31.5.07

Socorram me subi no ônibus em Marrocos - Comentário sobre o filme "Babel"





Nome original: “Babel”
Produção: Estados Unidos/México
Ano: 2006
Idiomas: Inglês, Espanhol, Francês, Japonês, Bérbere e Árabe
Diretor: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Guillermo Arriaga
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchet, Gael García Bernal, Adriana Barraza, Rinko Kikuchi
Gênero: drama, thriller
Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/

Babel é o nome da torre cuja malfadada construção está narrada na Bíblia, no livro do Gênesis (cap. 11:2-9). Os homens tentaram construir uma torre alta o suficiente para alcançar o céu. Mas Deus ficou irritado com a prepotência de suas criaturas, por terem a ousadia de querer alcançar seus domínios. Para impedir que isso acontecesse, Ele confundiu suas línguas, para que não pudessem mais se entender (até aquele momento, todos na Terra falavam o mesmo idioma).

Essa explicação mitológica da Bíblia para a origem das diferentes línguas contém a admissão invertida de uma premissa dotada de importantes implicações antropológicas: se todos os homens falassem a mesma língua, seriam realmente capazes de alcançar o céu. Os homens se tornariam iguais a Deus, senhores do mundo. Essa idéia repugna o pensamento religioso, que considera qualquer castigo divino bastante adequado para a inadmissível arrogância de querer igualar-se a Deus. Esconde-se aí o segredo de toda a religião: a submissão humana. A tentativa de construir a torre foi um gesto prometéico esmagado pela História, em nome de Deus.

Para quem não se contenta com a submissão, mas pelo contrário, luta pela emancipação humana, a possibilidade de que todos os homens se entendam se coloca como uma necessidade crucial. A possibilidade de uma real comunicação é fundamental para que os homens se tornem senhores de suas vidas e deixem de se submeter às potências alienadas da religião, do moralismo, dos costumes, da ciência tecnicista, do mercado, do Estado, etc., construindo formas de relações autenticamente humanas.

Qual é o obstáculo que impede a comunicação entre os seres humanos no presente, no nosso mundo real?

O filme “Babel” nos mostra alguns desses obstáculos. Ao trazer à discussão o episódio bíblico, através da própria escolha desse título, os realizadores do filme propõem a tese de que vivemos hoje em nosso mundo numa espécie de Babel de línguas confusas, e que por isso os homens não se entendem, e são infelizes.

Para provar essa tese, “Babel” nos mostra uma série de episódios em que os mal-entendidos originam situações trágicas e patéticas. As tragédias poderiam talvez ser evitadas ou minoradas se os homens se conhecessem e fossem capazes de se entender, é nisso que acreditam seus realizadores. Nesse sentido, “Babel” cumpre um papel importante como obra de arte na tarefa de ajudar a dissolver os empecilhos que impedem a compreensão mútua no nosso mundo.

“Babel” se compõe de quatro histórias diferentes, que se passam em três países, Marrocos, México e Japão, em linhas de tempo ligeiramente deslocadas uma da outra. A conexão entre as diferentes histórias é acidental, improvável e quase absurda. O absurdo das situações extraordinárias retratadas situa-se perigosamente bastante próximo da “normalidade” do cotidiano. A normalidade está por um fio. Basta que os indivíduos se desviem um pouco da sua rotina para esbarrar nos improváveis e absurdos eventos presenciados.

No interior do Marrocos, dois filhos de um pastor de cabras brincam de tiro ao alvo com o rifle do pai, atirando contra um ônibus. Essa irresponsabilidade terá conseqüências homicidas. O tiro acerta uma turista estadunidense, transformando a viagem num pesadelo para o marido, desesperado para encontrar formas de socorrê-la naquele lugar precário. Ao mesmo tempo, a babá mexicana que cuida dos filhos do casal nos Estados Unidos comete a pequena irresponsabilidade de levar consigo as crianças para uma escapada até o México, para ir à festa de casamento de seu filho. Na volta, o sobrinho que dirigia o carro, num arroubo de macheza latina, tenta fugir do arbítrio e do autoritarismo da polícia no posto de controle da fronteira, transformando o passeio festivo num pesadelo no deserto. Enquanto isso, a investigação sobre a turista estadunidense alvejada no Marrocos vai parar no Japão, onde se descobre que o rifle usado no suposto “atentado” pertenceu a um caçador amador que deixou a arma de presente para o guia de seu último safári, que por sua vez o revendeu para o pastor de cabras. O japonês se torna suspeito de contrabando internacional de armas. A polícia o encontra através de sua filha surda-muda, que tenta entregar-se sexualmente para o policial, no auge do seu desespero por não ter um namorado, que por fim a levará à beira do suicídio.

Descritos assim de forma linear como no parágrafo acima, os acontecimentos não possuem a menor lógica. Expostos na tela do cinema, na devida (des)ordem temporal do encadeamento das cenas, esses mesmos acontecimentos readquirem a nossos olhos a estranha plausibilidade do real. Ao presenciarmos os episódios de “Babel”, identificamos claramente o nosso mundo real e seus absurdos. O real é indizível, impossível de ser totalmente contido em simples e toscas palavras, mas é ilustrável, passível de ser exibido e entendido em película de cinema.

A arte é o terreno em que se pode construir a unidade entre os homens separados por línguas, costumes e culturas. “Babel” acrescenta mais um tijolo na prometéica torre de Babel da compreensão mútua que precisamos construir para superar nossa alienação. Entretanto, seus realizadores, como os dois garotos marroquinos, atiram no que vêem para acertar no que não vêem. Ao colocar em discussão a incomunicabilidade humana sob o aspecto das diferenças lingüísticas e culturais, aspecto destacado na própria escolha do título, os autores de “Babel” revelam inadvertidamente algumas das verdadeiras causas dessa incomunicabilidade: as relações de poder.

O que impede a real compreensão entre os homens e perpetua os conflitos não é a diferença lingüística e cultural, mas as diferenças de classe. A divisão de classes se reproduz sobre a base de relações materiais de força que exigem precisamente a incomunicabilidade como corolário. A incomunicabilidade se expressa sob a forma de narrativas pré-concebidas ideologicamente moldadas para instrumentalizar o confronto necessariamente hostil com o diferente e viabilizar seu controle pela força. Uma dessas narrativas pré-concebidas é aquela que diz que os povos árabes são terroristas. Logo, se uma turista estadunidense leva um tiro no Marrocos, isso só pode ser um ato terrorista. Outra narrativa diz que os mexicanos são vagabundos, bêbados, viciados, bandidos, que entram nos Estados Unidos para roubar empregos e cometer crimes. Logo, se um jovem e uma senhora mexicanos levam duas crianças loiras no banco de trás, isso só pode ser um seqüestro.

As relações de classe vigentes transformam ideologicamente os povos subalternos em terroristas e seqüestradores, legitimando a violenta repressão de que são vítimas. A brutalidade da polícia marroquina contra seu próprio povo, a atitude de atirar primeiro e perguntar depois, explicita a função do Estado burguês periférico: subjugar a população local em nome da necessidade de cumprir obedientemente o que dele espera a “comunidade internacional”, ou seja, os Estados Unidos. A presteza da polícia japonesa em localizar a origem da arma do crime se justifica pelo mesmo motivo. Essa é a raiz de todos os mal-entendidos expostos.

Os cidadãos dos Estados Unidos ocupam a posição praticamente incontestada de protagonistas do drama mundial, e o fazem em grande parte graças ao poder do cinema. Graças ao cinema estadunidense, as platéias do mundo inteiro se acostumaram a rir do que eles riem, se assustar com o que se assustam, odiar o que odeiam, chorar pelo que choram, sentir o que eles sentem. Os estadunidenses são os heróis, e as platéias se identificam com eles, torcem por eles, querem ser como eles. São eles que contam, suas vidas são as únicas que importam.

A televisão nos informa que a história da turista alvejada no Marrocos teve um “final feliz”: a mulher estadunidense acabou não morrendo. Final feliz para quem, cara pálida? E quanto ao garoto marroquino que foi morto num tiroteio no momento em que tentava escapar da polícia com seu irmão e seu pai? E o que fará com eles a polícia marroquina, bem como a polícia estadunidense com o jovem mexicano que fugiu, e a babá mexicana que foi deportada, etc. O que acontece com eles? Onde está o final feliz? Ora, são coadjuvantes, e o que acontece com eles não importa. É “secundário”. Tudo o que importa são os “protagonistas”, já que os astros Brad Pitt e Cate Blanchet estão na sua pele e fornecem com sua simples presença estelar a razão para que a maior parte do público vá ao cinema.

“Babel” acerta ao mostrar o ponto de vista desses “coadjuvantes”. Mas aparentemente erra ao supor que o problema das diferenças humanas está na incomunicabilidade lingüística; suposição expressa na referência que o título traz ao episódio bíblico da confusão das línguas As línguas são convenções criadas arbitrariamente e desenvolvidas pelo uso e pelo costume. É para realçar o caráter acidental e arbitrário das diferenças lingüísticas que escolhemos o maior palíndromo da língua portuguesa para o título desse comentário.

O significado de “Babel” não está nessa bizarra coincidência do episódio ficcional do tiro com o palíndromo em português. O significado do filme é a ilustração de alguns exemplos das barreiras que separam os homens. Mais do que incomunicabilidade lingüística formal, o problema da humanidade está na incomunicabilidade substancial socialmente criada.

Pessoas que falam uma mesma língua podem muito bem não se entender. O que o casal estadunidense estava fazendo no Marrocos, em primeiro lugar? O deslocamento espacial não os ajudou a superar a distância que imperava em seu casamento, devido à perda de um filho que ambos não haviam encontrado meios de elaborar e assimilar psicologicamente em conjunto.

E o que dizer da garota japonesa surda-muda? A sua incomunicabilidade com o pai, com o policial, com os jovens do sexo oposto, não está em sua deficiência auditiva e expressiva, mas na impossibilidade de enunciar um conteúdo que a sociedade japonesa não admite como comunicável: a necessidade sexual das mulheres. Eis um conteúdo que nenhuma sociedade, seja ocidental ou oriental, elaborou adequadamente. Que o digam um dos garotos marroquinos e a irmã com seu jogo erótico adolescente.

Desde as relações de poder internacionais até as opressões moralistas mais sutis são aqui dissecadas. Esse episódio fará o jovem e precoce Youssef tornar-se adulto antes do tempo e assumir toda a responsabilidade, inclusive pela morte do irmão. Não seria nenhuma surpresa se ele se transformasse naquilo que os guardiões da ordem chamam impropriamente de “terrorista”, mas que seria mais adequado chamar de revolucionário.

Daniel M. Delfino
27/01/2007

Chávez e o socialismo




Ao iniciar seu segundo mandato como presidente da Venezuela, em janeiro de 2007, o coronel Hugo Chávez anunciou um pacote de medidas que segundo ele estariam lançando seu país no rumo do “socialismo do século XXI”.

Entre essas medidas estariam a nacionalização de empresas de setores estratégicos, como os de telefonia e energia elétrica (inclusive algumas de propriedade da estadunidense AES, dona da Eletropaulo no Brasil), o fim de algumas parcerias da estatal venezuelana de petróleo PDVSA com grupos estrangeiros, a revogação da autonomia do Banco Central, a cassação da concessão de uma das emissoras de TV que apoiaram ativamente o golpe de 2002, a mudança da estrutura administrativa, com a substituição das prefeituras por conselhos locais, e a troca do próprio nome oficial do país para “República Socialista da Venezuela”. Esse pacote “socialista” de Chávez foi lançado por iniciativa presidencial, por fora do Congresso Nacional venezuelano.

Imediatamente, desencadeou-se a reação da imprensa burguesa em todo o mundo, inclusive no Brasil. O caso foi tratado como escândalo nas manchetes de jornal e nos editoriais raivosos dos bem-pensantes guardiões da ordem. O líder venezuelano foi acusado de dinossauro, retrógrado, tirano, ditador, inimigo da democracia, etc., além de ser lembrado como amigo do “louco” e “terrorista” presidente do Irã Ahmadinejad, amigo de Fidel Castro, etc.

Os jornalistas da grande imprensa, como bons mercenários a serviço do capital, estão sempre atentos e vigilantes, prontos para condenar ao fogo do inferno qualquer ato que desagrade minimamente o mercado. Os lacaios letrados da burguesia exercem uma marcação cerrada sobre quaisquer iniciativas de soberania dos povos, por mais insignificantes que sejam, condenando-as de saída e impedindo que sejam entendidas e debatidas. Por meio da interdição do debate, estabelece-se um monopólio da opinião, através do qual a discussão sobre qualquer questão se transforma em um monólogo no qual apenas os detentores do poder podem se expressar. Uma vez que o pensamento único neoliberal não pode jamais ser contestado, segue-se automaticamente a ladainha de que o Consenso de Washington deve ser obedecido à risca, o capitalismo é o único horizonte possível de liberdade e felicidade humana, etc. Toda e qualquer possibilidade de alternativa deve ser descartada em nome da obediência aos interesses do capital.

Idéias como socialismo, nacionalismo, soberania, latino-americanismo, precisam ser banidas do discurso, como se se tratasse de horrendos palavrões, blasfêmias e sacrilégios. A denúncia do imperialismo, da dominação estrangeira, da espoliação dos países, do massacre sobre os povos, é tratada com desdém, como se fosse uma “questão superada”, agora que todos supostamente usufruem das “benesses” da “globalização”. Nenhum país pode jamais ousar buscar um caminho próprio para tentar resolver os problemas de sua população.

Evidentemente, existe um grande exagero de ambas as partes, que impede a compreensão exata do que está se passando. Nem o pacote de Chávez é de fato socialista, e nem a mídia burguesa tem o direito de condená-lo. A campanha da mídia contra Chávez busca isolá-lo como fonte de uma espécie de ameaça “populista” e “antidemocrática” que estaria contaminando a América Latina, colocando em cheque a “estabilidade” da economia de mercado, cujo funcionamento “harmonioso” é a única garantia de “paz e prosperidade”.

O exemplo de Chávez está sendo seguido por Evo Morales na Bolívia, e já foram anunciados passos semelhantes por parte de Rafael Correa no Equador (entre esses passos, o não pagamento dos juros da dívida externa) e Daniel Ortega na Nicarágua. Além disso, as parcerias do governo venezuelano com Cuba têm servido para revitalizar o regime de Fidel. Como se tudo isso não bastasse, o líder venezuelano estaria exercendo uma discreta pressão sobre o restante dos governos ditos “de esquerda” no continente, como o de Lula no Brasil, Kirchner na Argentina (que acaba de admitir a falência do modelo de previdência privada), Tabaré Vásquez no Uruguai e Michelle Bachelet no Chile. Esses governantes de perfil mais “moderado”, que na verdade são alunos aplicados do modelo neoliberal, sofrem algum constrangimento na comparação com o “radical” Chávez. O exemplo venezuelano mostra que há outros caminhos para os países latino-americanos, e essa demonstração é perigosa porque invalida na prática a tese de que “não há alternativa” à política econômica ortodoxa aplicada em tais países.

Desenvolve-se uma espécie de disputa subterrânea entre essas duas vertentes da “esquerda” governante latino-americana. Do ponto de vista do capital, é absolutamente crucial que os governantes amigáveis ao mercado, como Lula e os demais, sejam os vencedores da disputa. Lula deve aparecer como a única versão de “esquerda” possível. Para isso, Chávez deve ser devidamente demonizado, suas idéias devem aparecer como absurdas, seus planos, inviáveis, sua revolução bolivariana, uma aventura irresponsável.

O fato de que o conjunto de medidas tenha sido anunciado diretamente pelo Presidente e não pelo Congresso é apresentado como evidência de um suposto pendor ditatorial de Chávez. Convenientemente, a hipocrisia burguesa esquece que, desde sua primeira eleição em 1998, Chávez já venceu de maneira esmagadora mais de meia dúzia de votações, entre eleições, plebiscitos e referendos. Além disso, foi vítima de um golpe de Estado em 2002, tendo sido reconduzido ao poder pela mobilização maciça das massas populares. Mais de um milhão de venezuelanos cercou o palácio presidencial, exigindo o retorno do presidente democraticamente eleito. Depois de reempossado, Chávez não reprimiu os golpistas, e somente agora em 2007 cassou a concessão de uma única das várias emissoras de TV que construíram o golpe. Ainda assim, acusam-no de antidemocrático.

A quase unanimidade que Chávez conseguiu em seu país está entalada na garganta da burguesia latino-americana, que não se cansa de buscar pretextos os mais absurdos para deslegitimá-lo. No que se refere ao caso do pacote “socialista” em questão, o Congresso venezuelano é composto exclusivamente por parlamentares de partidos chavistas. E foram os próprios partidos rivais que desistiram de participar das últimas eleições legislativas. Nesse caso, o fato de o conjunto de medidas “socialistas” de 2007 ter sido apresentado diretamente pelo presidente não faz a menor diferença. A votação no Congresso não passa de uma simples formalidade, uma espécie de debate interno ao conjunto dos partidos chavistas.

Entretanto, apesar de toda a popularidade de Chávez em seu país e da repercussão internacional de suas ações, o seu movimento está longe de merecer ser chamado de socialista. As medidas anunciadas no início deste ano não são sequer anticapitalistas. Permanecem nos limites do velho nacionalismo burguês. No mesmo dia em que as medidas “revolucionárias” foram anunciadas, as bolsas de valores se recuperaram do susto: haverá indenização para os acionistas das empresas nacionalizadas. Ou seja, Chávez não está desapropriando o imperialismo. Nacionalização com indenização é uma medida que não foge à estrita legalidade capitalista, já que respeita a instituição fundamental da propriedade privada.

O nacionalismo burguês ultra-tardio de Chávez constitui um fenômeno peculiar do capitalismo periférico no contexto histórico da crise estrutural do sistema. Na atual situação de crise, determinada pela queda das taxas de lucro, aumenta a voracidade do capital e diminui a sua capacidade de oferecer melhorias às condições de vida das massas. As melhorias precisam ser arrancadas com muita luta e ao custo de medidas nacionalistas como as de Chávez. E para além das simples melhorias, qualquer solução definitiva exige procedimentos realmente revolucionários, mudanças muito mais profundas do que aquelas anunciadas na retórica chavista. Entretanto, os agentes políticos do capital, na forma dos governos imperialistas, reprimem tais atitudes como atos de banditismo.

O caso se torna especialmente mais grave quando se trata de um país que, como a Venezuela, possui reservas de petróleo que a colocam como uma das maiores produtoras mundiais dessa preciosa mercadoria. A economia mundial atual ainda é maciçamente dependente de petróleo. Nada está sendo feito, nem mesmo a médio ou longo prazo, para substituir a matriz energética em vigor por fontes de tipo renovável. Isso faz com que se desenhe um cenário de disputa feroz entre as potências imperialistas pelas reservas restantes. Mantido o atual ritmo de consumo (o qual está em constante expansão devido à recente expansão capitalista da China e da Índia), as reservas atualmente existentes devem durar por mais uma ou duas décadas. A inevitável aproximação do esgotamento das reservas naturalmente finitas e a expansão desenfreada do consumo fazem com que os preços do petróleo experimentem uma tendência irreversível de alta.

A alta do preço do petróleo permite a Chávez melhorar a assistência social ao povo venezuelano. O centro da luta nacionalista contra a burguesia venezuelana consiste justamente na disputa pelo controle da PDVSA. A estatal era tratada como patrimônio privado pelas famílias aristocráticas do país. Chávez retomou o controle governamental sobre a empresa e passou a usar parte da renda para financiar os programas sociais. É essa inversão de prioridades do Estado que a burguesia venezuelana não perdoa. Programas de alfabetização e de assistência médica são oferecidos a uma população pauperizada que jamais tivera um tratamento minimamente humano da parte do Estado burguês oligárquico, tanto na Venezuela como no restante da América Latina. Os programas sociais sustentados com a renda petroleira tornam Chávez eleitoralmente imbatível, especialmente entre os pobres.

Entretanto, isso não é suficiente para romper o círculo de miséria da população. A Venezuela não possui outros tipos de indústrias importantes além do petróleo. A burguesia venezuelana não possui iniciativa econômica própria e sobrevive como uma camada parasitária que se alimenta da corrupção da PDVSA e do Estado para sustentar circuitos de consumo de luxo. Está mais voltada para Miami do que para o próprio país. A população pobre vive na informalidade econômica. No interior do país, camponeses são mortos por jagunços a mando dos grileiros em disputas pela terra. Ao mesmo tempo, a capital Caracas, cercada por um cinturão de favelas, continua sendo uma das cidades mais violentas do continente.

Parte da população já percebeu que as medidas assistenciais são insuficientes para romper com a situação histórica de dominação e miséria. Em muitos setores os trabalhadores venezuelanos já se mobilizam de forma independente do chavismo. Na greve patronal de 2003, os operários da PDVSA assumiram diretamente o controle da produção em várias instalações. Entretanto, cessada a greve, Chávez devolveu o poder aos mesmos gerentes sabotadores e corruptos expulsos pelos trabalhadores. Essa busca de atitudes conciliadoras revela a limitação de Chávez, a qual se funda em sua origem social. Como militar de origem, o dirigente venezuelano é incapaz de romper com os limites de sua classe. O tipo de liderança chavista é incapaz de desenvolver as tarefas de uma transformação realmente socialista, porque não rompe com o respeito burguês pela propriedade.

Os líderes históricos do nacionalismo burguês latino-americano, como Perón na Argentina, João Goulart no Brasil e Allende no Chile, no momento dos enfrentamentos decisivos, em que foram confrontados com a reação burguesa conservadora na forma de golpes militares e intervenções imperialistas, recusaram-se a cruzar a fronteira de classe e a desenvolver formas de poder socialistas capazes de resistir aos golpes. Recusaram-se a armar as massas, dissolver os órgãos repressivos do Estado (Forças armadas, polícia, judiciário, etc.) e reconhecer os organismos de poder popular em gestação. Dada a conduta conciliadora de Chávez diante do golpe e de outros enfrentamentos, nada leva a crer que sua postura vá ser diferente.

Não existe via nacionalista burguesa para o socialismo; o nacionalismo burguês, conforme ensina a História, conduz à reação burguesa e ao golpe fascista. A sua fraqueza congênita o impede de enfrentar a burguesia de modo conseqüente. A única via para o socialismo é a organização política independente do proletariado e a elevação de sua consciência de classe.

A questão fundamental é que não se alterou a estrutura de classes da sociedade venezuelana. Alteraram-se tão somente alguns aspectos da condução do Estado. Falar em socialismo nesse caso não passa de uma grosseira mistificação. Essa mistificação interessa à burguesia, que assim pode atacar Chávez pelo que ele não é e impedir que os trabalhadores se diferenciem dele pelo que de fato é. E a mistificação interessa também ao próprio Chávez, que pode assim neutralizar a esquerda socialista venezuelana e imunizar-se de críticas da esquerda internacional.

Ao anunciar suas medidas nacionalistas-burguesas como se fossem “socialistas”, Chávez coloca a esquerda venezuelana e latino-americana numa espécie de “armadilha”. Todos os socialistas ficam “obrigados” a lhe dar apoio contra a reação conservadora, e nesse ato de apoio correm o risco de perder a perspectiva da necessidade da ação e da organização política independente da classe trabalhadora.

É preciso sair dessa armadilha e dizer as coisas claramente: Chávez é inimigo dos trabalhadores, na medida em que mantém o Estado como instrumento do poder de classe da burguesia, de garantia da propriedade privada, da exploração capitalista, da extração de mais-valia, e de todas as formas de opressão. Ainda que a burguesia odeie ferozmente Chávez, a única coisa que este lhe tirou foi parte da renda da PDVSA. O “revolucionário” bolivariano nem sequer reconheceu o controle dos operários sobre a produção, devolvendo a empresa aos sabotadores, como vimos.

Os socialistas devem sim marchar lado a lado com os bolivarianos e chavistas, ajudando a organizar o povo venezuelano contra a reação burguesa e imperialista, mas sem jamais abrir mão da independência político-organizativa e de um programa socialista e revolucionário.

A independência de classe dos trabalhadores se expressa pela construção de organizações políticas e organismos de luta autônomos. Essas são as únicas condições em que se pode realmente construir o socialismo. Os trabalhadores devem lutar por seu próprio programa e sustentar essa luta com suas próprias forças. Jamais se pode acreditar que algum dirigente burguês irá realizar as tarefas da transformação socialista. A capitulação da esquerda a governos burgueses, sejam eles “radicais” como Chávez ou “moderados” como Lula, só pode resultar em derrotas e tragédias, como já demonstrou a História.

Não há outra saída para os trabalhadores, tanto na Venezuela como no restante da América Latina e do mundo, a não ser desenvolver suas ações e sua organização de forma independente dos governos de plantão, mesmo em se tratando de governos de perfil aparentemente nacionalista e popular. O socialismo somente pode ser construído por meio da organização dos próprios trabalhadores. As formas de organização desenvolvidas para a luta, como os comandos de greve, conselhos por local de trabalho, círculos operários, organizações de bairro, conselhos populares, etc., são a base para as formas de gestão da futura sociedade socialista. O socialismo somente pode ser construído de maneira sustentável por meio de organizações materialmente enraizadas, ideologicamente coesas e politicamente independentes. Jamais será concedido por decreto de uma liderança esclarecida, por mais aparentemente determinada e bem-intencionada que seja.

Daniel M. Delfino
05/01/2007

Algo estranho acontece nos céus do Brasil




Em fins de outubro de 2006, alguma coisa estranha começou a acontecer nos céus do Brasil. Os aviões começaram a pousar atrasados nos aeroportos. Duas, três, quatro horas de atraso. Dezenas, centenas, milhares de vôos atrasados. Não sendo freqüentador de aeroportos, este escriba limitou-se a acompanhar as notícias a respeito desse fenômeno através de notas na televisão e na internet. Mas a princípio foi muito difícil entender o que estava acontecendo.

Os aviões estavam atrasando? Atrasando por quê? Será que de repente começaram a ficar mais lentos? Que tipo de bizarra distorção das leis da física poderia provocar a lentidão repentina dos engenhos aeronáuticos? O ar no Brasil começou a ficar inexplicavelmente mais espesso? Os ÓVNIs abandonaram a prática das abduções individuais e partiram diretamente para os raios de tração sobre os aviões? Refratário a explicações não-científicas, este escriba partiu para outras possíveis respostas, mesmo assim sem muito sucesso.

Será que o número de aviões multiplicou-se de maneira súbita e imprevisível? Da noite para o dia, o caos do trânsito nas metrópoles reproduziu-se no céu? Na cidade o trânsito às vezes pára por causa de um único carro com pneu furado em alguma avenida crucial para a circulação urbana. Mas como isso poderia acontecer com aviões, e simultaneamente em vários aeroportos do país?

Em vão tentava-se entender o mistério do atraso dos aviões. Somente depois de várias semanas foi possível descobrir que não havia nenhum fenômeno místico se desdobrando no espaço aéreo brasileiro. Para fazer essa descoberta, foi preciso juntar os cacos de diversas informações fragmentadas. O que estava em curso era uma GREVE. Uma GREVE, com nome e sobrenome: operação padrão. Os controladores de vôo dos aeroportos começaram a cumprir os normativos. Passaram a trabalhar com o número correto de aeronaves que cada um deve acompanhar. E enquanto cada aeronave recebe o devido acompanhamento, as demais esperam. Enquanto esperam, precisam manter-se no ar. E isso provoca os atrasos. Elementar, meu caro Watson.

Descoberta a verdade sobre o fenômeno, multiplicaram-se as interrogações: por que a mídia não pode pronunciar o nome (GREVE) da operação padrão dos controladores de vôo? Por que motivo a GREVE estalou neste preciso momento e não em outro? E o que talvez seja a interrogação mais preocupante de todas: se agora que os controladores de vôo estão cumprindo os normativos os aviões estão atrasando, isso quer dizer que durante todo o tempo em que pousavam no horário correto, os aviões estavam voando sem o devido acompanhamento de segurança?

Em relação à mídia, trata-se de um sintoma do seu modo estrutural de funcionamento: apresentar os dados de maneira fragmentada, justapostos arbitrariamente sem nenhuma conexão orgânica. Dessa forma, o receptor da “informação” fica impossibilitado de entender o que está acontecendo, porque não pode ter a percepção de como os diversos fatos particulares, apresentados numa avalanche infindável, se articulam na totalidade do real. Sem entender a relação entre os fatos, o público receptor permanece passivo, esperando ansiosamente pela próxima “informação”.

Para entender a GREVE dos controladores de vôo (e também a tentativa da mídia de não explicá-la) é preciso relacioná-la com o restante da realidade nacional. Os controladores de vôo fazem parte do quadro de pessoal da Aeronáutica. Estão sujeitos aos regulamentos militares. Portanto, estão proibidos de fazer GREVE. Uma GREVE no interior das Forças Armadas caracteriza-se como quebra de hierarquia. E a hierarquia é a própria essência do dispositivo militar, portanto não se pode admitir a sua ruptura. As Forças Armadas são a instituição fundamental do Estado burguês, pois através dela preserva-se pela força a ordem social capitalista que opõe hierarquicamente dominadores e dominados. Por isso a hierarquia em seu interior é tão fundamental.

A mídia, que é outro dos pilares fundamentais do sistema, bate continência e proíbe a si mesma de pronunciar a satânica palavra proibida: GREVE. Além de prestar obediência servil ao princípio hierárquico, a mídia também tratou de desempenhar a tarefa na qual é especialista: desmoralizar a organização coletiva dos trabalhadores. Passaram a circular notícias de que somente 3% dos controladores de vôo falam inglês. Com isso, o público espectador passa a associar aos controladores a idéia de que são atrasados, incompetentes, desatualizados. Essa idéia converge com a ideologia contemporânea da globalização de que “todos precisam falar inglês para competir no mercado”, etc. Por meio dessa associação subliminar, o espectador cede à campanha da mídia de promoção da globalização e do mercado, ou seja, de privatização neoliberal e destruição da soberania nacional.

O que explica a GREVE dos controladores de vôo não é o fato de que não “falam inglês”, mas o fato de que o Estado brasileiro está sendo sucateado para ser vendido aos pedaços para o capital estrangeiro. Um Estado sucateado como o do Brasil não contrata servidores públicos, nem mesmo para um setor estratégico como as Forças Armadas. Sem um número adequado de funcionários, os trabalhadores são obrigados a arcar com um acúmulo desproporcional de serviço. Um número pequeno de trabalhadores faz o serviço que caberia a uma quantidade muito maior. Cada controlador de vôo lida com muito mais aviões do que deveria.

Quando a exploração da força de trabalho se torna inaceitável, os trabalhadores partem para a GREVE. Toda GREVE é mediada pelo estado concreto de consciência do setor do proletariado em movimento. No caso do setor em questão, o grau de consciência que produziu massa crítica para a GREVE foi proporcionado pela mediação do maior desastre aéreo da história brasileira: o choque entre o jato Legacy e o boeing da Gol que provocou a morte de 154 passageiros e tripulantes.

As especulações subseqüentes ao desastre terminariam por jogar a culpa sobre os controladores de vôo. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. De um lado, o mentecapto Estado brasileiro não pode responsabilizar os pilotos estadunidenses, já que, como vassalos que somos, não podemos jamais desacatar a hierarquia da dominação imperial. (Imagine-se a situação inversa: pilotos brasileiros provocam a morte de centenas de cidadão estadunidenses. O desdobramento dessa hipótese é óbvio, os brasileiros jamais sairiam vivos do território estadunidense: linchamento, cadeira elétrica ou prisão perpétua. Já os pilotos estadunidenses...).

De outro lado, também não se pode colocar a culpa numa eventual falha dos equipamentos do Legacy da Embraer, pois isso queimaria a imagem de uma empresa sólida, fundamental para a pauta de exportações brasileira. Essa hipótese, cogitada pela mídia brasileira, que nunca cogitou de culpar a Boeing, também teve de ser descartada (aliás, como é possível que, num choque entre uma aeronave de grande porte e uma de pequeno porte, a maior caia e a menor escape praticamente ilesa? Como se um ônibus e uma bicicleta colidissem, mas só o ônibus se arrebentasse. Isso também não contraria as leis da física? Este escriba não acredita em bruxas, mas que existem, existem...).

As apurações ainda não encontraram um culpado conveniente. Logo, uma vez que os pilotos estadunidenses são naturalmente infalíveis, a culpa só poderia ser dos incompetentes controladores de vôo brasileiros, que não falam inglês. Óbvio.

A culpa é nossa? GREVE!!! Operação padrão!!! E tome “atrasos nos vôos”!!!

A operação padrão dos controladores de vôo deixa uma lição inestimável para todos nós trabalhadores.

Há mais mistérios entre os céus do Brasil e a consciência dos trabalhadores do que sonha a filosofia mística da mídia vendida.

Daniel M. Delfino
16/11/06

Voto nulo no 2º turno das eleições 2006




Dois candidatos e um só programa

A classe dominante vencerá as eleições de 2006. Duas alas do partido único da burguesia estão no segundo turno. Essas duas alas, PT e PSDB, travam uma luta mortal para decidir quem vai seguir administrando os interesses do capital, contra os trabalhadores e oprimidos. Num país capitalista periférico como o Brasil, a função do Estado é massacrar a população e garantir a remessa de lucros ao exterior; e em troca de seus bons serviços prestados, os partidos governantes ficam com as malas pretas da corrupção. É essa recompensa que PT e PSDB disputam.

Os interesses são os mesmos, mas essas duas alas utilizam instrumentos diferentes para conseguir seus objetivos.

O PSDB de Alckmin é o partido da elite da Avenida Paulista, dos contrabandistas e sonegadores da loja Daslu, da arqui-reacionária seita Opus Dei, da polícia militar fascista, dos cortes de gastos em saúde e educação, do sucateamento dos serviços públicos, do arrocho e perseguição aos servidores; é também o partido da imprensa neoliberal panfletária e golpista da Veja, da Folha, da Globo, etc.; e é o herdeiro direto das privatizações e da corrupção generalizada da era FHC, da multiplicação explosiva da dívida pública e da sangria das riquezas do país para o grande capital global.

O PT, por sua vez, é um agente do capitalismo no interior do movimento de massas, impedindo a eclosão de greves, ocupações, manifestações, aparelhando os sindicatos e organizações estudantis e populares, destruindo as tradições da democracia operária nesses organismos, controlando de modo stalinista os aparatos organizativos, bloqueando qualquer possibilidade de articulação espontânea dos trabalhadores e oprimidos, alienando e deseducando politicamente o povo, pregando o conformismo, a passividade e a colaboração de classes. De resto, o governo Lula também manteve os cortes de gastos em saúde e educação, sucateamento dos serviços públicos, arrocho e perseguição aos servidores, privatizações, corrupção generalizada, explosão da dívida pública, sangria do país, etc.

A morte do PT para as lutas dos trabalhadores

Essas duas alas do partido da burguesia exibem diferenças na aparência, mas seu conteúdo é o mesmo. A democracia burguesa dispõe dessa flexibilidade para administrar a exploração capitalista com os instrumentos adequados a cada conjuntura. Dada a rejeição popular maciça a FHC e o desejo generalizado de mudança, o PT era o portador mais apropriado dos interesses da burguesia nas eleições de 2002, pois sua ascensão iria desmobilizar as massas, como de fato desmobilizou, e por isso lhe foi permitido vencer.

Em 2006 o cenário é muito diferente. Dada a trágica ausência da luta organizada dos trabalhadores, o papel de contenção e asfixia do movimento de massas desempenhado pelo PT a serviço da burguesia deixa de ser necessário. A burguesia não acredita mais na possibilidade de resistência popular contra seus interesses e por isso conclui que já pode se desfazer do dique que desarmou a resistência popular, ou seja, o PT. Tendo o partido passado servilmente para a trincheira da burguesia, deixado de organizar as lutas populares há mais de uma década, desfeito sua ligação com a base social proletária, se tornado um aparato eleitoral; as raízes históricas da árvore partidária foram cortadas, e os galhos despencam com facilidade. Daí o fato de que os gângsteres e aloprados da direção do partido, como Dirceu, Genoíno, Delúbio, Silvinho, Palocci, Gushiken e agora Berzoini tenham sido defenestrados na esteira das sucessivas crises políticas.

O fato de que alguns setores da classe dominante tenham se colocado eleitoralmente contra Lula, e de que a mídia assalariada pela burguesia tenha exposto o “dossiê tabajara” não significa que consideram Lula seu inimigo. Significa apenas que querem negociar mais concessões de Lula, mais rendição aos seus interesses. Querem um instrumento mais dócil, mais submisso e politicamente mais débil, para seguir massacrando o povo. Se nesse processo conseguirem a vitória de Alckmin, tanto faz.

A burguesia nada de braçada nas eleições. Aos trabalhadores cabe se reorganizar para a luta, e isso não será feito pelo PT.

Para se manter no poder, Lula pragmaticamente descartou a mediação do partido que lhe deu projeção, descolou sua figura pessoal da imagem queimada do PT e passou a relacionar-se diretamente com os setores mais pauperizados das massas por meio dos programas assistencialistas de bolsa-esmola. A cada crise, desde o mensalão ao dossiê, Lula decapitava seu próprio partido, abrindo caminho para as alianças oligárquicas e para o exercício de um tipo de liderança baseado puramente no carisma pessoal do “pai dos pobres”. Nem os antigos cardeais do PT terão qualquer papel importante num eventual segundo mandato de Lula, nem muito menos os setores da esquerda do partido.

A volta dos que não foram

Não obstante, existe um persistente discurso que tenta identificar Lula com a esquerda, e em nome dessa identificação, luta para fazer a população rejeitar Alckmin e “a volta da direita”. O fato de que Alckmin seja a encarnação transparente da direita não significa que automaticamente por exclusão Lula seja a esquerda. Essa lógica de uma perna só praticada pela esquerda petista desconhece os ensinamentos históricos da luta de classes em nome do apego religioso fanático, dogmático e histérico à figura de um candidato “salvador da pátria”. O caráter de classe de um partido não está na sua oposição nominal a uma outra sigla, mas no tipo de política que esse partido efetivamente coloca em prática.

A assim chamada “volta da direita” é a volta dos que não foram. A direita seguiu mandando no país durante o governo do PT. Lula é a direita. Lula e o PT deram as costas aos trabalhadores durante quatro anos. Governaram para a elite, para os bancos, para o capital financeiro internacional, para as transnacionais, para os latifundiários, para a incompetente burguesia brasileira. O próprio Bush, inimigo nº.1 da humanidade, antes de ir invadir o Iraque, terceirizou nas mãos de Lula a tarefa de reprimir a população miserável do Haiti. Em nome do interesse dos acionistas estrangeiros da Petrobrás, Lula endureceu a negociação contra a decisão soberana do povo boliviano de nacionalizar suas riquezas minerais.

A despeito de todas essas façanhas, a esquerda petista, a mesma que dizia que os rumos do governo estavam “em disputa”, e que não conseguiu mover este governo um milímetro sequer em direção à esquerda; agora abre mão de qualquer disputa e questionamento e se torna defensora cega e feroz de Lula. Se não há como dizer que foi um governo de esquerda, parte-se para a patética tentativa de comparar a gestão de Lula com as anteriores de FHC, como se isso fosse critério para pedir o voto dos trabalhadores no candidato do PT. Insistir na lógica do “voto útil” no “menos pior” dos candidatos constitui um recurso politicamente ainda mais indigente. Não seria de se surpreender se sacassem o peculiar argumento de que o governo Lula também “rouba mas faz”, bordão de Maluf, sempiterno avatar da putrefação política.

As “realizações” do governo Lula que se apresentam como justificativa para defendê-lo estão no mesmo patamar das melhorias que qualquer governo burguês apresenta a cada embate eleitoral: “estabilidade”, combate à inflação, controle de gastos, aumento insignificante do salário mínimo, índices macroeconômicos (que não se refletem na mesa do trabalhador), etc. Os números são a expressão de diferenças quantitativas, diferenças de grau, não de natureza. Para que a quantidade se transforme em qualidade, é preciso um salto dialético. As realizações quantitativas de Lula não expressam nenhum salto de qualidade, nenhuma ruptura, nada além de remendos cosméticos numa realidade de calamidade social perpétua.

Nenhuma dessas melhorias compensa os ataques que os trabalhadores sofreram ao longo do governo Lula: demissões, arrocho salarial, reforma da previdência, repressão aos movimentos sociais, morte de ativistas no campo, permissão para os criminosos plantios transgênicos, abertura das reservas de petróleo ao capital estrangeiro, privatização da Amazônia, etc.

Somente a luta pode vencer o neoliberalismo

O PT não é instrumento para derrotar Alckmin e a volta da direita, já que aplica o mesmo programa. Num eventual governo Alckmin, que moral teriam Lula e o PT para assumirem a postura de oposição? Como poderiam ser contra aquilo que praticaram quando estão no governo? É evidente que o PT na oposição pode até eventualmente votar contra o PSDB, de maneira oportunista e desavergonhada, dada sua decomposição moral e seu caráter venal sobejamente demonstrado nos últimos quatro anos. Mas o fato decisivo é que o PT não tem mais inserção e liderança entre os trabalhadores para desencadear as lutas necessárias contra os ataques que o capitalismo colocará em prática.

Os setores de esquerda que defendem Lula e o PT praticam estelionato ideológico. A única arma para derrotar o capitalismo neoliberal que grassa no país é a organização e a luta. É preciso organizar a classe trabalhadora e os oprimidos em torno de seus interesses imediatos e históricos: não pagamento das dívidas, reforma agrária, reversão das privatizações, garantia dos direitos sociais, melhoria dos serviços públicos, etc. Indo mais longe, apenas com a ruptura do capitalismo e a construção de um poder socialista dos trabalhadores se pode remediar a catástrofe social que o imperialismo impõe ao país. Apenas numa ordem socialista a riqueza pode ser administrada de maneira racional e democrática por aqueles que a produzem.

Essa tarefa não será assumida por Lula, pelo PT e pela CUT, nem nos seus aspectos mais imediatos, e muito menos no que diz respeito à transição ao socialismo.

Desse modo, a única opção no 2º. turno é o voto nulo, atestado de óbito da atual forma de política e chamado às armas para uma forma superior de luta: a ação direta das massas organizadas.

Votar nulo para enfraquecer o inimigo

O voto nulo não vai ganhar as eleições. O repúdio eleitoral aos candidatos da burguesia não vai varrer ambos do cenário político. Pode enfraquecê-los no início do próximo mandato, mas o que importa realmente é fazer com que o movimento de massas se coloque em cena com seus próprios métodos de luta. Essa tarefa cabe às organizações de esquerda. Dissemos que a classe dominante venceu as eleições. Mas a derrota dos trabalhadores no terreno eleitoral não significa que a guerra está perdida. Há outras batalhas a serem travadas.

O balanço da participação da esquerda nestas eleições ainda está em aberto. No entanto, alguns elementos devem ser adiantados com relação à postura a ser tomada para o próximo período. Dissemos que o voto nulo não vai ganhar as eleições, pois trata-se de uma simples expressão negativa da ausência de alternativas que contemplem os trabalhadores. Se as eleições não trazem essa alternativa, é preciso reorganizar a esquerda e colocar em movimento o único instrumento efetivo capaz de mudar a realidade: a ação direta dos trabalhadores organizados.

Para desencadear esse movimento, é preciso construir a unidade de todos os setores. Tanto a esquerda que se organizou na frente PSOL/PSTU/PCB no 1º. turno quanto os setores que fizeram a campanha do voto nulo devem se postar imediatamente pelo voto nulo no 2º. turno. É preciso ser coerente. Qualquer que seja o governo parido pelas eleições, enfrentará a oposição da esquerda. É preciso construir essa oposição desde já. Iniciar a luta o quanto antes.

Construir a unidade nas lutas

O imperialismo exige a continuidade das reformas neoliberais, e os novos ataques aos trabalhadores devem vir logo adiante, qualquer que seja a ala do partido único da burguesia a ocupar o poder. Anuncia-se a próxima fase da reforma da previdência, a reforma sindical e trabalhista, o super-simples, a reforma universitária, o déficit nominal zero, o aumento da desvinculação de receitas, a transformação da CPMF em permanente, etc. A burguesia está vindo com artilharia pesada para destruir os direitos dos trabalhadores: direito de greve, férias, 13º., licença-maternidade, FGTS, aposentadoria, ensino público; tudo isso está sob ameaça iminente, na alça de mira do próximo governante, seja ele do PT ou do PSDB.

Não se pode ter a menor confiança de que a nova safra de mensaleiros e sanguessugas no Congresso vá se colocar contra essas reformas. O estado de São Paulo mandou para a Câmara o PCC inteiro: Maluf, Russomano, Genoíno, Palocci, Berzoini (só ficou Marcola, pois alguém teria de tomar conta dos presídios), além dos zumbis, cacarecos e folclóricos Clodovil, Frank Aguiar, Enéas, etc. A via parlamentar está morta para a resistência dos trabalhadores.

A esquerda precisa articular a resistência através dos organismos de luta próprios do proletariado. É preciso colocar em ação os sindicatos, grêmios, associações, coletivos, movimentos de negros, mulheres e juventude. Devemos constituir comitês de luta contra as reformas, organizando os trabalhadores, a juventude e os setores oprimidos da população. É preciso organizar, mobilizar, informar.

Entidades como a Conlutas e a Intersindical, assim como os partidos de esquerda, as organizações políticas que se colocam no campo da classe operária, os movimentos reivindicativos dos sem-terra, sem-teto, negros, mulheres, juventude, GLBT, etc., e os ativistas independentes devem construir um grande encontro nacional para preparar a campanha de luta contra as reformas.

A burguesia pode ter vencido a batalha das eleições. Mas as batalhas decisivas estão apenas começando.

Daniel M. Delfino
10/10/2006

Todo voto é nulo




Existem três tipos de campanha pelo voto nulo. A primeira e mais disseminada nas eleições de 2006 é a dos setores que estão “decepcionados” com o governo Lula, acham que “os políticos são todos iguais”, pensam que “nada nunca muda mesmo” e que “a política não vale à pena”. A segunda e mais tradicional é a dos anarquistas e ultra-esquerdistas que consideram que em nenhuma hipótese os inimigos do sistema podem cogitar em qualquer tipo de participação nas instituições. A terceira e mais difícil é a que defende o voto nulo programático, ou seja, mantendo o foco num programa socialista, considera que o mesmo não se encontra presente nas atuais eleições e portanto não endossa nenhuma das candidaturas em disputa. É neste terceiro tipo de campanha que nos engajamos.

Se dissemos que o programa socialista não está presente nas eleições, isso significa que nos colocamos em uma polêmica direta com os agrupamentos que compõem a frente de esquerda PSOL/PSTU/PCB. Esta frente teria o propósito e a missão de colocar o socialismo em discussão nas eleições. Mas a coligação encabeçada por Heloísa Helena (HH) não aponta nenhuma proposta de ruptura com o capitalismo, nem mesmo de tipo mediatizado e transicional. Além disso, um programa não é apenas um conjunto de princípios, ideais e palavras de ordem, mas também se materializa em atitudes práticas. A frente se construiu de cima para baixo, por acordo entre as cúpulas, sem diálogo com as bases do movimento social, sem debate sobre o programa, etc. A prática política da frente de esquerda não é socialista, é eleitoralista, aparatista e burocrática.

Antes mesmo de ter chances de chegar ao poder como Lula, HH atenua o discurso, se omite quanto a qualquer medida de ruptura, esconde o socialismo e se transforma em “Heleninha paz e amor”. Sua política não tem referência de classe e sim apelo abstrato à “ética” no estilo do moralismo mais oportunista. Além disso, a frente de esquerda está se desfazendo antes mesmo de encerradas as eleições. A Intersindical, claramente impulsionada por setores do PSOL, surge com o projeto de impedir a ruptura dos sindicatos com a CUT e a sua adesão à CONLUTAS, por sua vez um projeto caro ao PSTU. Se a justificativa para a constituição da frente era a necessidade de unidade para as lutas, que é uma necessidade real da classe trabalhadora, as forças políticas que a compõem demonstram assim que não estão de fato comprometidos com ela.

É por isso que a luta por um programa socialista não passa pela candidatura de HH e sim pelo fortalecimento das lutas imediatas em curso: contra as demissões na Volks, nas campanhas salariais das diversas categorias, na luta pelo passe livre, na luta por terra e moradia; em todos os pontos em que os interesses vitais dos trabalhadores estão confrontados com os da burguesia. É para esse cenário que voltamos as atenções, é aí que concentramos nossas forças.

Nesse sentido, a campanha pelo voto nulo programático não é exatamente uma campanha contra a frente de esquerda, pois sabe que a frente é um arranjo temporário que logo será desfeito. E que a unidade que interessa de fato é aquela que será construída pelos próprios trabalhadores em suas lutas, estejam aquelas organizações presentes ou não. A campanha pelo voto nulo programático é também, e principalmente, uma campanha contra a burguesia.

A burguesia está muito bem servida nessas eleições. De um lado, ela tem Alckmin, o candidato Daslu/Opus Dei, com um programa neoliberal agressivo. Do outro, ela tem Lula, o operário padrão do imperialismo, que implanta o neoliberalismo com mediações. Sem Lula, a rejeição popular à FHC poderia ter resultado em mobilizações de massa, ameaçando a “estabilidade” e o regime. Com Lula no controle das organizações do movimento social (CUT, UNE, MST, Igreja, etc.), a insatisfação se transformou em esperança vaga de melhoria, inoperância prática e ausência de resistência material.

Entretanto, uma vez utilizado Lula para desarmar o movimento social, a burguesia calculou que poderia descartá-lo. Passou então a expor o “modus operandi” da política burguesa: “mensalão”, mala preta, dólares nas cuecas, etc.; práticas que a cúpula do PT adotou com risível amadorismo. Com a exposição da corrupção, as gangues partidárias preferenciais da direita, que tradicionalmente monopolizavam o butim da corrupção, esperavam poder inviabilizar Lula para as eleições de 2006. Queriam se livrar da incômoda concorrência da camarilha sindical petista, a qual havia se aboletado no aparelho do Estado como uma corriola de arrivistas deslumbrados, e sempre foi vista pelo velho mandarinato como estranha no ninho.

Essa estratégia arriscada da velha direita comportava uma série de variáveis imprevisíveis, que estão se desdobrando nesse momento. De um lado, a burguesia foi bem-sucedida ao desmoralizar o PT. Com isso, não foi apenas o projeto eleitoral da camarilha de Dirceu e Cia. que saiu avariado. A própria idéia original do partido, a idéia da mobilização popular como alternativa de mudança, sofreu um duro golpe. Muitos passaram a pensar que “a esquerda também não presta”, “a esquerda também se corrompe”, etc. O maior crime de Lula e do PT está na desmoralização da esquerda inteira.

Por outro lado, o próprio regime em si também sofreu um importante abalo, pois aumentou a percepção de que as eleições não mudam nada e não servem para nada. Essa perda de confiança no regime também é em alguma medida perigosa para a burguesia (e conseqüentemente poderia ser potencialmente útil aos inimigos do sistema através de uma campanha pelo voto nulo politicamente qualificada), pois mostra que se esgotaram as alternativas. Não se pode subestimar que Lula foi, para uma boa parte da população, durante duas décadas, o último cartucho, a “última esperança” de um “salvador da pátria”. Se nem mesmo Lula e o PT agiram diferentemente dos demais, o que fazer? Vem daí, do desencanto dos que apostavam no PT como alternativa de mudança, boa parte do voto nulo “decepcionado”.

A grande questão é que, decepções à parte, ao contrário do que a velha direita putrefata e seus lacaios na mídia planejavam, a campanha de denúncias não foi suficiente para fazer a massa do eleitorado rejeitar Lula. A campanha de Alckmin, vulgo “picolé de chuchu”, o candidato menos carismático que se poderia inventar, claramente não decolou. Ninguém vê no PSDB, PFL e adjacências os porta-vozes autorizados da ética. A reeleição de Lula expressa, do ponto de vista do sistema, um monumental fiasco da burguesia, pois a classe dominante brasileira provou-se incapaz de administrar a massa falida do capitalismo nativo através de seus próprios quadros políticos, devidamente desmoralizados, tendo que repassar o serviço sujo para os profissionais do neopeleguismo.

Nem a campanha da direita decolou, nem a de HH, e nem ainda a do voto nulo em suas diversas matizes. A eleição se transformou num ritual burocrático que não vai interferir com a realidade material. Todos têm pressa de que acabe logo, para se verem livres do horário político na televisão. Não está havendo espaço para o debate político vivo, qualificado e substantivo. As eleições de 2006 estão especialmente apáticas, devido à percepção generalizada de que não há alternativas reais em disputa. Na ausência de conteúdo político e divergência, o que temos é uma espécie de programa de auditório puramente personalista. Um patético referendo sobre a caricata e rotunda figura pessoal de Lula.

Uma figura que despontou para a política nacional liderando as greves do ABC e que agora encerra um ciclo com demissões, rebaixamento de direitos e ameaça de fechamento da Volks, no mesmo ABC. Diante dessa eloqüente coincidência, Lula põe as mãos no bolso, olha de lado e assobia, como se não fosse com ele. O que se passa no ABC é só uma amostra do que aguarda a classe trabalhadora como um todo, logo ali na próxima esquina. Enquanto a ficha não cair na cabeça dos trabalhadores, Lula segue fingindo que não é com ele e celebrará a reeleição com Dom Perignon.

Mas é preciso explicar porque a ficha ainda não caiu, e não só a percepção do caráter real de Lula não penetrou na massa, como nem mesmo a maciça campanha de denúncias não foi suficiente para fazer o eleitorado rejeitar Lula. O enfrentamento que a burguesia travou com Lula em 2005 foi prematuro. De fato provocou a ruptura de um setor mais esclarecido da população com o PT, por revolta com a corrupção. Mas o fator numérico decisivo nessas eleições será o apoio de Lula entre os mais pobres. Uma revista semanal antes respeitável (Carta Capital nº. 406) estampou orgulhosamente uma capa com a imagem triunfal de “Lula pai dos pobres”. E convenientemente esqueceu de acrescentar: “mãe dos ricos”. Bastaria perguntar aos banqueiros e especuladores que ganharam fortunas obscenas com a gestão de Lula para saber para quem ele governa.

Por que os mais pobres votam maciçamente em Lula? Por um lado, trata-se do efeito material dos diversos tipos de bolsa-esmola distribuídos nas regiões mais pobres, no pior estilo demagógico dos velhos coronéis e caciques. Antes que digam que alguém que é contra os programas assistenciais certamente não passa de “um pequeno-burguês que faz suas três refeições por dia e não sabe o que é a fome”, é preciso lembrar que, se Lula estivesse realmente interessado em governar para os pobres, o grosso do gasto público não estaria sendo desviado para os especuladores da dívida. E os pobres estariam sim sendo alimentados, mas estariam também, principalmente, sendo estimulados e organizados para arrancar com suas próprias mãos, coletivamente, em massa, a terra, a moradia, o emprego, a cultura e tudo de que necessitam. Pelo contrário, estão contentes com suas esmolas, como quer a burguesia.

A luta de classes não se faz contrapondo o “candidato dos pobres” contra os dos “ricos”, como marcas de sabonete num outdoor, num contexto de disputa grotescamente manipulado. Se faz com a defesa do conteúdo programático peculiar ao caráter ontológico de cada classe. O programa da burguesia é o capitalismo e suas crises. O programa da classe trabalhadora é o socialismo. Fora disso, não há alternativas reais. Administrar o capitalismo, “democratizá-lo” ou “humanizá-lo” resulta no desastre que foi o governo Lula, a continuidade agravada do descalabro neoliberal de FHC. E que seguirá pelo próximo mandato adentro: destruição das conquistas trabalhistas, da previdência pública, do que restou do patrimônio público, das universidades públicas, etc. São essas as prioridades do grande capital para o próximo período. É para resistir a esses ataques que é preciso organizar as massas.

Mas mesmo fora dos setores diretamente beneficiados pelo bolsa-esmola, o apoio popular a Lula é maciço. O povo reconhece que houve corrupção, mas não reconhece à direita a prerrogativa de acusar Lula por isso. Trata-se de uma versão brasileira do “esse governo é uma m@#$%, mas é o meu governo”, que os trabalhadores chilenos diziam de Allende. O povo se conforma e se resigna com a idéia de que “todos roubam”, e de que, se é para roubar, que seja “um dos nossos”.

Portanto, salvo algum acidente de percurso de proporções muito grandes e também muito improvável, Lula estará reeleito no 1º. turno. O que fazer com a indignação dos que não aceitam a corrupção, nem de Lula nem de ninguém, muito menos da turma de Alckmin, e não vêem em HH uma alternativa viável? Essa indignação primária e despolitizada, porque desprovida de conteúdo de classe, resultou na campanha pelo voto nulo dos “decepcionados”. A principal materialização dessa campanha é a corrente que circulou na internet pregando que a eleição estaria anulada se mais de 50% votassem nulo.

Prontamente, a burguesia tratou de acabar com a festa e mobilizou um de seus esbirros, o Presidente do TSE Marco Aurélio de Mello, para dar sua doutoral interpretação de que não existe a possibilidade de cancelar as eleições por meio do voto nulo. Essa interpretação está evidentemente errada à luz do espírito da lei. Se o 2º. turno existe porque um candidato não pode tomar posse sem o respaldo de pelo menos 50% dos eleitores, é óbvio que uma maioria de 50%+1 de votos nulos cancelaria a eleição. Mas o aspecto mais importante a ser lembrado aos defensores do voto nulo “indignado” é que não é o voto em si, ou seja, a atitude de ir até as urnas e apertar um botão qualquer, e sim a atitude de ir para as ruas, que pode fazer alguma diferença.

Se as eleições tivessem realmente o poder de mudar alguma coisa, a burguesia não seria estúpida de permitir que se colocasse uma urna em cada esquina (se é que alguém acredita que o resultado que sai das urnas eletrônicas, a cujo programa ninguém tem acesso, realmente reflete o conteúdo das votações, que é impossível de ser verificado). Mesmo que fosse através de um voto nulo maciço, seria fácil demais para ser verdade.

O propósito da campanha do voto nulo programático não é cancelar a eleição com uma batelada de 50% de votos nulos (infelizmente, tal hipótese é muito improvável); ainda que seja divertidíssimo imaginar o que a burguesia faria para lidar com esse imbróglio jurídico. A questão é que a burguesia sairia do imbróglio, pois os fundamentos estruturais de seu poder material (a propriedade privada, o respeito supersticioso dos explorados pelo opressor, a inércia das formas dadas de organização alienada da produção, a lealdade do aparato repressivo militar e policial, etc.) não teriam sido abalados. O propósito do voto nulo programático é organizar as forças de oposição para destruir materialmente o poder da burguesia de uma forma que jamais possa ser recuperado. Essa é a tarefa, ainda que o horizonte de tempo pareça muito distante, e a campanha pelo voto nulo no período eleitoral é só um instrumento de discussão para avançar no processo de organização. Nesse sentido, o resultado da votação em si é secundário.

É por isso que todo voto é nulo, inclusive o voto nulo. A atual eleição é nula, porque é politicamente morta como alternativa real de mudança. Todo voto é nulo, seja aquele entregue a algum candidato, seja o voto em um número que não existe.

Mas os defensores da ordem não se limitam a tentar barrar preventivamente a avalanche de votos nulos indignados naturalmente esperada. Tentam ainda convencer o eleitor de que o seu voto é o responsável pela realidade do país. Inventam uma série de slogans para estimular a participação, fazendo do voto o limite máximo da cidadania, quando na verdade trata-se de um ato de renúncia à política. Dizem que “o Brasil é tão bom quanto seu voto”, exortam o eleitor a ser “responsável” e ainda por cima passam sermão no povo, dizendo que a culpa da eleição de políticos corruptos é do eleitor.

Como se a farsa da democracia representativa funcionasse. Como se existisse algum canal pelo qual os eleitores pudessem realmente controlar seus “representantes”. Como se a causa de termos um Congresso de mensaleiros e sanguessugas fosse da amnésia do eleitor, que não se lembra em quem votou. Como se o povo não fosse, no intervalo das eleições, alienado por telenovelas, futebol, programas de auditório e telejornais imbecilizantes que o impedem de pensar sobre sua realidade. Na realidade, o voto do eleitor brasileiro não conta para nada. A opinião de Wall Street sobre qual candidato é “confiável” é o que decide. De nada adianta dizer “vota Brasil!” nas eleições a cada dois anos se o mercado vota todos os dias.

Essa pérfida campanha quer que o eleitor se recolha num ato de contrição, arrependa-se do pecado de sua “despolitização” e volte a sonhar com um novo salvador da pátria. Quer trazer o povo de volta ao redil das ilusões na “democracia”. É por isso que o voto nulo incomoda tanto a essas vestais da ordem. Por que mostra que, na realidade, o Brasil não vota!

Na realidade, não há voto útil. Só a luta muda a vida! Lutar é preciso, votar não é preciso! Nossos sonhos não cabem nas urnas!

Daniel M. Delfino
09/09/2006