2.3.10

Avatar: revolução e paradoxo da técnica


As revoluções da história do cinema

Periodicamente, a cada uma ou duas décadas, o cinema passa por revoluções que atualizam sua capacidade de funcionar como a arte típica da sociedade capitalista moderna e expressar seus dilemas e contradições. Esbocemos sumariamente algumas dessas revoluções:

- A primeira delas foi a própria invenção do cinema como veículo para contar histórias, saindo do submundo das curiosidades circenses para se tornar um ramo independente da indústria cultural com regras, métodos e cânones próprios. Esse processo de construção do cinema como instrumento da arte narrativa passa pelas criações de Méliès, Griffith, Chaplin, Eisenstein, o movimento expressionista, até alcançar a maturidade com Orson Welles e seu “Cidadão Kane”.

- A invenção do cinema falado no fim dos anos 1920.

- A introdução das cores no fim dos anos 1930.

- O aperfeiçoamento nas técnicas de projeção nos anos 1950 (CinemaScope, Cinerama, 3D), na tentativa de fazer frente à concorrência da televisão.

- A revolução temática impulsionada pela explosão das cinematografias não-hollywoodianas (neo-realismo, nouvelle vague, cinema novo, Fellini, Kurosawa, Bergman, Kubric, etc.) no pós-II Guerra e nos anos 1950.

- A chegada dessa revolução temática a Hollywood pelas mãos da contra-cultura, na virada entre os anos 1960 e 70, deixando para trás a inocência dos musicais e contos de fadas com final feliz obrigatório. O cinema se tornou capaz de falar da vida de pessoas reais e abordar abertamente certas questões sociais, com marcos como “Adivinhe quem vem para jantar?”, “Sem destino”, “Uma rajada de balas”, “A primeira noite de um homem”, até chegar ao “Poderoso chefão”.

- A revolução dos efeitos especiais entre os anos 1970 e 80, cujos maiores expoentes são as trilogias “Guerra nas Estrelas” e “Indiana Jones”.

Conhecedores mais profundos da história do cinema poderão completar e precisar essa lista e enriquecê-la com muitos outros exemplos. Mas tal debate alongaria demais esse texto e o desviaria de seu propósito.

Voltemos à última “revolução” indicada. O desenvolvimento dos efeitos especiais foi tido como uma resposta ao surgimento dos videocassetes (assim como nos anos 1950 fora preciso responder à massificação da televisão). Era preciso criar um espetáculo suficientemente grandioso para concorrer com o conforto do vídeo doméstico e motivar os espectadores a sair de casa para continuar freqüentando as salas de cinema.

Na época esse fenômeno foi interpretado por Pauline Kael (reputada como a maior crítica de cinema estadunidense) como a verdadeira morte do cinema, pois os filmes passariam a estar cada vez mais baseados nos efeitos visuais do que na história.

Coerentemente com essa interpretação “apocalíptica”, vimos cada vez mais as salas de projeção serem invadidas por filmes de ação, aventura, fantasia, ficção científica e histórias em quadrinhos, que se sustentam em efeitos visuais e secundarizam a expressão da realidade humana. Assim como o cinema deslocou o teatro para uma espécie de gueto habitado por remanescentes cultuadores das antiguidades culturais, o cinema de efeitos especiais transformou os filmes que tratam de pessoas reais num segmento apreciado por uma restrita tribo de cinéfilos, seguidores de produções independentes, européias, asiáticas, sulamericanas, etc.

A obra de James Cameron

Toda essa digressão sobre a história do cinema se propõe a preparar o terreno para a tentativa de localizar o significado do filme “Avatar”, de James Cameron. Passemos rapidamente em revista a obra desse diretor. Cameron foi um dos protagonistas da revolução dos efeitos especiais com “O Exterminador do Futuro”, de 1984, obra impulsionada por uma história originalíssima, de profundo impacto e marcante influência no imaginário da época (influência que perdura até hoje), culturalmente representativa do último surto da Guerra Fria e embalada por uma narrativa de suspense bastante eficiente, elementos que o tornam um clássico. A partir desse sucesso inicial, Cameron desenvolveu uma carreira pouco prolífica, mas repleta de títulos que o tornaram sinônimo de ambição e inovação: “Aliens, o resgate”, “Segredo do abismo”, “O Exterminador II”, “True Lies”, “Titanic” e agora “Avatar” (tornaram-no também titular da minha lista pessoal de diretores preferidos, fato que não tem a menor importância, mas para quem ficou curioso aqui vai: Martin Scorcese, Ridley Scott, Oliver Stone, Tim Burton e David Fincher).

A curta filmografia de Cameron inclui os 2 filmes de maior bilheteria da história (o recorde de “Titanic” estava sendo superado por “Avatar” no momento em que este comentário era finalizado), fato este sim da maior relevância para os executivos de Hollywood e para a votação dos prêmios Oscar. E tal filmografia inclui ainda os marcos de mais duas revoluções na história do cinema, ou pelo menos dentro da atual fase da história:

- “Exterminador II”, primeiro exemplar de utilização maciça e bem-sucedida de imagens geradas em computador (conhecidas pela sigla em inglês “CGI”), que causou escândalo na época pelo seu elevado custo de produção (mais de U$ 100 milhões, marca esta tornada rotineira a partir de então).

- O próprio “Avatar”, filme quase inteiramente feito em CGI e concebido para ser apreciado em 3D.

O paradoxo da técnica

No que se refere à técnica cinematográfica, “Avatar” é indubitavelmente um salto adiante. As diversas revoluções técnicas do cinema citadas acima acrescentaram sucessivos aperfeiçoamentos à sua capacidade de funcionar como uma armadilha sensorial que suspende o espectador da sua relação com o mundo real e o arremessam no universo da fantasia. A sala escura, a tela gigante, a luz em que brilham os astros e estrelas, o volume ensurdecedor do som, a trilha sonora cuidadosamente arquitetada para conduzir as emoções, o ritmo da edição, a profusão dos efeitos especiais, ganharam nas últimas décadas a companhia das imagens em CGI e no caso em questão, da profundidade em três dimensões. Essas sucessivas inovações técnicas, nas quais aliás Cameron tem demonstrado inigualável aptidão, dotaram o cinema das ferramentas necessárias para reproduzir na tela as fantasias mais delirantes que o cérebro for capaz de criar.

Os elementos criativos que povoam a história de “Avatar” (colonização interplanetária, engenharia genética, controle da mente sobre outro corpo, raças de humanóides descendentes de felinos com 4 metros de altura e ossos de fibra de carbono, que moram numa aldeia-árvore e são capazes de se comunicar com animais e vegetais, que cavalgam em dragões e voam entre montanhas flutuantes) são lugares-comuns em vários nichos da ficção científica, como os contos da lendária revista de quadrinhos alternativos “Heavy Metal”. Claro que, para tornar o filme palatável para as grandes audiências, Cameron teve que retirar quase todo o sexo, violência, provocação política e amoralidade que caracterizam aquela publicação, retirando também a vulgaridade e futilidade em que os elementos acima costumam vir empacotados na revista. “Avatar” é Heavy Metal em embalagem da Disney.

A simplicidade quase banal da história e a falta de originalidade tem rendido a Cameron uma série de processos por plágio. Entretanto, a confiança do diretor em sua capacidade técnica o fez desdenhar impavidamente esses contratempos insignificantes e se dar ao luxo de se esbaldar com o brinquedo, dando livre curso a algumas das suas obsessões típicas já exploradas em filmes anteriores: o ambiente militar, a ética dos soldados, a parafernália tecnológica armamentista, os limites da ciência (e as criaturas bioluminescentes, como o absurdo “inseto-cóptero” que passeia no filme), etc.

“Avatar” representa a chegada ao patamar histórico em que qualquer coisa que pode ser imaginada pode também ser filmada de modo tecnicamente convincente, o que coloca em pauta uma outra questão: o hiper-realismo proporcionado pela técnica cinematográfica acrescenta credibilidade à fantasia ou destrói a sua fecundidade, já que não deixa nada ao espectador para ser livremente imaginado? Ou dito de outra forma, porque o cinema fantástico-hiper-realista deve ser considerado um avanço em relação ao teatro de bonecos, se este pode ser tão eficiente quanto aquele na sua tarefa fundamental, que é contar uma história?

O culto da novidade e da técnica como substitutos da vida é mais um sintoma da patologia social contemporânea, da qual “Avatar” é mais uma confirmação. Mas é uma confirmação invertida, pois a moral da história é justamente... a volta à natureza!

Esse paradoxo é o grande achado de “Avatar”. O homem adquire a capacidade de viajar pelo espaço, conservar-se vivo em sono criogênico, colonizar outros planetas, construir e reconstruir corpos por engenharia genética, controlar remotamente um outro corpo, etc., mas o seu objeto de desejo é retornar à mesma relação com a natureza que os índios praticam: caminhar descalço pela floresta, beber água coletada da chuva pelas folhas das árvores, dormir em rede, contar histórias em torno da fogueira...

A hipótese apocalíptica

Para explicar esse paradoxo, é preciso entrar na discussão sobre a relação do cinema com o contexto político-ideológico. Dentre os filmes de Cameron, “Avatar” é uma espécie de antípoda do primeiro “Exterminador”, pois se aquele contava com uma história poderosa e efeitos que hoje podemos considerar precários, este possui um visual absolutamente deslumbrante e uma história sofrível. Ponto para Pauline Kael? Depende.

A hipótese apocalíptica que explica a decadência artística do cinema pelo abuso da técnica dos efeitos especiais tem uma contraparte dialética que consiste no fato de que a extrapolação da corrida tecnológica para o cinema corresponde proporcionalmente à vigência dessa mesma corrida tecnológica na vida social em geral. Não é apenas o cinema que se tornou irreal, mas a vida real que se tornou cinematográfica, espetacular, fantástica, ilusória e instável, no contexto histórico do capitalismo plenamente mundializado, o que vale dizer, plenamente atravessado pela aceleração explosiva das suas contradições constituintes. Nesse sentido, o cinema mais espetacular e irreal pode ser também o produto ideológico mais típico e ilustrativo de determinados fenômenos sociais muito reais. Isso atualiza o valor crítico do cinema e da crítica de cinema, ainda que o cinema em questão venha à tela completamente despido de intenções críticas; e demonstra também a impossibilidade de se fazer crítica de cinema e de arte com alguma seriedade e coerência sem uma perspectiva crítica do conjunto da vida social.

O paradoxo técnica X natureza em “Avatar” o torna culturalmente significativo a ponto de merecer a qualificação de obra revolucionária, para além do aspecto cinematográfico e do recorde de bilheteria. Para avaliar esse significado cultural, é preciso relacionar sua narrativa aos discursos ideológicos em voga. A história do filme, que já foi descrita como “Pocahontas no espaço”, é um completo clichê: soldado se apaixona por nativa e se volta contra os colonizadores dos quais era parte. Essa mesma história já foi contada antes muitas outras vezes, merecendo destaque pela profundidade antropológica e paixão humanista um outro clássico do cinema recente: “Dança com lobos” (outro fato sem a menor relevância: primeiro filme que me fez chorar).

O que torna essa narrativa culturalmente significativa é o acréscimo da questão ambiental. O ambientalismo é o bom-mocismo do século XXI. É a causa que aparentemente unifica a todos, gregos e troianos (veremos que não é bem assim nas próximas seções deste texto), o que ajuda a explicar o sucesso do filme (e o recorde de bilheteria), para além do refinamento visual. Ao colocar de um lado a defesa da natureza e de outro a sua destruição, “Avatar” fornece ao público heróis para os quais torcer e vilões aos quais odiar, e não há nada que o grande público aprecie mais do que heróis virtuosos derrotando vilões odiosos. Sem isso, não há efeitos especiais que bastem para construir um sucesso artístico e comercial dessa magnitude. Mesmo sendo rasa, banal, repetitiva, pouco criativa, a narrativa central de “Avatar” fornece ao espectador uma experiência dramática gratificante, ou seja, boa diversão.

Gregos e troianos?

A consagração artística e comercial do ambientalismo em “Avatar” (através de uma overdose de técnica cinematográfica) representa ainda uma espécie de “vingança estética” contra a era Bush. O discurso dos vilões do filme é literalmente o mesmo dos sinistros personagens que povoaram os noticiários na década de 2000, os procônsules estadunidenses no Oriente Médio e os executivos rapaces da Enron, Halliburton, AIG, Lehman Brothers e Cia. O executivo que dirige a exploração do mundo de Pandora em “Avatar” diz que tudo o que importa para os acionistas é o balanço trimestral, a mesma obsessão dos especuladores trazidos à berlinda pela atual crise econômica. O coronel que chefia a milícia particular da empresa diz que se deve “combater o terror com terror”, a mesma coisa que os Estados Unidos fizeram no Iraque e no Afeganistão (e em Guantánamo ou em outras bases secretas nas quais torturaram “suspeitos de terrorismo”) ou que Israel fez contra Gaza.

Dando mostras do quanto está sintonizado com o sentimento anti-Bush ainda presente na opinião pública mundial, “Avatar” dá a pista dos próximos alvos da “guerra ao terror”, quando lembra que o protagonista, antes de ser mandado para o espaço, serviu na Venezuela, enquanto o coronel servira na Nigéria, ambos “coincidentemente” produtores de petróleo. Ao aterrissar em Pandora, o ex-fuzileiro paraplégico ainda acredita que na Terra as forças armadas estadunidenses estão “lutando pela liberdade”, sendo que a corrupção dos soldados no processo da colonização seria causada apenas pelo fato de estarem servindo como mercenários de uma empresa privada.

Algumas de suas falas poderiam ter saído da boca de um veterano do Iraque dos nossos dias de crise econômica e desemprego galopante nos Estados Unidos, quando diz que seria possível reparar sua espinha para que pudesse voltar a andar, “mas não nessa economia, não com essa pensão”. Gradualmente o protagonista muda seu ponto de vista sobre o mundo de onde veio, pois passa-se para o lado dos nativos. Supera-se também aos poucos a hostilidade mútua entre o soldado e os cientistas. A separação entre o homem de pensamento e o homem de ação, entre trabalho intelectual e trabalho braçal, típica da cultura estadunidense, também é vencida no filme, conforme o soldado se torna capaz de refletir (o videolog mostra-se uma ferramenta bastante útil, mas também perigosa) e os cientistas de se engajar numa rebelião contra a corporação.

Cameron também subverte outro padrão típico da cultura estadunidense, retirando as mulheres do seu papel subalterno tradicional e dando-lhes funções decisivas, o que aliás é um dos traços mais marcantes da sua filmografia. Em todos os seus filmes há personagens femininas fortes, que não ficam atrás dos protagonistas masculinos, seja em inteligência ou desenvoltura. Em “Avatar”, temos a cientista-chefe e até a piloto de helicóptero, mas o destaque fica para a guerreira nativa, capaz de desafiar as tradições de seu povo para unir-se ao estrangeiro por quem se apaixonou.

Há outros traços “politicamente corretos” e pós-modernos em “Avatar”, como a concessão que se faz à religião, quando a “mãe natureza” se envolve pessoalmente no combate, enviando um exército de criaturas para enfrentar os humanos, ainda que se faça um esboço de explicação científica para a experiência mística de comunicação com a divindade-natureza vivenciada pelos Na'vi. A mesma concessão à religião, as mesmas boas intenções e o mesmo paradoxo de técnica X natureza comentado duas seções acima já foram vistos antes em “Final Fantasy”, tentativa pioneira e infeliz de substituir atores reais por CGI que fracassou estética e comercialmente. Prova de que é preciso algo mais do que boas intenções e propostas politicamente corretas para que um filme possa funcionar. “Avatar” oferece esse algo mais, expondo uma ilustração um pouco mais radical das contradições sociais.

“Cedo ou tarde, sempre temos que acordar”, aprende o fuzileiro. A operação de exploração mineral em Pandora é uma metáfora de todas as invasões imperialistas no planeta Terra. Repete-se ali o mesmo processo que se desencadeou sobre a América, a África e a Ásia, onde se destruíram povos, culturas e ecossistemas em busca de riquezas efêmeras, com a diferença de que, na batalha de Pandora, os nativos venceram. E o público que lotou os cinemas do mundo inteiro para dar a “Avatar” o recorde de bilheteria torceu pela vitória dos nativos. Eis uma novidade ideologicamente significativa, que sinaliza a vitória política do ambientalismo.

Entretanto, qual é a conclusão a que a vitória dos nativos pode nos levar? Devemos abandonar a tecnologia e voltar a viver como os índios? Será que “caminhar descalço pela floresta, beber água coletada da chuva pelas folhas das árvores, dormir em rede, contar histórias em torno da fogueira...” devem ser o nosso ideal de felicidade e realização humana? Todo o progresso técnico realizado até hoje deve ser jogado fora, pois representa um pecado contra a inviolabilidade da mãe-natureza? Toda a ciência, a arte, a cultura, a humanização do mundo, o conforto, são inseparáveis dos males que o homem provocou?

Trabalho alienado e natureza

Para responder a essas perguntas, é preciso recorrer a uma perspectiva histórica concreta. Não existe tecnologia (nem arte, nem religião, etc.) que não esteja envolvida no contexto de determinadas relações sociais. O problema das agressões da nossa tecnologia contra a natureza não está na tecnologia em si, mas no propósito social que dirige a sua utilização. A tecnologia é apenas uma ferramenta a serviço de uma lógica social, que determina o que deve ser produzido e de que forma, e em proveito de quem. A lógica que dirige a utilização da tecnologia em nossa sociedade é a da acumulação de capital.

Portanto, não é “o homem” abstrato que agride a natureza, mas quem o faz é o homem histórico e concreto, o homem envolvido em relações de produção social e historicamente determinadas, o homem envolvido nas relações capitalistas (para as quais inconscientemente se dirige a condenação moral estetizada em filmes como “Avatar”). A relação destrutiva com a natureza (e portanto auto-destrutiva) posta em prática pelo homem é uma decorrência das relações de trabalho alienado. O paradoxo técnica X natureza que viemos debatendo se enraíza em contradições muito profundas, que requerem uma adequada contextualização antropológica e filosófica do trabalho alienado.

O trabalho é a atividade que diferencia o homem dos demais animais. O homem se torna humano por meio do trabalho, que se define como atividade previamente ideada, ou seja, consciente. Ao contrário dos demais animais, cuja atividade é inconsciente, instintiva, repetitiva e imutável, o homem altera o mundo com seu trabalho e ao fazer isso altera também a si mesmo. Por ser a única espécie capaz de alterar o mundo e a si mesmo, só o homem possui uma História propriamente dita, que é na verdade um desdobramento da história natural. O surgimento da espécie humana, com sua capacidade de trabalho, é um desenvolvimento de propriedades inerentes ao mundo natural, mas ao mesmo tempo representa o surgimento de um mundo novo, humano.

O trabalho constrói biologicamente o corpo do homo sapiens, com seu caminhar ereto, polegar opositor e cérebro superdesenvolvido, e cria o gênero humano como ser capaz de atribuir uma finalidade aos objetos e um sentido para as próprias ações. Ao satisfazer suas necessidades naturais (comer, vestir-se, abrigar-se, procriar) por meio do trabalho, o homem cria novas necessidades sociais, pois as satisfaz de modo humano. As características humanas do homem, a socialidade, a historicidade, a liberdade, a universalidade, a consciência, a linguagem, são produto do trabalho.

O trabalho é a forma especificamente humana, social e histórica, de metabolismo com a natureza. Cada ser humano está em relação com a natureza por meio de seu corpo físico, cuja existência precisa ser mantida, mas essa relação não se dá de forma imediata, pois é social e historicamente mediada pelo trabalho. O uso de recursos naturais para produzir alimentos, vestimentas, moradias, utensílios, etc., não é feito separadamente por cada indivíduo, mas coletivamente por meio da formação social da qual este indivíduo faz parte. Ou seja, o homem somente se relaciona com a natureza indiretamente, por meio de sua relação com os outros homens, com o meio social no qual desempenha algum tipo de papel produtivo e de onde recebe uma cultura.

A humanidade do homem não está dada de modo imediato na realidade histórica, ou seja, cada homem não está imediatamente unificado com a sua humanidade, da forma como estão os animais. Cada animal é imediatamente idêntico a sua espécie e capaz de fazer tudo que a espécie é capaz. O homem, ao contrário, se encontra separado de sua espécie, da sua humanidade, seu ser genérico, por conta da condição histórica da divisão da sociedade em classes e do trabalho alienado.

Assim que o trabalho se torna capaz de produzir um excedente em relação às necessidades sociais, surge uma classe social que se apropria desse excedente. Ao longo da história desenvolve-se uma luta entre as classes proprietárias e as classes trabalhadoras pela posse desse excedente do trabalho social. O controle do excedente pelas classes proprietárias transforma o trabalho numa atividade alienada, ou seja, estranha para a maior parte dos seres humanos. O homem se separa de seu ser genérico, sua humanidade, ao não poder determinar o que fazer com seu tempo de trabalho e ser forçado a trabalhar para outro. O homem se aliena da atividade do trabalho, dos produtos do trabalho, da sua relação com os outros homens, que aparecem todos como elementos externos e opressivos sobre o indivíduo; e se aliena também da natureza.

Capitalismo e destruição da natureza

Se a relação com a natureza se dá primordialmente por meio da relação social e histórica de trabalho, o trabalho alienado leva a uma relação também alienada com a natureza. Na sociedade de classes, a natureza se apresenta ao homem como ambiente externo e objeto estranho a ser controlado, dominado, usufruído e descartado, conforme os interesses da classe dominante. A natureza deixa de ser o “corpo inorgânico do homem”, como a definiu Marx, e se torna propriedade privada. Na condição de propriedade privada, a natureza pode ser usada e abusada de maneira irresponsável, pois a necessidade coletiva é desconsiderada em favor dos interesses privados.

Na sociedade capitalista, que é a forma mais recente da sociedade de classes, a natureza mais do que nunca aparece como estranha ao homem, como puro objeto de manipulação, fonte supostamente inesgotável de matéria-prima e repositório dócil para os infinitos subprodutos da ação humana (lixo e poluição). O capitalismo simplesmente ignora que a natureza não é inesgotável nem pode suportar indefinidamente os dejetos que lhe atiramos. A lógica do capital considera apenas o curto prazo, o balanço trimestral das empresas, a cotação diária da bolsa de valores, e simplesmente despreza a sobrevivência da espécie. Como disse um autorizado representante da burguesia, o economista inglês John M. Keynes, “a longo prazo estaremos todos mortos”.

O trabalho excedente apropriado pela burguesia é a fonte da imensa acumulação de riqueza social que tem se multiplicado desde o início da Revolução Industrial, ponto de partida do capitalismo propriamente dito. Parte dessa riqueza social apropriada pela burguesia é consumida improdutivamente em luxo e parte tem que ser necessariamente reinvestida na continuidade da produção.

Acontece que não basta ao capitalista apenas manter a produção nos mesmos patamares do ciclo anterior de realização do capital, pois ele é forçado a produzir sempre mais mercadorias com o emprego de menos força de trabalho, para reduzir seus custos, aumentar seu lucro e vencer os concorrentes na competição por mercado. Essa é a única forma de realizar mais capital. A reprodução ampliada do capital é a força motriz que comanda as ações de burgueses e conseqüentemente também dos proletários na sociedade capitalista. Essa é a fonte material da ideologia do crescimento econômico (que não é sinônimo de desenvolvimento humano), do culto cego ao progresso e à novidade, que impulsiona um modo de vida voltado para o imediato e desprovido de sentido, em que os objetos se tornam sujeitos e os homens objetos.

Essa lógica social da reprodução ampliada origina uma espiral infinita de aumento da produção de mercadorias. Esse aumento da produção não leva em consideração as necessidades humanas e sim a possibilidade de lucro. A sociedade capitalista cria o paradoxo de uma gigantesca capacidade produtiva usada para gerar objetos absolutamente inúteis, como bombas atômicas e bens de luxo, ao mesmo tempo em que mais de 1 bilhão de pessoas passa fome.

Como se não bastasse o absurdo social desse desperdício e do desvio de capacidade produtiva, isso ainda é feito de uma forma tal que compromete a capacidade da natureza de suportar o impacto das ações humanas. O consumo de matérias-primas e de fontes de energia, o esgotamento da fertilidade do solo, o acúmulo de lixo, a poluição da terra, do ar e das águas chegaram a um nível tal que já ameaça a continuidade da vida. O efeito estufa, a elevação do nível dos mares, as secas e inundações, as tempestades e furacões, a escassez de água potável, as ondas mortais de frio e calor, a desertificação, a extinção em massa de espécies animais e vegetais, a multiplicação de vírus e bactérias mortais, etc.; tudo isso são conseqüências da ação irracional do capitalismo sobre a natureza.

Superação da alienação

Na natureza, a cada ação corresponde uma reação igual e contrária. Os desastres naturais não são resultado de castigo divino, mas reações naturais aos desequilíbrios provocados pelo capitalismo. Esses desastres atacam justamente as populações mais vulneráveis, os pobres, os pequenos camponeses, os moradores das periferias das metrópoles, os segmentos mais desprotegidos da classe trabalhadora, que somente acessam uma fração insignificante das riquezas geradas pelo trabalho social.

Os desequilíbrios não podem ser corrigidos sem uma ruptura com a lógica do capital. O capital é uma força social inerentemente incontrolável e submete ao seu controle todas as demais relações sociais. Não é possível impor restrições às atividades das grandes corporações capitalistas. Não existe Estado ou legislação capaz de impedir essas corporações de seguir explorando a natureza de forma irracional. Não existe pressão dos consumidores capaz de forçar as empresas a produzir de forma ambientalmente responsável A competição entre as empresas e a corrupção das instituições que teriam o papel de fiscalizar suas atividades abrem as portas para novas transgressões a cada remendo imposto pela pressão social.

Para restaurar o equilíbrio natural e reverter os graves danos já causados é preciso ao mesmo tempo reverter a lógica que dirige o emprego das forças produtivas sociais, direcionando-as para o atendimento das necessidades humanas. É preciso estabelecer racionalmente o que a humanidade precisa produzir e de que forma isso pode ser produzido sem afetar a capacidade do planeta de seguir fornecendo indefinidamente os recursos de que necessitamos. Ao invés de produzir a infinidade de objetos inúteis em que estamos entulhados, o trabalho social passaria a produzir aquilo de que os seres humanos realmente precisam para viver. Isso por si só já teria grande impacto na reversão dos danos ambientais.

Mas isso só é possível com o fim do trabalho alienado, ou seja, com a conquista do controle dos trabalhadores sobre seu tempo e seus instrumentos de trabalho. Para isso é preciso romper com a propriedade privada dos meios de produção e com a divisão da sociedade em classes. Somente uma humanidade sem classes pode se relacionar de forma racional com seu trabalho, direcionando seu tempo e recursos para produzir aquilo que realmente é necessário e considerando o equilíbrio da natureza e a continuidade da vida. Ao mudar a relação do homem com o trabalho, muda-se também a relação com a natureza.

Para a natureza é indiferente que o planeta seja habitado por seres inteligentes ou por bactérias, pois o planeta seguirá seu curso em torno do sol, quer sejam os homens os seus passageiros ou sejam os microorganismos. Para o homem, entretanto, a preservação de certas condições indispensáveis para a sua sobrevivência, como ar respirável, água potável, terras férteis, temperaturas suportáveis, etc., deve ser resultado de sua ação consciente e coletiva. Essa ação passa necessariamente pela revolução social, pela superação da lógica do capital e pela construção do socialismo, único regime capaz de devolver ao homem o controle sobre seu trabalho, sua humanidade e sua relação racional e sustentável com a natureza.

Quando até mesmo um filme de Hollywood coloca em cena heróis em luta contra uma típica empresa imperialista, isso representa, como dissemos uma vitória política do ambientalismo. Mas o ambientalismo tal como é praticado pelas ONGs e movimentos ecológicos padece de um sério limite, que é o mesmo limite em que se encerra o filme "Avatar", ou seja, uma defesa abstrata da natureza e um repúdio também abstrato da técnica e da "civilização industrial" Ora, o problema da humanidade não está no excesso de técnica, mas no fato de que toda a tecnologia existente é propriedade de uma minoria de capitalistas, ao invés de servir à maioria, que são os trabalhadores.
Cedo ou tarde a humanidade terá que acordar, como o protagonista de "Avatar" Ou a classe trabalhadora se levanta e destrói o capitalismo ou o capitalismo destruirá o planeta.



Daniel M. Delfino
01/03/2010

9.2.10

Saia justa no centro do Espetáculo




O espetáculo e os fatos

No clássico “Sociedade do Espetáculo”, de 1967, Guy Debord identifica um salto de qualidade nos mecanismos de mistificação ideológica, por meio do qual se criou uma esfera que concentra em si toda a representação do mundo, substitui a representação real, impede a manifestação do real e impõe o domínio da falsificação. É a essa esfera que Debord denomina espetáculo. Não se trata de uma simples explosão quantitativa do volume de produção e influência da indústria cultural e dos meios de comunicação, mas da conformação de toda uma estrutura que permeia de alto a baixo as relações sociais, da cultura até a política.

A característica central do mundo do espetáculo é a falsificação. O inautêntico se impõe como verdade e bloqueia a aparição do autêntico. Todas as relações sociais trazem a marca da encenação, do inautêntico, do falsificado. O fetichismo da mercadoria se concretiza como império da imagem, da narrativa e da encenação. Tudo é performance e nada é ação. De cada um se espera que cumpra o seu papel.

A ruptura com a ordem espetacular exigirá a ação coletiva e a afirmação de indivíduos reais capazes de estabelecer relações autênticas. As rupturas parciais, que não afetam em profundidade a ordem do capital, acabam sendo assimiladas pela lógica do espetáculo. Os fatos são deglutidos pelos factóides. A função do espetáculo é sobrepor-se ao fato e torná-lo incompreensível, ou pior do que isso, inacessível à consciência.

O recente fato acontecido na faculdade Uniban e sua transformação em espetáculo expõe/oculta várias camadas de falsificação nas quais estão enredadas as relações sociais na atual etapa histórica de capitalismo mundializado e em plena crise estrutural.

No dia 22 de outubro de 2009 uma estudante do curso de turismo da faculdade Uniban, do campus de São Bernardo, foi vítima da agressão de centenas de colegas por estar usando um vestido curto. Geisy Arruda foi cercada por gritos, xingamentos, ameaças de estupro, e teve que sair da faculdade escoltada por policiais. As cenas da agressão vazaram para a internet e se tornaram domínio público. O incidente ganhou as proporções de um escândalo e se transformou em assunto nacional.

As engrenagens da indústria cultural digeriram implacavelmente mais esse incidente, encaixando-o por fim no script pré-fabricado da moça-pobre-injustiçada-que-consegue-15-minutos-de-fama-e-desaparece. Conforme o interesse do público na celebridade-mercadoria do momento arrefece, um novo episódio-escândalo-entretenimento passa a ser demandado para se tornar o assunto público. Por conta de mecanismos como esse, é provável que o destino de mais essa celebridade instantânea seja o mesmo de outros “famosos descartáveis” que retornam para o anonimato de onde nunca deveriam ter saído tão logo o interesse do público é dirigido para outro foco. Por trás do giro interminável das máquinas desse show de horrores e espuma sem conteúdo, se desenvolvem tendências que revelam mutações no estado ideológico da sociedade. São essas tendências que devemos examinar mais atentamente.

O fato e o contexto

No momento da sua maior audiência, as proporções do escândalo na Uniban foram amplificadas pela atitude da própria direção da faculdade, que puniu a vítima com a expulsão. A maioria dos alunos apoiou a expulsão, mesmo os que não participaram da agressão. A repercussão negativa contra a expulsão foi geral. A resposta contou com pressões vindas até do Ministério da Educação, que forçou a faculdade a voltar atrás e readmitir a estudante. Mas o estrago já estava feito. A Uniban já havia ganho o apelido de “Unitaliban”, por ser intolerante, ou “Unibambi”, por não gostar de mulheres com roupas curtas. Empresas começaram a recusar currículos de estudantes vindos dessa faculdade (e coloca-se a seguinte interrogação: os currículos provenientes da Uniban estão sendo recusados porque o incidente mostrou que os seus estudantes e dirigentes são intolerantes? Ou porque mostrou que seus estudantes se parecem com a vítima em questão? Ou as duas coisas ao mesmo tempo?).

Vejamos mais de perto o que é de fato a Uniban. Trata-se de um simulacro de faculdade em que se vende uma mercadoria, um simulacro de educação superior, produto certificado por um diploma, cujos compradores acreditam que servirá como via de acesso para uma carreira, uma profissão na qual se projetam as esperanças ilusórias de sucesso material e acumulação de riqueza (capital em reprodução ampliada), processo que é apresentado como sendo o ápice da realização humana, ou seja, o ideal de felicidade em nossa época.

Os clientes da loja de diplomas da Uniban são oriundos da pequena-burguesia e de estratos superiores da classe trabalhadora. Eventualmente, alguns filhos de camadas mais baixas do proletariado conseguem ingressar também na faculdade, à custa de grande esforço pessoal e familiar. É o caso da própria Geisy, moradora de um bairro periférico de Diadema, filha de pais trabalhadores braçais e ela própria balconista de uma loja. Quanto à burguesia, esta evidentemente tem suas vagas garantidas nas instituições universitárias públicas, nas quais ainda se pratica algo semelhante ao ensino superior real, e nas quais um número muito menor de integrantes das classes subalternas consegue penetrar.

Todos enxergam a faculdade como uma via para a ascensão social, não porque a instituição universitária oferece algum conhecimento real sobre o mundo, mas porque fornece um verniz de “formação profissional” devidamente certificado pelo diploma, que é na realidade o objetivo final. Os professores, as aulas e o conhecimento em si são na verdade obstáculos que se interpõem entre os compradores (supostamente estudantes) e o vendedor (supostamente uma faculdade) numa transação comercial ordinária. Isso tudo é sintetizado por uma piada célebre nas faculdades particulares: “os alunos querem comprar o diploma, a faculdade quer vender, e o professor é o obstáculo no meio do caminho”.

A irritação dos estudantes da Uniban com a sua colega se deve ao fato de que a repercussão negativa desvalorizou a mercadoria em que estão empenhando seu tempo e dinheiro, o ambicionado diploma, que agora se transformou em uma mancha em seus currículos. Por isso houve grande apoio dos estudantes à tentativa de expulsar Geisy por parte da reitoria, a qual, por sua vez, estava também tentando preservar a atratividade da mercadoria que está vendendo, movimento que acabou saindo pela culatra.

Quanto a Geisy Arruda, o incidente a arremessou no redemoinho da indústria de celebridades, o mundo das revistas de fofocas e programas de TV que vivem de expor a intimidade (combinada com o exibicionismo calculado) de modelos, artistas de TV, esportistas, empresários, políticos, arrivistas, aventureiros, alpinistas sociais e oportunistas de todos os tipos. A indústria do entretenimento é sempre bastante ágil na busca de carne fresca para oferecer ao apetite do público. Geisy foi cotada para revistas masculinas, filmes pornô e desfiles de escola de samba.

Do ponto de vista do público espectador do espetáculo, Geisy deve fazer exatamente o que a indústria espera que ela faça, ou seja, aproveitar sua exposição na mídia para faturar. Se alguém fica famoso, é porque quer ganhar algum dinheiro em cima disso, raciocina o público. A narrativa-padrão em que o episódio está sendo encaixado inverte a ordem dos fatos, transformando a vítima em autora de alguma espécie de golpe. A estudante teria provocado o incidente propositalmente para obter algum tipo de notoriedade, a partir da qual poderia extrair algum lucro. O investimento da mulher em seu corpo-mercadoria (academia, salão de beleza, roupas e acessórios) deve obter seu retorno. Não há outro comportamento a se esperar da mulher que não o de encontrar alguma forma de vender seu corpo (ver textos do blog maçãs podres de 5, 8 e 15 de novembro de 2009 – http://nucleogenerosb.blogspot.com/).

A lógica da mercadoria e a ética de Big Brother

O instinto comercial e o pragmatismo explicam as reações da comunidade da Uniban a posteriori e também a interpretação do público sobre o comportamento de Geisy. Mas o que explica o fato em si na sua origem, ou seja, a agressão que vazou para a internet e se transformou em escândalo? Por que Geisy foi hostilizada a ponto de precisar de proteção policial? O que há de tão extraordinário no vestido curto? Não se trata do mesmo tipo de traje que todos estão acostumados a ver nas ruas? E mais, não estão todos acostumados a ver mulheres com muito menos roupa a cada minuto na televisão? Os estudantes da Uniban são simplesmente machistas? São talibans ou bambis que não gostam de mulheres com pouca roupa? A juventude retrocedeu para antes dos anos 60, antes da chamada “revolução sexual”, e se tornou conservadora?

Essas hipóteses são parcialmente verdadeiras, mas o conservadorismo puro e simples não explica todo o fenômeno. Há algo mais sinistro do que puro e simples conservadorismo tradicional em cena. Esse exemplo de proto-fascistização da juventude não é um fato isolado, e é produto de certos aspectos peculiares da situação histórica em que vivemos e suas correspondentes narrativas ideológicas.

A forma-mercadoria é a célula básica da sociabilidade burguesa e matriz de todas as relações sociais. O sexo é também uma mercadoria, algo que as mulheres devem vender (tornando-se atraentes, ao custo de grande sacrifício, e ao mesmo tempo seletivas, repelindo os homens, exigindo provas de compromisso e viabilidade material em troca de oferecer seu corpo aos vencedores) e os homens devem comprar (prometendo casamento, fidelidade e estabilidade material, provando que são economicamente capazes de prover um lar de contos de fadas). Toneladas de moralismo religioso, ideologia romântica e hipocrisia social costuram essa relação entre matrimônio e patrimônio, colaborando para a imposição do consumismo como razão de viver, elemento fundamental do conformismo geral que anestesia os trabalhadores na sociedade capitalista.

No mundo da vendabilidade universal, as mercadorias devem ser trocadas pelo seu valor equivalente. Essa lei absoluta da esfera da circulação foi de alguma forma transgredida pela estudante de turismo ao expor seu corpo daquela forma, o que explica a reação das demais concorrentes no mercado. Geisy teria supervalorizado seu corpo-mercadoria, buscando se sobressair na competição por meios espúrios. Ela “apelou” ao usar o traje que foi pivô da agressão, e foi punida por ter saído do seu “devido lugar”. A lógica social que motivou a agressão mistura repressão sexual, machismo, discriminação (elementos do velho conservadorismo) e uma nova espécie de ética mercadológico-comportamental. Esse fascismo de mercado aparece no nível das consciências por meio de uma “ética de Big Brother”, e aqui nos referimos não ao personagem do “1984” de Orwell, mas ao do programa de TV (embora este seja indubitavelmente uma das faces contemporâneas daquele).

O Big Brother da TV sintetiza a concorrência entre os indivíduos na competição por exposição no mercado. Os participantes do jogo são julgados pelos espectadores, que aprovam ou rejeitam as estratégias por meio das quais os jogadores tentam se destacar: há os “bad boys”, os “santinhos”, os “manipuladores”, etc. Os critérios pelos quais os espectadores julgam essas estratégias para escolher os vencedores do show são os mesmos pelos quais esses mesmos espectadores são julgados numa dinâmica de grupo ou numa entrevista para vaga num emprego. É preciso ser ao mesmo tempo firme e humilde, ousado e contido, autêntico e comedido, etc. Uma série de exigências comportamentais contraditórias desafiam os participantes, sempre em busca de um equilíbrio impossível entre estratégias de competição simultâneas e mutuamente excludentes. O Big Brother da TV é a forma dramática condensada do ambiente das agências de emprego (ver o texto “My Big Brother” – http://politicapqp.blogspot.com/2007/05/my-big-brother-o-crtico-de-cinema-da.html em que se desenvolve essa interpretação e se dá o devido crédito ao autor).

A geração de universitários educados pelo Big Brother vivencia as faculdades particulares como uma ante-sala da empresa, com visual de shopping center e códigos morais de agência de emprego. Existem regras por meio das quais os estudantes-clientes devem “vender seu peixe”. Dentro dessa lógica, Geisy teria adotado a estratégia de se vender como mulher-que-tem-o-controle-sobre-seu-corpo-e-faz-com-ele-o-que-quiser. Essa estratégia lhe foi negada pelas demais estudantes, que se sentiram lesadas na concorrência.

O script do fascismo de mercado

A mulher que usa um traje nos moldes do fatídico vestido vermelho é socialmente interpretada tanto pelos homens como pelas outras mulheres como estando “disponível para o sexo”. E aqui é irrelevante determinar se esse estereótipo é ou não compatível com a pessoa em questão. Não importa se Geisy tem um comportamento sexual livre (o qual no caso das mulheres é socialmente valorado de forma negativa e estigmatizado com epítetos como o de “vagabunda”, “vadia”, “galinha”, “puta”, etc.) autêntico e saudável ou se apenas deseja aparentar que o tem. Não importa se se trata de um comportamento real ou de simples aparência, mesmo que a aparência signifique a opção por uma estratégia de exposição que é também uma expressão de alienação e desejo de aparentar algo que não é (um padrão de beleza e comportamento que por sua vez constitui uma submissão a imperativos sociais de dominação impostos sobre as mulheres). Não importa porque não se pode conceder aos seus agressores o direito de reprimir aquilo cuja aparência não lhes apraz.

Isso seria o mesmo que dizer que ela mereceu a agressão, porque provocou, assim como as mulheres que são estupradas provocaram os criminosos por despertarem seu desejo; ou os torcedores que são vítimas dos elementos fascistas nas torcidas organizadas mereceram apanhar porque foram pegos “vacilando” com a camisa de uma agremiação rival no campo esportivo; ou ainda os jovens “emos” mereceram ser agredidos pelos carecas do ABC porque se atreveram a adotar um determinado visual que não os agrada; e assim por diante. Não se pode ser tolerante com a intolerância e o fascismo, e nesse sentido a reação das organizações de esquerda e movimentos de defesa das mulheres foi correta ao organizar manifestações de repúdio contra a faculdade Uniban (embora a compreensão real das organizações de esquerda sobre os elementos psicossociais profundos aqui discutidos seja nula).

Voltando pois ao incidente. As demais estudantes da Uniban negaram a Geisy o direito de se vestir como lhe aprouver. Ela não tem esse direito porque pertence a um estrato mais baixo da classe trabalhadora, porque é filha de migrantes nordestinos, porque não se encaixa no padrão de beleza ariano-anoréxico vigente, porque não é uma autêntica patricinha sarada e malhada, mas alguém que “indevidamente” ousa aparentar sê-lo. O fato de que ela queira aparentar sê-lo é sem dúvida uma expressão da miséria cultural da qual ela é produto e da falta de alternativas da juventude, mas nem por isso os seus agressores tem o direito de perseguí-la, pois isso expressa uma degradação muito mais perversa. Além de tudo, trata-se também de preconceito de classe e racismo. Geisy se atreveu a aparentar distintivos de inserção social que são vedados a sua classe social. Ao proceder dessa forma, ela supervalorizou sua mercadoria no cenário do Big Brother universitário capitalista.

Para que fique bem claro, repetimos o que viemos dizendo nos parágrafos anteriores: a agressão partiu de colegas do sexo feminino (conforme os relatos mais detalhados que circularam depois do escândalo – ver por exemplo http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2088/artigo156256-1.htm). Depois que as mulheres perseguiram Geisy, vieram seus namorados e afins, e depois desses toda a massa que apenas gosta de ver o circo pegar fogo e aproveita qualquer ruptura da rotina para expressar desejos reprimidos e vontade de destruição (“estupra ela”, “vamos estuprar”, gritavam).

As mulheres reprimiram em Geisy aquilo que não tem coragem de expressar através de si mesmas, ou seja, o comportamento sexual livre insinuado pelo vestido vermelho. A transformação do recalcamento psicológico individual em força social repressiva é o mecanismo essencial da psicologia de massas do fascismo. Esse mecanismo hoje está a serviço de um pragmatismo mercadológico mesquinho que enquadra a juventude (uma força social contestadora décadas atrás) no roteiro dramatúrgico barato dos reality-shows, livros de auto-ajuda e manuais de administração de empresas, entre outras formas abjetas da apologética vulgar do capital. A seguir, cenas do próximo capítulo.

Daniel M. Delfino
09/02/2010

3.12.09

Ser militante hoje

O gênero e a espécie

Digito a palavra “militante” na ferramenta de buscas “GOOGLE” e me aparecem 351.000 resultados. Entre os 20 primeiros resultados, que correspondem aos registros mais visitados, encontro 9 links* que correspondem a uma acepção bastante peculiar da palavra militante.

Trata-se de manchetes de jornal que dizem respeito à luta armada contra as invasões dos Estados Unidos ao Iraque, Afeganistão e Paquistão ou contra a invasão da Palestina por Israel. Nessas manchetes se diz que “militantes” da Al Qaeda, do Talibã, do Hamas ou do Hizbollah enfrentaram as tropas invasoras ou praticaram atentados contra a presença imperialista naqueles países.

O que há de extraordinário nessas notícias?

Ora, até bem pouco tempo atrás, os grupos que praticavam a luta armada contra o imperialismo eram chamados de “terroristas”. Agora, são chamados de “militantes”. Essa mudança configura uma importante manobra ideológica que se realiza através de uma inversão semântica do gênero pela espécie.

O indivíduo que pratica a luta armada, seja sob a forma de guerrilha ou de terrorismo, é certamente uma espécie de militante. Pode-se discordar politicamente do terrorismo como tática adequada a determinado momento histórico ou determinada situação da luta (a esmagadora maioria dos marxistas revolucionários, este autor incluído, discorda), mas é preciso conceder que se trata de um tipo de militância. Mas se todo terrorista é de certa forma um militante, nem todo militante é obrigatoriamente um terrorista. Aí está o “X” questão. É essa distinção que está sendo apagada pela operação semântica em andamento na mídia burguesa, com um objetivo ideológico bastante preciso.

O terrorismo é quase universalmente repudiado como tática de luta política, não apenas pela hoje restrita confraria dos marxistas revolucionários, mas por todas as frações da classe trabalhadora. Infelizmente, os trabalhadores em geral não repudiam o terrorismo por ter o mesmo entendimento que os marxistas revolucionários a respeito do que ele significa, ou seja, por ser uma tática contraproducente na luta contra o capital. O proletariado repudia o terrorismo porque a sua consciência, em quase todas as questões, da moral e da estética até a política, segue a ideologia burguesa. Entre as outras classes sociais, a burguesia evidentemente condena publicamente o terrorismo contra o capital, mas se omite quanto ao terrorismo de Estado praticado sistematicamente para reprimir as lutas contra a sua dominação. O terrorismo de Estado é chamado de “defesa da segurança nacional”, enquanto que o terrorismo contra o capital recebe todo o repúdio possível e imaginável.

É justamente esse repúdio que a mídia burguesa quer capitalizar. Assim, quando se chamam os combatentes terroristas de “militantes”, o objetivo é chamar os “militantes” de terroristas. E com isso, jogar o repúdio moral que acompanha a forma particular de ação que é o terrorismo sobre os militantes em geral, qualquer que seja a sua prática. A mídia burguesa quer associar a palavra “militante” à imagem do terrorista. O militante será visto pelo trabalhador com desconfiança, por causa dessa associação subliminar com o terrorismo. Quando um trabalhador ouvir a palavra “militante”, ele não vai pensar na figura do militante em geral, mas na figura particular do terrorista. E qualquer que seja a ação militante de que esteja se falando, a carga de repúdio que acompanha a figura do terrorista estará inconscientemente associada a essa ação.

A crítica das armas

Essa manobra ideológica recente da mídia burguesa é apenas mais um dos golpes na imagem já bastante desgastada dos militantes. A figura do militante tem estado com o prestígio bastante em baixa nos últimos tempos, por causa do descrédito em que caiu a luta contra o capital. Mas para esse descrédito contribuiu também uma série de práticas das próprias organizações políticas militantes que só tem contribuído para afastar os trabalhadores da luta contra o capital. Isso exige uma profunda revisão metodológica, teórica, moral, comportamental, discursiva e operacional por parte da esquerda para que o marxismo revolucionário volte a ser ouvido pelos trabalhadores e possa passar da “arma da crítica” à “crítica das armas”.

A respeito dessa revisão falaremos logo adiante. O que importa desenvolver aqui é a questão da crítica das armas. Há também uma distinção importante entre terrorismo e guerrilha ou insurreição, pois há tipos de luta armada que não necessariamente envolvem o terrorismo (e não necessariamente são condenados pelos marxistas revolucionários, este autor inclusive). Mas esta segunda distinção também é sistematicamente apagada pelo amálgama semântico característico da ação ideológica da mídia burguesa.

A luta contra o capital não dispensa o momento do enfrentamento físico contra o capital e o Estado burguês, ou seja, a crítica a ser exercida por meio das armas de que fala a célebre frase de Marx parafraseada acima. Isso está longe de significar que ser militante seja o mesmo que ser terrorista. A “crítica das armas” não é a ação isolada de indivíduos que matam indiscriminadamente e permitem com isso que a burguesia obtenha a legitimidade ideológica para as formas mais espúrias de repressão, como acabamos de presenciar por ocasião da resposta de Bush ao 11 de setembro. A “crítica das armas” é a ação política coletiva consciente e organizada do conjunto da classe trabalhadora contra o capital, que precisará envolver algum tipo de luta armada, mesmo porque a burguesia jamais vai abrir mão dos seus privilégios pacificamente, sem luta, e seu instrumento, o Estado burguês e seu aparato repressivo (forças armadas, polícia, órgãos de espionagem, etc.), não se dissolve sozinho.

Para chegar até essa verdadeira “crítica das armas”, até esse tipo de ação coletiva consciente e organizada da classe, a arma da crítica precisa ser radical, ou seja, “tomar as coisas pela raiz, e a raiz do homem é o próprio homem”, prossegue Marx. A esquerda marxista revolucionária não tem sido capaz de chegar a essa raiz do homem, ao entendimento do que é a condição do homem hoje.

Queimando o filme

Os militantes de esquerda vivem hoje numa condição social apartada da classe que dizem representar e que pretendem liderar. Vivem instalados em cargos no aparato do Estado, dos sindicatos, das universidades, das ONGs e dos partidos. E não são apenas as correntes reformistas (que negam a necessidade da revolução para abolir o capital), mas também os revolucionários, que adotam essa prática de afastar os seus melhores quadros e empregá-los vitaliciamente em atividades superestruturais. Quando não acontece a capitulação aberta, como no caso dos reformistas, que se transformam em co-gestores do capital ao lado da burguesia, há um processo objetivo de burocratização que desvincula esses militantes da realidade da classe.

No caso das correntes revolucionárias, onde não acontece a burocratização, vigora um sectarismo feroz, uma disputa autofágica e suicida pelo controle dos aparatos do movimento (sindicatos e demais entidades), que apenas resulta em asfixia do próprio movimento. Tendo como foco a disputa pelos aparatos, as organizações de esquerda adotam um discurso que fala apenas a quem já é militante, cada uma tentando parecer mais revolucionária que a outra. Esse discurso não diz nada aos trabalhadores de carne e osso, e as práticas de disputa não contribuem para trazê-los para a luta.

De um lado, a burguesia constrói um cenário ideológico em que o militante se torna sinônimo de terrorista, ou de criminoso, baderneiro, cão raivoso, lunático, etc. De outro lado, as práticas correntes na própria esquerda impõem aos militantes a desgastante tarefa de conviver com organizações que concebem a militância como disputa, uma disputa em que vale tudo, todos os tipos de golpes e manobras para desacreditar as organizações “rivais” perante o público. O público, que é o restante da classe trabalhadora nesse caso, está completamente alheio a esse patético e mesquinho espetáculo, que parece não lhe dizer respeito.

Além das dificuldades de se enfrentar a burguesia e todo seu gigantesco aparato de repressão e controle ideológico, composto pelo Estado, a mída, as igrejas, os burocratas, etc., os militantes ainda precisam enfrentar o obstáculo que é a postura das próprias organizações de esquerda. É um desafio imenso fazer parte de uma organização militante e participar da luta de classes sem se deixar absorver pela disputa de tipo fratricida em que estão mergulhadas as demais organizações.

Outro obstáculo consiste em vencer a desconfiança dos trabalhadores em relação às organizações de esquerda, cujos vícios sectários, rivalidades “futebolísticas”, apego aos cargos e aparatos e discursos “alienígenas” transparecem de maneira cristalina para qualquer trabalhador.

Colaborando para alimentar essa desconfiança, de resto bastante justificada, existe ainda o discurso de um setor dito “independente” que se recusa a participar das organizações políticas militantes porque não são democráticas, cerceiam a criatividade, reprimem a liberdade do indivíduo, etc. Esse discurso contém uma parcela de verdade, uma vez que a maior parte das organizações de esquerda são de fato autoritárias, têm um funcionamento interno burocrático, lideranças vitalícias, separação entre dirigentes que fazem o trabalho intelectual e deixam o trabalho braçal para os militantes, etc. Entretanto, a resposta contra isso, ao invés da postura independente, que leva à dispersão e ao imobilismo, deveria ser a busca por novas formas de organização, por novas experiências coletivas, novos métodos de ação, nos quais se pudesse empregar toda a criatividade, desejo de liberdade e vontade de se manifestar. Isso contribuiria enormemente para oxigenar e revitalizar a luta contra o capital.

Além disso, não há nada mais anti-democrático, autoritário, repressivo, tedioso, odioso, anti-humano, do que a própria sociedade burguesa. Deixar de lutar contra essa sociedade porque a esquerda atual é tosca, mambembe e anti-democrática é uma contradição. Para revolucionar a sociedade, é preciso revolucionar a própria esquerda. O contrário disso seria aceitar a alienação e a desumanização que a ordem do capital impõe.

Nadando contra a corrente

O militante é a pessoa que não aceita a alienação, apesar das dificuldades hoje envolvidas nas várias dimensões da luta contra o capital. Confrontado com essas dificuldades, o militante não tem outra alternativa a não ser militar. A recusa da ordem estabelecida não é um ato individual, nem tampouco uma simples opinião intelectual. Ser militante é tomar parte ativa e prática na luta coletiva, organizada e consciente contra o capital. É negar todos os tipos de exploração, opressão, repressão, dominação, manipulação, hierarquização, falsificação e mentira que caracterizam a sociedade burguesa. É questionar, recusar, discutir, pensar, criticar, propor, elaborar, inventar, participar, arregaçar as mangas, construir e se auto-construir. É tentar construir hoje o homem de amanhã: um indivíduo ativo, criativo, crítico, consciente, que estuda, debate, se expressa, não se cala, grita, chora e ri ao lado de seus irmãos de luta e de classe. É construir uma outra forma de vínculo humano, em que não há interesse material ou mercantil, um vínculo em que o indivíduo se realiza por meio do coletivo e vice-versa, uma relação de companheirismo, camaradagem, confiança, honestidade, verdade.

Ser militante é lutar contra a exploração econômica, o trabalho assalariado, a propriedade privada, o poder político, as instituições do Estado, as mentiras das igrejas, as armadilhas da ideologia dominante, os preconceitos, o racismo, o machismo, o patriarcado, o moralismo, a hipocrisia, a moda, os comportamentos fabricados, o tédio, a cultura enlatada, o estranhamento que impede os seres humanos de se olharem nos olhos uns dos outros e se verem no espelho. São milênos de alienação a serem combatidos, com a crítica da armas e as armas da crítica.

Daniel M Delfino, militante do Espaço Socialista (http://www.espacosocialista.org/)
15/11/2009

*Resultados da pesquisa no GOOGLE:

Folha Online - BBC Brasil - Militante promete se entregar e se ...
28 Ago 2009 ... O homem-bomba era um militante procurado pela polícia que tinha dito que queria se entregar pessoalmente ao príncipe, que é responsável pela ...
http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u616089.shtml

Indonésia confirma que militante mais procurado do país continua ...
12 Ago 2009 ... Testes de DNA revelaram que homem morto no sábado não era Noordin Mohammed Top.
www.estadao.com.br/.../internacional,indonesia-confirma-que-militante-mais-procurado-do-pais-continua-vivo,417296,0.htm

Detido militante do Fatah al-Islam que fugiu ontem de prisão ...
O Exército libanês deteve hoje o militante do grupo islamita Fatah al-Islam, identificado como Taha Al-Hajj Suleiman, que fugiu ontem da maior prisão do ...
br.noticias.yahoo.com/.../politica-detido-militante-fatah-al-islam.html - Em cache - Similares
http://br.noticias.yahoo.com/s/19082009/40/politica-detido-militante-fatah-al-islam.html

CONTROVÉRSIA (Blog) » Paquistão se aproxima de acordo com ...
6 Ago 2008 ... Um acordo provisório de 15 pontos, que foi mostrado ao “The New York Times”, requer o fim da atividade militante e a libertação de ...
http://blog.controversia.com.br/2008/08/06/paquistao-se-aproxima-de-acordo-com-principal-militante-radical/

Although US ally Pakistan is battling militants in its northwest it officially objects to the US strikes by pilotless aircraft, saying they are a violation ...Reuters - artigos relacionados 582 »
http://www.reuters.com/article/latestCrisis/idUSISL484580

Kashmir Militant Extremists - Council on Foreign Relations - [ Traduzir esta página ]
A profile of militant extremist groups in the disputed Himalayan region of Kashmir.
http://www.cfr.org/publication/9135/

Indonesia believes top militant dead, thwarts attack Reuters - [ Traduzir esta página ]
8 Aug 2009 ... KEDU, Indonesia (Reuters) - Indonesian police shot dead a man suspected to be leading Islamic militant Noordin Mohammad Top after an 18-hour ...
http://www.reuters.com/article/topNews/idUSTRE57631P20090808

Al Qaeda's second-in-command called on Pakistanis to back Islamic militants in the country's tribal areas against what he called an ongoing assault by ...
http://www.cnn.com/2009/WORLD/asiapcf/08/28/pakistan.al.qaeda.video/index.html

Prince on call with militant during attack - Mideast/N. Africa ... - [ Traduzir esta página ]
1 Sep 2009 ... The Saudi militant who attacked the kingdom's anti-terror chief after pretending he wanted to surrender blew himself up while the official ...
http://www.msnbc.msn.com/id/32649250/ns/world_news-mideastn_africa/

OBS: pesquisa realizada em setembro de 2009.

25.11.09

O culto ao nazismo nas bancas de jornal



Uma rápida olhada nas bancas de jornal no mês de julho de 2009 revelou a ocorrência de um fenômeno editorial bastante significativo. Há um “boom” de publicações voltadas para a II Guerra Mundial, para o nazismo em especial, e para a figura de Hitler em particular.

Vejam-se os seguintes títulos:

- II Guerra Mundial – Edição Ilustrada – Campos de Concentração – A estratégia de extermínio de Hitler – Holocausto – Organização do Partido – Campos de concentração – Ed. Escala.

- Especial 70 anos da II Guerra – Grandes guerras – Tudo de novo no front – Dia D minuto a minuto – Ed. Abril.

- Coleção Battlefield – Aventuras na história – DVD – As maiores batalhas da II Guerra numa só coleção – A batalha da Grã-Bretanha - Ed. Abril.

- Stalingrado, um duelo mortal entre Hitler e Stalin – Aventuras na história – DVD – A batalha mais dramática da II Guerra Mundial – Ed. Abril.

- Hitler, simbologia e ocultismo – A história secreta do ditador – Anticristo, Lança de Longinus, Suástica, Nazismo, Forças Ocultas – Ed. Escala.

- Segunda Guerra – A história oficial e seus heróis anônimos – Ed. Universo dos livros.

- História revelada – A lança sagrada de Hitler – Os segredos do nazismo – Origem, filosofia, história, influência, simbologia – Ed. Universo dos livros.

- História ilustrada do nazismo – O poder e as conseqüências – 1933 – 45 – Vol. 2 – Ed. Larousse.

- Atlas II Guerra Mundial – Alemanha vs. Inglaterra – Livros Escala.

- História viva – 70 anos da Guerra Civil Espanhola – Ed. Duetto.

- Edição totalmente ilustrada – HOLOCAUSTO - A estratégia de purificação racial de Hitler – Ed. Escala.

- Hitler e os segredos do nazismo – Vol. 1 – Ed. Universo dos livros.

Aparentemente, isso pode significar uma simples curiosidade “inocente”, um interesse neutro pelo conhecimento histórico. Pode haver uma flutuação cíclica do interesse do público leitor, que vai de temas como o nazismo a outros fenômenos históricos, como as cruzadas ou o império romano. Entretanto, a continuidade dessa observação nos meses seguintes demonstrou a consistência do fenômeno. As publicações sobre o nazismo e Hitler continuaram “em cartaz”, e novas publicações apareceram.

Além disso, um exame mais cuidadoso dos títulos revela também que não se trata de simples curiosidade histórica ou interesse neutro. Títulos como “os segredos do nazismo”, “a mitologia”, “a simbologia”, “a filosofia”, “as sociedades secretas e o nazismo”; não têm nada de inocente ou neutro. São títulos pensados para tornar o objeto mais atraente. Disfarçadamente, o sensacionalismo esconde uma apologia do objeto, ajudando a alimentar o fascínio e o mistério.

Para completar, deparamo-nos com a quase total ausência de um contraponto ideológico a essa avalanche de lançamentos sobre o nazismo. Há um ou outro lançamento sobre Ernesto Che Guevara (ver por exemplo: Superinteressante – Aventuras na história – 50 anos da Revolução comunista – Cuba e Che – revista e DVD – Ed. Abril), e se bem que o Che sempre tenha sido um “fenômeno de vendas”, fato cujo significado ideológico também merece uma boa discussão, há uma esmagadora prevalência da direita sobre a esquerda nas bancas de jornal.

Estamos diante de um verdadeiro culto ao nazismo. É certo que não se pode julgar o livro pela capa. Seria preciso fazer o exame detalhado de cada uma dessas publicações para verificar a linha política que defendem. Certamente, nenhum autor ou editora cometerá a sandice de fazer uma apologia aberta do nazismo. Entretanto, independentemente do conteúdo, a simples aparição desse fenômeno editorial é ideologicamente significativo. As publicações podem até mesmo ser academicamente corretas ao mostrar as atrocidades que o nazismo cometeu, os campos de concentração, etc., mas isso funciona apenas como cobertura para uma apologia indireta do fenômeno. Há um gosto sádico no inconsciente coletivo sendo alimentado por esse tipo de mercadoria “inocente” irresponsavelmente cultivado pela indústria editorial. Para bom entendedor, meia palavra basta. É preciso saber tirar as conclusões políticas desse sinistro fenômeno ideológico em processamento nas profundezas da consciência social.

O aparecimento desse “boom” editorial, se não configura uma apologia explícita do nazismo, pode bem significar uma espécie de culto disfarçado. Se não há uma crítica e uma denúncia do nazismo, uma explicação do seu papel histórico de alternativa extrema da burguesia alemã em face da Grande Depressão, etc., a compreensão fica prejudicada. O leitor desavisado pode ser seduzido pelo apelo do visual, da simbologia, da sofisticada hierarquia do partido nazista, da disciplina, da ordem, da determinação “heróica”, do romantismo, etc.

Não basta a denúncia de que o nazismo exterminou milhões de judeus. É preciso explicar porque a burguesia alemã precisou do nazismo. Na década de 1930, o capitalismo desmoronava a olhos vistos e o desemprego atingia milhões de pessoas em todos os países ligados ao mercado mundial, desde os grandes impérios até as semi-colônias. Do outro lado havia o exemplo da União Soviética (mesmo sob o terror stalinista), com pleno emprego, industrialização e melhoria nas condições de vida. O movimento comunista internacional era uma ameaça concreta para a burguesia, pois mostrava uma alternativa palpável ao capitalismo em plena crise.

O nazismo cresceu explorando exatamente a divisão entre o stalinismo e a social-democracia. As duas principais forças da esquerda não se unificaram para combater a ascensão do nazismo e foram derrotadas nas disputas de rua no início da década de 1930. Hitler construiu um exército com bandos de lúmpens para espancar militantes de esquerda e aplastar sindicatos. Com isso o nazismo tornou-se alternativa para a burguesia alemã. A burguesia francesa e inglesa considerava a revolução socialista uma ameaça maior do que o próprio nazismo. Isso permitiu o rearmamento do imperialismo alemão, que precipitou a guerra.

O nazismo matou milhões de judeus, mas não apenas isso. A II Guerra provocou a morte de dezenas de milhões de trabalhadores de várias nacionalidades, além de outros tantos milhões de feridos e desabrigados, da destruição de recursos e forças produtivas, fábricas, infra-estrutura e cidades inteiras. Foi somente sobre a base dessa destruição que o capitalismo pôde se reerguer da crise mundial iniciada em 1929.

Resgatar essa história (há muitos outros detalhes a serem esclarecidos) é importante no cenário marcado por uma crise econômica que é a mais séria desde a Grande Depressão. Se a Depressão provocou uma destruição do tamanho daquela da II Guerra, algo semelhante pode estar se preparando no nosso presente. Por mais que os ideólogos do sistema digam que a atual crise “está superada”, nenhum dos problemas estruturais do capitalismo foram resolvidos (e nem podem sê-lo dentro dos marcos desse modo de produção). O capital fictício transbordando no mercado financeiro, o endividamento dos Estados, a emissão descontrolada de moeda, o desemprego, etc., são legados dessa crise que continuarão durante vários anos. A burguesia pode responder à insatisfação social por meio da guerra. Basta escolher o adversário: o Irã, a Coréia do Norte, a Venezuela, etc., ou ainda o terrorismo, as drogas, a violência, o crime, etc.

Por isso, não é coincidência o reaparecimento de golpes de Estado, como em Honduras. Assim como não é coincidência o fenômeno editorial do culto ao nazismo. Diante do recrudescimento das ações da direita, nenhuma concessão pode ser feita, sob qualquer forma em que apareça, mesmo as mais aparentemente “inocentes” como publicações sobre o nazismo, ou as ameaças contra uma estudante na Uniban. A disputa ideológica contra a decadência capitalista e suas doentias manifestações proto-fascistas precisa ser feita em todas as dimensões, apontando as alternativas contra as crises, as guerras, a miséria e a barbárie em todas as suas formas, uma alternativa que só pode ser o socialismo.

Daniel M. Delfino
15/11/2009

6.11.09

Guerra é Paz, 2 + 2 = 5 e Lula é medalha de ouro



Guerra é Paz

No livro “1984”, obra máxima da ficção científica e clássico da literatura do século XX, George Orwell descreve uma distopia (utopia ao contrário), uma realidade de pesadelo em que uma ditadura brutal controla a vida da sociedade por meio de instituições cujos nomes estão invertidos em relação às suas verdadeiras funções. O órgão encarregado de fazer a guerra era chamado de Ministério da Paz, o da repressão policial de Ministério do Amor, o de falsificar a realidade, Ministério da Verdade, o do racionamento, Ministério da Fartura, e assim por diante. A prova de que vivemos hoje em pleno mundo orwelliano foi escancarada no mês passado.

Em meados de outubro de 2009 o presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama, foi agraciado pela academia sueca com o Prêmio Nobel da Paz de 2009. Por esses mesmos dias, o total de soldados estadunidenses mobilizados no Afeganistão chegou a 65 mil, somando-se aos 124 mil postados no Iraque para completar o total de 189 mil combatentes. Esse número ultrapassa os 186 mil mobilizados por Bush, o que faz do oblíquo Obama um presidente ainda mais beligerante do que o seu mundialmente odiado predecessor (isso sem falar na escalada de violência no Paquistão, na reativação da IV Frota no Atlântico, na expansão das bases militares na Colômbia, etc.). Um mundo em que um presidente abertamente beligerante é premiado com o Nobel da Paz é um mundo em que tudo está de cabeça para baixo.

Essa inversão orwelliana da realidade é uma demonstração das sutilezas ideológicas de que a burguesia é capaz para perpetuar sua dominação. A própria eleição de Obama em 2008 foi uma manobra para reciclar a confiança da população estadunidense e mundial na viabilidade do capitalismo, no momento mesmo em que o sistema vivenciava a eclosão da crise econômica mais séria em 70 anos. O discurso de mudança serviu exatamente para encobrir a continuidade do programa político dos setores sociais que controlam o país, a burguesia financeira, o complexo industrial-militar e a indústria do petróleo. A imagem do negro, uma minoria oprimida e superexplorada, serviu para difundir a ilusão de que as vítimas do sistema seriam contempladas na nova administração, quando na realidade se tratava também do oposto, o aumento da exploração sobre os trabalhadores. Quando precisou endurecer o ataque contra a classe trabalhadora estadunidense, a burguesia daquele país engendrou justamente um presidente no qual amplos setores do proletariado nutriam grandes esperanças, em especial os setores mais pobres e explorados, como os negros, latinos, imigrantes, mulheres e jovens.

Os números da economia e a ideologia burguesa: 2 + 2 = 5

Essa necessidade de atacar a classe trabalhadora não era apenas da burguesia estadunidense, mas do conjunto dos países imperialistas colocados no epicentro da crise econômica. A tendência histórica de queda da taxa de lucro inerente ao capitalismo precisa ser enfrentada por meio do aumento da exploração do trabalho, que no atual momento é feito nas condições de um mercado mundializado que permite aos capitalistas comprar a força de trabalho onde essa mercadoria se apresentar mais barata. Como reflexo disso, os trabalhadores enfrentam em nível mundial uma queda nos seus salários e uma deterioração nas suas condições de vida. Um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostrou que “o aumento dos salários médios no mundo caiu, passando de 4,3% em 2007 para 1,4% em 2008. Os dados indicam que mais de 25% dos 53 países analisados registraram queda ou estagnação salarial” (BBC Brasil, 03/11/2009). Dados como os índices de desemprego nos Estados Unidos, que chegaram a 9,8% em outubro (17% considerando os trabalhadores subempregados ou que deixaram de procurar emprego), também são bastante eloqüentes no que se refere a mensurar os efeitos da crise econômica sobre os trabalhadores.

Números como esses, pouco divulgados na imprensa burguesa, contrastam com os números bombasticamente anunciados por toda parte para alardear uma suposta recuperação da economia estadunidense e mundial, um ano depois da eclosão da crise econômica. O crescimento de 3,5% do PIB estadunidense no 3º trimestre de 2009, interrompendo um ano de queda, deveu-se ao impacto de gastos governamentais para estimular as empresas e o consumo, como o programa “cash for clunkers” - literalmente dinheiro por sucata - uma linha de crédito oferecida pelo governo para quem trocasse carros usados por novos. A injeção de dinheiro do Estado nas empresas explica a subida do índice S&P 500, que mede a valorização das 500 maiores empresas com ações listadas na bolsa, e elevou-se em 60% desde março. Outro índice importante, o Dow Jones, subiu 50% desde sua maior baixa no auge da crise.

Gastos do governo estadunidense em isenções fiscais, programas de estímulo, empréstimos, estatizações, emissão de títulos, etc., num total que alcança US$ 23 trilhões desde o início da crise, são os responsáveis pelos “green shots”, como são chamados os supostos sinais de que a economia estaria a caminho da recuperação. Quanto mais incapaz de compreender o funcionamento das crises econômicas capitalistas, mais a ideologia burguesa se vê forçada a negar a realidade da crise e se refugiar em dados fragmentados e de curtíssimo prazo para se auto-tranqüilizar. Dentro da lógica burguesa, se as grandes empresas estão tendo lucro e as ações estão em alta, não há crise. A vida concreta das pessoas, dos trabalhadores em especial, não existe, não merece consideração.

Mas há dados que até mesmo os ideólogos burgueses mais empedernidos serão forçados a encarar. A emissão massiva de dinheiro pelo governo estadunidense para reativar a economia trouxe um alívio temporário nos últimos meses, mas provocará um sério problema a médio prazo, na medida em que o enorme endividamento ameaça corroer o próprio valor da moeda. O dólar se desvalorizou em 47% em relação ao ouro no período de novembro de 2008 a novembro de 2009. A possibilidade de colapso do dólar como moeda de reserva mundial é apenas mais uma das conseqüências da atual crise, que portanto está longe de ser resolvida, por mais que a matemática burguesa queira nos fazer crer que tudo vai bem.

Medalha de ouro em traição de classe

A batalha ideológica em torno dos números da economia é parte do operativo ideológico geral por meio do qual a burguesia cotidianamente reforça a crença na inevitabilidade do capitalismo e na inexistência de alternativas a esse sistema. Além da figura-chave de Obama, um dos pilares desse operativo ideológico global de defesa do capitalismo está em nosso próprio país: o presidente Lula, que sobressai depois da crise com elevadíssimos índices de popularidade. O governo Lula executa uma partilha da riqueza social entre a burocracia estatal e os grandes grupos econômicos burgueses nacionais e estrangeiros, de um modo que sobram migalhas para os programas de bolsa-esmola que mantém cativa sua base eleitoral entre os trabalhadores mais pobres.

O governo Lula não pratica um privatismo escancarado, que provocaria resistência popular, mas ao mesmo tempo não deixa de entregar as riquezas nacionais à burguesia. Abre-se o controle de empresas como o Banco do Brasil e a Petrobrás ao capital privado (inclusive estrangeiro), mas mantém-se um razoável nível de controle pela burocracia estatal. O caso do pré-sal é exemplar, pois um acordo em que a exploração do petróleo será feita por empresas privadas, inclusive estrangeiras, foi apresentado mentirosamente como tendo um caráter estatista e garantidor da soberania nacional. Para tornar palatável essa mentira, a Petrobrás terá um orçamento de R$ 250 milhões para publicidade em 2010 (Redação Terra, 31/10/2009).

A propaganda é a alma do negócio. A escolha do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016 sinaliza o reconhecimento da burguesia internacional ao papel do governo Lula como exemplo mundial de governo capaz de controlar os conflitos sociais e impedir o desenvolvimento de lutas dos trabalhadores, um exemplo a ser exportado para os demais países periféricos. O candidato à presidência do Uruguai pela Frente Ampla, José “Pepe” Mujica assim explica a importância do supremo mandatário brasileiro no cenário internacional: “Lula é um senhor presidente, com um grande número do parlamento que vota contra, e mesmo assim logra manejar um país com as dimensões do Brasil, com os problemas que tem. E por que ele consegue isso? Porque negocia, negocia e negocia, tem a paciência de um velho dirigente sindical. E esse é o espírito que devemos ter nesse tema. Aliás, aqui entre nós, deveríamos clonar o Lula pela América Latina” (entrevista para a revista Teoria e Debate – 21/10/2009).

Do Haiti a Honduras, o governo Lula exporta “know-how” em mistificação ideológica, com um discurso que aparenta ser de esquerda e práticas consistentemente de direita, sobretudo no que se refere a impedir o desenvolvimento de uma perspectiva política autônoma dos trabalhadores e na duríssima repressão sobre os setores em luta (operativo policial de guerra nas favelas, morte aos sem-terra no campo, endurecimento contra as greves, etc.).

A situação da classe trabalhadora

Também no Brasil o Estado foi usado para salvar o capital em crise e a conta está sendo passada para os trabalhadores. As políticas de ajuda do governo às grandes empresas, que totalizaram mais de R$ 480 bilhões, permitiram um aquecimento artificial do consumo (automóveis, eletrodomésticos da linha branca, materiais de construção): “Pesquisa do Instituto Datafolha divulgada na edição da Folha de S. Paulo neste domingo mostra que (...) o percentual dos entrevistados que possuem carro passou de 34% para 36%, assim como o percentual de donos de máquina de lavar subiu de 59% para 65%. (...) A classe que mais cresceu foi a B (média-alta), de 23% para 26%”(Redação Terra 01/11/2009).

Também no Brasil a ajuda às grandes empresas provocou aumento do endividamento público: “O setor público consolidado brasileiro registrou déficit primário de R$ 5,763 bilhões em setembro, pior resultado para o mês da série histórica iniciada em 2001. Em setembro de 2008, o resultado primário havia sido superavitário em R$ 6,618 bilhões. (...) A relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB), como conseqüência, teve alta expressiva no mês e alcançou 44,9% do Produto Interno Bruto (PIB), frente a 44% do PIB em agosto, mostraram os dados divulgados pelo Banco Central ”(Reuters News 30/10/2009).

A economia pode crescer, as empresas podem lucrar e as bolsas de valores podem ter alta, sem que haja diminuição do desemprego e melhoria dos salários. Além de contar com apoio estatal, a burguesia brasileira também realizou ajustes estruturais nas empresas sob seu controle, impondo o aumento da exploração através da intensificação do trabalho.

Entretanto, o proletariado brasileiro não foi um coadjuvante passivo na encenação dessa pseudo-recuperação econômica. Houve lutas importantes em 2009, como a greve geral da USP e as campanhas salariais dos correios, metalúrgicos e bancários no 2º semestre, que lutaram contra esse aumento da exploração. Essas lutas de resistência não foram porém suficientes para romper o controle da situação política pela burguesia e pelo governo Lula.

Um componente essencial do método lulista de governar está no controle férreo dos principais organismos de luta dos trabalhadores (CUT, MST, UNE, etc.) pela Articulação/PT e seus satélites, que tem sido essencial para impedir que as greves como as que irromperam em 2009 desenvolvessem todo seu potencial de enfrentamento, permanecendo isoladas umas das outras e sem poder de atração sobre o restante da classe. O controle burocrático da Articulação e a maquinaria ideológica do governo Lula são alguns dos obstáculos a serem superados no atual processo de Reorganização da classe, processo que tem tido seu eixo nos debates em torno da fusão entre Conlutas (central em que o PSTU detém a maioria) e Intersindical (controlada por setores do PSOL), agrupando também outras correntes, e que avançou no Seminário Nacional realizado em 1 e 2 de novembro em São Paulo. Mais do que nunca se faz urgente a construção de uma alternativa organizativa com um perfil ideológico classista, socialista e capaz de romper com os vícios e métodos de funcionamento que têm entravado as lutas da classe no último período, e que a própria esquerda têm reproduzido.

Daniel M. Delfino
Novembro 2009