15.3.09

A miséria, o espetáculo e suas perversidades - Comentário sobre o filme “Quem quer ser um milionário”







O grande vencedor do Oscar 2009 tem como principal mérito o fato de ter escolhido um favelado como protagonista. Afinal, mais de um bilhão de pessoas são favelados hoje no mundo. Vivemos no “Planeta favela”, título de um livro de Mike Davis que descreve a estarrecedora realidade dessa porção nada desprezível da população humana. A favela é o retrato acabado do fracasso da civilização capitalista. Desemprego, subemprego, trabalho informal, biscates, mendicância, prostituição, doenças, fome, violência, crime; são a realidade social dessa população. Esgoto a céu aberto, lixo, fezes, cadáveres em decomposição, ratos e moscas são a realidade material. Um bilhão de pessoas vive literalmente na merda (há uma cena em que o protagonista do filme em questão ilustra graficamente o que quer dizer “viver na merda”).

Pouco acima dessa camada de favelados, temos as também numerosas camadas dos pobres, dos remediados, dos trabalhadores explorados formalmente, que compõem a imensa maioria da humanidade, para quem a simples sobrevivência é um desafio cotidiano. Isso é um grotesco absurdo em face da abundância de recursos e de capacidade produtiva disponível no planeta. O sistema funciona de fato apenas para uma restrita minoria. Nada pode ser mais eloqüente do que essa realidade para demonstrar o fracasso estrepitoso do capitalismo, do livre mercado, da globalização, do progresso, do desenvolvimento, do crescimento, etc. Pedir a cada um desses 1 bilhão de pessoas que continue suportando a vida no inferno por mais um dia sequer, apenas para que a minúscula elite internacional dos banqueiros, executivos, especuladores, aventureiros e rapinantes de toda espécie que controlam a economia mundial possam seguir desfrutando do luxo obsceno em que se refestelam; é dar mostras de um sadismo verdadeiramente hediondo.

Entretanto, é exatamente isso que fazem os gestores do sistema, os tecnocratas e ideólogos mercenários encarregados de reciclar cotidianamente as promessas furadas da viabilidade do capitalismo e propagá-las maciçamente por todos os canais e meios de comunicação que intoxicam diariamente a consciência coletiva. Por esse motivo, os méritos de um filme que tem a coragem de expor as entranhas de uma sociedade periférica como a da Índia devem ser sempre destacados. Trata-se de uma abordagem diametralmente oposta à do “Caminho das Índias” da rede Globo, que optou por mostrar a Índia dos nababos e marajás.

Por falar em Globo e em Brasil, “Planeta Favela” registra o fato de que nosso país tem 51,7 milhões de favelados, e a Índia 158,4 milhões, o que corresponde a 36,6 e 55,5 por cento da população urbana dos dois países respectivamente. Mas nem tudo na nossa indústria cultural é pura mistificação. Por vezes a realidade também aparece. “Quem quer ser um milionário” tem um predecessor importante no seu gênero, o brasileiro “Cidade de Deus”, do qual recebe nítidas influências. Além do cenário de miséria, semelhante em Bombaim (cidade que os inventores de modismos resolveram rebatizar com o insosso nome de “Mumbai”) e no Rio de Janeiro, temos um protagonista que tenta fazer seu caminho sem se envolver com o crime, embora esse tenha sido o meio em que cresceu. No que se refere à narrativa, temos também o recurso à linhas temporais intercaladas que compõem o quebra-cabeças da vida dos personagens. Finalmente, no aspecto puramente estético, temos o estilo de edição, o ritmo acelerado, as cores fortes.

Ao escolher um favelado como protagonista, “Quem quer ser um milionário” tem a oportunidade de retratar as diversas formas de opressão de que essa população é vítima. A opressão se manifesta não apenas na condição material, mas também nas diversas formas de preconceito, discriminação e violência, não apenas física, mas também psicológica.

O título do filme se refere a um programa de televisão do tipo de perguntas e respostas. No Brasil tivemos há alguns anos o “Show do Milhão”, apresentado pelo grotesco Silvio Santos (que aliás fez sua fortuna explorando a credulidade dos pobres), imitação de um modelo internacionalmente difundido, prova de que na indústria do espetáculo nada se cria, tudo se copia. No filme, o programa é inesperadamente vencido por um concorrente que vive na favela. Jamal Malik é um típico representante do emergente capitalismo indiano: trabalha servindo chá aos operadores de telemarketing. Ele é o subalterno entre os subalternos da classe trabalhadora, parte da gigantesca massa humana anônima triturada nas engrenagens implacáveis do superlucro globalizado.

Ninguém na televisão, dos produtores ao público, acredita que Jamal tem a mínima chance de acertar as perguntas do programa. Mas ele acerta uma após a outra, e seu prêmio em dinheiro vai aumentando rodada após rodada. Antes que ele chegue à pergunta final, os produtores do programa tentam descartar-se dele nos bastidores e o acusam de ser um fraudador. Um favelado jamais poderia ter acertado as perguntas sem algum tipo de expediente ilícito. Favelado não é gente, não pode vencer nunca. Está fora do script.

Os órgãos da repressão, por outro lado, cumprem fielmente o roteiro que deles se espera. O favelado é torturado para confessar o crime que não cometeu. Lá como aqui, a polícia bate primeiro e pergunta depois. Ninguém sequer cogita na possibilidade de o vencedor do concurso ter realmente acertado as perguntas, até que a tortura se prove ineficaz e o infeliz tenha a oportunidade de falar. Para explicar para a polícia como acertou as perguntas do programa, Jamal tem que narrar uma série de incidentes de sua vida, pois cada resposta tinha relação com algo que aprendeu por ter sofrido na pele. Desdobra-se então a narrativa de sua vida, desde a infância até o momento em que chega ao programa de TV.

Além do “crime” de ser favelado, Jamal deve pagar pela ousadia de tentar transgredir as normas e mudar sua realidade. O favelado só pode conseguir algo depois de apanhar muito e ganhar traumas e cicatrizes. Depois da tortura policial e de apresentar as justificativas para cada uma das respostas que acertou, ele terá a chance de voltar ao programa e arriscar a sorte na pergunta final. O detalhe é que a tortura e o interrogatório transcorrem longe dos olhares do público. O inferno vivido por Jamal não pode ser televisionado. O favelado não pode ser humanizado, seu sofrimento não pode ser partilhado pelo espectador. A televisão suprime a brutalidade do real e a dissolve na superficialidade do estereótipo. O público do programa inevitavelmente desenvolve uma empatia por Jamal e torce por ele, mas nem sequer desconfia dos horrores pelos quais ele passou para chegar até ali, desde sua infância distante até a tortura policial ali mesmo, às vésperas da pergunta final.

O mundo do espetáculo é um mundo asséptico, higienista, forjado, embalado para presente e emoldurado pelo sorriso artificial e monstruoso dos apresentadores de TV. Um mundo de fantasia que dissimula por meio da hipocrisia profissional a verdadeira realidade dos seres humanos. A demanda por “reality shows” expressa justamente isso, a necessidade do público de torcer por personagens com os quais possa se identificar. Os “reality shows” fornecem tais personagens, mas não modificam a dramaturgia básica do espetáculo, apenas substituem os atores profissionais que encenam o conto de fadas por amadores com os quais o público se considera mais parecido. Nenhum reality show mergulha na realidade de um ser humano com a mesma profundidade de que somente a verdadeira arte, a literatura, o teatro, e alguns raros filmes são capazes.

Um dos méritos de “Quem quer ser um milionário” é humanizar seus personagens, valorizando sua trajetória de vida. Jamal adquiriu uma diversificada (e terrível) experiência de vida na favela, nas ruas, na mendicância, no trabalho. Vivenciou a barbárie dos conflitos religiosos, o trauma da orfandade, a precariedade da mendicância, o horror da exploração do trabalho infantil, enquanto as pessoas mais próximas dele resvalavam para o crime e a prostituição. Conheceu a inveja, o autoritarismo e por fim a traição da parte do próprio irmão. Mas ele conheceu também a amizade e o companheirismo que unificam os miseráveis e as pessoas que atravessam situações extremas. Conheceu até mesmo o amor, que foi o fio de esperança que o manteve firme e vivo enquanto era massacrado pela vida e levado pela correnteza dos acontecimentos.

Depois de passar por esse purgatório, Jamal faz jus ao prêmio milionário do programa de TV. Chegamos então ao ponto limite do filme. “Quem quer ser um milionário” nos mostra a realidade do favelado, humaniza sua trajetória, cria no espectador a empatia pelo personagem, nos faz torcer por ele e vibrar por sua vitória; tudo isso é bastante louvável e excepcional no cinema, mas é feito no bojo de uma solução narrativa também artificial, que termina por endossar o mecanismo básico do espetáculo e seus pressupostos ideológicos.

O problema começa na forma como Jamal vence o prêmio. Ele acerta a pergunta final no chute, sem realmente saber a resposta. Com isso fica referendada a concepção de que o conhecimento, no seu aspecto acadêmico, formal, livresco, é algo supérfluo, e se pode “vencer na vida” sem ele. A cultura nesse caso aparece como algo que não é de fato necessário, que não enriquece a vida, que não recompensa aquele que se esforça para adquirí-la; enfim, algo que não é preciso conquistar e se pode viver muito bem sem tê-la.

O segundo problema está no próprio conceito do que significa “vencer na vida”, ou seja, ficar milionário. Reforça-se um ideal de realização em que o indivíduo não pode simplesmente ser o que ele é, ele precisa ser como os “vencedores”. Ou o indivíduo é parte da massa miserável, ou é parte da elite privilegiada. O favelado é festejado, mas apenas pelo fato de que ele “vence” e deixa de ser favelado para se tornar milionário.

O terceiro problema, resultante do anterior, é que se acaba referendando assim o culto ao dinheiro e aos bens materiais. É evidente que a miséria material é um mal, mas isso não torna automaticamente um bem a abundância de bens materiais. Especialmente quando tal abundância é resultante das mesmas relações sociais que produzem a miséria, o modo de produção capitalista.

O quarto problema está na idealização do amor romântico. Como numa novela da Globo, em que o final feliz é sempre um casamento (ou pior, vários casamentos), o filme indiano termina numa festa em que o casal de protagonistas fica junto. Ao contrário do que a indústria do romantismo para consumo popular insiste em dizer, o casamento não é onde os problemas terminam, é onde eles começam.

O quinto problema está na frase que encerra o filme, quando aparece a alternativa que responde à pergunta colocada ao espectador logo no começo: “estava escrito”. Isso quer dizer que o destino dos personagens já estava traçado. Com isso, reforça-se a idéia nefasta de que não é o homem que faz sua história, é alguma força sobrenatural que determina o curso dos acontecimentos. Sendo assim, não é preciso se esforçar para modificar a vida, basta se deixar levar. Nesse ponto, “Quem quer ser um milionário” coincide um pouco com outro concorrente do Oscar, “O curioso caso de Benjamin Button”, em que o destino e o roteiro determinam a vida do personagem, sem que ele tenha muita interferência e aprenda algo significativo através da luta.

Por último, e também mais grave, está o fato de que a solução para o problema do favelado é puramente individual. Com toda a ruptura que representa por conta da escolha de seu tema e do retrato humano que faz do personagem, o filme permanece prisioneiro da lógica do espetáculo. As narrativas da indústria cultural reforçam a crença de que “qualquer um pode chegar lá” e impedem o indivíduo de pensar em sua própria vida ao contemplar a vida dos “vencedores” que protagonizam o espetáculo.

Jamal fica milionário, mas a favela continua lá, com o esgoto a céu aberto, lixo, fezes, cadáveres em decomposição, ratos e moscas. Os favelados assistem pela TV e comemoram em toda Índia a vitória de um dos seus, mas continuam favelados. Aceitam assim a permanência de um sistema em que um em 1 bilhão pode ficar milionário, mas os restantes permanecem miseráveis. Um sistema em que um afro-descendente pode chegar a presidente dos Estados Unidos, mas os africanos sucumbem na barbárie das guerras tribais legadas pelo saque do continente realizado pelo imperialismo.

É tudo uma questão de sorte, de destino, de acertar um palpite. Se você for um pré-destinado, parabéns, pois se tornará um milionário. Quanto a nós todos, continuaremos na merda.


Daniel M. Delfino


15/03/2009




25.2.09

A crise 3 - O significado de Obama


Obama e a crise

A eleição de Obama responde a uma necessidade do imperialismo estadunidense de recuperar sua legitimidade política e reconstruir a coesão ideológica em torno da idéia da viabilidade do capitalismo, no momento mesmo em que o sistema é desafiado por uma de suas mais sérias crises. A função da “Obamamania” que tomou conta do mundo é prover um substituto ideológico para o neoliberalismo, cuja hegemonia nas últimas décadas produziu uma crise tão catastrófica que não há mistificação capaz de ocultar.

A eclosão inevitável das crises periódicas faz com que, nos momentos em que elas aparecem, como agora, a burguesia seja obrigada a admitir a crise. Não só isso, a burguesia precisa fazê-lo com grande estardalhaço, pois essa é a única maneira de fazer a classe trabalhadora aceitar o encargo de pagar a conta da crise. A classe trabalhadora precisa ser obrigada a aceitar passivamente as demissões, o rebaixamento de salários, a perda de direitos, o corte de serviços públicos, a proibição de todo protesto ou luta e até mesmo as guerras de extermínio. Todas essas medidas precisam ser apresentadas como inevitáveis, pois “não há outra alternativa”.

Por outro lado, ao admitir abertamente a existência da crise, a burguesia corre um sério risco de ver questionada a própria legitimidade do sistema capitalista. O discurso de que “não há outra alternativa” pode ser contestado. Nos momentos de crise, a classe trabalhadora tem a possibilidade de perceber que o sistema capitalista não funciona, que tudo que os patrões, políticos e intelectuais burgueses dizem é mentira, que tudo não passa de uma armadilha para fazer os trabalhadores aceitarem a exploração e a miséria. Em outras palavras, a crise abre a oportunidade para que os socialistas mostrem aos trabalhadores a necessidade de superar o capitalismo e construir um modo de produção socialista e racional voltado para o atendimento das necessidades humanas.

Abre-se então uma disputa ideológica, um confronto de alternativas para a humanidade. Os socialistas tem a seu favor a própria realidade dos fatos, que aponta para a necessidade de superar o capitalismo e evitar o aprofundamento da miséria, da barbárie e a própria destruição da humanidade. Por seu lado, a única arma da burguesia é a mistificação. A classe dominante precisa encontrar uma maneira de reciclar a crença na possibilidade do capitalismo continuar funcionando. Precisa encontrar uma maneira de dizer aos trabalhadores que não é preciso lutar, que não é preciso revolucionar a sociedade, que tudo pode se resolver por si mesmo. A principal maneira de dizer isso é através das eleições para o Estado burguês. Por meio da eleição de um novo governante, diz a burguesia, todos os problemas serão resolvidos.

É nesse contexto que acontece a eleição de Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos, principal potência imperialista e epicentro da atual crise econômica. Obama é a alternativa interna do sistema. É o conto de fadas que será impingido aos trabalhadores para que todos acreditem que, se até mesmo um negro pode “chegar lá”, então ainda há esperança.

Obama e os negros

A escolha de um negro não é nada casual. Os negros sempre foram o setor mais explorado e marginalizado do proletariado. Sempre foram alvo de violência, preconceito e discriminação. A divisão dos trabalhadores em frações diferenciadas a partir do elemento da cor da pele sempre foi útil para que a burguesia impedisse a união da classe. A disputa entre um setor “privilegiado” e um setor “excluído” pelas vagas cada vez mais escassas no mercado de trabalho faz com que a burguesia possa reduzir o preço geral que paga pela força de trabalho.

Ao mesmo tempo, essa dupla condição de exploração em função da classe e opressão em função da cor da pele gera na população negra a demanda da aceitação e da igualdade. Essa demanda pode ser administrada pela burguesia sem que os fundamentos da divisão de classe sejam questionados. A burguesia pode conceder uma igualdade abstrata e formal aos negros para que estes se sintam representados. Pode até mesmo admitir um negro como presidente do principal país imperialista.

O negro Obama se tornou a esperança de milhões de negros no seu país e no mundo inteiro. Entrou em ação a todo vapor o mecanismo da mistificação pelo qual a classe trabalhadora do mundo inteiro, negra ou não, pode ser levada a acreditar nas virtudes do capitalismo e de seu regime político de democracia representativa. Ao invés de lutar contra a divisão da sociedade em classes, os trabalhadores passam a festejar a aceitação de “um dos seus” no lugar principal do palco.

Obama e o espetáculo

A democracia burguesa consegue assim fazer com que a política deixe de ser uma disputa substantiva entre alternativas societárias e passe a ser uma disputa vazia de imagens. Ao invés de lutar por um outro projeto de sociedade, os trabalhadores são induzidos a festejar uma outra imagem de governante. Ao invés de se discutir o conteúdo de classe da política (os interesses de qual classe social ela atende), passa-se a discutir a identidade do aplicador dessa política. O conteúdo da política permanece sempre o mesmo, mas a política não discute o conteúdo, apenas a aparência, reduzindo-se assim a um mero espetáculo, um jogo de cena. Obama virou um superstar, um “astro do rock”. Sua cerimônia de posse em 20/01/09 se transformou num circo para celebridades da indústria cultural glamourizarem o novo presidente com um verniz pop. Imagens da cerimônia circularam pelo mundo numa espécie de apoteose, como se o próprio Messias tivesse descido à Terra.

Espetáculos semelhantes tem se repetido também na América do Sul. O Chile elegeu uma mulher, a Bolívia elegeu um índio, o Paraguai elegeu um bispo e o Brasil elegeu um operário. Nada disso trouxe mudanças positivas substanciais na vida da classe trabalhadora desses países, pois o sistema sócio-econômico capitalista, baseado na apropriação privada do trabalho coletivo, continuou em vigor. Nenhuma dessas figuras tinha o propósito de abolir o capitalismo; ao contrário, funcionaram como instrumentos para preservar o sistema, manipulando as esperanças dos trabalhadores e impedindo a eclosão de lutas.

Obama terá o mesmo papel dessas figuras da política do espetáculo. Não é coincidência o fato dele ter usado em seu discurso de posse o mesmo bordão da campanha de Lula em 2002: “a esperança venceu o medo”. Obama será uma espécie de Lula global, o gestor do ataque aos trabalhadores revestido de imagem amigável. O Estado é o “comitê gestor dos negócios da burguesia” (na definição de Marx), e Obama, na qualidade de dirigente do principal Estado burguês do planeta, foi eleito para defender os interesses do imperialismo estadunidense.

Obama e a burguesia

O desgaste da imagem dos Estados Unidos ao longo da administração Bush e o crescimento de um sentimento “anti-Estados Unidos” no mundo inteiro obrigaram a burguesia a modificar sua tática. Um outro perfil de governante seria necessário para aplicar a mesma política. Para produzir essa ilusão de mudança sem mudar nada de fato, a burguesia tirou da cartola um político do Partido Democrata. Desde o início da corrida eleitoral, tornou-se evidente que o próximo presidente estadunidense sairia da disputa interna entre Obama e Hillary Clinton pela indicação do Partido Democrata. Não por acaso, essa disputa foi uma das mais acirradas em todos os tempos e foi acompanhada com grande interesse no mundo inteiro.

Uma vez eleito, Obama buscou construir um governo de unidade da burguesia. Para o cargo de Secretária de Estado (equivalente ao de ministro das relações exteriores), ele convocou nada menos do que sua rival na disputa épica de meses atrás, a própria Hillary Clinton. Convém lembrar que a política exterior da era Clinton foi marcada pela afirmação da supremacia imperial dos Estados Unidos, pelo “consenso de Washington”, pela imposição do neoliberalismo, pelos ataques aos direitos dos trabalhadores no mundo inteiro, pelas privatizações, pelos tratados de “livre comércio” que violaram a soberania de dezenas de países, pela escalada do poder das transnacionais, pela desregulamentação financeira internacional; e também pelas intervenções militares contra a Sérvia (então Iugoslávia), a Somália e os bombardeios e sanções que sangraram o Iraque à exaustão (tornando o país presa fácil para Bush poucos anos depois). Por último, convém lembrar que foi a administração Clinton que patrocinou os acordos de Oslo, pelos quais a OLP reconheceu o Estado de Israel e colocou o movimento de resistência nacional palestino no beco sem saída em que se encontra hoje.

As primeiras declarações de Obama e Hillary sobre política externa sinalizam a mudança do eixo da agressão imperialista em direção ao Irã. Diferentemente do Afeganistão, devastado por três décadas de conflito, e do Iraque, sucateado por mais de uma década de bombardeios e bloqueio econômico, o Irã é uma potência de médio porte, uma país populoso, coeso, fortemente centralizado por sua direção política, disposto a resistir e capaz de mobilizar amplos contingentes internacionais de combatentes para a guerra assimétrica contra o império. Na última oportunidade em que Bush ameaçou mais diretamente o Irã, cerca de 40 mil voluntários se alistaram para ser homens-bomba e explodir alvos de interesse do imperialismo pelo mundo. Não contente com o atual atoleiro em que se encontra no Iraque e no Afeganistão (dos quais aliás não vai haver tão cedo uma retirada, apesar dessa ter sido a principal promessa de campanha de Obama), o imperialismo prepara uma catástrofe ainda maior.

Para o cargo de Secretário do Tesouro, Obama convocou Timothy Geithner, que foi dirigente da seccional de Nova York do FED (Banco Central) na era Clinton, quando a desregulamentação financeira produziu a bolha especulativa das empresas “ponto-com”. Um dos principais assessores econômicos de Obama será Paul Volcker, veterano presidente do FED na era Reagan e responsável por uma violenta alta dos juros no início da década de 1980, a qual precipitou a crise da dívida externa na América Latina, arrastando vários países para a recessão e trazendo a miséria para dezenas de milhões de trabalhadores.

Como Secretário de Defesa, comandante do maior aparato militar da história, Obama manteve Robert Gates, nomeado por Bush em 2006 e entusiasta das invasões do Iraque e do Afeganistão. A manutenção de um Secretário de Defesa quando há mudança de partido na Casa Branca é um fato inédito na história política estadunidense.

Como se não bastasse, foi criado um cargo de “Chief Performance Officer”, para o qual foi indicada Nancy Killefer, ex-executiva da firma de consultoria McKinsey & Co. A função desta representante de Wall Street no governo será realizar os cortes no orçamento com os quais a nova administração tentará combater o déficit público total que já chega a US$ 10,7 trilhões. Os cortes não serão feitos no orçamento do Pentágono de Robert Gates, naturalmente, mas nos programas de saúde pública e bem-estar social já bastante precários que atendem as famílias pobres nos Estados Unidos, a maioria negros e latinos, justamente o grosso dos eleitores de Obama.

É importante destacar que Obama não está fazendo todas essas concessões por conta da força política do Partido Republicano. Ao contrário, além de ganhar a Casa Branca, o Partido Democrata tem folgada maioria no Senado e na Câmara dos Deputados, de modo que Obama teria condições de aprovar facilmente quaisquer mudanças que quisesse. Acontece que Obama não foi eleito para trazer “a mudança que precisamos”, como dizia seu slogan de campanha, mas para garantir a continuidade que o imperialismo precisa.

Como diz a célebre frase do personagem de Lampedusa, a burguesia optou por “mudar algo para que tudo permaneça o mesmo”.

Daniel M. Delfino
Fevereiro 2009


16.2.09

A crise 2 - As ameaças à humanidade


O estágio atual da crise

Ao final do ano de 2008 o mundo estava entrando numa forte crise econômica. A imprensa burguesa em peso passou a falar em crise. O mito da invulnerabilidade do capitalismo caiu por terra com impressionante velocidade. Governantes do mundo inteiro fizeram reuniões, emitiram declarações com ar preocupado, anunciaram medidas de emergência, lançaram “pacotes de ajuda” de centenas de bilhões de dólares para salvar os bancos e o sistema financeiro da bancarrota. Subitamente, descobriu-se que o “livre mercado” não é capaz de regular a si mesmo e o Estado precisa intervir. Analistas passaram a falar na pior crise desde 1929, quando teve início a Grande Depressão. Surgiu a ladainha da “falta de confiança”, da “falta de regulação”, da “ganância excessiva”, etc. A crise chegou também ao senso comum. De agora em diante, na boca do povo, tudo “é culpa da crise”.

Na realidade, a crise é um produto inevitável do próprio funcionamento da economia capitalista. Não se trata de “falta de confiança”, “falta de regulação”, “ganância excessiva”, etc. O problema não está no “modelo de desenvolvimento”, que pode ser neoliberal ou desenvolvimentista-keynesiano, está na própria essência do modo de produção capitalista. A crise é uma expressão dos limites internos do sistema, de sua incapacidade de realizar a mais-valia gerada na produção e de sua necessidade de destruir forças produtivas (fechar fábricas, demitir trabalhadores ou mesmo destruir populações inteiras e recursos materiais por meio da guerra) para reiniciar o ciclo de acumulação. Ao contrário do que diz o pensamento vulgar da imprensa burguesa, a crise é parte essencial do mecanismo interno da economia capitalista e portanto a sua aparição de tempos em tempos é um fenômeno inevitável.

Por enquanto, ainda não se produziu o deslizamento para a depressão, nem muito menos qualquer sinal da recuperação sonhada pelos capitalistas, que na verdade pode estar bastante distante, de modo que a crise pode se estender sob a forma de uma recessão prolongada. Nesse meio tempo a burguesia procura manter suas taxas de lucro promovendo demissões, rebaixamento de salários, retirada de direitos e benefícios, corte de serviços públicos. A luta de classes ainda não se manifestou com toda sua agudeza. A reação da classe trabalhadora mundial tem sido desigual. Na sua maior parte, os principais instrumentos de luta da classe, partidos e sindicatos, permanecem controlados por direções abertamente dispostas a colaborar com a burguesia e jogar o custo da crise nas costas do proletariado.

Na Europa, já acontecem fortes greves e mobilizações contra os ataques do capital. No Brasil, a crise chegou ao senso comum e já está na boca do povo, mas a classe trabalhadora não compreende a crise. Para os trabalhadores, ela se parece com uma peste, uma epidemia, cujo contágio ameaçador é totalmente aleatório e só se pode combater rezando para que permaneça distante. A burguesia tenta ganhar ideologicamente os trabalhadores com seu discurso de que “não há alternativa” e tudo que se pode fazer é apertar os cintos e esperar a crise passar. Naturalmente, são os trabalhadores que vão apertar os cintos. E não vão poder contar com o apoio do Estado, que vai precisar tirar cada vez mais dinheiro da educação, da saúde e dos serviços públicos para financiar os “pacotes de ajuda”.

As saídas da burguesia

A crise atual está no estágio de uma recessão mundial em aprofundamento. A burguesia procura neste momento evitar que a recessão se transforme em depressão. Para isso, a classe dominante recorre ao socorro do Estado, que tanto nos centros imperialistas como na periferia está injetando “pacotes de ajuda” que totalizam trilhões de dólares na economia capitalista.

A política do Estado burguês de injetar dinheiro na economia está longe de poder trazer uma solução definitiva para o problema. Assemelha-se a uma tentativa de apagar um incêndio jogando mais gasolina no fogo. Não é preciso ser expert em economia para perceber que há algo muito errado com os tais pacotes de ajuda, como o plano recentemente anunciado por Obama de injetar mais US$ 819 bilhões na economia estadunidense. A simples intuição basta para demonstrar que a solução não pode ser assim tão fácil. Se está ao alcance do Estado produzir tão facilmente dinheiro à vontade e em quantias tão mastodônticas, porque isso não é feito de modo corriqueiro?

A resposta é que na verdade não é tão fácil assim produzir dinheiro, pois isso tem conseqüências. O poder conferido ao Estado para emitir moeda não pode ser usado indiscriminadamente, pois isso ameaça a própria função da moeda como medida de valor. A burguesia não o ignora, por isso só recorre a tal medida apenas em situações de emergência extrema. O fato de que todos os Bancos Centrais do mundo estejam fazendo a mesma coisa neste momento é mais um indício da seriedade da crise em andamento.

A moeda precisa estar lastreada em alguma riqueza real, sem o quê se converte em simples papel sem valor. Os BCs do mundo inteiro estão emitindo trilhões de dólares que correspondem a papel sem valor, na expectativa de que alguma riqueza real possa vir a ser gerada, ou na linguagem da economia burguesa, de que haja uma “retomada do crescimento”. Nesse meio tempo, o dinheiro que sai dos BCs é contabilizado como dívida pública, ou seja, dívida que o Estado terá que cobrir de alguma maneira, seja cobrando impostos, seja cortando dos serviços públicos; em ambos os casos, tomando dos trabalhadores. Em última instância, como toda riqueza real em qualquer sociedade é produzida pelo trabalho humano, a classe capitalista e seu Estado terão que intensificar brutalmente a exploração para recuperar o valor nominal emitido sob a forma de moeda sem valor. Caso isso não seja feito num intervalo de tempo suficientemente curto, a crise pode se desdobrar numa desvalorização drástica da moeda, ou seja, numa inflação desenfreada.

Paradoxalmente, os detentores de capital no mundo inteiro estão neste momento buscando “refúgio” na “segurança” dos títulos do tesouro estadunidense. O dinheiro que sai das bolsas de valores do mundo inteiro, provocando sua queda, está sendo investido em dólares, o que produz a valorização artificial dessa moeda. O dólar está sendo mantido artificialmente valorizado, justamente no momento em que o endividamento suicida dos Estados Unidos, com os trilionários pacotes de ajuda do governo, amplia o risco de corrosão estrutural do valor da principal moeda mundial. Em outras palavras, o capitalismo está se tornando refém da capacidade do imperialismo estadunidense de cobrir sua dívida por meio do saque sobre a classe trabalhadora mundial.

Os limites do capital

A crise atual não é produto apenas do esgotamento de mais um ciclo periódico (como o ciclo anterior que se encerrou em 2000 com a quebra da NASDAQ), mas da crise estrutural do sistema que emperra a acumulação capitalista pelo menos desde o início da década de 1970. A crise estrutural tem sido contornada pelo deslocamento da produção material para países periféricos de mão-de-obra barata (tigres asiáticos, e mais recentemente, China e Índia), combinado com movimentos de expansão do crédito, endividamento do Estado, das empresas e dos consumidores e desregulamentação dos instrumentos financeiros.

Esse duplo movimento de superexploração/financeirização expressa uma dificuldade crescente do capital para continuar se reproduzindo. Há um estreitamente crescente das margens internas intransponíveis do próprio sistema capitalista. O impulso da concorrência obriga as empresas a incorporarem tecnologia e aumentarem a produtividade, produzindo mais em menos tempo de trabalho. Ao produzir mais em menos tempo, as empresas podem dispensar a força de trabalho humana. O desemprego tecnológico estrutural de massa se tornou rotina em todos os países. Ao demitir trabalhadores, as empresas diminuem a quantidade de consumidores aptos a comprar aquilo que produziram. Sem compradores para as mercadorias, não se fecha o ciclo de realização do valor gerado na produção.

Quando não há meios de realizar o capital, a solução é simplesmente destruí-lo, ou seja, fechar as empresas, imobilizar as máquinas, demitir mais trabalhadores, obrigá-los a trabalhar por salários mais baixos. Isso só faz aumentar o problema da falta de consumidores, agravando a crise e precipitando um círculo vicioso. Essa contradição está na raiz de todas as crises econômicas. Para cada ciclo que se encerra o capitalismo tenta encontrar uma saída. A “civilização do automóvel”, o consumismo do estilo de vida estadunidense, a indústria da informática foram saídas desse tipo, bem como recentemente a especulação com empresas de internet ou com imóveis.

Ainda não despontou no horizonte a próxima aposta do capital para tentar contornar a crise. As alternativas estão cada vez mais escassas. Sem a novidade de um novo ramo da produção, a saída pode estar na pura e simples destruição. No limite, uma das formas de encontrar um consumidor capaz de realizar o capital é obrigando os Estados capitalistas a entrarem em guerra, mobilizando os meios de produção para a destruição e gerando a necessidade da reconstrução. É deste limite que estamos nos aproximando.

As ameaças no horizonte

O sistema capitalista carece de coordenação racional e centralização. Não há um “Estado mundial” do sistema do capital capaz de planejar seus passos. Por mais que a superpotência estadunidense se candidate a exercer esse papel, prevalece a existência de uma articulação hierárquico-conflitiva entre as diversas seções nacionais do capital global. As diversas burguesias nacionais (ou burocracias como a da China) perseguem seus próprios interesses particulares em aberta rivalidade entre si e com os Estados Unidos. O imperialismo europeu penetra na América Latina, a Rússia se volta para uma política nacionalista de grande potência, a China desponta com força no cenário geopolítico; tudo isso expressa a contradição entre um único sistema sócio-econômico mundial e a existência de diversos Estados nacionais enquanto estruturas de controle político.

Na última oportunidade em que o sistema se defrontou com dificuldades tão dramáticas, por ocasião da Grande Depressão da década de 1930, não houve política do Estado capaz de produzir uma recuperação por meios puramente econômicos. Ao contrário do que dizem os apologistas burgueses e repetem os desinformados (e os mal-intencionados) papagaios da esquerda reformista, não foram o “New Deal” rooseveltiano ou os sortilégios keynesianos que salvaram a economia capitalista naquela conjuntura. Depois do crash da bolsa de 1929, a economia dos Estados Unidos havia desabado novamente em 1938. O sistema só pôde sobreviver graças à destruição provocada pela II Guerra Mundial.

A destruição é essencial para a economia capitalista. A tendência irrefreável de centralização em direção à formação de grades monopólios e grandes impérios econômicos necessariamente aponta para a destruição dos concorrentes menores e mais fracos. É preciso destruir periodicamente grandes quantidades de vidas humanas, de recursos materiais, de fábricas, edifícios, infra-estrutura, forças produtivas, enfim, para que a acumulação de capital possa se reiniciar. A barbárie de Auschwitz e Hiroshima constitui exemplo indelével da loucura destrutiva a que o capitalismo pode precipitar a humanidade em nome da reprodução ampliada do valor.

Dentro da atual correlação de forças entre as potências imperialistas, a resolução dos conflitos em curso por meio de uma III Guerra Mundial é improvável devido à ameaça concreta de destruição mútua assegurada por arsenais nucleares e outras armas de destruição em massa largamente disseminadas. Entretanto, mesmo conflitos localizados, como uma invasão estadunidense ao Irã, trazem consigo o espectro de uma barbárie intolerável.

Ao invés de uma Guerra Mundial clássica entre grandes Estados imperialistas, está em gestação uma guerra mundial do capital contra os trabalhadores por meio de diversas formas como a “guerra ao terror”, a “guerra às drogas”, a satanização dos países do “eixo do mal” e de todo e qualquer movimento de resistência (doravante alcunhado de “terrorista”); e no plano interno, o renascimento da xenofobia e do neonazismo, a fascistização social, a repressão policial, a criminalização dos protestos e da luta social, as restrições às liberdades democráticas, a destruição dos instrumentos sindicais e políticos da classe trabalhadora, a perseguição aos ativistas, a censura à informação e o bloqueio ideológico contra o pensamento divergente.

A guerra é a alternativa para salvar o imperialismo estadunidense e o capitalismo como um todo. Cabe por sua vez aos trabalhadores lutar para construir uma outra forma de sociedade, livre das crises, das guerras, da miséria, das catástrofes ambientais, da degradação cultural e humana, que só pode ser uma sociedade socialista.

Daniel M. Delfino
Fevereiro 2009

8.2.09

Benjamin Button, uma vida ao contrário, e na direção errada

O diretor David Fincher e o astro Brad Pitt já trabalharam juntos no eficiente thriller “Seven” e em “Clube da Luta”, um dos melhores filmes da década passada. Nesses dois trabalhos anteriores, se expõe uma visão bastante crítica da experiência humana, para não dizer radicalmente negativa. Essa visão é de certo modo característica do restante da brilhante filmografia do diretor, que se coloca bastante acima da média dos realizadores comuns. Os dois repetem agora a parceria em “O curioso caso de Benjamin Button”, que narra a história de um homem que envelhece ao contrário.

Tendo nascido com o aspecto de um ancião, encarquilhado, quase cego, surdo, com artrite e toda sorte de debilidades físicas que acometem os idosos, Benjamin rejuvenesce conforme cresce, tornando-se um homem velho, depois maduro, adulto, jovem, adolescente, criança, terminando seus dias como um bebê. Tendo sua mãe morrido no parto, ele é repudiado pelo pai, o rico dono de uma fábrica de botões, que o deixa nas portas de um asilo de idosos. Lá ele é adotado pela negra Queenie, que cuida dos idosos no asilo, e que não podia ter filhos.

Nenhuma explicação direta é fornecida para o envelhecimento invertido de Benjamin, e de resto o bizarro fenômeno também não surpreende muito as pessoas que convivem com ele, nem provoca escândalo ou o transforma numa celebridade mundial, o que muito provavelmente teria acontecido em nosso mundo se seu caso fosse real. À guisa de explicação, faz-se alusão a um relojoeiro cego que projetou um relógio que corre ao contrário para ser instalado na estação ferroviária central da cidade. Com isso, o relojoeiro queria fazer retroceder o tempo e reverter a perda de seu filho, que tinha acabado de morrer na I Guerra Mundial. Não é apresentada uma relação direta entre os dois casos, apenas exposta a coincidência de que Benjamin nasceu nesse mesmo ano, 1918, e na mesma cidade, New Orleans.

A capital do jazz foi assolada pelo furacão Katrina em 2005. É nesse exato momento que começa a narrativa. Às vésperas da chegada do furacão, uma idosa que está hospitalizada em estado grave pede a sua filha que leia o diário de Benjamin Button. É por meio da leitura do diário que a história é contada e que se conhece a relação das duas mulheres com Benjamin. O filme transcorre então como uma longa exposição do percurso de toda uma vida, do nascimento à morte.

O percurso de uma vida bastante original fazem deste “Curioso caso” um filme extraordinário para os padrões da indústria. Isto, somado aos seus inegáveis méritos técnicos, a competência da direção, o bom trabalho do elenco, da maquiagem, etc., levaram a 13 indicações para o Oscar, prêmio máximo da indústria. Dadas as características do prêmio (o filme com o maior número de indicações é quase sempre o maior vencedor), “Benjamin Button” deve sair consagrado pela Academia. No deserto de criatividade em que se tornou o cinema comercial estadunidense, o filme de David Fincher é de fato excepcional. Tem a rara qualidade de provocar algum tipo de reflexão, de empatia e identificação do espectador com o destino dos personagens. Entretanto, isso não significa que o filme consiga dar conta de seu objeto satisfatoriamente.

As fragilidades começam no esquematismo do roteiro. Assim como a pseudo-explicação fantástica para o envelhecimento invertido por causa do relógio, todo o restante da narrativa é construído por coincidências e paralelismos. Uma série de fatos convenientemente convergentes se articulam para direcionar o percurso da vida do personagem e sua formação. Vários fatos e contextos se combinam também para influenciar na interpretação que se pode tirar da moral da história. O fato de termos a presença de uma idosa intercalando a narrativa anuncia uma reflexão sobre a inevitabilidade da morte, que cedo ou tarde atinge a todos. Tal inevitabilidade é sublinhada pela presença do furacão Katrina, que nós espectadores já sabemos quão mortífero acabaria sendo, mas que as personagens ainda ignoravam. O furacão adiciona a devida dose de arbítrio ao lembrar como a vida humana é frágil e que não apenas os idosos morrem. Outro fato bastante conveniente é o de Benjamin ter sido criado num asilo, o que permitiu a ele não apenas receber os cuidados geriátricos adequados a sua “infância senil”, mas também partilhar do convívio com os idosos e sua sabedoria, e testemunhar a presença constante da morte.

Diz-se que a infância de uma pessoa termina quando ela compreende que vai morrer. Benjamin testemunha desde cedo a desaparição dos demais hóspedes do asilo e experimenta o sentimento de perda que a morte traz aos que ficaram. Esse ambiente, somado à condição peculiar de alguém que nasceu idoso, teriam contribuído para que ele desenvolvesse algum tipo de percepção especial do percurso da vida. Logo que é acolhido no asilo e examinado por um médico, e antes que se pudesse perceber que ele estava na verdade envelhecendo ao contrário (rejuvenescendo), Benjamin era de fato tratado como alguém que tinha muito pouco tempo de vida, como os demais hóspedes do asilo. Ele teria nascido para morrer em pouco tempo, realizando em forma de piada a frase de Heidegger de que “o homem é um ser para a morte”.

O fato de ter passado os primeiros anos de sua infância acreditando que iria morrer a qualquer momento, sem saber quanto tempo lhe restaria, deveria ter lhe inculcado muito precocemente o sentimento da precariedade da vida, acompanhado da percepção do quanto a vida é preciosa, que por fim se completaria com a lição de que todos os momentos deveriam ser muito bem aproveitados. Isso parece estar acontecendo ao longo da primeira parte do filme, quando Benjamin é uma criança e adolescente com aspecto de um velho, e desfruta todos os momentos e descobertas da vida como dádivas. Ao invés de crescer com a paranóia dos jovens, que querem apressadamente “conquistar o mundo”, ele cresce com a serenidade dos idosos, que apreciam os pequenos prazeres da vida, o sopro de uma brisa, o canto de um pássaro, o colorido de um por do sol. A essa primeira parte pertencem os melhores momentos do filme, como as divertidas reminiscências do homem que foi atingido sete vezes por relâmpagos. Aliás, em sua velhice, a única coisa que restou a este homem é a lembrança dos relâmpagos.
Entretanto, a profundidade da temática se desvanece conforme a narrativa avança e a vida de Benjamin se torna comum. Há uma grande dificuldade em mostrar o que ele aprende e o que tem a ensinar quando se torna ele próprio um idoso de verdade.
A temática do envelhecimento é estranha ao cinema hollywoodiano tradicional. A indústria cultural não contempla o fenômeno do envelhecimento e da morte natural nas suas narrativas. A morte, quando aparece, é quase sempre “heróica”, em nome de alguma causa, ou acidental, trágica. A morte pura e simples, como resultado natural do esgotamento da vida, é mantida ausente do imaginário coletivo. Há uma negação da morte natural na indústria cultural.

A negação anti-natural da morte resulta em uma falsa afirmação da vida. O cinema esconde o percurso natural da vida no mesmo movimento em que comercializa a vitalidade exuberante de suas estrelas, a juventude, a beleza, o carisma, a sensualidade. Tudo isso é embalado nas narrativas fantásticas do amor romântico idealizado e devidamente arrematado pelos artifícios do final feliz e pelo mito do “viveram felizes para sempre”. As vidas de contos de fadas do cinema são concebidas para funcionar como um precário substituto e antídoto para a vida miserável da maioria dos seres humanos neste mundo bárbaro.

Pensar na morte implica em questionar a vida. A filosofia nasceu com esse propósito, amparar o homem no confronto com sua inescapável finitude. Questionar filosoficamente a vida é uma atitude não muito bem vinda na nossa realidade atual. As narrativas adocicadas da indústria cultural induzem justamente à atitude oposta. O indivíduo compara sua própria vida com a vida idealizada do cinema, das telenovelas, dos romances, e percebe que há uma abissal diferença, mas considera que a causa da inadequação está na sua própria pessoa e não no mundo, e tenta se ajustar como pode.

Aparentemente, Benjamin Button se coloca na direção oposta do cinema comercial, ao trazer uma narrativa que aborda o início e o fim da vida de um homem. Entretanto, o filme não escapa da armadilha de sua própria premissa. O homem que envelhece ao contrário acaba, na verdade, não envelhecendo. O Benjamin maduro, na imagem de um Brad Pitt adolescente, não é um homem maduro, mas um adolescente. Suas decisões e escolhas, sua psicologia e atitudes, sua moralidade não revelam nenhum conflito real, nenhum dilema, nenhuma cicatriz emocional, nenhum tesouro de sabedoria adquirido ao custo de doloroso aprendizado. A imagem prevalece sobre o conteúdo.

O conto de Benjamin Button na verdade realiza a fantasia coletiva do rejuvenescimento. Ele é uma expressão radical do processo de rejuvenescimento dos protagonistas prototípicos do romance na narrativa cinematográfica. Os protagonistas dos grandes romances clássicos do cinema, como os de “E o vento levou” e “Casablanca” eram casais maduros. Os protagonistas dos romances do cinema atual são adolescentes, como os de “Titanic”. A indústria cultural rejeita a idade madura e busca refúgio na juventude.
Ao invés de ilustrar o envelhecimento como ganho de conhecimento, Benjamin Button retrata o desejo de juventude como fuga da realidade. Mesmo que essa não tenha sido a intenção consciente de seus autores, como muitas vezes não é no mundo da arte, o filme termina por expressar justamente a compulsão patológica pela juventude, a falsa afirmação da vida e a negação do pensamento e da morte que constituem o grosso da indústria cultural. A contradição do filme com a ideologia predominante na indústria é apenas aparente.

A vida de Benjamin Button transcorre ao longo de todo o “breve século XX” (Hobsbawm), um dos períodos mais conturbados da história, atravessado por revoluções, contra-revoluções, guerras mundiais, guerras de libertação, movimentos, idéias e ideologias que empolgaram milhões de pessoas, transformações sociais, culturais, comportamentais. Nenhum desses acontecimentos o afeta realmente. Ele participa da II Guerra, mas o faz sem opinião própria, apenas porque o capitão do navio em que trabalhava decidiu se engajar na marinha. Ele experimenta as perdas e o drama da guerra, mas permanece quase indiferente.

A História passa por Benjamin sem que ele se deixe afetar, sem que tome posição, sem que se comprometa com qualquer causa ou ideal, sem passar por uma sensação de vitória ou derrota. Benjamin é um ser a-histórico. Ele está tão deslocado do drama histórico da humanidade que resolve de modo também indiferente a questão mais básica para qualquer ser humano, a sobrevivência material. O adolescente/velhinho começa a trabalhar num barco apenas pelo prazer de realizar algo, mesmo que seja uma tarefa considerada degradante e rejeitada por todos os demais, como limpar o convés. O trabalho é uma atividade em si mesma gratificante, quando não realizado sob a compulsão da necessidade. Acontece que, nas atuais circunstâncias históricas, comprometidas pela divisão social do trabalho, ou seja, pela divisão de classes, o trabalho se concretiza como alienação, não como realização, para a quase totalidade dos seres humanos. Benjamin só pode se comportar assim em relação ao trabalho porque teve sua sobrevivência material convenientemente garantida no roteiro, seja pela Fundação filantrópica que mantém o asilo, seja pela herança da fábrica de botões.

Entretanto, Benjamin se relaciona de modo atípico não apenas com as condições sociais e históricas, mas também com a vida pessoal. Nunca fica claro o que o atraiu para a relação com a mulher do espião na Rússia, e por sua vez, o que o tornou atraente para ela. Sua relação com Daisy também transcorre como um casamento convencional. A não ser pelo fato de que também não fica suficientemente claro o motivo que o levou a se afastar da família que havia constituído com a mulher que fora o amor de sua vida.

No final das contas, a mensagem que se transmite não vai muito além daquela que se ouve em comerciais de TV ou livros de auto-ajuda: “nada dura pra sempre”, “viver um dia de cada vez”, “aproveitar cada minuto”. O filme fica nos devendo um personagem que tenha de fato aproveitado sua vida e que tenha algo a nos ensinar ao final de três preciosas horas do nosso tempo.

Daniel M. Delfino
08/02/2009


Ficha técnica:
Nome original: The Curious Case of Benjamin Button
Produção: Estados Unidos
Ano: 2008
Idiomas: Inglês
Diretor: David Fincher
Roteiro: Eric Roth
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Jason Flemyng, Taraji P. Henson, Mahershalalhashbaz Ali, Elias Koteas
Gênero: drama, fantasia, mistério, romance
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/


30.1.09

A crise econômica atual - parte 1

A lógica do capital e as crises

O mês de outubro de 2008 finalmente trouxe à tona aquilo que vinha se gestando há tempos na economia mundial, ou seja, a eclosão de mais uma crise periódica do capitalismo. As crises econômicas são parte essencial do mecanismo do sistema capitalista. Não são um evento extraordinário, acidental, inesperado, que poderia ser evitado caso se adotasse habilidosamente algum tipo de medida preventiva. A imprensa burguesa e seus batalhões de jornalistas, analistas, economistas e intelectuais regiamente pagos tentam apresentar a versão de que se trata de um fenômeno “anormal”, imprevisto, desencadeado aleatoriamente, como uma tempestade enviada por um capricho dos deuses. Impossibilitada de explicar o mecanismo básico da economia capitalista, a ideologia burguesa está também impedida de compreender suas crises.

A explicação real das crises econômicas capitalistas está na economia política dos trabalhadores, ou seja, na ciência da história fundada por Karl Marx no século XIX. A origem das crises econômicas está na irracionalidade fundamental do sistema capitalista. O capitalismo é um sistema que se caracteriza pela anarquia da produção. A alocação dos recursos, ou seja, a decisão sobre os bens que precisam ser produzidos e em que quantidade, não é planejada antecipadamente de maneira racional a partir das necessidades da população e dos recursos e tecnologias disponíveis. Ao contrário, as decisões sobre a produção são tomadas pelos proprietários dos meios de produção, que atuam como personificações do capital.

As diversas frações do capital (empresas) buscam seu lucro individualmente, produzindo de forma caótica, sem coordenação. Apenas “a posteriori”, quando os produtos já estão no mercado, é que se descobre se a produção efetivada correspondia a uma capacidade de poder de compra realmente disponível ou não. As empresas produzem primeiro e somente depois saberão se poderão vender. Lançam os produtos no mercado na expectativa de obter um retorno maior do que aquilo que investiram na produção. Somente assim podem realizar a mais-valia (trabalho não pago) incorporada às mercadorias no momento da produção.

A lógica da concorrência leva ao aumento da produção e também ao desemprego. A conjugação simultânea desses fenômenos faz com que haja em determinado momento uma quantidade maior de produtos disponíveis e uma quantidade menor de consumidores aptos a adquirí-los. Gera-se portanto uma crise de superprodução de mercadorias. Quando se fala em “superprodução”, o excesso não se refere às necessidades humanas, mas à quantidade de seres humanos que possuem a condição de consumidores, pois é apenas a estes que a produção capitalista se dirige. Do ponto de vista dos capitalistas, a crise aparece como um fenômeno de “subconsumo”. Na sua ótica, falta aos consumidores a “propensão a consumir” que poderia resolver o problema da demanda e manter a roda da expansão da produção em movimento.

O mecanismo do crédito e as crises periódicas

Uma das formas de contornar os limites para a capacidade de compra dos consumidores e das empresas é o crédito. Os bancos e o conjunto do sistema financeiro dão flexibilidade ao capitalismo, permitindo que os tomadores de empréstimo comprem agora aquilo que somente poderão pagar depois, conforme entrarem de posse de sua renda futura. Os bancos cobram por esse serviço uma remuneração, uma parte da mais-valia social, que são os juros. Entretanto, por suas próprias características, o sistema de crédito é instável, pois pode haver empréstimos que não serão pagos, porque a renda dos tomadores não será gerada (porque há empresas que não vão vender o que produziram, assim como trabalhadores que vão ficar desempregados).

Justamente por isso, as primeiras manifestações das crises estão no mercado de capitais, nos bancos e bolsas de valores, que adiantaram capitais ao sistema produtivo sem lastro em riqueza real a ser gerada. Isso faz com que a crise apareça de maneira invertida, como uma crise acionária, bancária e de crédito, que bloqueia o financiamento à produção material e acarreta ulteriormente a recessão no conjunto da economia. A produção material e as finanças estão entrelaçadas, de tal forma que a crise em um setor afeta o outro, mas o papel originário é sempre da produção material, enquanto que as finanças são um instrumento acessório, uma alavanca para o crescimento, que no momento da crise acaba aparecendo como freio para a atividade econômica.

De um movimento inicial de aumento da produção e de lucros extraordinários para as empresas tecnologicamente mais inovadoras, passa-se no momento seguinte para uma situação de queda do consumo, desemprego, fechamento de empresas, etc., num círculo vicioso que se auto-alimenta e produz a crise. A crise é o momento em que se dá o ajuste entre as expectativas iniciais dos capitalistas individuais que deram a partida no ciclo de alta da produção e a capacidade real de consumo disponível na linha de chegada. Na falta de uma coordenação racional prévia da produção, acontece a superprodução de mercadorias e um ajustamento posterior na forma da crise.

As crises periódicas e a história do capitalismo

Esse movimento de ascensão e queda constitui o mecanismo básico da economia capitalista, desde sua origem na Revolução Industrial até os dias de hoje. As crises periódicas são um fenômeno ineliminável e só podem desaparecer com a desaparição do próprio capitalismo. A história do capitalismo se compõe de ciclos periódicos, de duração relativamente curta, em que se sucedem as fases de aceleração, desaceleração, crise (chamada de depressão, quando muito grave, ou de recessão, quando menos grave), recuperação e novamente aceleração. Os ciclos periódicos historicamente apresentam uma duração que tem oscilado entre 6 e 10 anos, contados a partir de uma aceleração inicial até a próxima retomada da aceleração, depois da crise.

A maior das crises periódicas da história do capitalismo se iniciou em 1929, quando aconteceu a quebra da bolsa de valores de Nova York, tendo sido seguida pela chamada Grande Depressão do início da década de 1930, uma gravíssima crise mundial que teve entre seus efeitos diretos a ascensão do nazismo na Alemanha (1933). Apenas nos Estados Unidos, epicentro daquela crise, 4.000 bancos fecharam e 25% dos trabalhadores ficaram desempregados. A solução para a crise somente veio com a 2ª Guerra Mundial (1939-45), quando as encomendas do Estado ao complexo industrial-militar para abastecer os aliados reaqueceram a economia.

No pós-2ª Guerra, além dos mecanismos de crédito, desenvolveram-se várias válvulas de escape que permitiram ao capitalismo deslocar suas contradições internas (a anarquia da produção) e afastar temporariamente as crises mais virulentas: a intervenção do Estado, que consome improdutivamente a capacidade do trabalho social, na forma, por exemplo, do consumo de armamentos (guerras mundiais, guerra fria, corrida espacial, guerra ao tráfico, guerra ao terror, etc.); aumentos limitados do poder de compra dos trabalhadores (em alguns países e em algumas épocas) por políticas de bem-estar social; criação de novas necessidades artificiais; redução do tempo de vida útil dos produtos (obsolescência programada); criação de novas indústrias, novos ramos econômicos, colonização de novos territórios, mercantilização de outras esferas da atividade humana (artes, esportes, religião, sexo, etc.), etc.; etc.

A partir do início da década de 1970 desencadeou-se outro fenômeno, a crise estrutural do capital. Num quadro histórico geral que se caracteriza por uma sucessão de pequenas curvas ascendentes e descendentes (os ciclos periódicos), produziu-se uma grande curva que aponta para uma tendência geral de queda. A tendência geral resultante do jogo entre as forças contraditórias de ascensão e de queda passou a apontar para o predomínio da queda. O problema fundamental, que escapa à teoria e à prática das personificações do capital, é que o sistema se aproxima dos seus limites internos absolutos. As válvulas que lhe permitiam deslocar as contradições estão definitivamente bloqueadas por obstáculos irremovíveis, dentre os quais podemos citar: o desemprego tecnológico estrutural de massa, a crise ambiental, o agravamento da rivalidade entre os Estados capitalistas (sem a possibilidade de novas guerras mundiais para lhe dar solução).

As crises econômicas e a luta de classes

As crises econômicas não se desenrolam num vácuo histórico-social. As classes sociais em luta não são prisioneiras inermes dos mecanismos cegos da economia. As respostas políticas das classe sociais em luta determinam o cenário concreto em que se movem os fatores econômicos. Cada crise periódica possui características próprias, que são derivadas das soluções políticas adotadas na crise anterior. As medidas lançadas para administrar a crise pelas personificações do capital, que na condição de classe dominante, controlam o Estado burguês, serão as causas da crise seguinte. O capitalismo está permanentemente fugindo da própria sombra, empurrando o problema para frente, já que não pode resolvê-lo sem se dissolver enquanto modo de produção. Ou seja, o sistema está sempre preparando crises cada vez mais catastróficas para o futuro.

A atual crise cíclica se desenrola num cenário histórico determinado pela crise estrutural do capital, pela hegemonia do neoliberalismo, pela queda da URSS e a conseqüente ausência da alternativa socialista. As personificações do capital acreditaram no discurso do “fim da história” e da vitória definitiva do capitalismo e dissolveram todas as restrições ao movimento dos capitais especulativos. Teve início uma superprodução desenfreada de capital fictício (Marx), ou seja, de ativos financeiros sem correspondência em nenhuma riqueza real. Os capitalistas tentaram materializar a utopia de produzir dinheiro a partir do dinheiro: “O estoque financeiro mundial – o total de depósitos bancários, títulos de dívida privada, dívidas governamentais e participações acionárias passou de US$ 10 trilhões em 1980 (...) para US$ 167 trilhões em 2006, quase quatro vezes o PIB mundial” (Braudel Papers, nº43/2008).

Ao mesmo tempo, desencadeou-se uma brutal ofensiva política e ideológica contra a classe trabalhadora mundial. Sob o pretexto de “fim do socialismo”, foi retirado do horizonte histórico o projeto de uma alternativa societária global ao capitalismo, privando os trabalhadores de um projeto político próprio e forçando-os a encontrar alternativas individuais de acomodação e sobrevivência nos marcos da sociedade existente. Desarticularam-se os mecanismos coletivos de luta e resistência contra a dominação capitalista. Os partidos políticos e sindicatos converteram-se em órgãos auxiliares da gestão neoliberal do sistema, sem qualquer pretensão de reformá-lo e muito menos de revolucionar a sociedade.

Entrementes, a globalização prosseguiu sem controle pela década de 1990 adentro, forçando os países periféricos a abrirem seus mercados, criando um mercado mundial de força de trabalho, deslocando a produção industrial para os países de mão-de-obra mais barata (a maioria dos quais está na Ásia), incorporando maciçamente as novas tecnologias (automação, informática, telecomunicações, internet, biotecnologia), reduzindo a força de trabalho no setor industrial e precarizando o trabalho de modo geral. A conseqüente elevação da composição orgânica do capital (proporção do capital fixo em relação ao capital variável, aquele que gera mais-valia) não deixou outra saída aos capitalistas senão a ampliação da especulação, por meio das facilidades para o deslocamento dos capitais e a da criação de instrumentos financeiros mais “ágeis” (ou seja, descolados da realidade) como os chamados “derivativos”.

A crise atual

O final do ciclo especulativo da década de 1990 se deu com o estouro da bolha das ações de empresas de tecnologia (NASDAQ), em 2000, quando se descobriu que tais empresas jamais produziriam uma quantidade de riqueza real capaz de recompensar o valor pelo qual suas ações eram negociadas. A solução adotada pelo governo estadunidense para contornar a recessão se deu em dois níveis: no plano geopolítico, a resposta aos atentados de 11/09/2001 propiciou uma violenta ofensiva militar contra os países periféricos, em especial os do Oriente Médio; no plano econômico, foi reduzida a taxa de juros administrada pelo Banco Central estadunidense (FED), criando as condições para um novo ciclo de crescimento, baseado nas facilidades para o crédito.

A queda da taxa de juros faz com que caiam os juros ao consumidor no financiamento de varejo. A queda dos juros nos empréstimos desencadeou uma euforia de empréstimos imobiliários, em que os consumidores tomavam dinheiro das financeiras hipotecando seus imóveis como garantia. Na febre das hipotecas, muitas financeiras começaram a negociar com um segmento do mercado denominado “subprime”, que designa as pessoas com renda insuficiente para quitar as prestações, ou ainda pessoas já muito endividadas, com histórico de calote na praça, etc. Criaram-se também empréstimos em que o valor das prestações somente começa a subir depois de dois anos, entre outras modalidades.

A febre das hipotecas estimulou a indústria da construção civil, já que os imóveis passaram a ser uma aplicação bastante rentável. É evidente que em determinado momento haveria um número de casas construídas maior do que o número de pessoas aptas a pagar o valor das hipotecas (ou seja, uma crise de superprodução de imóveis). Mas até que esse momento tivesse chegado, em meados de 2007, a especulação já tinha ido longe. A criatividade dos estelionatários capitalistas não tem limites. As dívidas hipotecárias eram negociadas no mercado financeiro como “créditos a receber”. Esses títulos de “créditos a receber” originados em hipotecas subprime eram “empacotados” em aplicações no mercado financeiro e vendidos sem que os aplicadores tivessem noção de quão duvidosa era a qualidade de tais créditos. Vendeu-se gato por lebre numa especulação desenfreada. Os grandes bancos rechearam suas carteiras com títulos desse tipo e a globalização fez o resto: o risco financeiro alastrou-se pelo mundo.

Quando um grande número de hipotecas subprime começou a não ser pago, as financeiras que haviam oferecido os empréstimos começaram a quebrar. Por sua vez, os bancos que negociavam os títulos dessas financeiras também começaram quebrar. Quando a quebradeira atingiu gigantes do mercado financeiro estadunidense, como a seguradora AIG, o banco comercial Lehman Brothers e o banco de investimentos Merryl Lynch, o governo estadunidense foi forçado a agir. Nesse momento, a crise já havia atingido os mercados financeiros internacionais, pois muitos bancos europeus também haviam comprado os títulos podres do mercado imobiliário.

A crise econômica atual, ao contrário do que é propagandeado pela imprensa burguesa, não começa nos bancos nem nas bolsas de valores, mas na produção material de imóveis. Os mercados financeiros não geram riquezas, eles apenas realizam riquezas geradas na produção. Quando não há essa riqueza material, os títulos negociados no mercado financeiro reduzem-se a meros papéis sem valor. A crise financeira é apenas a manifestação da ausência de valor desses papéis.

A socialização dos prejuízos e o caráter de classe do Estado

Para tentar acalmar os mercados, o governo estadunidense exigiu do Congresso um pacote de US$ 700 bilhões, o qual seria usado para adquirir os títulos podres do mercado financeiro, dando uma sobrevida às empresas especuladoras que haviam feito a farra. No caso da AIG, o empréstimo de salvamento foi feito tomando-se como garantia o controle acionário da empresa. Ou seja, na prática, a AIG foi estatizada pelo tesouro estadunidense.

As medidas iniciais do governo estadunidense não foram porém suficientes para fazer subir as bolsas. Na segunda semana de outubro de 2008, foi feita uma ação conjunta inédita dos dez maiores bancos centrais do mundo no sentido de baixar as taxas de juros. Finalmente, no fim de semana de 12 de outubro, os governos europeus anunciaram pacotes de ajuda aos seus bancos que ultrapassaram o total de US$ 2 trilhões.

No momento mais agudo da crise, o Estado burguês revelou escancaradamente o seu caráter de classe. O discurso sobre o “livre mercado”, desregulamentação, “ausência do Estado na economia”, etc., revelou-se o contrário disso na prática do maior país imperialista. Tal discurso não passava de uma impostura ideológica destinada a forçar os países periféricos a abrir seus mercados, privatizar seu patrimônio, retirar direitos dos trabalhadores, etc.. No momento da crise, o Estado abandonou o discurso neoliberal, assumiu para si os riscos da atividade dos capitalistas e socializou o prejuízo das falcatruas privadas. Revelou-se também o caráter promíscuo e mafioso das personificações do capital que dirigem o Estado burguês: o secretário do tesouro da administração Bush, Henri Paulson, trabalhou desde 1974 no banco Goldman Sachs e detinha ainda ações do banco em seu nome. Por coincidência, o Goldman Sachs foi um dos principais beneficiados do pacote de US$ 700 bilhões...

A única saída encontrada pela burguesia diante da crise é socializar os prejuízos, fazendo com que o Estado indenize os bancos e financeiras pela sua gestão temerária. Ao todo, os governos dos Estados Unidos e Europa injetaram nos bancos algo em torno de US$ 3 trilhões. Isso equivale a uma vez e meia o PIB do Brasil (soma de de todas as riquezas produzidas no país em um ano). Essa montanha de dinheiro aplicada pelos governos nos bancos não pode ser tirada da cartola num passe de mágica, precisa estar lastreada em algo. Ao emitir esse dinheiro, os governos estão na verdade se endividando. Essa dívida será paga pelo conjunto da sociedade que sustenta o Estado, ou seja, pela classe trabalhadora, única classe social que de fato gera riqueza. Direta ou indiretamente, a burguesia tentará fazer com que os trabalhadores paguem pela crise.

Conclusão

Mais impressionante do que a monumental quantia desembolsada pelo Estado burguês é o fato de que tamanha presteza e prodigalidade jamais seja vista em ação para debelar a verdadeira crise que afeta a humanidade, ou seja, a miséria em que vivem bilhões de seres humanos. Não é preciso fazer as contas na ponta do lápis para saber que uma quantia do porte desse pacote destinado aos bancos seria suficiente para propiciar a todos os seres humanos do planeta alimento, vestuário, moradia, saúde, educação, transporte, etc. Seria suficiente, mas nunca é concretizado, porque o bem-estar da humanidade é uma preocupação que passa longe das personificações do capital que dirigem o Estado. Suas preocupações estão concentradas no bem-estar dos bancos, no risco de “crise sistêmica”, na continuidade dos lucros privados e da acumulação de capital.

Se a burguesia tentará fazer com que os trabalhadores paguem pela crise, cabe aos trabalhadores se reorganizar para reagir. Dadas as circunstâncias excepcionais da crise periódica atual, que coincide com uma série de fenômenos como a crise energética (alta do preço do petróleo), crise ambiental (aquecimento global, catástrofes), crise da dominação imperialista (empantanamento das invasões do Iraque e Afeganistão); o desafio dessa reorganização se mostra ainda mais dramático e impõe objetivamente ao debate a necessidade de se discutir o socialismo como única alternativa para a sobrevivência da humanidade.

Daniel M. Delfino
Janeiro 2009