas, etc. Ao mesmo tempo, não se constrangem com o ato racista, intolerante e autoritário de exigir que seu companheiro de origem hispânica deixe de falar em castelhano e se expresse apenas em inglês.

Apesar de endossar a política do governo estadunidense e a prática de seus militares, o filme se dá ao luxo de brincar com a percepção de parte da população do país de que algo errado está acontecendo. O governo mais culpado do mundo somente pode se manter no poder se tiver a confiança do povo mais inocente de todos. Para manter a confiança desse povo, é preciso infantilizá-lo. O povo tem que ser tratado como criança, como quem não pode saber tudo o que está acontecendo. Daí a necessidade de indústrias como Hollywood e a Disneylandia, canais de TV como CNN e Fox news, eventos como o Superbowl, etc.

A mistificação da realidade é tão grande e sistemática, imiscuindo-se por todos os poros, que acaba tendo o efeito inverso de fazer com que algum tipo de desconfiança residual sempre desponte. De alguma maneira, o povo sabe que seu governo protege interesses escusos. É daí que nascem as “teorias da conspiração”, forma distorcida, semi-consciente, embrionária e tipicamente estadunidense de percepção da existência da dominação de classe, que também vigora naquele país, como em qualquer outra formação social capitalista.

O filme faz algumas brincadeiras explorando essa desconfiança. Um dos robôs da raça dos Decepticons, transformado em carro da polícia, traz na lateral, ao invés do tradicional e mentiroso “para proteger e servir”, a descrição da verdadeira função da polícia na sociedade de classes: “para punir e oprimir”. Nos créditos finais de “Transformers”, os pais do protagonista Sam, em entrevista para a TV, dizem que confiam no governo, mas isso pode ser lido inversamente de maneira irônica como advertência para que o espectador não confie. O filme brinca com isso, mas ao mesmo tempo aceita. É como se dissesse: “o governo usa métodos questionáveis e esconde a verdade, mas isso é necessário, porque é assim que tem que ser, para que possa triunfar sobre 'o mal', e porque tudo sempre fica bem quando acaba bem, quando chega ao 'final feliz'”. Por meio da diversão e da comédia, somos convidados a também concordar com esse raciocínio.

O maior perigo de um filme como “Transformers” está na forma como envolve a propaganda explícita do imperialismo estadunidense na embalagem inocente de uma comédia. Nem só de batalhas da força aérea e dos marines contra os robôs vive o filme. É preciso fornecer também interlúdios românticos e alívios cômicos. O filme brinca com a atmosfera das “teorias da conspiração”, com a crença em alienígenas e OVNIs, com a ignorância geral do público sobre o que o governo esconde. Brinca com o hacker negro, que aparece estereotipadamente para ser escarnecido como parte de um subgrupo racial já acostumado a ser tratado como criminoso pela polícia. Há até um momento de zombaria com as bizarrices da globalização, quando o soldado em plena ação é atendido por um operador de telefonia indiano (quem nunca foi atendido por operadores de telemarketing entediados, contaminados pela praga do gerundismo e obrigados a empurrar ofertas de produtos e serviços indesejáveis?).

Separando-se as cenas de ação propriamente ditas e sua grosseira propaganda das forças armadas, o que sobra é uma espécie de mistura de “Homens de preto” com “Velozes e furiosos”. Uma comédia ágil, bem articulada, fluente na linguagem da cultura pop, repleta de referências e devidamente adaptada para a geração MTV. Há muita diversão em “Transformers”, desde que, evidentemente, deixe-se o cérebro do lado de fora da sala.

Numa indústria cultural feita para um público infantilizado, é preciso recorrer permanentemente a fórmulas pré-fabricadas. As mesmas narrativas básicas se repetem em todos os roteiros do cinema estadunidense: o confronto de Davi e Golias (o inimigo sempre parece mais poderoso que os heróis), o mito da segunda chance (Sam recebe a incumbência de carregar o cubo pelo qual os robôs estão lutando, e com isso tem a chance de passar no teste de futebol em que foi reprovado; Mikaela tem a chance de roubar um carro para salvar a pátria, sem se sentir culpada; o capitão dos marines tem a chance de matar sozinho um dos Decepticons e com isso vingar sua base destruída), a morte dos coadjuvantes (como o robô Jazz, convenientemente caracterizado como um negro), o indefectível final feliz, o gancho para as possíveis continuações, etc.

Apesar do conteúdo militarista e pró-imperialista e dos clichês da fórmula narrativa, há também subsídios interessantes para uma análise sociológica da cultura estadunidense. O primeiro elemento que se sobressai nesse aspecto é o fetichismo escancarado do automóvel. Hollywood já havia tornado popular décadas atrás o simpático fusca “Herbie”, que só faltava falar, e lançou recentemente a animação “Carros”, em que os veículos experimentam dilemas humanos. Mas “Transformers” representa um salto de qualidade na subjetivização dos objetos. Os carros ganham vida, vontade própria, inteligência, consciência e capacidade de fala. Ganham até mesmo contornos antropomórficos, na forma de robôs gigantes.

Os Estados Unidos já foram descritos como um país cujos habitantes tem cabeça, tronco e rodas. Se os indivíduos tem cada vez menos características humanas e cada vez mais o aspecto de objetos de consumo, os objetos de consumo, por sua vez, assumem características humanas. Para se sentirem efetivamente humanos, os humanos precisam da ajuda dos objetos. Tentam através dos carros complementar aquilo que lhes falta. A criação ficcional de carros que assumem a forma de robôs antropomórficos é a materialização final dessa fantasia de humanização dos objetos. Numa sociabilidade mediada por objetos, os homens se tornam eles próprios objetos, e os objetos, sujeitos. Os robôs de “Transformers” têm até a sensibilidade suficiente para escolher a trilha sonora adequada para criar o clima entre Sam e a garota na qual está interessado (os Autobots aprenderam inglês pela internet e adquiriram também um excelente repertório de músicas “pop”), em algumas das cenas cômicas mais geniais dessa produção.

Por falar em interesse romântico, chegamos ao X da questão. A obsessão de Sam é ter um carro, porque só assim poderá sair com uma garota. Em toda sociedade os indivíduos precisam apresentar determinadas qualidades atraentes para serem considerados parceiros sexualmente viáveis. Na sociedade estadunidense contemporânea, essas qualidades não estão ligadas ao ser do indivíduo, mas a seus objetos e pertences. Para ser considerado sexualmente apto, o jovem precisa cumprir certos requisitos: no caso dos garotos, é preciso ter um carro. O valor de um homem é medido pela beleza e potência de seu carro. As qualidades do automóvel se tornam uma espécie de atributo sexual da masculinidade. No caso das garotas, é preciso se transformar diretamente em objetos, ou seja, objetos sexuais, corpos desejáveis, o que em função da preferência estadunidense, significa que devem ostentar uma magreza quase anoréxica. E precisam adicionalmente ter o cuidado de selecionar o “tipo certo” de parceiro.

Além disso, os jovens em geral precisam ter uma origem social “correta”. E isso nem sempre é possível, como no caso do casal de protagonistas, em que garoto tem um cachorrinho que precisa de analgésicos (a polícia estadunidense tem uma especial obsessão por controlar as substâncias que os jovens introduzem em seus corpos) e a garota tem uma ficha criminal “herdada” das atividades do pai ladrão de carros.

Esses elementos comportamentais formam os passos de uma espécie de programação obrigatória para a vida dos indivíduos, cujo destino já está traçado de saída. Cumpridos os pré-requisitos materiais, o casal pode se relacionar, com o objetivo de futuramente constituir família e erguer uma casa, que por sua vez se torna objeto de obsessão dos adultos. A casa precisa ser enorme, ter um jardim, um caminho de pedra cortando o gramado, etc. Todos os aspectos da vida são experimentados como parte de uma competição a ser vencida por meio da ostentação. A vida é uma encenação, em que o importante é impressionar os demais com os aspectos exteriores e materiais. É preciso ter a melhor casa, o melhor carro, o melhor corpo, os melhores objetos, do contrário se adquire a imagem e a condição de um “perdedor”, condenado a ser virgem até os 40 anos.

É nesse tipo de sociedade competitiva, paranóica, superficial, materialista e desumanizada que os jovens vivem. Não é à toa que são recrutados com facilidade para lutar nas guerras da burguesia estadunidense. Mesmo aqueles que convivem com condições materiais limitadas, como Sam, com seu carro que é aparentemente uma lata velha caindo aos pedaços, são educados a crer que um destino especial os espera (o carro revela ser um robô alienígena) e que terão a oportunidade de salvar o mundo e conquistar a rainha do baile.

Quanto mais pobre é a realidade dos indivíduos, como os jovens negros e hispânicos que se alistam nas forças armadas estadunidenses, maior é a ilusão de que estão lutando para salvar o mundo e conseguir uma vida melhor como recompensa. Quanto mais pobre é a realidade, mais rica tem que ser a fantasia. Quanto maior a mentira, mais crível ela se torna. E no final não será mais possível distinguir quem é humano e quem é robô.

Daniel M. Delfino
29/12/2007